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Conversas

Martin Baron: "Temos o dever de informar, sem fingir que há dois lados se de fato não existem"

Em entrevista exclusiva, jornalista que comandou Washington Post afirma que “em governos com aspirações autoritárias, o primeiro alvo é a imprensa, mas o objetivo é a liberdade de expressão de toda a sociedade”

Paula Miraglia 27 de Setembro de 2026

Martin Baron: “Temos o dever de informar, sem fingir que há dois lados se de fato não existem”

Paula Miraglia 27 de Setembro de 2026
Foto: Divulgação

Em entrevista exclusiva, jornalista que comandou Washington Post afirma que “em governos com aspirações autoritárias, o primeiro alvo é a imprensa, mas o objetivo é a liberdade de expressão de toda a sociedade”

“Não estamos em guerra, estamos trabalhando”. A máxima que viraria referência para redações de todo o mundo foi a resposta de Martin Baron aos repetidos ataques à imprensa vindos do presidente americano Donald Trump em seu primeiro mandato.

Baron é o editor que comandou a lendária equipe Spotlight no Boston Globe, revelando os abusos sexuais sistemáticos na Igreja Católica — caso que inspirou o filme “Spotlight: Segredos Revelados” (2015), de Tom McCarthy. Durante oito anos, liderou o Washington Post, período em que o mundo testemunhou a aceleração da perda de confiança na imprensa tradicional, a ascensão do ecossistema de desinformação e o avanço de lideranças que apostam na hostilidade ao jornalismo como ferramenta de mobilização política.

Em seu livro de memórias, “Collision of Power: Trump, Bezos, and The Washington Post” (inédito no Brasil), Baron detalha os bastidores de um período em que fazer jornalismo investigativo foi, mais do que nunca, uma salvaguarda da democracia. Mas ele recusa o rótulo de ativista. Para ele, a única resposta legítima à polarização e ao cinismo ainda é a apuração rigorosa, a obsessão pelos fatos e a busca pela verdade — por mais incômoda que ela seja.

Nesta entrevista a Gama, Martin Baron analisa os paralelos entre os cenários políticos dos Estados Unidos e do Brasil, reflete sobre a natureza e os limites da objetividade em tempos extremados, sobre o desafio de reconquistar a credibilidade da sociedade e sobre o papel da imprensa livre no futuro da democracia.

Fazemos um trabalho de apuração minucioso e abrangente para contar ao público o que constatamos ser a verdade

  • G |Em 2021 e 2023 EUA e Brasil vivenciaram, respectivamente, insurreições contestando resultados eleitorais. Além de violência, os atos foram acompanhados de uma forte retórica populista e de ataques à mídia. Nessas situações, qual deve ser o papel da imprensa? Manter a cobertura tradicional e a busca pelo equilíbrio ou adotar uma postura mais assertiva em defesa da democracia?

    Martin Baron |

    Sempre defendo que devemos apoiar a democracia. Quando manifestantes invadem o Capitólio, eles tentam reverter o resultado de uma eleição legítima. Foi um ato violento. Eles tentaram enforcar o vice-presidente dos EUA, disseram isso explicitamente. Talvez pretendessem sequestrar outros políticos, atacaram fisicamente jornalistas. E nossa apuração informava que o presidente não fez nada para contê-los, embora assistisse a tudo. Não sei o que “equilíbrio” significa nessas circunstâncias. Minha visão é a de que precisamos ser objetivos, o que significa observar o que está acontecendo, avaliar as evidências e os fatos, conversar com quem for necessário e examinar todos os documentos relevantes. Fazemos um trabalho de apuração minucioso e abrangente para contar ao público o que constatamos ser a verdade. Quando todas as evidências apontam para um determinado conjunto de fatos, temos o dever absoluto de informar o público, sem fingir que existem dois lados da história se eles de fato não existem.

    Debates sobre políticas públicas, como a política migratória dos EUA, a postura diante da guerra ou a condução da economia, devem refletir diferentes pontos de vista. Mas, quando se trata de fatos, precisamos dizer às pessoas o que comprovadamente é verdade. Devemos defender a democracia. Não há imprensa livre sem democracia, assim como não há democracia sem uma imprensa livre. Quando os pilares democráticos estão sendo corroídos ou abertamente destruídos, é fundamental que tenhamos a coragem de apontar para esse fato.

  • G |Quando Trump disse que a imprensa era inimiga do povo no primeiro mandato, uma frase sua se tornou muito famosa: “Não estamos em guerra, estamos trabalhando” (“We’re not at war, we’re at work”). Agora, vemos uma escalada do antagonismo contra a imprensa. Essa frase ainda é suficiente?

    MB |

    Mantenho o que disse. Não há dúvida de que Donald Trump está em guerra com a imprensa, ele próprio declarou isso reiteradas vezes. Mas, para nós, é trabalho, não é combate. Se nos tornarmos militantes ou combatentes, cairemos em uma armadilha terrível, exatamente a armadilha que figuras como Donald Trump e seus aliados gostariam que caíssemos. No início do primeiro mandato de Trump, Steve Bannon descreveu a imprensa como “o partido de oposição”. Eles querem que sejamos percebidos dessa forma para descredibilizar tudo o que reportamos. Se agirmos como militantes, perderemos a credibilidade como árbitros independentes dos fatos. Já enfrentamos dificuldades para obter a confiança do público, e adotar essa postura só agravaria o problema. Isso não significa recuar, mas continuar o nosso trabalho: informar ao público o que o governo e outras instituições poderosas estão fazendo. É um trabalho duro que atrai a hostilidade do poder público e de outros atores. E não há problema nisso, desde que o façamos de maneira rigorosa, abrangente, justa e com a mente aberta para aceitar quando as evidências demonstram que nossas premissas estavam erradas. Se fizermos esse trabalho de forma honesta, honrada, enérgica e com o propósito de fornecer ao público as informações necessárias para que possa se governar, estaremos cumprindo o nosso papel.

  • G |Vimos recentemente o governo norte-americano tomar medidas sem precedentes ao revogar as credenciais de imprensa da CNN, MSNOW e Politico na Casa Branca. (Depois da entrevista, as credenciais foram reestabelecidas.) O senhor avalia que este é um novo marco na retaliação aos veículos? A imprensa está aprendendo a lidar com esse tipo de situação?

    MB |

    Estamos em um novo momento. É algo sem precedentes. Proibir fisicamente o acesso da imprensa à Casa Branca é inédito no último século e demonstra que não há limites para a agressividade de Trump contra a imprensa e que ele não se deterá diante de nada. Devemos refletir sobre o significado disso: erramos quando enquadramos o problema apenas como uma questão de liberdade de imprensa. Trata-se, na verdade, da liberdade de expressão como um todo. Em governos com aspirações autoritárias, o primeiro alvo é a imprensa, mas o objetivo final é eliminar a liberdade de expressão de toda a sociedade. Estamos falando do direito de músicos, escritores, roteiristas e humoristas dizerem o que pensam; do direito do público de ler, assistir ou ouvir o que quiser; do direito de cientistas e acadêmicos falarem abertamente sobre suas pesquisas; e até do direito de executivos defenderem suas pautas sem medo de retaliação. Quanto à reação da imprensa, vejo um nível de solidariedade inédito, o que é positivo. Contudo, pessoalmente, não acho que os jornalistas devam abandonar em massa a cobertura da Casa Branca. Fazer isso seria entregar o território para os propagandistas que o governo prefere. A imprensa precisa estar presente para fazer as perguntas difíceis que ele tenta evitar, seja sobre guerras, a escalada da inflação, o custo de vida ou a severidade das políticas de imigração. Se a imprensa séria não estiver lá para fazer essas perguntas, elas permanecerão sem resposta.

  • G |Há uma dependência cada vez maior na relação entre os veículos de imprensa e as plataformas digitais. No Brasil, a desinformação disseminada pelas redes sociais teve um papel importante para moldar o discurso político e a polarização. A imprensa e as redações dispõem das ferramentas necessárias para enfrentar e combater essa circulação de desinformação?

    MB |

    É algo muito difícil de se combater. É verdade que fomos muito dependentes no passado, mas as próprias plataformas tomaram medidas que reduziram essa sujeição, simplesmente porque pararam de nos enviar tráfego. As empresas de mídia estão sendo forçadas a encontrar um modelo diferente. Precisam de acesso direto, de leitores fiéis e dispostos a pagar. Ainda assim, precisamos lidar com o impacto devastador que essas plataformas causam na sociedade: a difusão massiva e instantânea de conteúdos falsos. Com a IA generativa, isso piorou drasticamente, com vídeos e áudios forjados com um nível de perfeição impressionante. Além disso, muitas pessoas estão recorrendo aos chatbots de IA para se informar, confiando cegamente em respostas que, em uma parcela considerável das vezes, trazem dados incorretos. Se um veículo de imprensa tivesse a margem de erro da inteligência artificial, perderia toda a credibilidade. Mas o público tende a perdoar os erros da IA ou nem sequer percebe que são erros.

Não basta dizer ao público o que aconteceu, precisamos apresentar as evidências como um advogado faz num tribunal

  • G |O que se pode fazer nesse cenário?

    MB |

    Não temos todas as ferramentas necessárias. Para começar, acredito que as organizações de mídia deveriam abandonar seus instintos concorrenciais e encontrar formas de colaborar no combate à desinformação em massa. Precisamos trabalhar em parceria com especialistas em tecnologia para detectar, desmentir e espalhar a verdade o mais rápido possível. Não dá para fazer isso isoladamente e precisamos de um mecanismo de resposta rápida para conteúdos de grande impacto.
    Em segundo lugar, precisamos ser infinitamente mais transparentes sobre como trabalhamos. Não basta dizer ao público o que aconteceu, precisamos apresentar as evidências como um advogado faz num tribunal. Devemos publicar os áudios e vídeos na íntegra, não apenas trechos cortados, exibir os documentos originais anotados e incluir links diretos para as bases de dados utilizadas. Fico impressionado com a quantidade de reportagens que não fazem isso, obrigando o leitor a procurar as fontes por conta própria. Dar ao público o poder de checar o nosso trabalho prova que não estamos tirando nada de contexto.
    Também é fundamental que a nossa cobertura retrate todas as comunidades de forma justa, honesta e honrada. O público só confiará na imprensa se sentir que ela realmente compreende a sua realidade e o seu cotidiano , independentemente de classe social, etnia, renda ou região onde mora, e não apenas sob o prisma da política partidária.

  • G |E como vê a maneira como os jornalistas se comportam nesse cenário?

    MB |

    Por fim, precisamos aprender a nos comunicar melhor. Nós, que viemos dos meios de comunicação tradicionais, descobrimos que somos péssimos comunicadores para os dias de hoje. Quem está fazendo isso com sucesso? Influenciadores, youtubers e podcasters, porque eles transmitem uma ideia de autenticidade, seja ela real ou fabricada.
    Historicamente, os grandes veículos apoiaram sua reputação na autoridade: na apuração rigorosa e na checagem dos fatos, esperando que o público confiasse no resultado por causa do trabalho investido. O que aprendemos é que a autoridade isolada já não garante a confiança. Se não demonstrarmos autenticidade, a autoridade perde o valor. Mídias tradicionais muitas vezes são vistas como instituições frias e sem rosto. Precisamos mostrar o lado humano: que somos pessoas reais, de origens diversas, trabalhando para informar o público.

  • G |Hoje duas ideias paralelas: de um lado, a queda na confiança da mídia em vários países, como EUA e Brasil; de outro, a tese de que a confiança será o ativo mais valioso para conectar leitores e veículos na era da IA. Em sociedades profundamente polarizadas, como o Brasil, existe algo específico que a imprensa pode fazer para construir essa relação de confiança?

    MB |

    Praticamente todas as sociedades hoje estão altamente polarizadas, não é exclusividade do Brasil, essa parece ser a marca do nosso tempo. Superar essa divisão é difícil, mas o caminho passa por aquilo que mencionei: parte da imprensa falha em compreender as pessoas que pensam de maneira diferente. Precisamos sair da bolha, percorrer o país e conversar com todos para entender suas motivações. Mesmo sem concordar com suas pautas, nosso papel é explicar por que pensam daquela forma e servir de ponte de compreensão entre os diferentes setores da sociedade. O mundo é muito mais complexo e cheio de nuances do que parece quando ficamos sentados atrás de uma mesa na redação. Não devemos ter medo da complexidade.
    Muitas vezes, quando nós mesmos somos retratados na mídia, achamos a abordagem simplista. Se sentimos isso em relação a nós, é fácil imaginar como os outros se sentem quando retratados de forma rasa. As visões do público dependem de suas trajetórias de vida, experiências e contextos sociais. Precisamos explicar essa complexidade em vez de adotar um tom moralista ou de censura. Há quem critique esse tipo de cobertura, alegando que estamos “dando plataforma” a certas ideias.

  • G |Em que sentido seria “dar plataforma”?

    MB |

    A crítica costuma ser: “Por que vocês estão dando palco para alguém dizer coisas questionáveis?”. Para mim, essa é uma atitude moralista e pretensiosa. Parece que o jornalista se coloca na posição de ditar o que é certo. Devemos evitar a postura de julgadores. O papel fundamental da imprensa é apresentar ao público realidades e visões de mundo diferentes das dele. Hoje, vejo muitos jornalistas excessivamente autocentrados, mais preocupados com suas próprias crenças do que em ouvir o outro. O dever primário do jornalismo é olhar para fora, compreender o público e explicar a realidade sem abrir mão dos fatos ou dos princípios da profissão.

  • G |Quando acusam a imprensa de “dar plataforma” a certas ideias, o senhor não acha que a preocupação também é com a criação de uma falsa equivalência entre dois lados? Qual a sua visão sobre isso?

    MB |

    Não acredito em falsa equivalência. A questão central é: onde estão as evidências? Quando o trabalho é feito de forma rigorosa e honesta, examinam-se os fatos, os documentos e as entrevistas. Por vezes, o resultado confirma nossas premissas; em outras, as evidências vão contradizer o que pensávamos. E precisamos dizer a verdade ao público, mesmo quando os fatos desfavorecem um político ou partido pelo qual tenhamos simpatia. Não sou filiado a nenhum partido e mantenho uma postura cética em relação a todos os políticos. Nosso compromisso é reportar a verdade factual. Se os fatos desagradam pessoas ou grupos com os quais simpatizamos, paciência. Se a evidência aponta para determinado caminho, é esse caminho que devemos mostrar.
    Nos EUA, por exemplo, considero que a imprensa foi excessivamente indulgente com Joe Biden durante seu mandato. Havia sinais claros de seu declínio físico e mental, mas a cobertura não investigou o tema com a agressividade necessária. Apenas apontávamos falhas pontuais. O resultado foi um choque para o público durante o debate contra Donald Trump. Se o jornalismo tivesse cumprido seu papel de forma mais rigorosa, o público não teria sido pego de surpresa.

Proteger o jornalismo é proteger a própria democracia

  • G |O senhor acha que os veículos pegaram leve com Biden por medo de que isso favorecesse as chances de Trump vencer?

    MB |

    Sim, já disse isso publicamente em um discurso e não fui bem recebido por parte da audiência. O receio de beneficiar Donald Trump existia. E entendo essa preocupação: afinal, Trump ataca o Estado de Direito, a liberdade de expressão e a imprensa. Contudo, nosso primeiro dever é com a verdade. Omitir informações que podem prejudicar um lado político em detrimento de outro é desonesto. Ao agir assim para obter um suposto ganho de curto prazo, a imprensa destrói sua credibilidade no longo prazo. O público percebe quando escondemos fatos e conclui que não somos transparentes. A credibilidade do jornalismo nos EUA foi seriamente abalada por essa postura. Devemos fazer nosso trabalho corretamente, independentemente de quem seja favorecido ou prejudicado pelas notícias.

  • G |Para encerrar, o fim do jornalismo e dos jornais já foi anunciado inúmeras vezes, e agora essa ideia retorna com a IA. No entanto, continuo vendo jornalistas desempenhando papéis cruciais em lugares como os EUA, o Brasil ou a Hungria. O senhor se considera um otimista ou um pessimista em relação ao futuro da mídia?

    MB |

    Sou um otimista. Não conheço ninguém que tenha obtido sucesso partindo da premissa de que iria falhar. Nossa indústria já sobreviveu a inúmeros ataques e a transformações tecnológicas profundas. O setor foi golpeado, mas não destruído, e continua imensamente relevante. O fato de Trump ter banido veículos de comunicação da Casa Branca e movido processos milionários contra o New York Times e o Wall Street Journal é a maior prova da nossa relevância. Ele teme a imprensa porque sabe que a informação de qualidade que chega à sociedade ainda nasce nos veículos estabelecidos. Não sou ingênuo, sei que a tecnologia e os novos modelos representam ameaças existenciais. Mas a indústria não está morrendo: ela está se transformando em um ritmo acelerado. O que me dá confiança é ver o surgimento de novas organizações de mídia digital, organizadas por temas em vez de geografia, que vêm alcançando impacto relevante. O próprio Politico, criado nos anos 2000, é um veículo jovem que hoje tem peso suficiente para incomodar a presidência. Paralelamente, os veículos centenários, como o The New York Times, que passou por uma reestruturação profunda, provam que é possível se adaptar e prosperar na era digital. No jornalismo atual, precisamos aprender a conviver com o desconforto. Os monopólios do passado acabaram e nossas estratégias precisam evoluir constantemente. A imprensa livre sobreviverá enquanto houver democracia. E a democracia só sobreviverá se o público continuar disposto a defendê-la e a lutar por ela. A imprensa independente é um dos pilares desse sistema, e proteger o jornalismo é proteger a própria democracia.

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