Qual o jogo por trás das bets?
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Ilustração de Isabela Durão

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Depoimento

Juliana Prates: "Meu irmão acumulou uma dívida de mais de R$ 1,5 milhão"

Após perder o irmão para o vício em apostas, advogada e auditora do TCE-BA vem lutando contra o avanço das bets no Brasil

Amauri Terto 05 de Julho de 2026

Juliana Prates: “Meu irmão acumulou uma dívida de mais de R$ 1,5 milhão”

Amauri Terto 05 de Julho de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Após perder o irmão para o vício em apostas, advogada e auditora do TCE-BA vem lutando contra o avanço das bets no Brasil

Juliana Prates transformou o luto em causa pública. Em dezembro do ano passado, a advogada e auditora do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA) perdeu o irmão, o também auditor Otacílio Prates, vítima do vício em apostas online desde 2023. “Ele dizia que estava fazendo investimentos arriscados em day trade e que havia gasto dinheiro em criptomoedas”, conta a Gama. Juliana só descobriu a gravidade do quadro horas antes da tragédia, ao acessar o celular do irmão em busca de pistas de seu paradeiro e encontrar um histórico de plataformas de apostas.

Depois que o irmão tirou a própria vida, Juliana publicou um alerta em suas redes sociais que viralizou. A partir de então, ela passou a receber mensagens de famílias que contam histórias parecidas com a sua, sobre perdas de filhos, cônjuges e outros parentes para o mesmo vício, conhecido como ludopatia, ou jogo patológico. Em pouco tempo, contabilizou 25 mortes por suicídio ligadas a jogos online. “Percebi que era um problema público gravíssimo, mas que ainda carrega um estigma de que ‘só quem é pobre joga no tigrinho'”, afirma.

O luto também redirecionou sua vida acadêmica. Antes, ela pesquisava questões em torno do Pix em seu mestrado e passou a abordar o mercado de apostas. Hoje, usa as redes sociais para conscientizar famílias sobre os riscos das bets. Paralelamente, vem movendo ações judiciais contra o setor. E já conseguiu suspender contratos que usavam dinheiro público para promover apostas na Bahia. “Precisamos que a sociedade aja”, defende.

Na quinta-feira (2/7), a auditora participou de uma audiência no Senado para debater os impactos sociais, econômicos e de saúde pública causados pelas apostas. “As famílias estão adoecendo, se endividando e tem muita gente morrendo. E não morrendo só porque estão se suicidando, mas porque existe uma violência no entorno de quem aposta também”, declarou durante sua fala na ocasião.

A seguir, você lê o depoimento de Juliana, abordando desde a noite em que percebeu onde encontraria o irmão até os bastidores da atuação jurídica e digital que hoje trava contra as bets no Brasil. “Cada família que eu conscientizo é uma luz que eu envio para o meu irmão”, diz.

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“Se eu pudesse voltar atrás, hoje saberia identificar que ele estava viciado em jogos eletrônicos. As características são claras quando você começa a conversar com os ludopatas, mas, infelizmente, nós não imaginávamos. Meu irmão dizia que estava fazendo investimentos arriscados em day trade e que havia gasto dinheiro em criptomoedas com um grupo de amigos, justificando assim a perda de dinheiro. O susto real veio quando ele sumiu repentinamente e minha mãe me pediu para procurá-lo.

Fui à casa dos meus pais e encontrei uma carta. Nela, ele escrevia que tinha perdido todo o sentido da vida, que tinha gastado todo o seu salário e que, mais uma vez, nos decepcionava. Ele dizia que nossa família tinha tentado fazer de tudo por ele, mas que não fazia mais sentido estar aqui. Ressaltou o quanto amava a filha e deixou as senhas do celular e dos bancos. O aparelho celular dele estava ali na casa dos meus pais, ligado na tomada, mas ele não estava no apartamento.

Desesperada para localizá-lo, coloquei a senha no celular para ver se ele havia chamado um Uber ou com quem tinha conversado nas últimas horas. Quando abri o aparelho, vi um monte de plataformas de apostas abertas, dessas que hoje são legalizadas, e diversos grupos no Telegram discutindo sobre jogos, onde era melhor apostar ou onde tinham sido banidos. Fiquei completamente assustada. Entrei na conta bancária dele e vi várias transferências e recebimentos com a descrição ‘gaming‘. Chamei meu marido na hora e perguntei se ele sabia o que era aquilo. Ele respondeu de imediato: ‘Isso tá com cara de ser aposta’. Fomos checar no Google e confirmamos: as transações eram para casas de apostas.

Fomos procurá-lo em um outro apartamento que ele tinha em Salvador, mas não o encontramos. No caminho de volta, meu marido sugeriu retornarmos ao prédio dos meus pais. Durante o trajeto, ele perguntou se o prédio tinha algum terraço. Nós moramos naquele apartamento a vida inteira; fomos para lá quando eu tinha dez anos e ele tinha oito, e moramos ali até casar. Era no 14º andar. Naquela hora a ficha caiu. Eu disse: ‘Achei meu irmão. Já sei onde o Tacílio está’.

Quando chegamos ao prédio, informei à minha irmã e fomos direto para o 14º andar. Ao chegarmos nas portas corta-fogo do corredor, meu marido abriu e o encontrou. Ele estava lá, enforcado em um gradil. O grito do meu marido acordou o prédio inteiro. Tive a dura missão de ligar para os meus pais, que estavam em Minas Gerais, para dar a notícia.

Encontrei uma carta. Nela, ele escrevia que tinha perdido todo o sentido da vida, que tinha gastado todo o seu salário e que, mais uma vez, nos decepcionava

Foi um evento trágico que me deixou profundamente chocada e indignada. Eu sou advogada, auditora de controle externo de Tribunal de Contas — assim como meu irmão também era — e mestranda em políticas públicas. Nossa família sempre buscou ser esclarecida e informada. Na época, inclusive, eu já vinha estudando o fenômeno da entrada das apostas no Brasil. Não conseguia entender como havíamos acabado de abrir as portas para esse mercado e meu irmão já estava morto por causa disso. Como nós não sabíamos nada sobre isso? Eu sequer sabia que o transtorno de vício em jogos se chamava ludopatia.

No dia seguinte, enquanto resolvia as burocracias de funerária e do IML aos prantos, eu me perguntava: ‘Como isso aconteceu? Será que está acontecendo com outras pessoas?’. Perguntei aos meus pais e à companheira dele se eu poderia tornar a história pública, porque aquilo era muito alarmante. Antes de falecer, meu irmão pediu dinheiro para quase toda a agenda de seu celular. Amigos de infância, colegas de trabalho e até terceirizados receberam pedidos. Ele sempre foi a pessoa mais organizada financeiramente, a quem nós mesmos pedíamos dinheiro emprestado quando precisávamos. Era chocante vê-lo pedindo valores baixos, como R$ 50 ou R$ 150. Parecia o comportamento de quem usa drogas muito pesadas. As pessoas achavam estranho, e hoje percebo que, no vício, a pessoa joga qualquer coisa, até R$ 10, apenas para se manter jogando. Ele fez tudo isso e, no fim, tirou a própria vida.

Após o enterro, fiz um alerta nas minhas redes sociais que viralizou. Enquanto tentava processar o choque — passei quase três dias sem conseguir dormir —, meu celular foi inundado por mensagens. Pessoas relatavam: ‘Perdi meu filho’, ‘perdi meu marido’, ‘perdi meu irmão’, ‘o porteiro do meu prédio se matou’. Como sempre trabalhei com evidências, comecei a compilar esses dados e interagir via direct para entender a vida daquelas famílias. Rapidamente, contabilizei 25 suicídios relatados. Nunca vi nada penetrar no nosso país de forma tão letal em tão pouco tempo, nem álcool ou drogas. Percebi que era um problema público gravíssimo, mas que ainda carrega um estigma de que ‘só quem é pobre joga no tigrinho’. Ainda é muito subnotificado. No caso do meu irmão, quando o delegado perguntou o motivo, eu disse que ele tratava depressão e um problema de saúde mental, sem citar o vício em jogo.

Nunca vi nada penetrar no nosso país de forma tão letal em tão pouco tempo, nem álcool ou drogas

Estávamos no meio da campanha Janeiro Branco, voltada à saúde mental, enquanto a sociedade normalizava uma atividade dopaminérgica destrutiva. Olhando para o meu filho de 15 anos, fiquei angustiada com a geração que crescerá sob essa normalização. A propaganda corre solta na TV aberta, impulsionada por influenciadores de grande magnitude, enquanto propagandas de brinquedos infantis são proibidas. Decidi transformar essa dor em política pública e troca de conscientização. Mudei minha dissertação do mestrado sobre Pix para focar nas apostas e transformei meus estudos em conteúdo para a internet.

Criei o lema ‘Diga não às bets’, inspirado no movimento contra as drogas, pois o impacto comportamental é idêntico. As plataformas mascaram o risco com mensagens de ‘Jogue com responsabilidade’, transferindo a culpa para o indivíduo. Porém, a engrenagem é desenhada para capturar e viciar quem está lá; não existe liberdade individual nesse nível de manipulação, onde a indústria lucra exclusivamente com o comportamento persistente e contínuo do apostador. Meu irmão perdeu R$ 109 mil, acumulando uma dívida de mais de R$ 1,5 milhão. Como essas plataformas não identificaram que ele não era um jogador responsável e o bloquearam, como fazem os países desenvolvidos?

Vivemos um verdadeiro extrativismo digital. São mais de 120 empresas legalizadas que levam a riqueza da nossa população para fora, repetindo a lógica da coroa portuguesa que saqueava nosso ouro. Dinheiro de pessoas vulneráveis, incluindo 30% da renda do Bolsa Família, vai direto para as apostas. E o Estado é conivente. A Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) funciona como uma mera perfumaria que falha em fiscalizar, permitindo que a CazéTV, por exemplo, ofereça apostas mundialmente de forma banalizada. Fomos ver placas de bets no evento cultural do Senhor do Bonfim e nos ônibus. Como podemos promover isso misturado a festas públicas e crianças?

A administração pública parece não estar preparada para lidar com a gravidade dessa epidemia de ludopatia. Denunciamos a Blaze no CONAR (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) quando o Neymar divulgou a plataforma, mas nossos alertas, vindos de canais menores, foram ignorados. Na academia, pesquisadores desistem de escrever sobre as bets porque os trabalhos não são aceitos para publicação; as empresas criaram uma forte máquina de proteção e normalização. Essa campanha recente contra o ‘tigrinho’ é legal, mas desfocada, pois dentro das gigantes como Betano também estão hospedados os jogos do tigre e cassinos virtuais. É tudo a mesma coisa.

Teve um dia que eu acordei e tinha mais de cem pedidos de ajuda. Ou cuidamos do nosso país, ou nos tornaremos figurantes de um cenário de filme de zumbis

Eu me recusei a ficar esperando que o Congresso Nacional resolvesse tudo sozinho. Nós já temos legislação e políticas públicas suficientes. O Supremo Tribunal Federal, por exemplo, tem duas ações de inconstitucionalidade analisando restrições a essa indústria. O artigo 5º da Lei das Bets já permite que o presidente tenha o poder discricionário de acabar com essas autorizações. A partir desse entendimento jurídico, entrei com uma ação popular e consegui barrar um edital da Bahia e contratos da prefeitura de Salvador — que descobri serem absurdamente sigilosos — impedindo o uso de dinheiro público para promover bets no São João. Dinheiro público não pode ser incentivador dessa indústria.

Precisamos que a sociedade aja. Os políticos têm medo das redes sociais, e essa pressão funciona. Temos que formar uma bancada anti-bet urgente. Você pode ajudar trazendo o tema para o almoço em família de domingo e mostrando para os mais jovens que isso não é normal. Além disso, precisamos parar de julgar os jogadores como pessoas fracas ou sem caráter, e começar a acolhê-los adequadamente frente a esse sistema poderoso desenhado para destruí-los. Teve um dia que eu acordei e tinha mais de 100 pedidos de ajuda, famílias implorando por socorro que o Estado não entrega. Ou cuidamos do nosso país, ou nos tornaremos figurantes de um cenário de filme de zumbis.

Toda essa minha luta começou na dor. Sinto uma saudade imensa do meu irmão; trabalhávamos perto um do outro, almoçávamos juntos todos os dias. Até hoje tenho dificuldade de caminhar até o lado do escritório onde ele ficava. O suicídio é uma morte permeada por um desespero indescritível. Mas a espiritualidade é muito forte em mim e recebo confirmações constantes de que estou no caminho certo. Acredito, do fundo do coração, que cada pessoa que eu ajudo a sair desse abismo, cada família que eu conscientizo, é uma luz que eu envio para o meu irmão. Se esse é o meu caminho, eu vou segui-lo. Diga não às bets.”

Se você está passando por dificuldades psicológicas pode buscar ajuda gratuitamente no CVV pelo telefone 188. A organização fornece apoio emocional e de prevenção ao suicídio, atendendo 24 horas por dia todos os dias da semana.

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