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Marizilda Cruppe/Rede Amazônia Sustentável

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Repertório

As organizações que pesquisam a Amazônia (e o que elas querem que você saiba)

Da restauração da floresta às comunidades locais, instituições indicam as principais preocupações sobre o estado atual da região

Leonardo Neiva 05 de Setembro de 2026

As organizações que pesquisam a Amazônia (e o que elas querem que você saiba)

Leonardo Neiva 05 de Setembro de 2026
Marizilda Cruppe/Rede Amazônia Sustentável

Da restauração da floresta às comunidades locais, instituições indicam as principais preocupações sobre o estado atual da região

O filósofo grego Aristóteles pregava que, para resolver um problema complexo, o primeiro passo era conhecer a fundo seus princípios básicos. Hoje, poucos problemas soam tão urgentes e complexos quanto o avanço da degradação ambiental no mundo e as mudanças climáticas, que cada vez mais afetam nosso cotidiano. No centro dessa questão, reside o bioma que abriga a maior biodiversidade do planeta: a floresta amazônica. Um território que, devido a décadas de desmatamentos, incêndios e exploração desenfreada, parece estar prestes a ultrapassar limites perigosos para toda a vida na Terra.

Uma das únicas formas de compreender a fundo o estado atual e o nível de destruição da Amazônia, como ensinava Aristóteles, é captar e estudar os dados sobre a região. Mas formular um mapa do que está acontecendo não significa apenas gerar um relatório da dimensão dos problemas, e sim levantar informações sobre as enormes riquezas ainda existentes no território, que vão da biodiversidade aos conhecimentos de comunidades que ajudaram a preservar a floresta ao longo dos séculos.

No Brasil, o monitoramento da região amazônica é realizado em parte por órgãos do governo, como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Mas uma boa parcela desse trabalho também é feita por instituições de ensino e organizações independentes. A Universidade Federal do Pará (UFPA), por exemplo, está entre as maiores produtoras de saber científico e acadêmico sobre a Amazônia.

Para entender melhor esse cenário, Gama conversou com representantes de algumas das principais organizações que monitoram e produzem o conhecimento que hoje fundamenta ações de proteção do território amazônico, além de políticas globais sobre clima e meio ambiente. E eles também revelam alguns dos pontos cruciais que precisamos entender a respeito das condições ambientais, sociais e econômicas da região. Leia a seguir.

Ilustração de Kath Xapi Puri via Instituto Socioambiental

Monitoramento e mapeamento

Acompanhar de forma contínua, com base em imagens de satélite, tudo o que acontece no território amazônico. Esse é o amplo trabalho da organização MapBiomas na região. “Nosso objetivo é oferecer informações públicas, abertas e atualizadas que permitam entender as transformações do território e apoiar decisões de governos, pesquisadores, empresas e da sociedade”, acrescenta o engenheiro florestal e coordenador geral da instituição, Tasso Azevedo.

A organização acompanha as mudanças de uso e cobertura da terra em todos os países amazônicos, das geleiras dos Andes peruanos aos manguezais da foz do Amazonas. Além de emitir alertas detalhados que auxiliam a fiscalização das áreas desmatadas, o MapBiomas ainda criou sistemas específicos para monitorar focos de incêndio e a dinâmica de rios, lagos e áreas alagadas.

“Mapeamos onde os incêndios começam, quais áreas são atingidas, quanto da área queimada corresponde a florestas, pastagens ou agricultura e como esses eventos vêm se intensificando ao longo dos anos”, esclarece Azevedo. No caso das águas, o monitoramento permite avaliar os impactos das secas e cheias extremas sobre ecossistemas, populações e atividades econômicas. Hoje, a organização ainda desenvolve um sistema para acompanhar o surgimento de garimpos ilegais.

O coordenador lembra que a Amazônia não é o maior regulador climático da América do Sul apenas por armazenar carbono, mas também pela produção e distribuição das chuvas que abastecem boa parte do Brasil. As secas recentes pelo país, porém, mostram que essa função está ameaçada. “Precisamos recuperar áreas degradadas e restaurar partes da floresta que já foram convertidas para diminuir o risco de ultrapassarmos esse limiar”, declara.

Com a meta de promover a conservação e o desenvolvimento sustentável da floresta, a atuação do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) também abrange todos os nove países da região amazônica. Hoje, seus projetos se dividem em cinco áreas de pesquisa: monitoramento, proteção, restauração, política e socioeconomia, além do direito e sustentabilidade.

Entre as iniciativas da organização, destacam-se o Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) e o Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira (Simex), métodos pioneiros de monitoramento do território, a PrevisIA, ferramenta que combina dados para prever o desmatamento, e o Radar Verde, índice de transparência da cadeia da carne na Amazônia.

Diretora executiva do Imazon, Ritaumaria Pereira afirma que hoje não é preciso desmatar nenhum hectare da floresta para desenvolver a Amazônia. Afinal, a destruição acumulada já chegou a 86,2 milhões de hectares. “Essa área comporta todo o aumento da produção agropecuária prevista para 2030 e ainda sobraria espaço para a restauração florestal”, diz Pereira. Segundo estudos do Imazon, seria inclusive mais barato recuperar os pastos degradados para aumentar a produtividade do que desmatar novas áreas.

Outro projeto que vem monitorando e mapeando a região é o Amazônia Revelada — mas com um objetivo diferente. Programa fixo do Museu da Amazônia (MUSA), em Manaus, ele vem mapeando o patrimônio arqueológico e biocultural da floresta. Através da tecnologia LiDAR, que usa pulsos laser para medir distâncias, aliada aos conhecimentos dos povos tradicionais, a iniciativa vem identificando sítios arqueológicos pelo território.

“Nossas principais atividades acontecem ao longo do arco de desmatamento e em áreas com alto grau de ameaça de destruição do território ou aos povos tradicionais”, indica o arqueólogo Filippo Bassi, diretor geral do MUSA. Uma das descobertas, explica, é que a Amazônia foi muito mais ocupada no passado do que se imaginava.

Hoje, Bassi inclui a arqueologia no projeto de defesa da floresta e valorização da cultura local, ajudando a pensar inclusive o ordenamento territorial da região. “Conservar a floresta exige compreender a sua história, e que há um patrimônio biocultural invisível, ou seja, que grande parte da história da ocupação humana da Amazônia permanece ainda oculta sob a floresta.”

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Comunidades locais

Dentro da região amazônica, a sustentabilidade das terras indígenas, das unidades de conservação e dos territórios quilombolas precisa ser prioritária, defende Adriana Ramos, secretária executiva do Instituto Socioambiental (ISA). “Esses territórios não estão assegurados por políticas públicas e investimentos adequados para a manutenção dos modos de vida dessas populações, e, ao mesmo tempo, sofrem todo tipo de ameaça de ataques e invasões.”

O ISA, que atua há mais de 30 anos nas bacias do Rio Negro, nos estados do Amazonas e Roraima, e do Xingu, no Mato Grosso e Pará, é uma das instituições atuando na gestão sustentável e proteção dos territórios e comunidades tradicionais da Amazônia. Em parceria com organizações locais, o instituto realiza projetos que vão do monitoramento da região ao fortalecimento social e econômico dos povos locais, ameaçadas no campo jurídico e por ações como o desmatamento e a mineração ilegais.

“Todas as nossas iniciativas, incluindo as relacionadas à restauração florestal, são desenvolvidas nessa perspectiva de que a atuação local contribui para o entendimento e o desenvolvimento de melhores políticas públicas”, afirma Ramos.

O Amazônia 2030 é outro projeto que fomenta o desenvolvimento sustentável das populações desses territórios. Numa parceria do Imazon e do Centro de Empreendedorismo da Amazônia com o Climate Policy Initiative (CPI/PUC-Rio) e o Departamento de Economia da PUC-Rio, a iniciativa teve início em 2020. “Nosso objetivo é que a região tenha condições de alcançar um patamar maior de desenvolvimento econômico e humano e atingir o uso sustentável dos recursos naturais em 2030”, explica o coordenador da iniciativa, Juliano Assunção.

A proposta principal é partir de conhecimentos acadêmicos e empresariais para construir ações de desenvolvimento sustentável da Amazônia brasileira sempre norteadas pelos aspectos humanos, econômicos e ambientais da região.

Áreas Protegidas da Amazônia Legal, 2024
Áreas Protegidas da Amazônia Legal, 2024
Relatório Fatos da Amazônia 2026, produzido pelo Amazônia 2030

Os efeitos do clima

Hoje, as mudanças climáticas já são sentidas de forma intensa na região amazônica, em seus efeitos sobre a floresta, as populações ou a produção local. É o cenário para o qual aponta a coordenadora e cofundadora da Rede Amazônia Sustentável (RAS), Joice Ferreira, que destaca o aumento das estações secas como ponto central desse impacto.

“Agricultores de diversos espectros e regiões estão perdendo a produção, seja pelas secas ou pelo aumento de temperatura”, aponta Ferreira, que também é pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental. Alguns dos motivos de preocupação são a vulnerabilidade crescente da floresta ao fogo e o impacto dessas mudanças para culturas como o açaí e a mandioca. “As populações indígenas, comunidades tradicionais, quilombolas e os agricultores familiares são ainda mais afetados, pois já sofriam com outras vulnerabilidades.”

Na RAS, Ferreira coordena uma rede internacional de pesquisa que, a partir da ciência, dialoga com os principais atores locais, das comunidades e agricultores aos tomadores de decisão. A instituição atua em diferentes frentes de monitoramento da biodiversidade e de ecossistemas amazônicos, além de estudar os impactos do clima e da ação humana, buscando formas de recuperar a região.

Há 15 anos trabalhando para aprimorar políticas públicas e realocar recursos que afetam a agenda climática no Brasil, o CPI/PUC-Rio posiciona a Amazônia em lugar de destaque nesse cálculo. Afinal, a região responde por grande parte das emissões do país, por conta do desmatamento, como aponta o diretor executivo da iniciativa, Juliano Assunção.

Restauração florestal

Segundo o representante da organização, um dos maiores objetivos do CPI/PUC-Rio é reenquadrar a relação entre floresta e clima. Ou seja, se hoje a Amazônia representa uma ameaça, a floresta tem grande potencial para contribuir ainda mais com a mitigação das mudanças climáticas através da captura de CO2 associada à restauração florestal. Outro ponto importante do trabalho da instituição é a quantificação dos chamados rios voadores, processo de evapotranspiração da floresta que afeta o regime de chuvas no restante do país.

“Nosso trabalho tem mostrado que o combate ao desmatamento é uma agenda possível e apontado a importância de cada um dos instrumentos de política pública em operação na região”, afirma o representante da organização.

“O futuro mais sustentável da Amazônia depende da combinação da conservação de florestas ainda preservadas e da restauração de áreas desmatadas e degradadas”, reforça Joice Ferreira, do RAS. Para a pesquisadora, isso só será possível a partir de uma série de medidas: a adoção de uma agricultura mais sustentável, com sistemas integrados, práticas agroecológicas de conservação de solos, aplicação de sistemas agroflorestais e mudanças nas práticas de manejo. “Por exemplo, deixando de usar fogo para quem pode prescindir dele.”

Uma das iniciativas abrigadas sob o guarda-chuva da Embrapa e da RAS é o Capoeira, ou Centro Avançado em Pesquisas Sócio-Ecológicas para a Recuperação Ambiental da Amazônia. Voltado especificamente para a restauração florestal, o projeto reúne e compara diversas estratégias, fornecendo às comunidades rurais ferramentas e conhecimentos necessários para conservar e recuperar ecossistemas.

“Esse apoio se dá por meio dos laboratórios vivos, que são espaços de experimentação e co-construção, combinando conhecimentos científicos e tradicionais”, explica Ferreira, que coordena o projeto. A pesquisadora aponta a importância de combater, para além do desmatamento, a degradação de florestas por incêndios, pela exploração ilegal de madeira e a fragmentação. Mas reforça que a restauração florestal também conta com uma grande aliada: a própria floresta. “A Amazônia hoje tem cerca de 16 milhões de hectares se recuperando naturalmente após abandono agrícola. Grande parte dessa área pode ser computada na restauração florestal.”

Produção de conhecimento

A Amazônia é também um bioma essencial para a produção científica no mundo todo. Por isso, há décadas, organizações como o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) vêm promovendo ciência, educação e inovação a partir do território, muitas vezes voltada para o desenvolvimento da própria região. No caso do Ipam, a proposta é justamente consolidar um modelo de desenvolvimento por meio da produção de conhecimento, implementação de iniciativas locais e influência em políticas públicas.

“O Ipam faz pesquisa, sim, mas sempre direcionada a tentar mudar alguma ação, política pública, prática corporativa ou empresarial. Queremos ver a aplicação prática das nossas pesquisas”, afirma André Guimarães, diretor executivo da organização. Hoje, o instituto atua em três eixos principais: a proteção de territórios naturais, a viabilidade econômica da agricultura familiar e a agricultura de baixo carbono na região. “Mais recentemente, a gente abriu uma quarta área de trabalho: cidades sustentáveis. Ainda é um pouco incipiente, mas vamos dedicar bastante energia a ela nos próximos anos, entendendo que a região amazônica está muito urbanizada.”

Já o Brazil LAB, sediado na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, reúne mais de 70 professores e pesquisadores, em colaboração com instituições brasileiras, para pensar questões planetárias urgentes, como as mudanças climáticas e as desigualdades — muitas delas a partir da Amazônia. “A Amazônia atravessa diferentes dimensões da atuação do Brazil LAB, da pesquisa científica à produção artística, dos conhecimentos indígenas às políticas de conservação”, aponta o diretor da instituição João Biehl.

Na visão do especialista, um ponto crucial para entender a Amazônia é que a floresta não é um resíduo intocado de natureza. Ela compreende os povos indígenas que vivem ali há 12 mil anos, e hoje têm direito a mais de 20% de seu território. “Territórios indígenas e os conhecimentos que os sustentam não são um complemento às estratégias de conservação, são parte de sua infraestrutura”, declara.

O Brazil LAB hoje promove conferências, trabalha com pesquisadores indígenas e não indígenas e encabeça iniciativas de valorização da cultura amazônica. Segundo Biehl, as ações revelam não apenas um território ameaçado ou objeto de investigação científica, mas um espaço de produção de conhecimento, experimentação institucional e criação de alternativas para questões que ultrapassam suas fronteiras.

Colaborou Mariana Pontes

Um assunto a cada sete dias