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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

Juventude ativista: quais temas engajam os jovens hoje?

Vistas como pouco interessadas, novas gerações desconfiam da política, mas se engajam em temas que afetam seu cotidiano, como emprego e segurança

Leonardo Neiva 04 de Outubro de 2026

Juventude ativista: quais temas engajam os jovens hoje?

Leonardo Neiva 04 de Outubro de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Vistas como pouco interessadas, novas gerações desconfiam da política, mas se engajam em temas que afetam seu cotidiano, como emprego e segurança

Nascido e criado na comunidade do Jacarezinho, na zona norte do Rio, Thiago Nascimento foi atleta de basquete por boa parte da adolescência e juventude. Como estudante bolsista, isso permitiu que ele vivesse uma experiência diferente da de muitos colegas e familiares no bairro onde cresceu. “Tive a oportunidade de transitar pela cidade, de viajar com o clube, e isso foi me apresentando novas perspectivas possíveis”, conta.

A partir dessa nova realidade, também foi notando algumas questões importantes. “Já tinha um incômodo dentro de mim pela forma como meus primos e vizinhos se relacionavam com a cidade, com a falta de acesso a certos direitos. Isso me incomodava muito desde novo.” Tanto que, desde o ensino médio, ele nutria uma vontade de se estabelecer profissionalmente, em parte porque queria ajudar sua comunidade.

Hoje, aos 29 anos, ele é fundador e diretor executivo do Instituto Decodifica, organização dedicada à produção, comunicação e incidência política baseada em dados, com foco nas realidades e necessidades das periferias. “Minha trajetória começa ali, no Jacarezinho, olhando para o incômodo que era ver o meu território sendo negligenciado e as pessoas da minha idade com pouco acesso a muitas coisas.”

Histórias marcadas desde cedo pelo ativismo, como a de Nascimento, no entanto, são uma exceção dentro da realidade brasileira. Ao menos é o que mostra a pesquisa “Juventudes: Um desafio pendente”, publicada no fim de 2025 pela Fundação Friedrich Ebert (FES). Um dos levantamentos mais abrangentes sobre o engajamento político e social dos jovens latino-americanos, o documento aponta um baixo interesse em temas sociais e políticos entre os brasileiros dessa faixa etária.

Apenas 25% dos jovens brasileiros afirmam ter um interesse considerável em política

De acordo com o estudo, que abrange indivíduos dos 15 aos 35 anos, apenas 25% dos jovens brasileiros afirmam ter um interesse considerável em política. Em relação às causas sociais, 26% apresentam algum envolvimento na defesa da família, 22% pelo meio ambiente, 15% em prol dos direitos das juventudes, 13% em movimentos antirracistas, e 12%, em feministas. Mas a pesquisa também revela um potencial dormente de mobilização: 19% dos jovens não militam, mas dizem ter vontade de fazê-lo.

“Quando a gente pega os temas de mobilização — para além do movimento pela família, que se posiciona mais à direita no espectro político —, são pontos que dialogam com uma sociedade que pensa o papel do Estado e o desenvolvimento social e econômico do país”, declara o diretor de projetos para juventudes, segurança pública e comunicação da FES Brasil, Willian Habermann, um dos autores da pesquisa.

A ideia de que os jovens não se engajam em nada nasce das gerações mais velhas, que costumam analisar a juventude a partir da sua própria experiência, afirma Tiaraju Pablo D’Andrea, coordenador do Centro de Estudos Periféricos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e especialista em juventudes periféricas urbanas. “A minha geração também era acusada de não se interessar por nada, de só querer farra e diversão. A gente precisa calibrar um pouco essa acusação contra a juventude, que se repete de tempos em tempos”, afirma.

Outro fator até previsível é que as maiores preocupações desses jovens hoje giram em torno de assuntos que estão integrados ao seu cotidiano, diz Habermann. Quando questionados sobre os pontos que deveriam ser alvos de políticas públicas no Brasil, mercado de trabalho, bem-estar social, segurança e moradia surgem no topo da lista. Já questões como o meio ambiente ou o investimento em ciência e tecnologia, ainda que com destaque, acabam ficando para trás nessa conta.

“São jovens que estão lutando pelo mínimo: um trabalho de qualidade, moradia e um estado de bem-estar social, de educação, saúde, cultura e lazer”, afirma Habermann.

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Engajamento periférico

É um fato: hoje todos habitamos nichos, de uma forma ou de outra. E essas bolhas, especialmente nas redes, também governam os temas que nos mobilizam, na visão de Nascimento. “As informações chegam às pessoas pelos algoritmos. Então, as big techs, redes sociais e afins te informam a partir do que elas acham relevante para você, e não te dão uma dimensão ampliada para formar esse senso crítico”, opina.

Nas periferias, onde atua com o Instituto Decodifica, ele enxerga a cultura como uma engrenagem crucial para a mobilização e o desenvolvimento de uma consciência crítica entre os jovens. E a música, a partir de gêneros como rap, hip hop, funk ou trap, ocupa parte importante nessa formação.

A classe social é um dos principais fatores determinantes para o nível de envolvimento dos jovens brasileiros na política e em causas sociais, de acordo com o levantamento realizado pela FES. Enquanto nas classes mais altas, 19% dos jovens demonstram muito interesse por esses assuntos, o percentual cai quase pela metade (10%) entre as classes média-baixa e baixa. A discrepância nos dados, segundo a pesquisa, aponta desafios na inclusão política e a necessidade de criar estratégias para engajar melhor esses grupos. Mas há também barreiras práticas que acabam inibindo o interesse de parte dos jovens de classes mais baixas.

Persiste ainda a dificuldade de acesso a informações e mecanismos públicos, que passa pela ausência de políticas voltadas às regiões mais pobres, como descreve Nascimento: “O jovem periférico, na realidade de onde eu vim, lida com uma ausência seletiva do Estado. A gente vê o Estado presente nas nossas vidas a partir de uma lógica muito bélica. Mas, na promoção de direitos, existe essa falta.”

A gente vê o Estado presente nas nossas vidas a partir de uma lógica muito bélica. Mas, na promoção de direitos, existe essa falta

Num sentido semelhante ao da pesquisa, Nascimento tem presenciado com frequência debates da juventude em torno de temas como precarização do trabalho, com destaque para o fim da escala 6×1, e desigualdade de renda. Mas também detecta forte engajamento dos jovens nas pautas climáticas ou em questões raciais e de gênero. “Outro tema que tenho visto muito é o da saúde mental, que avançou bastante nos últimos anos”, acrescenta.

Para D’Andrea, as mudanças no mundo do trabalho e até nas relações afetivas impactam de maneira fundamental a forma como os jovens periféricos projetam o futuro. Hoje, ele destaca que os arranjos de trabalho estão cada vez mais efêmeros, e a sociedade já não garante mais uma estabilidade financeira a longo prazo — o que acaba afetando todas as decisões de vida da juventude.

A dúvida constante a respeito das perspectivas de se aposentar, comprar um imóvel ou mesmo conseguir um emprego a longo prazo norteia até como eles se engajam e pensam o amanhã. “A crise do tripé carteira assinada, casa própria e casamento [que moldou as gerações anteriores] gera uma dificuldade de criar perspectiva de futuro. Então, é uma juventude mais imediatista”, diz o especialista. Juntando esse cenário à desconfiança crescente em relação à política e à própria democracia, D’Andrea enxerga um deslocamento da organização social em torno dos partidos e sindicatos, das gerações anteriores, para novas formas de representação, especialmente nas periferias.

De acordo com o professor, uma das principais mudanças é justamente o envolvimento da juventude em lutas por questões ligadas à reivindicação do tempo livre, como na questão do fim da escala 6×1. “Você tem uma geração mais jovem que diz: quero fazer política descansando, ficar com a minha família, namorar, fazer arte ou não fazer nada. Essa vai ser a principal pauta nos próximos dez anos. O tempo livre vai ser o maior luxo da próxima geração”, declara.

“O tempo é muito caro na vida do jovem”, concorda Nascimento. Na Gama, inclusive, abordamos recentemente o fenômeno da pobreza de tempo, que impede que muitas pessoas participem de atividades que vão do descanso ao envolvimento com causas sociais.

Os conservadores progressistas

Ao mesmo tempo em que verifica uma maior democratização da participação política nos últimos anos, a psicóloga Beatriz Besen, pós-doutoranda no Núcleo de Pesquisas em Psicologia Política e Movimentos Sociais (Nupmos-PUC), também detecta um fenômeno importante no Brasil: o avanço dos movimentos de direita entre os mais jovens.

Dos jovens brasileiros entrevistados na pesquisa “Juventudes: Um desafio pendente”, 44% se identificam com o centro, 38% com a direita — dos quais 17% com a extrema direita — e somente 18% com a esquerda. Outro estudo recente, realizado pela Quaest, consolida esses resultados. Ele aponta que 68% dos homens e 62% das mulheres com idade entre 16 e 24 anos hoje se identificam como conservadores no país.

Mas, para além das porcentagens, a faixa etária está longe de ser coesa nas suas visões de mundo — em muitos casos abraçando causas identificadas com a esquerda e com movimentos sociais. “Quando você conversa sobre valores com o jovem que se identifica como de direita, há uma disputa e uma influência de todos os avanços históricos que a gente teve”, afirma Besen, que também coordena o Monitor Jovem no Instituto Democracia em Xeque. Ou seja, a juventude acaba se tornando um espaço de convivência e disputa entre visões conservadoras e progressistas.

É uma tendência semelhante à apontada por Willian Habermann, da FES Brasil: “Sua visão de mundo [de jovens que se autodeclaram de direita] está muito ligada a uma ideia de Estado que garanta direitos sociais, uma educação gratuita e de qualidade, um sistema de saúde pública, e à defesa dos direitos das mulheres e das populações LGBT+”. Segundo Habermann, portanto, existe um descompasso “entre aquilo que o jovem diz ser enquanto posicionamento político e o que defende enquanto sociedade.”

Dualidade semelhante se estende à imagem que se tem com frequência das novas gerações, como formadas por indivíduos desiludidos com o mundo e o amanhã. O que Besen aponta é que boa parte das pesquisas atuais mostram sim jovens desesperançosos com a política e com as instituições, mas ainda profundamente otimistas quanto ao futuro — a questão é que não sabem como acessar esse glorioso porvir.

O contexto explica em parte a popularidade de líderes que se dizem antissistema. “Eles representam a ideia de que existem alternativas que fogem da realidade política atual”, afirma a psicóloga. Outra tendência também identificada com movimentos de direita e que ganha impulso nessa realidade são os discursos focados em meritocracia e no enriquecimento rápido, quase sempre surgido a partir da iniciativa individual. “Se você vive uma situação precária de trabalho, sem nenhuma regulação, vai passar a acreditar que tudo depende só de si.”

Mas onde esses jovens se mobilizam?

Hoje, segundo especialistas consultados pela reportagem, boa parte dessa mobilização, como já era de se esperar, acontece em ambientes online, em especial nas redes sociais. “Ainda existem sim espaços presenciais de participação, mas as redes são fundamentais, porque permitem encontros entre pessoas que estão em diferentes partes do Brasil e do mundo”, avalia Besen.

Uma parcela importante da desilusão que detectamos nas novas gerações tem a ver com o desaparecimento de muitos desses espaços de lazer, que permitem ao jovem refletir sobre a sua realidade a partir do contato com o outro

Se, por um lado, esses encontros presenciais acontecem hoje com frequência muito menor do que no passado, os diálogos também não necessariamente se restringem ao ambiente online. Este, aliás, funciona como uma ferramenta bastante eficiente de organização ativista, seja de eventos físicos, reuniões digitais e de uma série de possibilidades que antes não existiam, como transmissões ao vivo ou a produção de podcasts.

Já nas periferias pelo Brasil, segundo Nascimento, boa parte desse engajamento ainda acontece dentro de espaços de cultura, como rodas de rima, bailes e celebrações. Para ele, uma parcela importante da desilusão que detectamos nas novas gerações tem a ver com o desaparecimento de muitos desses espaços de lazer, que permitem ao jovem refletir sobre a sua realidade a partir do contato com o outro.

D’Andrea descreve uma juventude “mobilizada por questões ambientais, pensando enchente, horta urbana e mudanças climáticas”. Também vê nas periferias jovens que se comprometem politicamente por meio do debate da cultura, “talvez o maior meio de politização da juventude hoje”. Muitos deles, afirma, acabam se integrando dessa forma em debates por pautas como os direitos LGBTQIAPN+ e feministas.

“A gente precisa reconstruir as infraestruturas comuns para que esses jovens voltem a se engajar”, defende Nascimento. “Então, que a gente consiga estar na rua pautando o que quer, falando com as pessoas, dialogando entre nós, tendo divergências mas não de maneira tão polarizada e distante, um efeito que as telas provocam. Um engajamento a partir do toque, a partir do cuidado, a partir do acolhimento, é muito do que a nossa juventude tem potencial para resgatar.”

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