Por que é tão difícil se separar?
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Ilustração de Isabela Durão

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5 dicas

Como lidar com casais em crise

Da presença acolhedora à construção de limites, cinco estratégias para ser um bom amigo de quem enfrenta problemas no relacionamento amoroso

Sarah Kelly 01 de Fevereiro de 2026

Como lidar com casais em crise

Sarah Kelly 01 de Fevereiro de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Da presença acolhedora à construção de limites, cinco estratégias para ser um bom amigo de quem enfrenta problemas no relacionamento amoroso

Não é incomum que um casal demore muito tempo para se separar ou para dar fim a um ciclo de conflitos repetitivos. Dependência econômica, presença de filhos, responsabilidades familiares e até mesmo problemas de moradia são alguns dos fatores que pesam na hora de manter uma relação, mesmo que insatisfatória.

Existem também questões inconscientes, segundo a psicanalista e terapeuta de casal Liliana Emparan: “Muitas vezes, as pessoas não sabem por que estão juntas ou por que querem se separar, sentindo apenas um desgaste, diz. “Para se separar, é preciso ter clareza sobre por que essa relação foi escolhida e se o que motivou a união ainda corresponde ao que se vive hoje.”

Por mais que o casal tente esconder a crise, a tensão acaba respingando e sendo percebida por quem está ao redor. Isso porque o amor é um evento público, como defende o pesquisador e precursor da Comunicação Não-Violenta no Brasil, Dominic Barter. Embora tenha elementos privados, a relação acontece em um meio comunitário e, para sobreviver, precisa de suporte emocional — muitas vezes encontrado nos amigos.

“Esperar que casais resolvam todos os seus assuntos de uma forma enclausurada, sem que os outros saibam, ignora a sociabilidade humana e a necessidade de receber o apoio de um contexto coletivo”, diz.

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A psicanalista e documentarista Ingrid Gerolimich aponta que em momentos difíceis do relacionamento, alguém que vê a situação de fora pode ser a fonte de lucidez necessária para ajudar na organização emocional. “A presença e o apoio emocional dos amigos são cruciais para a pessoa não se sentir solitária, o que é um fator que muitas vezes impede as mulheres de se separarem.” Mas não é fácil estar nessa posição: é preciso saber navegar entre o apoio e a intrusão e saber quando aconselhar ou apenas escutar, por exemplo.

A partir da conversa com especialistas, Gama reuniu cinco caminhos para lidar com aquele amigo que traz reclamações repetitivas sobre um relacionamento em crise, de forma acolhedora — sem se sobrecarregar no processo.

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    Entenda que você não vai salvar ninguém. Seu papel é escutar e apoiar — não ser juiz ou terapeuta –
    A primeira dica é fazer um trabalho interno de reconhecer o que está dentro e o que está fora do seu controle. Em uma relação de carinho, é normal tentar evitar o sofrimento do outro, mas nem sempre é possível (ou saudável) assumir tamanha responsabilidade. “É essencial cortar essa expectativa para evitar a culpa por não conseguir resolver a situação”, sugere Gerolimich, também autora de “Para Revolucionar o Amor” (Claraboia, 2024). Doutora em psicologia clínica e coordenadora do projeto Ponte, de atendimento psicanalítico para imigrantes, Liliana Emparan observa que casos em que uma terceira pessoa tem implicação excessiva, com opiniões e intervenções muito estreitas na rotina do casal, podem levar à perda da amizade. “A ideia é escutar o desabafo do amigo e acolher, deixando claro que você não vai tomar partido. Talvez nem a própria pessoa entenda direito os motivos do conflito: ela traz o que é manifesto, mas existe sempre algo latente, às vezes inconsciente, e fica mais difícil ainda de você opinar sobre isso”, pontua. Ainda assim, é preciso agir com equilíbrio. “Quando uma relação entra em crise, muitas vezes é porque a sinceridade começou a faltar. E o amigo, a comunidade em volta, pode ser justamente a fonte dessa sinceridade que está faltando no casal”, afirma Dominic Barter. Ele recomenda observar as próprias motivações antes de emitir opiniões — elas não podem partir apenas de uma antipatia pelo parceiro do outro. Em situações mais graves, com risco de vida, é crucial acionar a família e os órgãos de proteção. Mas é fundamental não se afastar nem provocar mais isolamento, o que acabaria beneficiando o abusador.

  • 2

    Saiba diferenciar a hora de ouvir da hora de aconselhar e troque o “você deve” por “o que você acha?” –
    O bom amigo é aquele que consegue identificar o momento de falar e de escutar. Barter explica que “o ouvido que a gente empresta para uma pessoa tem um efeito contagioso, aumenta a capacidade dela se ouvir”. Daí a importância de não julgar a redundância da reclamação de quem quer seu ombro para chorar: “A pessoa vai trazer a mesma situação inúmeras vezes e essa repetição é necessária porque, a cada vez, algo novo pode surgir, uma epifania, uma elaboração diferente. Por isso, também é importante dar espaço para o outro”, acrescenta Ingrid Gerolimich. Em outros momentos, um conselho pode ser requerido, seja porque você passou por uma experiência parecida, seja pela confiança no que tem a dizer. Apesar disso, Dominic lembra que, como o conselho pode ser intrusivo quando não é bem-vindo, a escuta costuma ser o gesto mais raro e, muitas vezes, o mais valioso a oferecer. Mais do que dizer exatamente o que e como o amigo deve decidir diante de uma crise, o ideal é ajudá-lo a chegar às próprias conclusões, nomeando o que está vivendo. Se surgirem perguntas como “você acha que eu devo terminar?”, vale devolvê-las para que ele se responsabilize pelo processo. Sempre confirmando se a pessoa quer falar sobre isso, e para não ser invasivo, você pode perguntar: essa relação te faz bem na maior parte do tempo ou te faz mal? Essa situação pode melhorar? É passageira ou ligado a uma dinâmica duradoura? Como seria a sua vida se vocês se separassem? Liliana Emparan compara o papel do amigo às luzes de uma pista de avião à noite: “Pode mostrar por onde é a pista, avisando quando você está saindo do caminho. Dizer ‘talvez você possa cair, se machucar, e eu preciso dizer isso para te fazer pensar sobre algo que, neste momento, você não está enxergando’”.

  • 3

    Ajude a limpar os ruídos de comunicação. A proposta é que as pessoas possam falar e ouvir umas às outras –
    Uma boa opção para quem é amigo de ambos integrantes do casal é praticar o que Dominic Barter chama de “mediação descalça”. “Muitos de nós, como amigos de casais em crise, acabamos atuando como mediadores, mesmo sem formação. Existe aí uma sabedoria comunitária enorme, feita de afeto, escuta e compaixão, que não se aprende em cursos”, conta o pesquisador. A proposta consiste em tentar resolver a qualidade da comunicação para que as pessoas possam falar e ouvir umas às outras — como quem ajusta uma linha telefônica antiga, sem interferir no conteúdo da conversa. Também aplicável em outros contextos, perguntar à pessoa que ouviu a mensagem “o que você ouviu ela dizer?” pode ser transformador. Barter ilustra com uma situação comum: João diz que está cansado de ver Maria trabalhar tanto. Ao ouvir isso, Maria pode entender que ele não apoia seu sucesso. Mas, quando alguém ajuda a reformular a escuta, fica claro que o incômodo de João não é o trabalho em si, e sim o desejo de passar mais tempo com ela. “Superficialmente, entendemos as palavras, mas perdemos o sentido vulnerável por trás delas”, explica. Em uma amizade, você pode ser o tradutor dos sentimentos que estão camuflados de críticas, ajudando a ver o lado do outro. No começo, pode até ser que o seu amigo ou sua amiga fique com raiva, mas faz parte da sua função. Para Emparan, “O amigo não é aquele que diz apenas o que o outro quer ouvir. Ele está ali para respeitar, mas também para mostrar o chamado lado B, ajudando a pessoa a refletir sobre o que, naquele momento, não consegue enxergar”.

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    Estabeleça limites para favorecer a autorregulação –
    Oferecer apoio não significa estar disponível o tempo todo. Quando os desabafos se prolongam e a situação de crise no casal não muda, a amizade também pode se desgastar. Para evitar o esgotamento, é importante estabelecer limites, como se retirar temporariamente, propondo que conversem em outro momento. Além de não correr o risco de perder a paciência, você ajuda o outro a se responsabilizar pela própria regulação emocional e torna a amizade um espaço de elaboração, não só de sustentação. “Diga: ‘Vamos nos encontrar na quarta-feira para tomar um café e você me fala tudo isso’. A pausa ajuda a própria pessoa que está trazendo a demanda a elaborar isso para esse encontro”, sugere Ingrid Gerolimich. “Porque se ela traz a mesma coisa o tempo todo e você está ali sempre respondendo, ela não está organizando seus pensamentos.” Liliana Emparan chama atenção para outro limite importante: quando o sofrimento é intenso demais. Não cabe a um amigo ocupar o lugar de um terapeuta — função que envolve avaliar a gravidade da situação e propor um tratamento adequado. “Reconhecer o próprio limite não é uma falha, é algo potente. É poder dizer: ‘Eu não vou conseguir escutar tudo o que você precisa agora’. E, a partir disso, sugerir a busca por ajuda profissional, oferecendo apoio prático, como ajudar a encontrar alguém ou até acompanhar na primeira sessão”, afirma. A especialista também alerta para situações em que é necessário limitar a escuta por questões éticas. “Quando a pessoa te abre a vida e começa a contar detalhes da rotina, da vida sexual ou da relação com a família, você acaba entrando tanto na intimidade que depois fica difícil se relacionar com o outro parceiro ou parceira. É como se você estivesse dentro da relação”, diz.

  • 5

    Seja um lembrete de que existe vida para além do relacionamento amoroso –
    Não são só as conversas profundas, com escuta ativa e aconselhamento, que têm o seu valor. Em certos momentos, a melhor sugestão é uma pausa: chamar pra sair, recomendar um filme, um livro ou uma música permitem à pessoa “respirar”. Vale ainda propor um passeio no museu, na praça ou onde você gostar de ir para espairecer. “Não é que o problema vá diminuir por causa disso, mas ele pode ser relativizado no sentido da intensidade”, pontua Emparan. Gerolimich lembra que a amizade pode ser essa porta que se abre para outras possibilidades: experimentar coisas novas, fazer uma viagem, curtir a vida, ir a um samba. Nesse sentido, ela também pode apresentar a ideia de um outro mundo possível, para além da centralização da relação amorosa. “Existe um mundo além daquele relacionamento, no qual é possível encontrar prazer e alegria em outros vínculos. A relação não é um fim em si mesma, ela faz parte da vida. Ou não, se você não quiser”, elucida. “O problema é que muitas pessoas permanecem em relações não porque gostam da pessoa ou desejam estar ali, mas porque seguem um roteiro aprendido. É assim que aprenderam a entender a vida: encontrar alguém, casar e seguir adiante.”

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