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Bloco de notas

Conversas com quem trabalha para mudar o mundo

De reformas gratuitas de moradia a capacitação de detentos, uma seleção de dez brasileiros na luta pela transformação que já tiveram suas histórias contadas pela Gama

Conversas com quem trabalha para mudar o mundo

04 de Outubro de 2026

De reformas gratuitas de moradia a capacitação de detentos, uma seleção de dez brasileiros na luta pela transformação que já tiveram suas histórias contadas pela Gama

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    Nascida e criada na Vila Operária, da Baixada Fluminense, Thuane Nascimento serviu de inspiração para a personagem Jennifer da novela “Vai na Fé” (2023) por seu papel de representante de uma nova geração de lideranças periféricas no Brasil. Thux, como também é conhecida, é diretora-executiva e representante em eventos internacionais do PerifaConnection, uma plataforma criada para conectar e integrar periferias de todo o território nacional. A época da pandemia foi o momento em que se consolidou como liderança, devido à necessidade das pessoas, como ela coloca. Ao atuar junto ao Movimenta Caxias e ao PerifaConnection, articulou a distribuição de cestas básicas, auxílio emergencial e projetos recreativos para crianças. 

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    As mesmas peças que vestem artistas como Bruna Marquezine, Anitta, Pabllo Vittar e Anelis Assumpção são a base para o Ponto Firme, que capacita detentos e egressos do sistema carcerário. O projeto, criado por Gustavo Silvestre, designer e artista pernambucano, teve início em 2015, na penitenciária masculina Desembargador Adriano Marrey, em Guarulhos, onde passou a ministrar aulas de crochê. Durante a pandemia, a iniciativa de reintegração social expandiu, com uma sede e escola no centro de São Paulo para acolher e capacitar ex-presidiários. O projeto utiliza artesanato e moda como ferramentas que ajudam a quebrar o ciclo da violência e da reincidência criminal. A equipe de sete ex-detentos, liderada por Gustavo, tem parceria com diversas marcas e desenvolve ações de upcycling, trabalhos de decoração de lojas e customização manual de calçado . O Ponto Firme tornou-se a primeira iniciativa social a integrar o calendário oficial da São Paulo Fashion Week, desfilando coleções criadas e produzidas pelos próprios detentos.

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    Em uma viagem de carro de Porto Alegre à Amazônia, Felipe Villela, que havia passado muitas férias na fazenda de sua família, tomou consciência da pressão da agricultura no meio ambiente. Saiu da faculdade, morou cinco meses no sul da Bahia para aprender sobre agricultura sintrópica e se mudou para a Holanda, a fim de estudar agronegócio sustentável. Em 2018, fundou em Amsterdã a empresa de restauração por meio de agroflorestas regenerativas, a reNature, em parceria com o sócio Marco de Boer. Felipe desenvolve projetos focados no Brasil e no Sudeste Asiático para provar que esses sistemas podem ser implementados com sucesso na agricultura em larga escala, também auxiliando na capacitação de produtores rurais a realizarem a transição de seus modelos de cultivo. Seu trabalho demonstra como o cultivo agroflorestal é capaz de reduzir custos de produção, estabilizar a produtividade com uma resiliência climática e gerar diversificação de renda aos agricultores.

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    Morar em uma casa precária e insalubre em Paraisópolis, ao lado do nobre Morumbi, fez Ester Carro questionar a desigualdade desde cedo. Com esse valor comunitário que a acompanhou até a faculdade, a arquiteta e urbanista lidera o Instituto Fazendinha, que ganhou esse nome a partir de seu primeiro trabalho de transformar o lixão no parque Fazendinha. A iniciativa realiza reformas gratuitas para moradias e espaços comunitários em favelas paulistas. Em quase dez anos, foram mais de 600 reformas que garantiram moradia digna para famílias periféricas. Além disso, oferece oficinas de formação na construção civil para os habitantes da região, com destaque para a qualificação de mulheres no projeto Fazendeiras. Seu trabalho não passou em vão: em 2023 foi selecionada para a lista Forbes Under 30 e, em 2024, participou da Brazil Conference nas universidades de Harvard e MIT, assim como palestrou no World Urban Forum no Egito.

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    Primeira pessoa de sua família a ingressar no curso superior, Juliana Souza se graduou em Direito pela PUC-SP por meio do ProUni, fez pós-graduação sobre sistema de justiça e racismo no Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM) e ingressou no mestrado na USP, com foco no direito à cidade. Natural de Feira de Santana, na Bahia, a advogada trabalhou no caso de racismo sofrido por Chissomo (Titi), filha dos atores Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso — maior pena por racismo e injúria racial da história do Brasil. Hoje, é presidente do Desvelando Oris, que fundou em 2021 ao lado de seu companheiro e de sua mãe. O instituto promove equidade racial e de gênero para jovens e mulheres em vulnerabilidade socioeconômica, com a oferta de orientação jurídica, biblioteca e cursos gratuitos. Adicionando ao seu legado, foi coordenadora-chefe do departamento de bolsas no IBCCRIM e liderou a implementação de uma política institucional afirmativa para destinação de bolsas de estudo direcionadas a pessoas negras, LGBTs e egressos do sistema prisional.

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    Catarina Mina é o nome de uma marca expoente da moda sustentável, nacional e internacional, que movimenta dezenas de artesãs no Ceará. Sua criadora é Celina Hissa, designer e empresária, que teve o convívio com as tradições artesanais como inspiração para as bolsas, roupas e acessórios — cada um com QR codes que contam a história das artesãs criadoras. O crochê, a renda de bilro, o filé e o trançado em palha são algumas das coisas que, em seu olhar, mereciam uma valorização que não era dada. As peças conquistaram colaborações com marcas como Osklen e Água de Coco, apareceram em feiras e desfiles na Europa e lhe renderam prêmios como o ECOERA, da revista Vogue.

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    Criado por um grupo de jovens em 2020, no Jacarezinho, comunidade na Zona Norte do Rio de Janeiro, o Instituto Decodifica defende o uso de dados produzidos pelas periferias como ferramenta de justiça e transformação social. No cargo de diretor-executivo, Thiago Nascimento trabalha com uma equipe integralmente negra na Geração Cidadã de Dados sobre favelas e periferias. “Percebemos que havia uma demanda urgente para a construção e a coleta de dados, para combater a desinformação e para a construção de narrativas a partir da nossa própria comunidade”, conta ele. Essas informações são então utilizadas para orientar investimentos públicos, privados e a criação de políticas públicas eficazes. Thiago também fundou o projeto Jacaré Basquete para crianças e jovens e, durante a pandemia, criou a campanha Jaca contra o Corona, que distribuiu mais de 3,5 mil cestas básicas e 10 mil máscaras no Jacarezinho.

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    A advogada e socióloga Carolina Ricardo é diretora executiva do Instituto Sou da Paz, que atua na redução da violência no Brasil. Com o ideal de que a segurança é um direito de todos, a organização visa contribuir para a implementação de políticas públicas de segurança eficientes. O papel de Carolina, que diz acreditar que esperança é um dever, é promover o diálogo entre atores de visões distintas, conectando forças policiais, órgãos do governo, empresários, movimentos de direitos humanos e lideranças comunitárias. O Instituto também atua no fomento ao protagonismo juvenil, pesquisas e mobilizações que fortalecem políticas públicas com foco na desigualdade racial e de gênero.

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    Em 1988, Cilene Soares levou seu filho para vaciná-lo e passou por um atendimento extremamente ríspido. Desde então, a técnica de enfermagem do SUS decidiu mudar essa realidade e atende seus pacientes com humanidade e afeto: “saí dali com o sentimento de querer mudar aquela situação, mostrar que é possível trabalhar no SUS e prestar um bom atendimento”. Trabalhando em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) de Abaetetuba, a dedicação não é pouca: inicia suas atividades antes do horário oficial para atender os pacientes ribeirinhos vindos do Arquipélago de Abaetetuba, orienta estagiários de enfermagem no aprendizado prático e no manejo do atendimento público humanizado, sem mencionar o período da pandemia, quando manteve uma rotina de jornada dupla por um ano. A profissional, que trabalha desde os 12 anos como faxineira até concluir sua formação em enfermagem, é um exemplo da transformação da experiência dos pacientes e da valorização do SUS.

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    Após trabalhar por dez anos no mundo corporativo, Ricardo Gravina fundou a Aoka Tours, uma das primeiras agências de viagens do Brasil especializada em turismo sustentável, voltada a aproximar os visitantes dos moradores locais. Depois, com a experiência tão marcante, decidiu ir além: partiu para a Aoka Labs, uma iniciativa voltada a levar projetos de inovação social para grandes empresas, como Coca-Cola e Natura. Por fim, em 2017, criou o Instituto Climate Ventures, focado em investir na economia regenerativa e de baixo carbono no Brasil — onde impulsiona negócios que propõem soluções práticas contra a crise climática. “Se não resolvermos a questão climática agora, o que o futuro nos guarda?”, diz Ricardo sobre suas motivações.

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