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Conversas

Carlos Nobre: "Não há justificativa para nova exploração de nenhum combustível fóssil"

Uma das maiores autoridades globais sobre clima, o pesquisador faz críticas à busca por petróleo na Amazônia e defende novo modelo de desenvolvimento na região

Leonardo Neiva 05 de Setembro de 2026

Carlos Nobre: “Não há justificativa para nova exploração de nenhum combustível fóssil”

Leonardo Neiva 05 de Setembro de 2026
Foto de Nadja Kouchi

Uma das maiores autoridades globais sobre clima, o pesquisador faz críticas à busca por petróleo na Amazônia e defende novo modelo de desenvolvimento na região

Em um anúncio feito este ano pelo papa Leão XIV, o pesquisador e climatologista Carlos Nobre foi o único brasileiro selecionado para um conselho que vai tratar de desenvolvimento humano no Vaticano. Enquanto o El Niño bate à porta, e em meio à alta de eventos extremos causados pelas mudanças climáticas, Nobre emerge como uma das maiores autoridades sobre o tema no mundo. Pesquisador colaborador do Instituto de Estudos Avançados da USP e copresidente do Painel Científico para a Amazônia, ele está hoje entre as principais vozes em defesa do desmatamento zero e de um novo tipo de desenvolvimento na floresta amazônica.

“Nós temos uma enorme responsabilidade em salvar a Amazônia, estamos à beira do ponto de não retorno”, afirma Nobre em entrevista a Gama. E o cientista tem trabalhado de forma incessante para conscientizar a população e as autoridades sobre a importância de agir o mais rápido possível. Na COP 30, em Belém, ele foi um dos idealizadores do Pavilhão de Ciências Planetárias, ao lado do sueco Johann Rockström, diretor do Instituto Potsdam de Pesquisas sobre o Impacto Climático, numa iniciativa inédita que cria conexão direta entre evidências científicas e negociações políticas sobre o clima.

O pesquisador também é um dos nomes à frente do Painel Científico para a Transição Energética Global, grupo que reúne até 100 cientistas do mundo todo com o objetivo de fornecer evidências que auxiliem governos na transição para economias de baixo carbono. Um tema que, aliás, ganha ainda mais repercussão com o debate em torno da recente descoberta de petróleo na bacia da Foz do Rio Amazonas. “Todas as explorações [de petróleo] geram risco. Não há justificativa para criar novas, e temos que tomar muito cuidado com as já existentes”, ele alerta.

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Uma das primeiras autoridades a apontarem a iminência de a Amazônia alcançar o ponto de não retorno — limite crítico que, se ultrapassado, significa que a floresta não terá mais capacidade de se regenerar sozinha —, o especialista vem alertando para a importância de preservar a região na busca por evitar um ecocídio, que mergulharia o planeta em um derradeiro colapso climático e ambiental. Para isso, ele propõe uma Amazônia 4.0, que una o desenvolvimento da região à adoção de práticas ecológicas, usando conhecimentos científicos, tecnológicos e os saberes de povos indígenas e comunidades locais, num sistema que apelidou de sociobioeconomia.

Nobre é formado em engenharia eletrônica pelo ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), com doutorado em meteorologia pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology), e já exerceu cargos de pesquisa e coordenação em organizações como o Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) e o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Mundial de Ciências, foi um dos autores do Quarto Relatório de Avaliação do IPCC, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2007.

Apesar de enxergar com bons olhos a queda acentuada do desmatamento na Amazônia ao longo dos últimos anos, o pesquisador considera que ainda há muito para avançar, em especial no combate aos incêndios causados por fatores humanos na região. Na entrevista com Gama, Nobre aborda os impactos do El Niño, o desinteresse das lideranças globais no combate às mudanças climáticas e, às vésperas das eleições, a contradição de uma população que acredita na ciência, mas segue votando em candidatos negacionistas.

  • G |Tivemos uma queda recente no nível de desmatamento da Amazônia. O que isso significa para a proteção da floresta?

    Carlos Nobre |

    A maioria dos países amazônicos demonstra queda. De agosto de 2025 a julho de 2026, foram aproximadamente 2.800 km² desmatados. Foi o menor da história desde que a ditadura militar começou a fazer grandes desmatamentos na Amazônia nos anos 1970. Isso é realmente muito importante. Desde 1990, estamos dizendo que é preciso zerar todos os desmatamentos, e o Brasil tem um plano de alcançar isso até 2030. É essencial para salvarmos a Amazônia do ponto de não retorno.

  • G |Há hoje uma política efetiva de combate ao desmatamento na região? Quais são as principais falhas do modelo atual?

    CN |

    O combate ao desmatamento melhorou muito no governo atual, desde 2023. Os sistemas de satélite, como o do INPE, monitoram toda a degradação, a mineração e o fogo. Essa informação nos permite ver que a grande maioria dos desmatamentos é ilegal. Já perdemos um milhão de quilômetros quadrados em toda a Amazônia, mais de 800 mil na Amazônia brasileira. 90% desses desmatamentos, historicamente, sempre foram ilegais. É mais complicado no caso de incêndios. O desmatamento por humanos, com motosserra, leva vários e vários dias. Muitas vezes, o satélite detecta a tempo de o Ibama e as polícias chegarem. Quando o crime organizado vai lá e bota fogo, não, porque eles saem correndo. Então, temos que desenvolver mecanismos para combater especialmente o fogo. A degradação vem muito também da extração seletiva de madeira e do efeito de borda, que acontece quando você tem uma pastagem muito grande e a floresta ao lado começa a se degradar.

  • G |Você foi um dos primeiros pesquisadores a alertarem sobre os riscos de a Amazônia chegar ao ponto de não retorno. O que indicaria que ultrapassamos esse ponto e quão perto estamos de isso acontecer?

    CN |

    Eu fui o primeiro cientista a fazer esse estudo e nunca deixei de ver esse risco. Em um artigo publicado em 2016, alertamos que, se o desmatamento passasse de 20% e a atmosfera global chegasse a 2 ºC de aquecimento, nós passaríamos do ponto de não retorno. Um estudo publicado no começo deste ano mostrou coisa parecida. O desmatamento está em 17% ou 18%, e o aquecimento global vai atingir 1,5 ºC até 2030. Então, ainda não ultrapassamos, mas estamos muito próximos. Em todo o sul da Amazônia, do Atlântico à Bolívia, por mais de dois milhões de quilômetros quadrados, a estação seca já está de quatro a cinco semanas mais longa — um aumento de uma semana por década. Na estação seca, a chuva diminuiu entre 20% e 30%, e a temperatura já subiu de 2 a 3 ºC nessa região e no sudeste da Amazônia. Uma pesquisa liderada pela grande cientista do INPE Luciana Gatti mostrou que, no sul do Pará e norte do Mato Grosso, a floresta já virou fonte de carbono. Mundialmente, os biomas removem gás carbônico. A floresta amazônica sempre removeu muito. Então, ali já está muito próximo do ponto de não retorno.

  • G |Quais as principais preocupações ambientais e ecológicas hoje sobre os planos de exploração de petróleo na Foz do Amazonas?

    CN |

    Não há como justificar ou aceitar. Se não fizéssemos nenhuma nova exploração de petróleo, carvão e gás natural, e só usássemos tudo o que já está sendo explorado, chegaríamos em 2050 com até 2,6 ºC de aquecimento global. Isso é o que chamamos de ecocídio. Portanto, não há justificativa para uma nova exploração, em nenhum lugar, de nenhum combustível fóssil. Em 2010, tivemos aquele acidente no Golfo do México. Foram vários meses vazando petróleo, poluindo tudo dali até a costa dos EUA, México e América Central, com um enorme impacto na biodiversidade. Então, todas as explorações geram esse risco. Não há justificativa para criar novas e temos que tomar muito cuidado com as já existentes.

  • G |Em meio à necessidade de uma transição energética, por que o petróleo ainda assume lugar de destaque na política brasileira e mundial?

    CN |

    Nós cientistas climáticos estamos dizendo há muitas décadas que é preciso zerar rapidamente o uso de combustíveis fósseis e acelerar a transição energética. A presidência da COP-30 pediu a mim e a um colega meu, o sueco Johann Rockström, e nós lançamos, na 1ª Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, em Santa Marta, na Colômbia, o Painel Científico para a Transição Energética Global. Eu não sou cientista de energia, mas estamos reunindo um grande número de supercientistas para a transição energética, buscando como fazer, como conseguir aprovação política, governamental, econômica e onde obter os recursos. Isso é factível. Hoje, a energia renovável, como a solar e eólica, faz todo sentido. Economicamente, é mais barata, e emprega mais trabalhadores. A poluição do ar nas cidades vem da queima de combustíveis fósseis, que leva a até sete milhões de mortes por ano. Então, esse é o caminho para a transição. Não devemos explorar nenhum novo combustível fóssil e, rapidamente, zerar os que já estão sendo explorados.

  • G |Você usa com frequência o termo ecocídio para definir o rumo que a humanidade está tomando. Hoje, como sentimos os efeitos desse fenômeno?

    CN |

    A ciência vem dizendo há décadas que, quando atingisse 1,5 ºC de aquecimento global, todos os fenômenos extremos — ondas de calor, secas, chuvas excessivas, incêndios florestais, vendavais, ressacas — aumentariam muito, exatamente o que está acontecendo nos últimos anos. Nós começamos a atingir esse 1,5 ºC no segundo semestre de 2023 e agora, com o El Niño, provavelmente chegaremos novamente. Estamos chegando a mais de 500 mil mortes por ondas de calor ao ano no mundo, 14 mil só no Brasil. O que a ciência mostra é que, se a gente passar de 2 ºC em 2050, vamos atingir tantos pontos de não retorno que vai impactar a Amazônia, o cerrado, o Pantanal e a caatinga aqui na América do Sul, derreter uma gigantesca quantidade de solo congelado no hemisfério norte, extinguir os restos de corais, e os oceanos vão perder uma grande capacidade de remover o gás carbônico. Se isso acontecer, chegaremos em 2100 com 3 a 4 ºC de aquecimento global e com as regiões equatoriais inabitáveis no nível do mar. O sudeste do Brasil ficaria inabitável durante mais de 120 dias por ano. Se a temperatura ficar muito mais alta que a do nosso corpo e o ar úmido demais, paramos de transpirar. Aí o corpo humano perderia a capacidade de equilíbrio térmico. Isso é o ecocídio. Se acontecer, será a sexta grande extinção de espécies. Todas as outras foram fenômenos naturais, ocorridos em centenas de milhões de anos. Essa seria causada por humanos.

  • G |Quais são as preocupações com a intensificação do El Niño este ano? A Amazônia, que já vem de períodos prolongados de estiagem, deve enfrentar novas secas e incêndios?

    CN |

    Todos os prognósticos indicam que esse El Niño deve ser um dos mais fortes em um século. Ele já está na categoria forte, próximo de atingir a muito forte até outubro. Em outubro, novembro e dezembro, ele vai induzir uma seca muito forte na Amazônia. Precisamos ficar muito preocupados com isso, porque as secas e ondas de calor tornam a vegetação muito inflamável. Só que, em 2024, mais de 98% dos incêndios foram humanos. Então, o desafio na Amazônia neste segundo semestre é combater o incêndio humano. Eu mesmo sugeri que o Congresso deveria aprovar uma lei proibindo o agricultor e o pecuarista de usar fogo enquanto houvesse um El Niño muito forte. Não acredito que o Congresso vá nessa linha, mas aí os órgãos federais, estaduais e municipais terão que combater esses incêndios, praticamente todos ilegais.

  • G |Ano após ano, fica a impressão de que as discussões climáticas avançam muito pouco, com efeitos ainda menores. O que precisa acontecer para que as lideranças mundiais se deem conta do estado de alerta que vivemos?

    CN |

    As emissões atingiram o valor mais alto da história em 2025 e continuam a aumentar neste ano também. Vários países, como EUA e Argentina, aumentaram a exploração de petróleo, carvão e gás natural, e novos governos eleitos nos países amazônicos já declararam novas explorações de combustíveis fósseis, assim como o Brasil. Isso é urgente. Temos que ter nas COPs um compromisso de todos os países para zerar o uso de combustíveis fósseis. O Brasil lançou o mapa do caminho na COP 30 e leva para a COP 31 dois mapas. Primeiro, para zerar o uso de combustíveis fósseis, nós criamos o Pavilhão de Ciências Planetárias, mas infelizmente não avançamos. Vamos torcer para que, na COP 31, tenha um avanço maior. E o outro mapa que o Brasil lançou foi a proposta de zerar o desmatamento e a degradação até 2030 em todos os biomas do mundo, e também fazer uma grande regeneração. A presidência da COP 30 continua trabalhando para levar esses dois mapas do caminho para a COP 31.

  • G |As questões climáticas e a própria Amazônia têm passado longe dos debates políticos. Por que, apesar da urgência, essa ainda parece uma preocupação distante?

    CN |

    Na última década, em países democráticos como EUA e Argentina, houve a eleição de políticos negacionistas, num terrível risco para o planeta. Nosso presidente anterior era anti-ciência na questão da covid e negacionista do aquecimento global, um amigo do Trump que até pensou em tirar o Brasil do Acordo de Paris. Temos eleições no Brasil em outubro, e a mensagem é clara: independentemente do seu partido de preferência, centro, esquerda ou direita, não vote em políticos negacionistas. Esse é um enorme risco para o planeta. Uma das razões porque as emissões continuam a aumentar é a eleição de políticos negacionistas. Os EUA aumentaram 2,5% as emissões no ano passado, assim como o uso de combustíveis fósseis, e retomaram minas de carvão paradas havia muitos e muitos anos. Aqui no Brasil, mais de 83% dos brasileiros acreditam nas mudanças climáticas. Então, por que se elegem tantos políticos negacionistas? Temos que corrigir isso. Principalmente os sistemas educacionais devem educar os jovens que vão se tornar eleitores para nunca mais votar em políticos negacionistas.

  • G |O que precisa acontecer para mudar o jogo na Amazônia? Hoje, existem motivos para ter esperança?

    CN |

    Nós temos uma enorme responsabilidade em salvar a Amazônia, estamos à beira do ponto de não retorno. O Brasil lançou na COP 28, em Dubai, um importantíssimo projeto de financiamento para que os países da Amazônia restaurassem seis milhões de hectares até 2030, e outros 18 milhões até 2050. Isso é essencial não só para remover o gás carbônico da atmosfera e combater a emergência climática, mas impedir que a estação seca aumente. Para isso, temos que valorizar o conhecimento dos povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, que sempre mantiveram a floresta, desenvolveram a ciência, domesticaram centenas de espécies e criaram o sistema agroflorestal. Vamos criar o que eu chamo de uma sociobioeconomia de saudáveis florestas em pé e rios fluindo. O Brasil tem a maior biodiversidade do mundo, mas, na Amazônia brasileira, só 1,2% do PIB vem da biodiversidade, e 17% da carne bovina, que leva a mais de 90% dos desmatamentos. Temos que dar escala a isso com dezenas de produtos da biodiversidade. Eu criei o projeto Amazônia 4.0, que já capacitou cinco comunidades produtoras de cacau e cupuaçu para a industrialização. Conseguimos doações da Itausa e do Carrefour, e em novembro vamos lançar a primeira biofábrica de chocolate de uma comunidade indígena na história da Amazônia. A comunidade Paiter Suruí vai produzir mais de 150 quilos por dia de um chocolate de altíssima qualidade, com energia solar renovável. A ideia é dar escala para a sociobioeconomia para salvar a Amazônia.

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