Qual o jogo por trás das bets?
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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

A Copa vai agravar o vício do brasileiro em bets?

Com a presença agressiva dos jogos de aposta online nas transmissões da competição, especialistas aguardam uma piora da crise de saúde mental e endividamento

Leonardo Neiva 05 de Julho de 2026

A Copa vai agravar o vício do brasileiro em bets?

Leonardo Neiva 05 de Julho de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Com a presença agressiva dos jogos de aposta online nas transmissões da competição, especialistas aguardam uma piora da crise de saúde mental e endividamento

“Pode ter uma esperançazinha para o Catar. É complicado, com um a menos fica mais difícil, mas no futebol a gente já viu de tudo…” O comentário talvez soe como análise típica de uma partida de Copa do Mundo. Veiculado pela CazéTV no dia 18 de junho, no intervalo do jogo entre Canadá e Catar, o trecho, entretanto, virou alvo de críticas por conter conotações bem mais perigosas.

A fala veio logo em seguida à publicidade de uma casa de apostas online que divulgou uma odd de 4.2 caso os dois times, Canadá e Catar, marcassem gol na partida. Em outras palavras, devido à baixa probabilidade de isso acontecer, a bet multiplicaria por 4,2 o valor da aposta. O jogo, no entanto, acabaria terminando em seis a zero para o Canadá, frustrando quem se fiou nas palavras do comentarista.

Para diversos internautas e especialistas, a emissora induziu o telespectador a apostar em uma possibilidade pouco provável, levando muitos a perderem dinheiro. E a cena é só um dos destaques na enxurrada de críticas que recebeu o único canal no Brasil liberado para reproduzir todos os jogos desta Copa do Mundo.

“É um negócio tão agressivo na direção das bets, com propaganda o tempo todo, estímulo ativo para que as pessoas joguem, que eu parei de assistir à CazéTV”, criticou o jornalista César Calejon no ICL Notícias, em vídeo que viralizou nas redes. Após as reclamações, o Ministério da Justiça e Segurança Pública chegou a abrir uma investigação da publicidade que vem sendo feita para as bets no canal. Com isso, a CazéTV reduziu as propagandas de jogos de aposta da sua programação de Copa do Mundo.

Especialistas do ramo preveem uma onda de apostas que deve ultrapassar os US$ 50 bilhões no planeta durante o Mundial

O caso acontece num dos momentos mais favoráveis para as bets. Embora ainda não seja possível ter uma ideia concreta do tamanho do impacto da Copa nas apostas online, já se sabe que 136 milhões de brasileiros — cerca de 64% da população nacional — assistiram a ao menos uma partida do campeonato, segundo o Ibope. Especialistas do ramo preveem uma onda de apostas que deve ultrapassar os US$ 50 bilhões (mais de R$ 250 bilhões) no planeta durante o Mundial, bem acima dos US$ 35 bilhões registrados na última Copa. E, desse total, mais de 10% — R$ 25 bilhões — devem ser feitas aqui no Brasil, apontam analistas.

Até agora, 34,8% dos brasileiros, ou mais de um terço da população do país, já enviou dinheiro para bets desde o início da competição, com um aumento considerável na média dos valores apostados, segundo levantamento da fintech Klavi, com base em dados do Open Finance.

Esse salto vem acontecendo num momento em que três a cada dez brasileiros com mais de 16 anos já têm como hábito apostar em bets, segundo pesquisa Genial/Quaest. Período em que também se multiplicam os relatos de suicídio por conta das bets, e o Sistema Único de Saúde (SUS) registra um aumento de 140% na busca por atendimento para dependência de jogos online só nos últimos cinco anos.

A psicóloga Cristiane Pertusi, presidente da Associação Brasileira de Terapia Familiar (Abratef), lembra que a compulsão por jogos de azar, assim como outros tipos de vício, se desenvolve a partir de estímulos constantes. Por isso, considera um grande retrocesso a liberdade com que as propagandas de bets vêm acontecendo. “Quando o cérebro começa a receber aquele estímulo, ele vicia. E alguns cérebros viciam mais do que outros.” Quanto mais a pessoa aposta — o que vem sendo abertamente incentivado em veículos de mídia esportiva — mais seu cérebro libera dopamina, explica Pertusi, o que te leva a querer ter mais e mais aquela mesma sensação. E com o agravante de que o vício em bets vem quase sempre acoplado a grandes perdas financeiras.

“No Brasil, é uma combinação explosiva: Copa do Mundo, jogos de azar, falta de cultura financeira e baixa escolaridade”, aponta Marcelo Pereira de Mello, professor de sociologia da Universidade Federal Fluminense e autor do livro “Criminalização dos Jogos de Azar” (Juruá, 2017). “Você põe tudo isso num pacote, e o resultado provável vai ser mais endividamento, mais problemas de adicção e compulsão com jogos de azar.”

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O desafio contra as bets

Na visão do sociólogo, as transmissões esportivas estão se tornando tutoriais que ensinam como usar as bets e até em quais apostas investir dinheiro, como no exemplo que abre o texto. “Elas simulam com artistas e celebridades padrões de apostas que são encontradas nos sites e plataformas.” Dessa forma, afirma, a propaganda acaba se tornando mensagem subliminar. “Os resultados disso a gente vai conferir daqui a alguns meses.”

Apesar de a CazéTV estar no meio do fogo, o problema das bets não se resume ao canal do YouTube. Hoje, empresas do ramo patrocinam boa parte dos times nacionais, dos campeonatos esportivos e possuem vínculos comerciais com atletas que divulgam marcas e “oportunidades” de apostas em suas redes. Além de Mbappé na França, que se recusou a fazer comercial para uma empresa do setor, na seleção brasileira uma rara exceção é o lateral Danilo, que tem falado publicamente contra os jogos de azar.

Para Mello, a legislação brasileira — que regulamenta as bets, enquanto mantém a ilegalidade de cassinos online como o Tigrinho — hoje é excessivamente permissiva com a publicidade desse tipo de produto. “Como é possível os jogos de azar não terem restrição de publicidade como o cigarro ou as bebidas alcoólicas?” O questionamento, aliás, está alinhado com o atual debate político sobre o assunto. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, anunciou que vai exigir a inclusão de um anúncio de danos após as propagandas de aposta — mais ou menos o que já acontece com o álcool e o cigarro —, entre outras restrições à publicidade do setor.

Na visão do cientista político Ricardo Borges Martins, a principal referência para o momento atual deve ser mesmo o tabaco, cujas propagandas inundaram de filmes a eventos esportivos nas décadas de 1980 e 1990. “Elas foram controladas, o que, junto com campanhas de conscientização e um aumento da taxação, levou a uma queda de quase 35% dos adultos fumantes no Brasil”, lembra Martins, cofundador do laboratório de comunicação e mobilização para causas Quid.

Uma das iniciativas que integra o Quid, o Projeto Brief acaba de lançar o Desafio Contra Bets. Voltado para criadores de conteúdo em diferentes áreas e plataformas, o concurso vai distribuir R$ 100 mil em prêmios para iniciativas que gerarem mobilização em torno do assunto neste momento de Copa do Mundo.

“Quando começou esta Copa, ficou claro para a gente que tinha uma oportunidade de fazer um esforço contra a corrente, para estimular a produção de conteúdos expondo os malefícios que as apostas online têm causado para as famílias brasileiras e o país todo”, explica o cientista político, que acredita que as narrativas mais efetivas são aquelas que miram na indústria, e não no apostador, e conseguem demonstrar de forma clara seus efeitos devastadores.

Normal e anormal

No Brasil, as apostas em jogos de azar são proibidas para menores de 18 anos. Mas pesquisas recentes contradizem a eficácia dessa restrição. Em 2025, 11% dos jovens brasileiros apostaram online, segundo levantamento da agência de pesquisas Ipsos. O maior volume se concentra na faixa dos meninos de 16 a 17 anos: 20% deles fizeram apostas no período. E, embora muitos tendam a associar o tema aos garotos, 14% das meninas entre 14 e 15 anos também apostaram em 2025.

Essa influência chega desde cedo até por meio de jogadores como Vini Jr. e Neymar, que aparecem com frequência em propagandas do setor — o primeiro é, inclusive, embaixador de uma das gigantes do ramo no país. “Quando veem grandes nomes do futebol fazendo publicidade, muitos meninos atrelam o comportamento das apostas à imagem dos seus ídolos”, afirma o médico psiquiatra Rodrigo Machado, coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria da USP.

Em 2025, 11% dos jovens brasileiros apostaram online, segundo a Ipsos

“O que se passa no imaginário desse garoto ou dessa garota, que vê o ídolo ostentando uma camisa de futebol fazendo propaganda de bet?”, questiona Mello. “Qual é a mensagem que está sendo transmitida ali, subliminarmente também, com respeito ao sucesso possível através das apostas?”

Outro risco no contexto de um grande evento esportivo como a Copa do Mundo, em que as bets parecem estar para todos os lados, é a sensação de normalização das apostas. O fenômeno pode ser enxergado pela ótica da psicologia social: o ser humano costuma buscar o pertencimento a um grupo; então, se um comentarista, um jogador famoso promove uma bet, ou se parece parece que todo mundo está apostando, logo pensamos que apostar deve ser algo positivo, avalia Machado, que é psiquiatra supervisor e pesquisador do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (PRO-AMITI).

“Você nem sabe por que está indo, mas foi induzido a isso pela necessidade de pertencimento ao grupo, que é inata. E, se todos os seus amigos estão apostando, aparentemente passa a ser algo legal, normal, e o anormal é não apostar.”

O rigor da lei

Conforme as bets avançam na sociedade brasileira, também crescem de forma acelerada as propostas legislativas sobre o tema. Desde 2023, quando o setor foi regulamentado, saltou de 18 para 117 o número de projetos de lei apresentados no Congresso, como aponta pesquisa do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS). E recentemente, com a repercussão negativa, propostas que restringem a atuação das bets vêm ganhando destaque.

No Senado, avança um projeto que proíbe todas as modalidades de publicidade, patrocínio ou promoção de apostas e jogos de azar online. Em maio, a Frente Parlamentar Mista para a Promoção da Saúde Mental apresentou o “Brasil Contra as Bets”, com proposta semelhante. Outros projetos propõem também uma maior proteção a menores de idade e até a proibição total da atividade no país.

Quase 700 mil brasileiros já precisaram recorrer à ferramenta do governo que bloqueia publicidade e apps de apostas

Apesar de nem todos concordarem com o veto completo das plataformas — afinal, controlar a atuação no ambiente digital hoje beira o impossível, o que permite que plataformas ilegais sigam funcionando —, os especialistas consultados por Gama indicam que é necessário estabelecer restrições bem mais rígidas no país. “Entre legalizar e não legalizar, tem toda uma gradação de controle que precisa ser estabelecida, sem que precisemos ver publicidade de manhã, tarde e noite bombardeando adolescentes”, resume Mello.

Um dos principais pontos, defende o sociólogo, é tirar o foco das políticas públicas atuais do indivíduo que aposta e apontá-lo para a indústria como um todo. “O governo hoje controla CPF, impede quem tem Bolsa Família de jogar… Isso transforma um problema que foi criado no espaço público, por instituições públicas, em um problema do indivíduo”, declara.

Avisos como o que aparece ao final de muitas propagandas de bets, que recomendam “jogar com moderação”, acabam soando inócuos porque o vício e a compulsão são irresponsáveis por natureza, como explica a psicóloga Cristiane Pertusi. “Ele faz parte de uma área do cérebro do impulso e da emoção, não da lógica“, afirma. Tanto que quase 700 mil brasileiros já precisaram recorrer a uma ferramenta oferecida pelo governo, que os bloqueia de apps de apostas e do recebimento de publicidade sobre o tema.

Brasil: o país das bets?

O cientista político Ricardo Martins acredita que, num futuro próximo, vamos analisar a publicidade das bets feita hoje com o mesmo olhar que lançamos a propagandas antigas de cigarro ou voltadas ao público infantil: como algo absurdo e difícil de entender como alguém liberou.

“Porque os efeitos estão aí, muito visíveis, o grau e o tempo de exposição, a quantidade de diferentes casas [de apostas] competindo numa mesma programação e jornalistas participando desses anúncios.” Por isso, ele acredita que uma regulação mais dura deve chegar, mas talvez “um pouco tarde demais”, numa realidade em que já existe um grande número de apostadores no país.

Elas estão fazendo coisas aqui no Brasil que não fazem em nenhum lugar do mundo

Para o psiquiatra Rodrigo Machado, há indícios de que o Brasil está a caminho de figurar entre as piores métricas globais em números de apostadores e pessoas endividadas por conta de bets. Mesmo ainda sem dados concretos, ele já tem visto pacientes com problemas de compulsão, até então estáveis, voltarem a apostar. “É alarmante, um momento que preocupa muito a gente que trabalha na área”, considera.

Na visão de Mello, as empresas de apostas estão justamente aproveitando a liberalidade que marca o período atual para entrar com tudo no mercado e na sociedade brasileira. Elas estão fazendo coisas aqui no Brasil que não fazem em nenhum lugar do mundo. Estão vivendo uma grande janela de oportunidades gerada pela irresponsabilidade das instituições públicas no Brasil. Até que isso vai ganhar uma dimensão tão grande que o Estado vai ser impulsionado a operar de maneira mais dura”, diz o sociólogo.

O problema é quão devastador estará esse cenário e qual será o tamanho da crise de saúde mental e endividamento das famílias quando isso finalmente acontecer.

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