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Semana

Com menos de 30 anos, jovens mulheres trabalham por mudanças estruturais

Com atuação em diferentes áreas, da política ao empreendedorismo, elas buscam construir um futuro melhor

Fredy Alexandrakis e Mariana Pontes 04 de Outubro de 2026

Com menos de 30 anos, jovens mulheres trabalham por mudanças estruturais

Fredy Alexandrakis e Mariana Pontes 04 de Outubro de 2026

Com atuação em diferentes áreas, da política ao empreendedorismo, elas buscam construir um futuro melhor

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    “Busco defender a floresta por meio da defesa das pessoas que a mantêm de pé”

    Karina Penha, co-diretora executiva da Amazônia de Pé

    Karina Penha, 29, é bióloga, ambientalista e ativista, com formação dupla: “pela universidade e pelos territórios que me moldaram, os campos alagados da Baixada Maranhense e a periferia de São José de Ribamar”. Neta de pescadores e quebradeiras de coco babaçu, é formada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e especialista em mudanças do clima e justiça climática.

    A partir de suas vivências, foi sensibilizada com a questão ambiental desde criança. Assim, começou sua atuação social ainda na adolescência e, em 2022, cofundou a Amazônia de Pé. A iniciativa se aprofunda na pauta de proteção ambiental para além da floresta, considerando que o território também é formado pelos povos que lá vivem, na cultura, na educação e na formação política: “Defender a floresta por meio da defesa das pessoas que a mantêm de pé”, como ela coloca.

    O projeto de justiça territorial que, em parceria com o Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), transfere o debate de dados para uma mobilização, tem como grande objetivo proteger 50 milhões de hectares de florestas públicas na Amazônia. É também o que traz para Penha sua grande gratificação: “Ter criado um movimento que também é uma resposta para o meu próprio território”.

    A ambientalista está na lista Forbes Under 30, foi palestrante no TEDxAmazônia e selecionada para a turma de 2026 do Ford Global Fellowship. Seu sonho é que mais jovens periféricos assumam lugares de liderança, entendendo que a luta pelo território é uma luta pela própria existência que foi herdada. “Ter cada vez mais pessoas jovens, conscientes e preparadas para enfrentar desafios e para usufruir dos seus territórios, do bem, da cultura, da celebração. Isso é muito importante, não só a luta, mas também a festa.” (Mariana Pontes)

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    “A gente precisava se unir a pessoas que entendessem a importância de fornecer acesso a água tratada pra quem precisava”

    Anna Luísa Beserra, fundadora do SDW For All (Sustainable Development & Water for All), que criou um sistema de tratamento de água da chuva que utiliza a radiação solar

    Em 2013, aos 15 anos, Anna Luísa Beserra se deparou com “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos. A jovem, que sempre havia sonhado em ser cientista, ficou fascinada em entender como, mesmo quase 100 anos depois, as pessoas ainda não tinham acesso a algo básico como a água. Assim surgiu o Aqualuz, um sistema de tratamento de água da chuva que utiliza radiação solar, pensado a partir de uma metodologia chamada SODIS (Desinfecção Solar da Água).

    Mas, após anos de dedicação e busca por recursos e oportunidades, já no curso de Biotecnologia na UFBA (Universidade Federal da Bahia), diz que “havia desenvolvido a tecnologia e achava que ela é espetacular, que poderia salvar vidas, mas não ser levada a sério”. O que era frustração se transformou em motivação para entrar no empreendedorismo e fundar, em 2015, a Sustainable Development & Water for All. Com programas sociais de acesso à água e saneamento para comunidades rurais, a SDW For All já beneficiou diretamente cerca de 50 mil pessoas em 16 estados do Brasil, atravessando fronteiras até o Equador e Porto Rico.

    Esse caminho, muito mais longo do que imaginava, “foi fascinante, cheio de aprendizados e, principalmente, de uma construção de uma versão minha que eu não sabia que poderia existir”. E valeu a pena. Além da gratificação dos indivíduos beneficiados, Beserra, hoje com 29 anos, recebeu a mais alta honraria do Legislativo baiano, a Comenda Dois de Julho, foi a única brasileira premiada com o Jovens Campeões da Terra da ONU e com o Muhammad Ali Humanitarian Award, além de outros reconhecimentos pela UNESCO, pelo MIT Solve e pela lista Forbes Under 30.

    Para o futuro, ao contrário do que muitos podem imaginar, almeja que a empresa deixe de existir. Beserra explica que o compromisso da SDW For All é erradicar as doenças de veiculação hídrica e, quando o alcançarem, seu trabalho estará cumprido. “Se sobrar um tempo, e se ainda estiver viva até lá, também continuar contribuindo com a sustentabilidade”, complementa. (Mariana Pontes)

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    “Se queremos um futuro melhor, precisamos ser fortes para construí-lo”

    Luana Escamilla, fundadora do Fluxo Sem Tabu, que pauta a conscientização sobre pobreza menstrual e a saúde reprodutiva de mulheres e pessoas que menstruam

    Um documentário alterou a trajetória de Luana Escamilla, 22, quando ainda frequentava o ensino médio. O filme Absorvendo o Tabu, vencedor do Oscar de Melhor Documentário de Curta-Metragem em 2019, acompanha um grupo de ativistas que luta contra o estigma em torno da menstruação em um vilarejo indiano, produzindo e distribuindo absorventes para a população vulnerável. A produção sensibilizou Escamilla, então com 16 anos de idade, para o tema da pobreza menstrual e a inspirou a investigar a dimensão desse problema, que afeta 11,3 milhões de pessoas no Brasil, segundo dados da Unicef. “Vi como a gente tinha uma carência de políticas públicas e de dados, principalmente. É muito difícil resolver problemas sem dados”, comenta a publicitária paulistana.

    A inquietação logo deu lugar à ação: Escamilla criou o projeto Fluxo Sem Tabu, que começou como uma vaquinha online para arrecadação de recursos destinados à compra de absorventes para distribuição gratuita. “​​Quando meu pai voltava do trabalho, íamos juntos ao atacadão (porque eu ainda não tinha idade para dirigir), e eu comprava o estoque inteiro de absorventes da loja”, lembra. Os absorventes eram distribuídos por meio de doações a organizações parceiras. Sua meta inicial era atingir 700 pessoas, mas a iniciativa cresceu de forma inesperada. “Nos dois primeiros anos, já eram 14 mil pessoas impactadas. Foi graças a meninas de 16 anos que estavam assistindo aos conteúdos e começaram a ajudar na divulgação, colando cartazes nas escolas”.

    Hoje, o Fluxo Sem Tabu conta com uma equipe fixa de cerca de 60 voluntários, que organizam atividades para abordar diferentes facetas da pobreza menstrual. O grupo realiza atividades educativas em escolas e empresas, pautando a conscientização sobre a saúde reprodutiva de pessoas que menstruam, com o apoio de uma rede de ginecologistas. Atua também na transformação da infraestrutura, reformando banheiros defeituosos e os equipando com dispensers de absorventes gratuitos e materiais educativos. Há ainda um braço de advocacy no trabalho da organização, que envolve demandar ações do poder público e divulgar à população as políticas que já existem.

    A iniciativa foi reconhecida pelo seu trabalho de comunicação nos TikTok Awards 2023 e ganhou o Prêmio Notáveis CNN Brasil 2022 na categoria Saúde por uma parceria com a empresa P&G. Em 2025, Escamilla palestrou na Universidade Harvard, nos EUA, após ser escolhida como embaixadora da região Sudeste na Brazil Conference, evento organizado por Harvard e o MIT. “Às vezes é difícil se manter otimista, mas ouvimos muitas histórias a partir do nosso trabalho pelo Brasil, e isso dá um ânimo de continuar”, afirma. “Se queremos um futuro melhor, precisamos ser fortes para construí-lo.” (Fredy Alexandrakis)

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    “Quando nos juntamos, criamos a possibilidade de fazer essa revolução”

    Laís Araújo, cofundadora do Xô Plástico, projeto que recolhe lixo acumulado nas praias e manguezais de Recife

    As gêmeas Laís e Laísa Araújo, 29, são conhecidas em Recife como “as meninas do Xô Plástico”, projeto que fundaram para recolher o lixo acumulado nas praias e manguezais da região. “A gente ficou um pouco famosa, só aqui em Recife mesmo”, brinca Laís Araújo, em entrevista a Gama. A iniciativa nasceu em 2018, quando Laís (então com 20 anos) cursava biologia na UPE (Universidade de Pernambuco). Uma pesquisa de iniciação científica sobre os caranguejos do manguezal a confrontou com a realidade da poluição no seu território. Com a ajuda da irmã Laísa, bibliotecária, começou a organizar mutirões de limpeza com voluntários recrutados por meio do Instagram, onde também compartilham dicas para a redução do consumo de plástico. As imagens são impressionantes: uma única força-tarefa do grupo pode resultar na coleta de meia tonelada de resíduo.

    O projeto ganhou visibilidade na imprensa em 2019, quando o maior derramamento de petróleo na história do país atingiu o litoral, chegando primeiro às praias de Paraíba, Sergipe e Pernambuco. Atribuído ao petroleiro grego Boubolina, o desastre ambiental espalhou 5 mil toneladas de óleo cru ao longo de quase 3 mil km da costa brasileira. As meninas do Xô Plástico, articulando uma rede de voluntários, também atuaram na limpeza do resíduo deixado pelo vazamento — atividade arriscada, que demandou o uso de equipamento de proteção contra a toxicidade do petróleo e dos seus gases.

    Com apoio de um edital da prefeitura de Recife, Araújo também desenvolveu a atividade Educa Clima nas escolas da cidade, com o objetivo de ensinar as crianças sobre o impacto ambiental do lixo e das mudanças climáticas. A bióloga criou um jogo para mostrar os efeitos que a crise climática já gera hoje: “Não é algo distante da nossa realidade, algo que está acontecendo só lá na Amazônia. É algo que está acontecendo no nosso território: quando chove, a gente não vai à escola”. Seu desejo é arrecadar recursos para dar continuidade a essa atividade e criar uma nova edição da brincadeira.

    A importância dada à educação e à conscientização acompanha um entendimento sobre a dimensão política do projeto. “Ninguém quer catar plástico no domingo de manhã, mas a gente acredita que essa ação é uma denúncia, uma forma de protesto”, afirma. A bióloga se orgulha especialmente de ter inspirado iniciativas similares em outras regiões do Nordeste, projetos locais criados por pessoas que antes se voluntariaram com o Xô Plástico. “Sozinhos, não conseguimos fazer nada. Eu sei que é difícil. Muitas vezes, a gente pensou em desistir”, confessa. “Mas quando pedimos ajuda e nos juntamos, outras pessoas vão se somando para fazer essa revolução.” (Fredy Alexandrakis)

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    “Desejo um futuro em que nascer em uma periferia não determine o quanto uma pessoa estará exposta à crise climática nem limite as oportunidades que ela terá ao longo da vida”

    Amanda Costa, fundadora do Instituto Perifa Sustentável

    “A minha relação com a justiça climática começou muito antes de eu saber que esse termo existia”, conta Amanda Costa, 28, nativa de Brasilândia, em São Paulo. Quando tinha oito anos, rezava para que a água de uma enchente não entrasse em sua casa. Anos depois, estudando Relações Internacionais, entendeu que aquilo era mais do que um “desastre natural”; eram as desigualdades que deixavam determinados territórios mais vulneráveis a impactos ambientais.

    Nesse momento, decidiu fazer alguma coisa. Em 2019, deu início ao projeto que viria a ser o Instituto Perifa Sustentável. O objetivo era “falar sobre clima a partir da periferia, mas também mostrar que não somos apenas vítimas da crise climática. Somos pessoas que têm conhecimento, propostas e soluções”.

    O Instituto trabalha para construir periferias mais sustentáveis e promover justiça climática, aproximando das pessoas discussões que parecem distantes, mas estão no dia a dia. Os principais trabalhos são feitos a partir da educação climática, da mobilização comunitária e da incidência política. Costa se orgulha da trajetória: “Milhares de jovens já passaram pelas nossas atividades e os vimos entrar em espaços de decisão, participando de conferências climáticas e se reconhecendo como lideranças”.

    “Eu já tive a oportunidade de viver coisas que a Amanda criança da Brasilândia provavelmente nem imaginaria”, diz a Gama. A lista é extensa: estar na Forbes Under 30, palestrar em TEDx, representar a juventude em espaços ligados à ONU. Mas, dentre todas as experiências, dá destaque para a que está vivendo agora na Índia, como uma das selecionadas da Satyarthi Fellowship, com mentoria do vencedor do Nobel da Paz Kailash Satyarthi. 

    Costa deseja um futuro em que “nascer em uma periferia não determine o quanto uma pessoa estará exposta à crise climática nem limite as oportunidades que ela terá ao longo da vida”. Quer ver mais recursos para iniciativas lideradas por jovens, escolas públicas com educação climática de qualidade, periferias com infraestrutura adequada e comunidades participando das decisões que afetam seus próprios territórios. O que mais a motiva é construir pontes entre jovens que têm soluções e espaços onde decisões são tomadas. (Mariana Pontes)

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    “Temos que construir uma visão de futuro coletiva, participativa e plural”

    Sabrina Cabral, fundadora da Ruma, projeto focado na proteção da natureza e da cultura regional

    A cearense Sabrina Cabral, 28, acredita na educação como forma de incentivar o engajamento dos jovens em causas socioambientais e políticas. Sua própria trajetória é um exemplo disso: também conhecida pelo apelido Sany da Peste, Cabral foi criada na periferia de Fortaleza e comenta a importância de programas educacionais da prefeitura, como o Bolsa Jovem, para sua formação como cidadã e ativista. Seu projeto Ruma foi criado com o objetivo de capacitar outros jovens nordestinos a se organizarem em torno da proteção da natureza e da cultura regional. “Já que a educação é a primeira porta de entrada para a reflexão crítica, por que não usar isso para ir além e trabalhar questões como justiça social, direitos humanos e racismo ambiental?”, questiona.

    A iniciativa teve início em 2020, quando Sany tinha 22 anos, a partir de uma pesquisa realizada com o apoio da universidade americana MIT, por meio do programa MIT Solve. “Chegamos à conclusão de que precisávamos de ações num formato de busca ativa”, explica. “No contexto escolar, existe esse esforço de trazer o jovem para dentro da escola e promover o engajamento nos estudos. ​​Partimos de uma mesma perspectiva, mas voltada à inovação social e ao protagonismo juvenil”. A Ruma então passou a promover atividades em três frentes: sensibilização, capacitação e campanhas.

    Um exemplo de sensibilização é a Mostra Biomas, projeto permanente da organização que exibe produções audiovisuais independentes em escolas para promover debates sobre pautas socioambientais. Na frente de capacitação, o projeto LAButa (Laboratório Utopia de Talentos em Ação) oferece orientação para jovens que pensam em empreender ou concorrer a bolsas de estudos e vagas de trabalho. O grupo ainda se dedica a ações de advocacy e já marcou presença em eventos como a 30º Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30).

    Graduanda em engenharia civil, Cabral também fundou a consultoria Sany da Peste, vencedora do Troféu Empreender 2026, premiação anual que homenageia micro e pequenos negócios cearenses. “Todos esses anos, o que me manteve de pé não foi só a minha vontade individual, mas também a troca que eu fazia com outros jovens que passaram pela Ruma”, considera. “Os jovens estão sendo direcionados cada vez mais a um pensamento individualista. É isso que causa o pessimismo, porque nos sentimos isolados. Temos que construir uma visão de futuro coletiva, participativa e plural.”  (Fredy Alexandrakis)

     

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