Qual a sua melhor memória?

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Bloco de notas

Livros que abrem o baú da memória

Uma seleção de autores que trazem lembranças transformadoras como mote para a escrita

Livros que abrem o baú da memória

23 de Agosto de 2026

Uma seleção de autores que trazem lembranças transformadoras como mote para a escrita

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    Carlos, tomado pela noção de que a morte o ronda, escreve em seu diário anotações sobre os dolorosos procedimentos médicos na luta contra o câncer — diário que, na verdade, o autor toma emprestado do próprio pai, o contista Antonio Carlos Viana. “Apesar dos Meus Ossos Roídos” (Todavia, 2026) marca o retorno de André Viana, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura por “O Doente” (Cosac & Naify, 2014), à ficção. Na trama, estamos com o professor aposentado de literatura nas quimioterapias, nos exames, nos implantes e nos jejuns. Mas também nas idas ao cinema, nas compras de mercado, nos encontros com amigos e com amantes. Quando debilitado demais, quem assume a narrativa são a cuidadora e a filha. Mesmo assim, é essa proximidade com o fim que lhe injeta vitalidade, ainda que não com desejos e animação característicos de sua juventude.

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    “Eu estou viva. Meu marido, Paul Auster, está morto. Ele morreu no dia 30 de abril de 2024 às 18h58, aqui, na casa do Brooklyn onde agora escrevo estas palavras.” É assim que Siri Hustvedt abre “Histórias de Fantasmas” (Companhia das Letras, 2026, R$ 89,90, trad. Ana Guadalupe), um ensaio sobre as quatro décadas que passou ao lado de seu companheiro, também escritor. Com o lançamento para o final de setembro, o livro trata das memórias como um olhar atento para as coisas que ficam na ausência de alguém que amamos: o cheiro dos charutos, os cartões com a letra de Auster, o seu nome num talão de cheque. A narrativa é baseada em diários da autora enquanto acompanhava o câncer agressivo do marido, em e-mails e cartas trocados ao longo dos anos, e nas páginas inacabadas de Auster destinadas ao neto recém-nascido.

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    “O Ano do Pensamento Mágico” (HarperCollins, 2021, trad. Marina Vargas), um relato pessoal de Joan Didion que demonstra como a vida que conhecemos pode mudar em um instante. Após ela e o marido visitarem sua única filha, internada depois de uma pneumonia seguida por um choque séptico, o jantar do casal é interrompido: o escritor e diretor John Gregory Dunne sofre um infarto, encerrando os quarenta anos de parceria entre ele e a autora. O livro trata dos 12 meses que seguiram a morte de Dunne, assim como acompanha a frágil saúde da filha. Finalista do Prêmio Pulitzer, virou referência no tema de luto, desafiando qualquer leitor a não se emocionar.

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    Qual a linha que separa o amor e a obsessão pela profissão? Lena Dunham, aos 25 anos, pulava entre o set da série “Girls” (2012-2017) — em que era produtora, escritora, diretora e protagonista —, o tapete do Met Gala, a Casa Branca e o escritório de sua assessoria de imprensa. Enquanto isso, também passava horas nas salas de espera de consultórios para o tratamento de sua endometriose. Em “Doente de Fama” (Record, 2026, trad. Camila von Holdefer), a cineasta e atriz revela os bastidores da vida sob holofotes, questionando francamente o caminho que ela mesma percorreu para alcançar seus objetivos.

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    Didi, apelido do pai de José Henrique Bortoluci, foi caminhoneiro por 50 anos e desbravou o Norte do país. A partir de entrevistas para acessar essas memórias, o sociólogo e professor consegue traçar a história de sua família ao mesmo tempo que a do Brasil. No livro “O Que É Meu” (Fósforo, 2023), referências literárias e reflexões do país se misturam com os depoimentos do pai e seus colegas, cidadãos comuns. Foram eles quem vivenciaram a ditadura militar, a construção da Rodovia Transamazônica e o “progresso” que, violentamente, abria caminho rumo ao interior do país — olhares para uma meditação sobre o passado e o presente brasileiros.

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    Sobrevivente da perseguição do nazismo e campeã mundial de natação aos 90 anos, Nora Rónai faz uma cronologia da sua história em “O Desenho do Tempo” (Bazar do Tempo, 2020). Ao sair de sua cidade natal, hoje pertencente à Croácia, Nora chega ao Rio de Janeiro e aqui reconstrói uma vida de altos e baixos. Foi atleta de saltos ornamentais e se formou em arquitetura na atual UFRJ. No mesmo ano que conseguiu seu diploma, perdeu sua mãe e, posteriormente, o irmão. Retorna, em 1964, à Europa, junto com seu marido, também refugiado da guerra. Toda a história de sua autobiografia parte de lembranças e de diários de viagem, em que a autora compartilha como ela vê o mundo.

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    Rob Packer, quando criança, escutava no rádio os boletins meteorológicos para navios transmitidos pela BBC. O poeta retorna a eles no livro “A Previsão do Tempo para Navios” (Círculo de Poemas, 2022), em que trabalha com a transcrição e a tradução deles. Os versos são a mescla entre a história coletiva e as memórias individuais do autor, que esteve sempre em constante deslocamento geográfico. Pouco a pouco, a obra chega também a reflexões sobre a própria existência e o colonialismo inglês.

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    Quando Emmanuel Carrère e suas duas irmãs se reuniam em torno da mãe, diziam estar brincando de “Colcoz” (Alfaguara, 2026, trad. Mariana Delfini) — palavra que se refere às fazendas coletivas soviéticas. Livro mais íntimo do autor até o momento, mescla história russa e francesa com mais de um século de memórias de quatro gerações. O autor parte do funeral da mãe, renomada historiadora com quem teve uma relação conturbada, para revisitar arquivos, cartas e fotografias do pai, construindo um apaixonado retrato familiar. O relato de autoficção registra a trajetória de Hélène Carrère d’Encausse, sua mãe, em meio a lembranças, reviravoltas, segredos e geopolítica.

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    Mais de 70 anos de uma vida assumidamente gay e apaixonada pelo amor estão no mais recente livro de Edmund White, publicado poucos meses antes de sua morte. “Os Amores da Minha Vida” (Companhia das Letras, 2026, 216 págs., R$ 79,90, trad. Luciano Brito) fala exatamente disso: das aventuras sexuais, sejam elas as duradouras ou as fugazes, que formam um retrato de liberdade e de desejo. O escritor americano vivenciou, como autor e testemunha, a repressão dos anos 1950 e a liberdade pós-Stonewall, assim como a epidemia de aids e a conquista por direitos civis igualitários. A vida queer na segunda metade do século 20 é assunto no livro, trazida a partir das intimidades do autor.

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    Na Guadalupe dos anos 1940 e 1950, em um ambiente burguês, era desaconselhado falar a língua local, chorar diante de um cadáver e comentar sobre um divórcio da família. No ambiente doméstico, contaminado pelo cenário de fora, a pequena Maryse Condé segue pelo caminho da rebelião, contrastando com a severidade da mãe e a discrição do pai. A escritora usa suas memórias de infância e do início da adolescência como ponto de partida para “O Que Chora e Que Ri” (Bazar do Tempo, 2022, trad. Heloisa Moreira), desde seu escape pela imaginação até sua autodescoberta como negra. Ao fim, o retrato de sua formação pessoal mostra também o reencontro da autora com o amor familiar.

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