Qual a sua melhor memória?
Icone para abrir

3

Reportagem

Quem disse que eu não posso gravar tudo?

Nunca se produziram tantas fotos e vídeos como hoje. Mas essa profusão de registros auxilia ou prejudica nossa memória dos acontecimentos? A resposta não é tão óbvia

Fredy Alexandrakis 23 de Agosto de 2026

Quem disse que eu não posso gravar tudo?

Fredy Alexandrakis 23 de Agosto de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Nunca se produziram tantas fotos e vídeos como hoje. Mas essa profusão de registros auxilia ou prejudica nossa memória dos acontecimentos? A resposta não é tão óbvia

Como é aquele ditado? Se eu assisto a um show, mas não faço vídeos para os stories do Instagram, será que aconteceu mesmo? A etiqueta esperada do público durante apresentações musicais virou tópico de debate conforme artistas passam a se queixar do excesso de gravações: ver um mar de smartphones à sua frente se tornou uma experiência comum em grandes shows e festivais. A cantora-compositora americana Phoebe Bridgers se colocou no centro dessa discussão com a turnê do seu terceiro álbum “Lost Weekend”, lançado em 14 de agosto. Quem quiser assistir aos shows, terá de guardar o celular (e qualquer outro equipamento de gravação) em bolsinhas distribuídas para o público.

Não é qualquer bolsinha — são pochetes Yondr, empresa que lidera um setor emergente de serviços para eventos sem celular. Na entrada do evento, o telefone é trancado dentro da bolsa por um lacre magnético que só pode ser aberto por um ímã localizado na saída. A ideia é permitir que as pessoas continuem em posse de seus pertences, mas sem conseguir acessá-los. Foi assim que Bridgers se apresentou no icônico Madison Square Garden, em Nova York, em 4 de junho: uma arena lotada e nenhum celular à vista. Uma experiência imersiva, talvez nostálgica para alguns fãs, mas que deixou outros enfurecidos.

Bridgers enfrentou a ira de comentaristas nas redes sociais. Voaram acusações de capacitismo: o que fazer com os fãs com deficiências ou doenças crônicas, que podem precisar de atendimento emergencial? Outros levantaram possíveis riscos à segurança: e se acontecer um atentado? Ninguém terá acesso ao celular para chamar socorro? As preocupações podem parecer um tanto fatalistas se lembramos que o smartphone é uma adição relativamente recente à experiência de assistir a um show (o primeiro iPhone foi lançado há menos de duas décadas), mas são pontos que podem ser levados em consideração, caso eventos desse tipo continuem ganhando adeptos.

Receba nossos melhores conteúdos por email

Inscreva-se nas nossas newsletters


Obrigada pelo interesse!

Encaminhamos um e-mail de confirmação

No geral, predominou a frustração entre fãs insatisfeitos com um problema generalizado de inflação nos preços de ingressos. O argumento de muitos comentaristas vai pela linha: se eu paguei, tenho o direito de fazer como bem entender e filmar à vontade. “As pessoas gastam centenas, milhares de dólares para assistir aos seus artistas favoritos, e uma parte importante dessa experiência é fazer fotos e vídeos para guardar o evento na memória”, escreveu uma usuária do Twitter/X. (O show de Bridgers no Madison Square Garden, porém, foi beneficente e vendeu ingressos com preços a partir de um dólar.)

Bridgers está longe de ser a única a se incomodar com o uso de celulares em shows: a gravação constante tem inspirado reclamações de artistas tão diversos como a diva pop Madonna, instrumentistas de música erudita e o sertanejo Gustavo Mioto. Celulares têm causado perturbação até no cinema e no teatro. As pessoas têm produzido imagens e vídeos em quantidades inéditas na história humana: uma estimativa da firma de consultoria Rise Above Research calcula que 5,3 bilhões de fotos são tiradas todos os dias no mundo inteiro, chegando a um total de 1,95 trilhão por ano. Mas toda essa gravação ajuda mesmo a “guardar o evento na memória”, como sugerem os seus defensores? A resposta não é tão óbvia e exige dar um passo atrás para entender como funciona a nossa memória.

Quando você filma ou tira foto, sua atenção está se voltando à experiência que você está vivendo? Ou ao enquadramento, à luz, ao áudio?

Gravar auxilia ou prejudica a memória?

“A princípio, essa pergunta parece simples, né?”, comenta Tuíla Felinto, pós-doutoranda que pesquisa memória autobiográfica na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “Porque, sim, gravar ajuda, claro que ajuda. Se você tem uma pista, um registro, isso vai te ajudar a lembrar melhor aquele momento.” Fotos ou vídeos sempre trazem informações mais precisas sobre o passado do que uma lembrança guardada apenas na mente. Mas esse “ganho” na memória vem com as suas contrapartidas.

Diversos estudos já mostraram que pessoas que se ocupam de tirar fotos de um evento tendem a recordar menos detalhes do que aconteceu. Por que isso acontece? Segundo Felinto, a principal razão diz respeito à forma como direcionamos nossa atenção: “Quando você decide que quer filmar ou tirar foto, sua atenção está se voltando a quê? À experiência que você está vivendo? Ou ao enquadramento, à luz, ao áudio?”

Nossa memória não é um registro perfeito dos acontecimentos. Armazenamos algumas informações e esquecemos de outras com base em quais estímulos agiam sobre nós naquele momento, nossas emoções, nossa intenção. “Um exemplo que eu gosto de dar é de como recordamos uma briga que tivemos com alguém. Eu sempre questiono: será que a pessoa falou com essa agressividade toda que você está lembrando? Porque se ela contar a mesma história, ela vai lembrar de forma diferente”, explica a pesquisadora.

Quando revisitamos fotos e vídeos que fizemos durante um show, por exemplo, as imagens ajudam a refrescar nossa memória, mas ainda temos acesso apenas às informações que escolhemos guardar. Ou seja, se você realmente assistiu ao show e sentiu uma conexão emocional com a música, sua recordação ao ver uma foto daquela noite vai ser diferente da lembrança de alguém que ficou o tempo todo operando uma câmera fotográfica.

Outra complicação nessa história: nossas memórias não são estáticas; pelo contrário, elas estão continuamente sendo transformadas e reconstruídas. A ideia senso-comum de como nossa memória funciona é de um arquivo, um HD interno, do qual recuperamos informações. Na verdade, no momento em que recordamos de algo, também estamos sujeitos à influência de novos estímulos e sensações. Nossa memória fica “maleável” no momento da recordação, diz Felinto. Se observamos fotos ou vídeos que fizemos em um show, a informação visual contida nessas imagens — mais vívida do que qualquer lembrança — tende a deixar uma marca sobre nossa memória do evento, que depois volta a ser armazenada com essa modificação: esse processo se chama “reconsolidação”.

É por isso que às vezes é difícil discernir entre nossas lembranças “reais” e as fotos que temos da nossa infância, por exemplo. A imagem passa a se sobrepor a outras informações — auditivas, olfativas, táteis, emocionais — que vão se perdendo com o tempo.

A gente compra mais memória, consome mais memória, mas não necessariamente tem os meios para fazer a gestão de toda essa memória

A importância da memória

Memória é muito mais do que a rememoração de acontecimentos da nossa vida. Ela é o fundamento de quase tudo que fazemos: “Para conseguir falar, eu preciso lembrar o significado das palavras; para andar de bicicleta, preciso ter armazenado quais são os músculos que preciso contrair e relaxar”, explica Felinto.

A memória também é a base do nosso senso de identidade e autocompreensão, que, para existir, depende de um grau de continuidade ao longo do tempo — é impossível determinar “quem somos” sem saber antes quem fomos e o que fizemos. “Você pode dizer: ‘sou uma pessoa do pavio curto’. Mas como você sabe disso? É porque você teve experiências o suficiente para chegar a essa conclusão”, afirma a pesquisadora.

Essa ideia se torna evidente em casos de perda de memória, observada em pessoas com doença de Alzheimer, por exemplo. Junto com as lembranças, elas “começam a perder um pouco a noção de quem são”, diz Felinto. “Daí vem aquela reação de pessoas próximas, parentes e amigos, que pensam: ‘caramba, nem parece mais a pessoa que eu conhecia’.” Considerando o poder que as imagens podem ter de “refrescar” nossa memória, pesquisadores têm experimentado com tecnologias de gravação aplicadas a terapias para casos como esses. Felinto é uma delas: sua pesquisa de doutorado na UFRGS usou imagens captadas por câmeras corporais em treinos de memória para idosos.

Se gravações podem ajudar a recuperar um senso de identidade em casos de perda de memória, elas não poderiam também aprofundar e enriquecer a identidade de pessoas com uma capacidade de memória normal? É o que propõe o filósofo Yannic Kappes em um ensaio para a revista Aeon, incentivando uma ideia pouco ortodoxa, mas talvez não tão distante da nossa realidade atual: que as pessoas gravem absolutamente tudo o que acontece em suas vidas. Mas essa ideia logo esbarra em problemas, alguns dos quais o próprio autor antecipa e tenta contornar no seu texto.

É a coisa mais fácil do mundo você pegar uma pessoa que presenciou um crime e botar na cabeça dela um pedaço de informação que nunca existiu

O papel do esquecimento

Nós queremos mesmo lembrar de tudo que nos ocorre? Essa pergunta inspirou um episódio da série de ficção científica “Black Mirror”, que explora os perigos da tecnologia. O último capítulo da primeira temporada, “The Entire History of You”, é ambientado em um universo no qual as pessoas têm implantes instalados em seus olhos para gravar tudo o que veem. Isso acaba tendo consequências assustadoras que envolvem desde o “roubo” de memórias à dificuldade de deixar para trás acontecimentos dolorosos ou traumáticos.

O esquecimento também tem uma função importante nas nossas vidas, diz Felinto. Nossos cérebros não conseguem lembrar de tudo, e “a seleção do que você lembra (ou não) faz parte do processo de construção da sua identidade”, afirma a pesquisadora. “Se você tenta ‘forçar’ essa integração de mais informações do que você lembraria naturalmente, nem sempre isso vai acrescentar coisas boas, às vezes você está só saturando sua mente.”

Outro problema com a ideia de “gravar tudo” aparece na gestão de todo esse conteúdo: o que seria feito das horas e horas de filmagem que se acumulariam rapidamente com o passar dos dias? O registro visual só têm valor para nossa memória se voltamos a acessá-lo. Se as fotos ficam guardadas em álbuns empoeirados ou perdidas na biblioteca do celular, não servem para recordação. Isso complica a defesa de que fazer fotos de um show ajuda a “gravar o evento na memória”. Um estudo da Samsung mostrou que o público do Reino Unido produz em média 12,5 minutos de vídeo para cada apresentação que frequentam, mas apenas 31% desse conteúdo é revisto depois do evento.

“A gente está sempre buscando mais memória, é uma coisa meio fetichista”, opina Ricardo Pimenta, pesquisador titular do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict). “A gente compra mais memória, consome mais memória, mas não necessariamente tem os meios para fazer a gestão de toda essa memória.” Conforme aponta Kappes em seu ensaio, já existem estudos sobre o uso de inteligência artificial (IA) para cumprir essa função de armazenar, gerir e até narrar os fatos da nossa vida.

Registros do passado (desde fotos e vídeos até anotações em um diário), quando acessados, constituem uma espécie de extensão da nossa memória biológica, formando uma “memória prostética”. Nesse sentido, a IA pode ter aplicações no combate à perda de memória, mas Pimenta questiona o uso irrefletido dessas tecnologias. “O uso da IA não é um problema em si. O problema é a gente se render completamente a essa grande prótese”, considera. Se sempre terceirizamos funções cognitivas às máquinas, a tendência é de enfraquecermos nossa própria capacidade cognitiva, criando uma dependência. “Esse recurso pode funcionar para mim hoje, mas eu não sei o dia de amanhã. Porque esse recurso só é meu enquanto estou pagando a assinatura”, alerta o pesquisador.

Não podemos esperar o problema surgir. O debate ético tem que estar na base da construção desses aparelhos

Por que queremos gravar tudo?

Quem mais tem a ganhar com essa profusão de imagens sendo produzidas todos os dias são as próprias empresas de tecnologia cujos produtos têm tornado a gravação cada vez mais fácil. Pense nos smart glasses, que hoje ganham popularidade, apesar de receios sobre riscos à privacidade: esses “óculos inteligentes” permitem filmar sem sequer usar as mãos ou fazer qualquer esforço. As gravações feitas com um óculos da Meta, líder desse novo mercado, são então usadas pela empresa para treinar seus serviços de IA.

Alguns pesquisadores consideram esse processo uma forma de “colonialismo de dados”: “Se a América Latina e a África, por exemplo, foram um dia exploradas para extrair ouro e tantas outras coisas, hoje os dados são a grande matéria-prima usada pelas empresas do acrônimo GAFAMI [Google, Apple, Facebook (Meta), Amazon, Microsoft e IBM], que colonizam o nosso mundo”, afirma Pimenta.

Os smart glasses da Meta foram apelidados na internet de “óculos de tarado” devido à quantidade de relatos que já surgiram de pessoas sendo filmadas sem permissão por usuários dessa tecnologia — mulheres, em especial, são alvo de assédio. “O que será feito com esse vídeo? Vai ser usado para produzir deepfake?”, questiona o pesquisador. As mesmas gravações que alimentam o aprendizado da IA podem ser usadas para criar vídeos e imagens falsas com a ajuda da IA. Tendo em vista a força de sugestão que imagens podem ter sobre a nossa memória, existe um risco real de criação de memórias falsas, inspiradas em conteúdos produzidos por IA, em especial no contexto de testemunhos que apoiam investigações criminais e julgamentos. “É a coisa mais fácil do mundo você pegar uma pessoa que presenciou um crime e botar na cabeça dela um pedaço de informação que nunca existiu”, afirma Tuíla Felinto.

Na nossa cultura do consumo, é natural que as pessoas se atraiam pelas possibilidades proporcionadas por novos produtos e tecnologias, considera Pimenta. Mas existe um “descompasso” entre a velocidade com que essas tecnologias são desenvolvidas e a avaliação de suas consequências. “Não podemos esperar o problema surgir”, afirma. “O debate ético tem que estar na base da construção desses aparelhos”.

Um assunto a cada sete dias