Qual o jogo por trás das bets?
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Conversas

Rafael Zanatta: "O que era problemático nas redes agora migra para a economia das apostas"

Codiretor da Data Privacy Brasil discute a “Copa das Bets”, a plataformização do vício e por que o tema deve ser tratado como questão de direitos digitais e saúde

Ana Elisa Faria 05 de Julho de 2026

Rafael Zanatta: “O que era problemático nas redes agora migra para a economia das apostas”

Ana Elisa Faria 05 de Julho de 2026
Foto: Divulgação

Codiretor da Data Privacy Brasil discute a “Copa das Bets”, a plataformização do vício e por que o tema deve ser tratado como questão de direitos digitais e saúde

Nos últimos anos, ficou difícil, para não dizer impossível, assistir a uma partida de futebol sem esbarrar em alguma publicidade de apostas. Elas estão nas transmissões, estampadas nas camisas dos atletas, nos intervalos comerciais, em vídeos que circulam nas redes sociais — e, cada vez mais, na própria forma como o esporte é consumido. Na Copa do Mundo de 2026, apelidada por críticos Brasil afora de “Copa das Bets”, essa presença ganhou ainda mais visibilidade com milhares de pessoas acompanhando os jogos de 48 seleções pela TV e, sobretudo, pelo streaming.

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Desde o início do Mundial deste ano, no dia 11 de junho, o assunto se tornou um dos principais debates da competição, colocando em pauta que tipo de relação está sendo construída entre o futebol, torcedores e as bets.

Para Rafael Zanatta, codiretor da Data Privacy Brasil, organização que se dedica à produção de conhecimento voltado à construção de um ecossistema informacional justo, o fenômeno não pode ser lido apenas como uma questão de escolha individual. Pesquisador de direitos digitais e proteção coletiva de dados, e mestre em direito e economia política, ele enxerga nas bets uma engrenagem mais ampla da economia digital: sistemas desenhados para capturar atenção, estimular repetição, perfilar usuários e transformar comportamentos de risco em receita recorrente e bilionária.

“Plataformização do vício” é como Zanatta chama esse processo. A expressão aproxima as apostas esportivas de outros ambientes digitais organizados por retenção, predição e design persuasivo, do Instagram às plataformas de predição, como as plataformas norte-americanas Kalshi e a Polymarket. Em entrevista a Gama, o especialista afirma que o ponto central é que a aposta já não depende apenas do desejo do apostador. Ela passa por arquiteturas digitais capazes de induzir comportamentos, reduzir fricções e explorar vulnerabilidades.

A visibilidade da Copa, segundo Zanatta, tornou mais evidente uma fronteira que vinha sendo borrada, a que separa publicidade, experiência esportiva e estímulo ao consumo de risco, inclusive em ambientes amplamente acessados por crianças e adolescentes.

A preocupação, no entanto, não se limita à propaganda. Ao longo da conversa, ele também relaciona esse avanço a uma série de elementos: o endividamento, a ludopatia — transtorno de compulsão por jogos de azar —, os impactos sobre as famílias, a erosão da economia popular e o aumento da pressão sobre a saúde pública. Também discute o papel dos dados pessoais, do perfilamento e de designs manipulativos em plataformas que aprendem com o comportamento dos usuários. E que podem, a partir disso, predizer quem está mais vulnerável a continuar apostando.

Para enfrentar esse fenômenos, Zanatta defende no papo com Gama uma coalizão entre diferentes áreas. Não se trata só de debater se a publicidade deve ser mais restrita, como ocorreu com o tabaco e o álcool décadas atrás, mas de entender como é possível uma economia inteira se organizar em torno da atenção, da recorrência e do risco. “A sociedade precisa discutir se não houve uma negligência coletiva sobre as bets.”

  • G |A Data Privacy Brasil usa a expressão “plataformização do vício” para falar de bets e outros mercados digitais de risco. Qual é o significado desse conceito?

    Rafael Zanatta |

    Essa é uma temática que discuto há bastante tempo com o professor Ricardo Abramovay — orientador do meu doutorado —, que começou a escrever sobre economia do vício por volta de 2017, 2018, e a gente trabalhou academicamente esse tema antes mesmo de ele entrar no escopo da Data Privacy Brasil. O professor identificou que a transformação digital e a plataformização produzem uma economia específica, fundada em uma ciência comportamental, psicológica, basicamente behaviorista, inspirada em estudos sobre comportamento repetitivo, prazer e adicção. Existe uma ciência voltada a organizar a retenção da atenção e a maximizar o tempo de permanência do usuário nas plataformas. É a captologia [estudo de tecnologias projetadas para persuadir e mudar comportamentos ou hábitos dos usuários], disciplina oferecida pela Universidade Stanford que foi cursada por ex-funcionários da Meta e do Google. É isso que o Abramovay chama de economia do vício. Esse debate me influenciou a levar o tema para a Data Privacy, porque a nossa agenda trata de direitos digitais e da defesa de um ecossistema informacional justo.

  • G |Por que a plataformização do vício é também um problema de direitos digitais?

    RZ |

    Os ecossistemas informacionais e as arquiteturas digitais fazem parte da nossa vida social, econômica e cívica. Por isso, os elementos de justiça também aparecem aí. Um design pode ser injusto ou ilícito; a arquitetura que modula nosso comportamento pode produzir consequências detrimentais para valores como autonomia e dignidade. A plataformização do vício não é um fenômeno novo ou restrito às bets, é um processo estrutural, de décadas, ligado ao modelo mais amplo da economia digital. Instagram, YouTube, bets e plataformas de mercados de predição operam com designs voltados à retenção da atenção e à repetição cotidiana de comportamentos, nesse jogo entre design e corpo humano, com pequenas doses de prazer, liberação química e produção de dopamina.

  • G |Como entram os dados pessoais e o perfilamento nessa economia do vício?

    RZ |

    A utilização de dados pessoais é central nessa economia, porque permite induzir comportamentos a partir do encaixe de cada pessoa em um grupo social abstrato. É o que chamamos de perfilamento. A partir de sinais sobre preferências, classe social, dinâmica de trabalho ou hábitos cotidianos, é possível observar empiricamente milhões de usuários com perfis semelhantes e predizer comportamentos. Esse é o modo de organização da economia digital. A estrutura da economia do vício é constitutiva da plataformização. Por isso, no projeto de pesquisa da Data Privacy Brasil sobre a plataformização do vício, a gente estuda escolhas de design e a fronteira entre o lícito e o ilícito nesses desenhos de arquiteturas digitais. Há uma linha de continuidade entre o que já era problemático nas redes sociais e o que agora migra para a economia das apostas. Tudo está conectado pelo eixo do vício.

Tudo está conectado pelo eixo do vício

  • G |Quais são as diferenças entre as bets e as plataformas de predição — essas em que é possível apostar sobre qualquer assunto, de BBB e finais de novelas a resultados de eleições —, como Kalshi e Polymarket?

    RZ |

    As bets são apostas de cota fixa. É como se houvesse um balcão de venda de apostas, semelhante ao modelo clássico de aposta em cavalos ou outros eventos. A empresa intermediadora define um preço, organiza a aposta, estabelece o valor de pagamento e cobra uma taxa de intermediação sobre as transações. Em geral, essas apostas de cota fixa se dão majoritariamente em eventos esportivos, com apostas predefinidas a partir de elementos do próprio esporte: quem vai vencer, quantos gols serão marcados, quem vai marcar. A Kalshi e a Polymarket radicalizam esse mercado porque tentam se posicionar como se não fossem apostas de cota fixa, mas um novo tipo de ativo financeiro ou de investimento em evento futuro. Esse argumento não me convence. Elas estão muito próximas do mesmo tipo de economia e poderiam ser enquadradas como apostas de cota fixa, porque também fazem intermediação e cobram taxas sobre os ganhos.

  • G |O que essas plataformas de predição tentam apresentar como diferente?

    RZ |

    A diferença que elas alegam é que não criam o evento nem o preço: dizem que isso surge das transações entre usuários, como em uma bolsa de valores. Nas bets, a empresa cria a aposta sobre um jogo; nessas plataformas, o usuário poderia criar um evento como “vai chover no Paraguai amanhã”, e se forma um mercado de sim ou não em torno disso, com contratos contingenciais. O problema é que essas plataformas inventam uma financeirização sobre qualquer evento, mesmo sem acoplamento com a economia real. É diferente do agronegócio, por exemplo, em que eventos futuros, como condições climáticas, afetam concretamente a produção e o preço de produtos. Ali há uma relação entre finança e economia real. No caso da Kalshi e da Polymarket, pode ser qualquer fenômeno político ou mundano. No Brasil, há uma disputa importante sobre a competência regulatória: elas querem tratar esses ativos como uma nova modalidade financeira, próxima de uma bolsa de valores; o governo federal tende a ver isso como algo muito próximo das apostas.

  • G |A Copa do Mundo 2026 tem sido chamada de “Copa das Bets”. Como você vê esse fenômeno, que não é novo, mas ganhou outras camadas pela visibilidade do evento?

    RZ |

    Nas últimas semanas, houve uma percepção de que uma fronteira foi cruzada. A Copa deu uma visibilidade imensa a algo que já vinha acontecendo: a presença das bets no futebol, nas transmissões e na experiência de torcer. Houve um levante difuso nas redes sociais, um incômodo com o modo como o incentivo ao jogo passou a se misturar ao entretenimento esportivo. Esse debate é também uma discussão sobre moralidade dos mercados. O que é correto, do ponto de vista moral, quando um negócio ganha dinheiro com bets e, ao mesmo tempo, incentiva as pessoas a jogar, misturando narração, evento esportivo e apostas? A Copa não criou esse fenômeno, mas tornou muito mais evidente a escala dessa presença e o quanto ela passou a fazer parte do ambiente midiático do esporte.

  • G |O Ministério da Fazenda abriu um processo administrativo contra bets que anunciaram na CazéTV durante jogos da seleção brasileira neste Mundial. Esse caso ajuda a mostrar quais os limites entre entretenimento, publicidade e indução ao consumo de risco?

    RZ |

    A questão com a CazéTV trouxe uma discussão jurídica importante sobre a Lei das Bets. Os artigos 28 e 29 da Lei 14.790/2023 dizem que a publicidade deve ser regulada pelo Ministério da Fazenda e precisa circular com avisos de desestímulo ao jogo, advertência de malefícios e ações informativas de prevenção. E, em hipótese alguma, pode chegar a crianças e adolescentes. No entanto, quando há um streaming alcançando dezenas de milhões de pessoas, e o Brasil tem 25 milhões de crianças e adolescentes que usam a internet [segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil], é evidente que uma parte desse público será afetada por aquela publicidade. Para mim, isso gera um curto-circuito com o ECA Digital. A CazéTV deveria separar melhor o que é conteúdo para crianças e adolescentes, mas está tudo misturado. Há ainda outro ponto: a lei veda afirmações infundadas sobre probabilidade de ganhar. Você não pode induzir uma pessoa, de forma infundada, à ideia de que ela tem chance de ganho. Isso se soma à responsabilidade editorial de não produzir indução ao jogo e de ser mais vocal sobre o vício e os efeitos detrimentais que podem decorrer das apostas. Hoje, a menção de que o conteúdo é apenas para maiores de 18 anos aparece de forma muito rápida e minimalista. A discussão se aproxima do que ocorreu com o tabaco e o álcool: setores em que a publicidade precisou ser regulada para evidenciar riscos e mitigar danos.

Bets são, de fato, um assunto de saúde pública

  • G |Como o Executivo tem reagido a esse debate?

    RZ |

    No Executivo, há uma movimentação entre o Ministério da Fazenda e a Secretaria Nacional de Direitos Digitais em torno de um acordo de cooperação técnica sobre dark patterns, ou padrões manipulativos de design. A ideia é discutir publicidade responsável, transparência das plataformas e recomendações para combater o design manipulativo em jogos. Isso mira claramente jogos como o “tigrinho”, em que o design usa luzes coloridas, botões grandes, pouca fricção e forte indução ao vício, inclusive para idosos. O caminho provável é recomendar formas de instituir fricção e tornar o design menos manipulativo. Para a Data Privacy, esse é um ponto central de pesquisa: acompanhamos o Legislativo, mas nosso interesse principal está nessa movimentação do Executivo, porque ela mira o design.

  • G |E quais caminhos aparecem hoje no Legislativo?

    RZ |

    No Legislativo, há muitos projetos em discussão, especialmente sobre publicidade, patrocínio e presença das bets em TVs, sites, uniformes de times e estádios. Muitos parlamentares querem reduzir o domínio das bets no esporte, mas isso deve gerar uma disputa grande com confederações e clubes, que já estão entrincheirados nesse dinheiro. Também aparecem propostas sobre autoexclusão, bloqueio de marketing, alertas obrigatórios de vício e vedação de expressões como “jogue e faça renda extra”, “lucro certo”, “grupo VIP” ou “recupere suas perdas”. Essas expressões são problemáticas porque induzem uma expectativa ilícita de ganho. O Legislativo pode disputar as regras do jogo, mas não acho que esse processo será rápido.

  • G |Você defende que a sociedade discuta se a publicidade de bets deveria seguir restrições semelhantes às do cigarro ou às das bebidas alcoólicas. O que aproxima esses mercados?

    RZ |

    Nós da Data Privacy somos signatários da campanha Brasil Contra Bets, que reúne ativistas e entidades, como a ACT e o Idec, com tradição em pesquisa em saúde pública. Tudo o que recebi e li dessas entidades nos últimos meses ajudou a Data Privacy a se posicionar: bets são, de fato, um assunto de saúde pública. A dimensão dos danos já é notória e tende a ficar ainda mais explícita. Também há um problema de estruturação das famílias. Em comunidades, relatos de pessoas que perdem móveis, fazem dívidas, pegam dinheiro emprestado e destroem relações familiares mostram que a questão é grave. Dada essa gravidade, a sociedade precisa discutir se não houve uma negligência coletiva sobre as bets. Todo mundo achou bom enquanto havia dinheiro circulando, mas agora estamos colhendo os danos. Tabaco e álcool oferecem exemplos de mitigação de danos e enfrentamento de grandes indústrias difíceis de erradicar. Acho que as bets se aproximam disso.

  • G |Como elaborar uma política pública realmente robusta para enfrentar a plataformização do vício?

    RZ |

    Acho que isso já está acontecendo. Não é algo que ainda precisa começar, mas há uma interconexão de campos disciplinares em curso. A saúde pública está dialogando com direitos digitais, pensando design e uso da informação, e também com o Executivo, forçando uma visão mais holística, que não fique restrita à Secretaria de Prêmios e Apostas. Esse diálogo pode envolver o sistema de saúde pública, a Fiocruz, o Ministério da Saúde e entidades de pesquisa. O quebra-cabeça ainda está um pouco esparramado, mas as peças se encaixam. Não dá para resolver o problema como se fosse só uma questão de Fazenda, só de saúde pública ou só de direitos digitais.

  • G |Por que essa agenda exige uma coalizão entre diferentes áreas?

    RZ |

    O problema é complexo justamente pela interdependência das partes. É o design que produz a maximização da atenção; essa maximização produz ludopatia e vício; a ludopatia e o vício produzem um problema de saúde pública; e esse problema se liga à erosão da economia popular, tornando-se também um problema econômico. Há um espírito de coalizão que precisa ser construído, como ocorreu em outras agendas públicas. Nos últimos meses, várias iniciativas começaram em unidades governamentais, centros de pesquisa e entidades civis. A campanha contra as bets reúne defesa do consumidor, direitos digitais e saúde pública. Esse levante popular e a preocupação coletiva abrem uma janela de oportunidade para formular políticas públicas.

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