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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

Que tipo de corredor você é: freestyle ou "planilheiro"?

Entre correr livremente e seguir uma planilha de treinos, especialistas explicam como equilibrar prazer, evolução e prevenção de lesões na corrida de rua

Ana Elisa Faria 25 de Janeiro de 2026

Que tipo de corredor você é: freestyle ou “planilheiro”?

Ana Elisa Faria 25 de Janeiro de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Entre correr livremente e seguir uma planilha de treinos, especialistas explicam como equilibrar prazer, evolução e prevenção de lesões na corrida de rua

Nas manhãs de um domingo qualquer, as ruas das cidades são tomadas por gente correndo. Não a correria comum dos dias de trabalho, mas a corrida como escolha, para exercitar o corpo e acalmar a mente. Tem quem passe rápido e silencioso, quem vá conversando em dupla, quem pare para se alongar no semáforo, quem intercale trote e caminhada. Para alguns, correr significa liberdade; para outros, método. É nesse cenário que dois personagens bem conhecidos do asfalto aparecem.

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De um lado, quem corre de forma mais livre, sem tanta preocupação tempo, metas e com o pace — ritmo médio que se leva para percorrer um quilômetro. Do outro, quem segue uma planilha de treino, cumpre intervalos, faz longões, controla carga e persegue uma evolução mensurável.

Na prática, pouca gente cabe integralmente em um único rótulo. Há épocas em que a corrida serve como válvula de escape, assim como há períodos que o esporte vira projeto, disciplina e objetivo. O que muda é o peso que cada pessoa dá à performance e o quanto a estrutura entra para organizar a rotina.

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Segundo especialistas, não existe um jeito certo e um errado, mas, sim, o modo mais sustentável para o momento. Pensando nisso, quatro profissionais da área ouvidos pela Gama ajudam a entender os benefícios e os riscos do freestyle e do “planilheiro”, e o que fazer para correr melhor com mais saúde.

Corra, livre, corra

Para César Augusto de Oliveira, educador físico e sócio da MPR – Assessoria Esportiva, o freestyle costuma ser a porta de entrada para o universo da corrida. “Muitas vezes, é a forma de iniciar no esporte”, diz, lembrando que grupos e encontros com amigos no parque, por exemplo, podem ser um gatilho importante de adesão à prática. “A pessoa vai conhecer gente, bater papo e, ao mesmo tempo, se exercitar.”

Vimos a classificação geral e falamos: ‘A gente é muito ruim nisso. Somos inimigos do pace’

Esse é exatamente o espírito que guiou a criação da comunidade Inimigos do Pace, fundada em dezembro de 2023 por Gabriel Passos. Ele conta que tudo começou como uma piada interna após uma prova em que a sua turma se viu longe das primeiras posições. “Vimos a classificação geral e falamos: ‘A gente é muito ruim nisso. Somos inimigos do pace’”.

A partir daí, a corrida virou desculpa para estar junto, “acordar cedo no domingo, tomar um bom café da manhã depois do treino” e, sobretudo, para “pensar novas rotas de vida”. “Hoje, a gente cria eventos para correr na direção oposta à pressão por resultados”, afirma.

Nesse contexto, o freestyle tem vantagens claras para quem busca consistência, prazer e bem-estar. De acordo com César Augusto de Oliveira, se o objetivo é correr 20 ou 30 minutos algumas vezes na semana para se manter saudável, sem cobrança de tempo, o estilo “é ótimo, não tem problema”.

Se o objetivo é correr 20 ou 30 minutos algumas vezes na semana para se manter saudável, sem cobrança de tempo, o freestyle é ótimo

Passos defende que, para muita gente, a motivação de sair correndo por aí é social. “No ano passado, usei bastante o termo saúde social”, comenta, descrevendo os encontros para correr como uma atividade de acolhimento e conexão, algo muito procurado no pós-pandemia. “A galera quer socializar. Não é somente a saúde mental que importa.”

O criador da Inimigos do Pace assinala ainda que, na comunidade, há um equilíbrio entre corredores livres e “planilheiros”. “Temos participantes que têm a performance como foco, mas nos nossos eventos eles vão com o propósito da socialização, assim como aqueles que têm a corrida como lifestyle”, pontua.

A turma da planilha

Do outro lado dessa grande pista de atletas amadores estão os chamados “planilheiros”, apelido dado a quem corre seguindo um plano de treinamento com constância e variedade e, muitas vezes, conta com o apoio de uma assessoria esportiva.

Adriano Bastos, ex-maratonista profissional e treinador, ressalta que buscar uma planilha não significa, obrigatoriamente, obsessão por resultados. “Tenho muitos alunos que procuram a assessoria apenas com o intuito de ter uma orientação mais adequada à rotina de treino e evitar lesões”, pondera.

A planilha, nesse caso, organiza a semana com coerência de estímulos. Bastos descreve a lógica do treino bem distribuído, com “o dia apropriado para fazer o treino de intensidade, com mais velocidade, o dia indicado para o treino longo” e também os dias fáceis e regenerativos, que sustentam a evolução ao longo do tempo.

Tenho muitos alunos que procuram a assessoria com o intuito de ter uma orientação mais adequada à rotina de treino e evitar lesões

E há um componente psicológico importante. “No momento em que a pessoa tem uma planilha, ela cria um compromisso”, observa o treinador. Quando o objetivo é uma prova específica, a planilha funciona como bússola, especialmente naqueles dias em que a vontade de correr, ou de fazer qualquer tipo de exercício físico, é baixa, mas a consistência faz diferença.

Onde cada perfil costuma tropeçar

O freestyle perde a “inocência” quando vira uma busca disfarçada por melhor desempenho. César Augusto de Oliveira, da MPR, resume esse ponto. “O problema começa quando há uma mistura do que é diversão com performance.” Conforme orienta, se a pessoa quer evoluir em ritmo, distância ou até na composição corporal, “é necessário o acompanhamento de um profissional da área de educação física e também da área médica”.

Bastos analisa que, no improviso, o risco é errar na dose. Ele descreve um padrão comum: um dia a pessoa corre oito quilômetros, no outro, tenta 21, sem preparo gradual. “Vejo muita gente se lesionando demais”, diz. E cita um exemplo extremo que se repete no auge do calendário de provas. “A pessoa não tem noção do que é estar em uma maratona e fica lá seis, sete horas, se arrastando, simplesmente porque se enfiou em um desafio que ela não estava preparada.”

Já o “planilheiro” tende a tropeçar quando transforma organização em rigidez. A médica do esporte e ortopedista Ana Paula Simões, diretora da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte, lembra que o corpo responde ao estímulo, não a um arquivo. “A planilha é apenas um meio de organizar a carga [semanal de treinos]”, explica.

Ela lista padrões diferentes de risco. No corredor “planilheiro”, aparecem mais lesões por sobrecarga crônica, como tendinopatias e fraturas por estresse, principalmente quando há metas rígidas e insistência em treinar mesmo com sinais precoces de fadiga. No freestyle, surgem lesões ligadas à variabilidade mal dosada, com picos de intensidade e mudanças de terreno em dias consecutivos. “O planilheiro erra por excesso de controle rígido; o freestyle erra por falta de leitura da carga total”, resume.

O alerta principal, para ambos, está na gestão de carga. “Não é o volume absoluto que machuca, é a variação rápida”, avalia Simões.

Como correr melhor em qualquer estilo

A boa notícia é que há um caminho de equilíbrio entre os dois estilos de correr. “Estrutura não significa rigidez. Significa limite, para preservar a saúde do atleta”, fala a doutora Ana Paula Simões. “Não existe dicotomia real entre freestyle e planilha, o que existe é gestão de carga bem-feita ou malfeita.”

Não existe dicotomia real entre freestyle e planilha; existe gestão de carga bem-feita ou malfeita

César Augusto de Oliveira reforça que o acompanhamento médico, com check-up anual, e treino de força entram como base, independentemente do perfil. O profissional sugere exames regulares e lembra que o fortalecimento ganha peso com o tempo. “A partir dos 40 anos, o trabalho muscular se faz mais importante ainda.”

A seguir, algumas recomendações práticas para fãs do freestyle e das planilhas, com foco em corrida de rua, prevenção de lesões e evolução sustentável.

Se você corre no freestyle

  • Crie uma estrutura mínima, sem engessar: mantenha dias fixos para correr e alterne estímulos simples, como um dia leve e um dia um pouco mais forte, mesmo sem planilha formal.
  • Evite picos de carga: não transforme o domingo em “longão heroico” se a semana foi curta. Progressão é mais segura do que saltos.
  • Use a corrida a favor da adesão: grupos e comunidades podem ser o motor da consistência. A corrida também pode ser um estilo de vida, não só um objetivo.

Se você é do time da planilha

  • Faça dos treinos fáceis uma regra, não um prêmio: recuperação é parte do treino, e não sinal de fraqueza.
  • Ajuste a planilha à vida real: sono ruim, estresse e dor persistente pedem recalibração. “Dor persistente não é uma ‘fraqueza mental’, trata-se de informação biológica”, elucida Ana Paula Simões.
  • Não confunda disciplina com teimosia: se a meta está exigindo que você ignore sinais do corpo, a estrutura perdeu a função.

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