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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

Nossas memórias estão cada vez menos coletivas?

Numa realidade fragmentada pelas redes e o uso da IA, especialistas apontam que nossas memórias hoje mais nos afastam do que nos unem

Leonardo Neiva 23 de Agosto de 2026

Nossas memórias estão cada vez menos coletivas?

Leonardo Neiva 23 de Agosto de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Numa realidade fragmentada pelas redes e o uso da IA, especialistas apontam que nossas memórias hoje mais nos afastam do que nos unem

Um presidente do Brasil que faz cooper e usa gel no cabelo. Uma ministra da Fazenda que anuncia o confisco da poupança. Crianças indígenas contaminadas por mercúrio. As vozes de cantores, dos ícones do sertanejo e do pagode dos anos 1990 a Ivete Sangalo, Mano Brown e Cássia Eller. É com muitas dessas memórias visuais e auditivas que o sociólogo e escritor José Henrique Bortoluci, autor de “O Que É Meu” (Fósforo, 2023), inicia seu livro mais recente, “Geração Democracia” (idem, 2026).

A obra recorre às memórias compartilhadas por toda uma geração de brasileiros nascidos em meados dos anos 1980, sob a promessa da democracia e de uma sociedade mais justa. “Fazer parte de uma geração em um mesmo país é também compartilhar alguns desses momentos e objetos de memória relevantes que, em muitos casos, atravessam a maior parte das diferenças”, afirma Bortoluci em entrevista a Gama.

E essas diferenças — de ordem socioeconômica, regional, de gênero, raça etc. — são muitas, ainda mais em um país com o nível de desigualdade do Brasil. No livro, o autor reforça esse caráter múltiplo e bastante amplo de pontos de vista ao traçar um contraste entre essa memória coletiva de uma época e uma cacofonia de vozes que reverberam essas mesmas imagens: a visão de uma arquiteta e militante de esquerda, de um missionário evangélico saído do crime, de um cantor sertanejo que tenta fazer sucesso nas redes sociais, entre vários outros.

Apesar das diferenças, para boa parte dessas pessoas que passaram a infância e a juventude nas últimas décadas do século 20, o acesso à informação chegava por uma lista restrita de canais: o rádio, os jornais, o cinema e, principalmente, a TV aberta. Foi pela tela de milhões de televisores que, como lembra Bortoluci, toda uma geração assistiu, em 1994, ao acidente que matou Ayrton Senna, e torceu pela seleção brasileira na conquista do tetra. Ou havia acompanhado, dois anos antes, as manifestações dos jovens Caras-Pintadas pelo impeachment de Collor.

“Mesmo quem não tinha tanto interesse por política lembra um pouco das imagens de uma certa convulsão social na TV. Por ter começado a usar a internet só depois dos 13 ou 14 anos, minha geração tem uma memória compartilhada da infância e do começo da adolescência muito marcada pela televisão”, afirma o sociólogo.

Por ter começado a usar a internet só depois dos 13 ou 14 anos, minha geração [nascida nos anos 80] tem uma memória compartilhada da infância e do começo da adolescência muito marcada pela televisão

Essa realidade, claro, mudou e ainda vem se transformando de forma rápida e profunda desde a chegada do novo milênio. Por um lado, estimativas de ibope apontam que a TV aberta perdeu quase metade do público só nas primeiras duas décadas do século atual. Por outro, há o avanço da internet, das redes sociais, dos streamings e, mais recentemente, da inteligência artificial. Essa experiência muitas vezes coletiva, portanto, passou a ser vivida de forma cada vez mais pulverizada.

“Quando a gente tem o digital permeando tantos espaços, acaba recebendo informações demais, e as memórias vão se tornando menos coletivas e mais fragmentadas”, aponta a professora de comunicação da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) Raquel Recuero, pesquisadora de mídia, discurso e análise nas redes sociais. O que a internet faz hoje, segundo a especialista, é ampliar ao máximo a quebra de muitas dessas informações em subgrupos de interesse — que passam a sensação falsa de que se trata de uma experiência ampla um movimento, na verdade, bastante restrito.

O psicanalista Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da USP, aponta uma transformação na própria estrutura da nossa memória, em geral construída a partir das pessoas, dos objetos e dos espaços ao nosso redor, assim como das grandes rupturas e dos desejos que nos movem. “Essas características básicas do processo da memória são afetadas por uma nova experiência de tempo, trazida pela aceleração não só da internet, mas dos processos produtivos, da hiperconectividade, do aumento exponencial da informação e da hiperestimulação.” E, se está cada vez mais difícil formular sua própria experiência de vida, isso se amplia quando falamos de uma memória familiar, comunitária ou social, ele afirma.

Os espaços e a localização geográfica, fator citado por Dunker, é um dos que perdem a centralidade com a internet e as redes, segundo Recuero. Seria o caso de um grupo hipotético de fãs de K-pop. “Então, a pessoa começa a construir memórias coletivas baseadas não mais no espaço geográfico, mas na sua percepção identitária. Num fandom de K-pop, por exemplo, essa memória tem a ver com a forma como aquelas pessoas se percebem e como se inserem numa determinada comunidade.”

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Quando a gente tem o digital permeando tantos espaços, acaba recebendo informações demais, e as memórias vão se tornando menos coletivas e mais fragmentadas

O cérebro das redes

O próprio conceito de memória coletiva está profundamente enraizado no século 20 e na revolução que ele significou para as telecomunicações. Criado pelo sociólogo francês Maurice Halbwachs (1877-1945), o termo traduz a ideia de que nossas lembranças não são isoladas, e sim compartilhadas com grupos específicos: a família, uma comunidade, uma classe social, e por aí vai.

O cinema ainda hoje gera filmes que viram fenômenos de público, mas, na era do streaming, você se lembra da última série cujos episódios todo mundo assistiu praticamente ao mesmo tempo? Até mesmo grandes eventos, como a última Copa do Mundo, são assistidos de maneiras diferentes, acompanhados por alguns mais por meio de posts e memes nas redes do que pelos jogos na TV.

Nesses casos, nossas memórias não estão deixando de ser coletivas. Elas só passaram a ser compartilhadas por grupos de pessoas cada vez menores e mais “nichados”. De um ponto de vista histórico, aliás, a memória social sempre foi fragmentada, segundo o historiador Alesson Rota, pesquisador da história digital. “A memória social, a memória que nós vivemos tanto no nível cognitivo como social, é esfacelada. E a internet é um fenômeno social.” Hoje, afirma, cabe às instituições públicas armanezar e gerir boa parte dessas memórias que tenham interesse histórico.

Nas redes, essas lembranças já integram uma lógica contemporânea de organização de conteúdo: a da plataformização. É o que aponta um estudo recente sobre memória coletiva e mídias sociais realizado por pesquisadores dos Países Baixos e da Bélgica.

“Significa que nosso passado não é apenas armazenado, e sim ativa e continuamente (re)moldado pelas infraestruturas e lógicas dessas plataformas digitais”, aponta o estudo. Ou seja, a maneira como acessamos e organizamos essas memórias está cada vez mais na mão das big techs que comandam essas plataformas. “Isso envolve a forma como as memórias são arquivadas, como diversos traços digitais são reunidos em novas narrativas e como as memórias podem se tornar efêmeras ou mercantilizadas, tudo sujeito à governança e aos interesses comerciais das plataformas.”

Nas principais redes, segundo Recuero, o conteúdo que chega até nós não tem necessariamente a ver com nossos gostos pessoais, mas com a programação do algoritmo. “Ele vai filtrar o conteúdo para tentar me mostrar, primeiro, aquilo que é anúncio, e segundo, o que acha que eu preciso receber para ficar mais tempo conectada vendo anúncios”, explica a pesquisadora.

Mem(e)ória

Entre outros problemas, isso pode gerar no público uma distorção na leitura daquilo que está acontecendo no mundo e da visão das pessoas sobre aquilo. Imagine um debate contemporâneo que esteja movimentando a opinião pública de forma bastante divisiva. Nas suas redes, o mais provável é que você acabe sendo exposto a muito mais comentários que vão de encontro à sua opinião pessoal do que àqueles que caminham na direção contrária.

O mesmo vale para o debate em torno de uma eleição ou um grande evento com contornos políticos, como os ataques do 8 de janeiro em Brasília, que teve uma repercussão muito mais ampla e multifacetada do que cada bolha pessoal faz crer. “Isso interfere totalmente no modo como eu percebo e vou me lembrar de um fato. Então, os algoritmos têm um papel gigante em moldar a memória coletiva“, declara Recuero.

Isso interfere totalmente no modo como eu percebo e vou me lembrar de um fato. Então, os algoritmos têm um papel gigante em moldar a memória coletiva

Para além desse fenômeno, as redes também criam novas formas de organização da memória coletiva, como o agrupamento de imagens e posts por hashtags e até os próprios memes. Estes últimos “funcionam como ‘agentes da memória vernacular’ e ‘objetos memoriais’ que democratizam narrativas históricas — mas também propagam certas narrativas ideológicas específicas”, descreve o estudo sobre o tema.

É o que acontece quando usuários de extrema direita criam memes que “revertem os papéis entre perpetrador e vítima” de alguma situação, buscando solidificar memórias alternativas sobre os fatos cotidianos. Então, embora tragam à tona novos mecanismos de memória, as novas tecnologias também “levantam questões sobre autenticidade, acesso e poder”, conclui o trabalho — questionamentos cada vez mais relevantes com o rápido avanço de textos e imagens criados por IA.

Saudades do que não vivemos

Se você era criança no dia 11 de setembro de 2001, talvez ainda se lembre daquele momento em que o plantão da TV Globo interrompeu a transmissão do desenho “Dragon Ball Z”. Essa memória que vem quentinha à sua mente, por mais vívida que pareça, é 100% falsa. A emissora não estava transmitindo o desenho quando chegaram as primeiras notícias do atentado — e, ainda assim, a lembrança foi compartilhada por milhares de brasileiros.

Memórias coletivas falsas como essa foram apelidadas de “Efeito Mandela”, por conta das inúmeras pessoas que achavam que o líder sul-africano tinha morrido na prisão nos anos 1980. Na verdade, ele foi libertado em 1990 e viraria presidente do país quatro anos depois. A ciência dá a esse fenômeno misterioso uma explicação simples: quando o cérebro não se lembra de algo, ele acaba preenchendo o vazio com informações lógicas, mas muitas vezes enganosas. E, se essa informação é repetida por um número razoável de pessoas, pode até ganhar contornos de realidade.

Mas será que, na era das imagens de IA e dos deepfakes, memórias coletivas falsas se tornarão cada vez mais comuns? A princípio, Dunker explica, é possível inocular informações falsas para preencher lacunas na nossa memória. “Isso tem um poder ideológico tremendo. São técnicas que não funcionam da mesma forma para todo mundo, mas que permitem que a gente crie histórias de vida, de povos e de comunidades, forçando as memórias a se adequarem a essas histórias.” Esse processo, segundo o psicanalista, pode ter a ver com a produção cultural, em livros, filmes, peças de teatro, num sentido mais restaurativo, mas também pode ser usado “na produção de afetos políticos, morais e religiosos.” “Então, as nossas formas de lembrar estão sujeitas a essa disputa, a essas políticas diferentes de memória”, afirma.

“Hoje, muitos já creem em narrativas frequentemente reforçadas que trazem desinformação ou são pura mentira”, considera Recuero. É com isso que surgem “discursos completamente antagônicos sobre um mesmo fato” e retornam ideias antigas a exemplo da resistência à vacinação, que “vem gerando problemas como o recente surto de sarampo em São Paulo“, afirma a pesquisadora.

Uma ferramenta ainda pouco conhecida de combate à distorção dos fatos e à criação de memórias falsas é a história pública, área recente cujo objetivo é levar o ensino e aprendizado da nossa história para fora dos muros da universidade — e, eventualmente, disputar espaços em locais dominados pela desinformação. “Nesses últimos 40 anos, a gente teve um amadurecimento desse debateaté ela se tornar disciplina de concurso público. Daqui a alguns anos, a gente vai ter até professor titular em história pública”, conta o historiador Alesson Rota. “Ainda existe essa dificuldade de se comunicar com o público. Precisamos disputar o espaço em plataformas como o Instagram e também criar ferramentas alternativas de difusão da história.”

Ao refletir sobre a realidade atual, Bortoluci evita uma visão nostálgica da suposta unificação do Brasil antes trazida pela TV, também uma forma de controlar a informação. “Isso já existia na Rede Globo, na ditadura militar, nas novelas, na ideia de que o Jornal Nacional era assistido por todos os brasileiros”, evoca o sociólogo. “O compartilhamento de referências comuns traz uma artificialidade. Então, a pulverização dessas referências não é necessariamente ruim.”

Uma das principais preocupações, segundo ele, é que, politicamente, essa fragmentação pode ser mais realista, mas também dificultar a construção de narrativas e de uma visão mais clara para o futuro do país. “As campanhas pelo petróleo, em gerações muito anteriores às nossas, criavam imagens que pareciam ser da construção de uma nação. Hoje, a discussão sobre o petróleo na Foz do Amazonas é muito mais fragmentária. Ela não mobiliza o público — e nem acho que deveria mobilizar.”

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