Os homens estão perdidos?
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Conversas

Pedro Ambra: "Existe a masculinidade hegemônica, mas as formas de vivê-la podem ser muito diferentes"

Da crise da meia-idade ao papel de provedor, psicanalista aponta como visão nostálgica sobre masculinidade empurra homens a dívidas e trabalhos exploratórios

Leonardo Neiva 21 de Junho de 2026

Pedro Ambra: “Existe a masculinidade hegemônica, mas as formas de vivê-la podem ser muito diferentes”

Leonardo Neiva 21 de Junho de 2026
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Da crise da meia-idade ao papel de provedor, psicanalista aponta como visão nostálgica sobre masculinidade empurra homens a dívidas e trabalhos exploratórios

Sabe aquele estereótipo do homem que, ao chegar numa certa idade, decide trocar de parceira, compra uma moto e parece querer transformar completamente sua identidade? A imagem representa o período conhecido como a crise da meia-idade, uma certa turbulência vivida por boa parte das pessoas entre os 40 e os 60 anos de idade — e que, embora possa atingir a todos, culturalmente está mais associada aos homens. Embora não comprovado pela ciência, especialistas apontam que esse momento mais vulnerável e de profunda transformação costuma ser causado pela percepção de objetivos de vida que não foram alcançados e por uma certa pressão econômica que começa a se intensificar.

O ponto mais triste ou de menor satisfação na vida do ser humano reside justamente entre os 47 e os 48 anos, segundo um estudo global conduzido pelo economista norte-americano David Blanchflower, professor da faculdade Dartmouth. Hoje, pessoas nessa faixa etária enfrentam desafios bastante específicos como o etarismo no mercado de trabalho, que torna mais difícil encontrar emprego na comparação com indivíduos mais jovens. É também um período marcado por mudanças radicais no status de relacionamento: a idade média para o divórcio no Brasil é de 44,5 anos para os homens e 41,6 para as mulheres, segundo o IBGE.

“Nas sociedades do início do século 20, prometiam para os homens que esse seria um momento de realização. Você teria um trabalho, um relacionamento estável, um filho, uma boa condição financeira, um ou mais imóveis”, destaca o psicanalista Pedro Ambra, professor de psicologia da PUC-SP e da pós-graduação em psicologia social da USP. Mas não é bem a realidade que muitos homens encontram — e esse horizonte parece ainda mais distante para as gerações mais jovens. “Isso é impensável hoje. A geração Z olha para os boomers e diz: vocês conseguiam comprar uma casa antes dos 30, algo virtualmente impossível agora para quem é da classe trabalhadora.”

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Autor de livros como “O Que É um Homem?: Psicanálise e história da masculinidade no Ocidente” (Zagodoni, 2022) e “Cartografias da Masculinidade” (Cult, 2021), Ambra é hoje um dos principais pesquisadores no Brasil sobre sexualidade, gênero e a trajetória da masculinidade ao longo da história. Em entrevista a Gama, ele aponta que movimentos que hoje pregam o fortalecimento masculino são muito marcados por um sentimento de nostalgia, a sensação de que o homem “deixou de ser homem” por conta de avanços nos direitos das mulheres. Por isso, afirma, muitos acreditam que deveriam buscar um modo de viver semelhante ao dos nossos pais e avós, que supostamente exalavam uma virilidade mais potente e violenta.

Para muita gente, uma só pessoa do casal não consegue prover para toda a família. É um barril de pólvora prometer essas coisas como se dependesse da vontade individual dos homens

“A gente está vivendo um momento histórico em que o futuro deixa de orientar o presente. O nosso futuro é a catástrofe climática, não serve mais como baliza”, considera Ambra. “E uma das saídas é buscar refúgio não no futuro, mas no passado. Daí vêm as tradwifes [mulheres que optam por viver papéis ultratradicionais de gênero, como cuidar exclusivamente da casa, dos filhos e do marido] e outros signos da tentativa de voltar para o que supostamente estava melhor antes.”

Mas esses lugares de gênero vendidos de forma ideológica por movimentos de extrema direita, a exemplo da noção do homem como único provedor, se chocam com um processo de intensa precarização do trabalho. “Para muita gente, uma só pessoa do casal não consegue prover para toda a família. É um barril de pólvora prometer essas coisas como se dependesse da vontade individual dos homens”, diz o pesquisador. Segundo ele, a tendência contribui inclusive para que muitos se afundem cada vez mais em dívidas, bets e numa rotina de trabalho de hiperexploração.

Na conversa com Gama, o psicanalista aborda o lugar contraditório dos privilégios de gênero no mundo atual, a relutância dos homens em buscar apoio psicológico e como o ressentimento tipicamente masculino muitas vezes encontra resposta na violência.

  • G |Fala-se muito sobre uma sensação de perda de poder e privilégios dos homens gerando fenômenos como red pills e os influencers masculinistas. Existe aí uma dificuldade do homem de encontrar seu lugar no mundo contemporâneo?

    Pedro Ambra |

    Essa estrutura narrativa e psíquica da vida cotidiana, que diz que os homens estariam perdendo seu lugar de reconhecimento, sua relação com a virilidade, é moderna, no sentido de que ela já tem alguns séculos. Estamos vendo uma versão dela específica do momento contemporâneo de neoliberalismo e de retorno dos fascismos. No entanto, a cada crise ao longo dos últimos séculos no Ocidente, coisas dessa natureza aparecem. A masculinidade se vê ameaçada, tolhida de uma espécie de violência, de potência que existia no passado. Antigamente, o homem sabia ser homem. Esse é um ponto de continuidade da masculinidade, no mínimo, há quatro séculos. Por mais que homens partilhem de um lugar de privilégio, não quer dizer que, individualmente, tenham essa vivência de privilégio absoluto. A esmagadora maioria dos homens do Brasil está afundada em dívidas de bets, tigrinhos e afins. Então, há uma situação paradoxal: um grupo social com muitas vantagens e privilégios comparado ao outro, mas com uma vulnerabilidade. É também o grupo que mais promove violências, mesmo que se acredite tolhido dela pelos direitos humanos, pelas mulheres, por um suposto globalismo. E essa é parte do problema: por mais que a masculinidade seja hegemônica, que o patriarcado exista, ainda que com roupagem contemporânea, não quer dizer que a maioria dos homens gozem desses privilégios estruturais.

  • G |Parece que o homem tem mais dificuldade para mudar de pensamentos, se adaptar conforme a idade avança. Isso faz sentido do ponto de vista psicológico? Ou há um condicionamento social também?

    PA |

    Eu tendo a concordar que tem um grau de complicação a mais quando a gente fala de homens. Freud dizia que as mulheres mais velhas eram “inanalisáveis”, mas ele estava errado. Os homens são mais “inanalisáveis”. A gente encontra mais dificuldades de transformação neles, em especial a partir de uma certa idade. Freud dizia que o que condiciona as loucuras masculinas é o medo de castração, e as femininas, a inveja do pênis. Simone de Beauvoir vai argumentar que a menina não tem inveja do pênis, mas do lugar social condicionado aos meninos ou homens. Se a gente concordar com ela, a resposta para a pergunta é que, desde cedo, os homens são ensinados a ter um lugar específico, um lugar fálico. Ainda hoje, em boa parte das famílias, o nascimento de um menino é recebido de maneira distinta. Há uma visão de que o futuro está nesse tipo de corpo, você é mais investido narcisicamente. Ou seja, a valoração social se inscreve no corpo psiquicamente desde as nossas primeiras interações com crianças. E isso é um problema porque, se você está muito investido narcisicamente, acaba acreditando no lugar social que te deram. Aí fica esperando o reconhecimento de algo que você deveria ser e o outro não te dá. O ressentimento é um afeto com toda uma especificidade masculina. E, muitas vezes, a resposta para ele é a violência.

  • G |A crise da meia-idade já virou uma coisa quase anedótica, mas ela de fato existe, certo? Quais fatores desencadeiam essa fase na vida do homem?

    PA |

    A gente fala muito de raça, classe, gênero, mas um dos principais marcadores sociais da diferença é a idade. Várias diferenças políticas têm a ver com a idade. A meia-idade talvez apresente para os homens uma perspectiva de proximidade com a morte, ainda que você não seja idoso, o que requer um reposicionamento subjetivo nada pequeno. Isso reapresenta para a pessoa uma questão narcísica: você talvez não seja a última bolacha do pacote. Não é o cara mais novinho, está com rugas e outras questões que tiram o lugar de reconhecimento face ao outro.

  • G |A geração que chega agora a essa crise, num momento em que se repensa as masculinidades, vive esse momento com resultados diferentes do estereótipo do cara que comprava um carrão ou namorava uma mulher muito mais jovem?

    PA |

    É preciso pensar nisso atravessado por outras questões, como a renda. A forma que um homem de classe média alta encontra para se reposicionar na vida, na sua masculinidade, é muito distinta de um homem que está passando por essa crise desempregado. São experiências radicalmente diferentes, por mais que a gente queira chapar tudo na identidade homem. Existe a masculinidade hegemônica, uma estrutura patriarcal, mas as formas de vivê-la podem ser muito diferentes. Uma crise de meia-idade em que o cara tem dinheiro para comprar uma moto, fazer plástica, abrir o relacionamento, podendo ter todos os seus boletos pagos, é muito diferente da de um homem racializado, que não viu seu pai chegar à meia-idade porque ele trabalhou até morrer. Falar de crise da meia-idade é falar das especificidades sociais e das singulares. E não é todo homem que passa por uma crise nesse momento.

  • G |Mesmo para quem não passa por uma crise literal, é um momento marcado por muita tensão, por um certo etarismo no mercado de trabalho, hoje em dia talvez uma separação. Quais impactos isso pode trazer?

    PA |

    Nas sociedades do início do século 20, prometiam para os homens que esse seria um momento de realização. Você teria um trabalho, um relacionamento estável, um filho, uma boa condição financeira, um ou mais imóveis. Talvez já estivesse arrumando um cargo de chefia e, em breve, se aposentaria e seria feliz por mais alguns anos. No pós-guerra, isso se cumpriu para parte da população ocidental, mas a estrutura do capitalismo global impede que seja um horizonte realizável. É o paradigma do Homer Simpson, um desenho do início dos 90 que mostra uma realidade social insustentável: um homem sem ensino superior, num emprego de baixa escolaridade, com problemas cognitivos, que sustenta uma casa com três filhos e um ou dois carros. Isso é impensável hoje. A geração Z olha para os boomers e diz: vocês conseguiam comprar uma casa antes dos 30, algo virtualmente impossível agora para quem é da classe trabalhadora. O emprego passa por uma transformação radical que cria uma luta de todos contra todos, e isso ativa o pior da masculinidade. Uma autora chamada Ludmila Abílio aponta que a ideia de uberização do trabalho tem um antecedente no Brasil com as revendedoras de produtos cosméticos, uma forma de exploração específica do trabalho feminino. Isso acorda no Brasil algo que nunca dormiu: um modo de hiperexploração do trabalho que tinha as mulheres como foco, e passa a ser expandido para homens de classe média e média baixa.

  • G |Há uma dificuldade atual em entender o lugar do homem na família, a questão de ser ou não provedor? Qual sua avaliação, pela pesquisa e atividade clínica?

    PA |

    Eu não tenho dados, mas minha intuição aponta uma contradição: a intensificação da lógica do homem como provedor, vide Juliano Cazarré e discursos na toada “qual o problema de ser provedor?”, ao mesmo tempo que as condições para ela se efetivar estão o mais distante possível. Insistem que o homem tem que ser provedor num universo em que prover para sua família é cada vez mais inalcançável. No regime neoliberal, é quase puramente ideológico, porque para muita gente uma só pessoa do casal não consegue prover para toda a família. É um barril de pólvora prometer essas coisas como se dependesse da vontade individual dos homens. E daí vêm todos esses coaches, Pablo Marçal, um discurso que só vai servir para a pessoa se afundar em mais dívidas no tigrinho. Ser provedor, para muitos homens, significa pedalar 15 horas no iFood. Você está mandando corpos para o abate com esse discurso. Mas claro que não é todo mundo que cai no conto da carochinha.

  • G |Isso também ajuda a explicar o gap nas expectativas femininas e masculinas sobre relacionamentos? Muitas mulheres dizem que sentem eles mais perdidos. Por que tantas relatam ser difícil hoje se relacionar com homens?

    PA |

    Vou me defender dessa pergunta difícil com o psicanalista Jacques Lacan, que diz que a relação sexual não existe. Cada um de nós, quando acha que está numa relação, na verdade está batendo cabeça com uma fantasia que às vezes casa com a do outro — mas sempre existe um descompasso essencial. A metade da laranja é para a psicanálise mais um ideal do que prática cotidiana. Claro que as formas de se relacionar se alteram historicamente. Talvez o que a gente esteja vendo agora seja um aceleracionismo das novas modalidades de relação. O modelo de namoro e casamento se torna cada vez menos hegemônico, enquanto outras formas de relação vão aparecendo. Até a ideia de amor, enquanto instituição, é datada. Não quer dizer que, para além das redes sociais, na vida concreta das pessoas, esteja mudando muita coisa. A discussão sobre monogamia e não-monogamia representa um novo tipo de possibilidade, mas nem todo mundo consegue renunciar a uma certa forma de relação. Como na internet você não tem uma hierarquia política ou moral, mas uma hierarquia de likes, dá a impressão de um grande desencontro na esfera amorosa. Ainda é necessário investigar. Uma coisa é a impressão que temos conversando com amigos e nas nossas bolhas, outra é o discurso sociológico sério.

  • G |Os laços masculinos em geral são marcados por uma falta de demonstrações claras de afeto. Até para cuidar da saúde mental, muitos homens evitam buscar ajuda. Quais impactos psicológicos e sociais isso gera?

    PA |

    [O sociólogo Émile] Durkheim, num estudo clássico, mostra que homens solteiros têm uma prevalência maior de suicídio. Isso está ligado às formas de fazer laços, que na criação masculina não costumam ser orientadas para o cuidado. Os homens não são ensinados a cuidar de si, cuidar das coisas, cuidar dos outros e dos laços. Acaba sendo muito comum em casais hétero que a mulher seja responsável por lembrar dos aniversários, falar com a família. Ela carrega esse tipo de expectativa de gênero que se conecta à ideia do homem como provedor. A função do homem não é ser um ente social na casa, e sim trazer dinheiro. O dinheiro não é uma relação social real, não é uma troca efetiva. E você entrega uma parte muito importante da vida, que é a possibilidade de ser feliz na sociabilidade. Nossos trabalhos estão cada vez menos sociais, cada vez mais solitários. Os trabalhos de plataforma e o trabalho remoto intensificam esse processo para homens e mulheres.

  • G |Essa formação torna um desafio maior assumir ao longo da vida funções de cuidado, seja na paternidade ou ao cuidar dos pais no fim da vida?

    PA |

    É provável que sim, mas o risco é tomar algo que é maioria como sinônimo de totalidade. Claro que existem homens que sabem cuidar. E é importante sublinhar isso porque, caso contrário, a gente encontra um problema na educação de meninos: só apresentar uma faceta degradada da masculinidade. Então, o que seria essa forma masculina de cuidar? Como tornar isso socialmente visível e operável? A gente tem possibilidades técnicas, ainda que não estejam visíveis, de apresentar diferentes formas masculinas de existir. A masculinidade, a binariedade de gênero, que diz que a mulher cuida e o homem não, é ideológica e foi inventada num determinado momento da história. Por mais que o corpo tenha uma diferença biológica, ela foi recoberta com todos esses sentidos que a gente hoje patina para alterar. O risco é, no afã de fazer um bom diagnóstico, a gente cristalizar posições. Tem um trabalho a ser feito de agenciar essas formas masculinas do cuidado. Claro que elas existem. Não são hegemônicas, infelizmente, mas temos que ir atrás disso para além de fazer a crítica.

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