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A quem interessa o esquecimento?

A luta pela memória é uma luta pela democracia, escreve Luciana da Cruz Brito, historiadora e professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, em texto especial para a Gama

Luciana da Cruz Brito 27 de Setembro de 2026

A quem interessa o esquecimento?

Luciana da Cruz Brito 27 de Setembro de 2026
Foto: Diego Silva

A luta pela memória é uma luta pela democracia, escreve Luciana da Cruz Brito, historiadora e professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, em texto especial para a Gama

Na Copa do Mundo deste ano, a FIFA proibiu a seleção do Haiti de usar a camisa escolhida por aquele país por considerar que a estampa continha “conteúdo político”. A imagem em questão que estampava o uniforme fazia uma homenagem a um confronto decisivo das tropas haitianas contra as de Napoleão Bonaparte, que ocorreu em 1803. A vitória haitiana, liderada pelo exército do General Dessalines, foi decisiva para a Independência do Haiti, que se tornaria a primeira nação negra no mundo a abolir a escravidão. Dessalines era herdeiro político do general Toussaint Louverture, que já havia decretado a Independência do país em 1791. Toussaint levou a cabo aquilo que a revolução francesa não incluiu no seu projeto de democracia: o fim da escravidão.

Para Toussaint, o projeto de participação popular e representação política da democracia francesa, ao não reconhecer as pessoas negras da colônia Haitiana, também, como cidadãos, constituía-se num projeto incompleto numa questão crucial, que era a igualdade racial e o fim da escravidão.

Portanto, quando a seleção francesa escolheu homenagear a revolução Haitiana no seu uniforme, isso nos informa o quanto o projeto de cidadania e liberdade de um povo ainda é pauta atual e real, por meio da memória. Ao escolher um capítulo fundamental da história daquela nação e do mundo, uma revolta que fez do Haiti a primeira nação a abolir a escravidão nas Américas, isso nos mostra a importância desse episódio para um povo e o quão comprometidos estão para que essa revolta não fosse esquecida.

Por outro lado, quando a FIFA decidiu proibir o uso da imagem no uniforme, a federação lança mão de uma “política de esquecimento”, algo muito comum que é feito por setores que têm o poder de decidir aquilo que será lembrado e o que será esquecido. Se foi política a escolha da seleção haitiana de ilustrar no seu uniforme um dos episódios históricos mais importantes para a construção da democracia, da cidadania e da igualdade racial, também foi política a decisão da FIFA de proibir essa iniciativa.

Ralph Trouillot, pensador haitiano, a partir do exemplo do seu próprio país, elaborou a ideia de que a história e a memória não são simplesmente registros do passado. História e memória são vivas, atuais, disputadas no presente e constituem-se em mecanismos de poder por quem detém suas narrativas. Isso diz muito sobre as questões que pairam na sociedade que vivemos. Em março deste ano a Assembléia Geral da Onu aprovou uma resolução proposta por Gana que declarou o tráfico transatlântico e a escravidão como o crime mais grave para a humanidade. As disputas, políticas e silenciamentos do presente apareceram nos votos contrários e nas abstenções: Estados Unidos, Israel e Argentina votaram contra, enquanto as nações que mais enriqueceram com o tráfico de africanos por quase 400 anos, Reino Unidos, Portugal, Espanha e França, se abstiveram.

Como podemos perceber, o posicionamento político ultra-conservador, supremacista branco e avesso à políticas de reparação das três nações que votaram contra é coerente com a forma que elas têm atuado por um mundo cada vez mais desigual, avesso à democracia, à expansão de direitos e cidadania para todas as pessoas irrestritamente. Assim, em geral, interessa ao poder a negação do passado como forma de isenção das responsabilidades dos impactos que ainda ecoam no presente. Se cabe somente aos poderosos contar a história das nações, dos povos, das sociedades, esta é uma história de harmonia, de silenciamento e das glórias passadas daqueles que representam o poder hoje.

Interessa ao poder a negação do passado como forma de isenção das responsabilidades dos impactos que ainda ecoam no presente

Por outro lado, movimentos sociais comprometidos com a garantia de direitos, com democracia e justiça social fazem outro uso da memória, e não a temem por compreenderem ela como patrimônio público. Em 2001, durante a Conferência de Durban, o fato do tráfico transatlântico e a escravidão terem sido eventos reconhecidos como crime contra a humanidade foi uma grande vitória para as populações negras no mundo. A partir daí, movimentos negros elaboraram políticas de reparação, dentre elas as ações afirmativas, com base no princípio de que a memória é ferramenta de participação política, nunca é neutra.

É também através da memória que comunidades negras, urbanas ou tradicionais, coletivos e organizações negras, intelectuais, pensadores e artistas têm respondido ao silenciamento das contribuições da população negra na formação do Brasil nação. Como parte de uma luta para legitimar a cidadania de pessoas negras, a memória têm sido mobilizada para defender a importância da produção cultural, da economia e da organização da população negra que formou a nossa forma de viver, de pensar e de estar no mundo. Assim, através da memória, pode-se dizer que o Brasil não seria este país, não fossem também os quase cinco milhões de pessoas africanas e suas descendentes que construíram esta nação e que também têm direito às suas riquezas, à cidadania e ao bem-estar. Memória, portanto, para os movimentos sociais, e para as populações negras, é instrumento fundamental para a luta por políticas de reparação.

Memória, para os movimentos sociais e para as populações negras, é instrumento fundamental para a luta por políticas de reparação

A memória, como ferramenta de reconhecimento dos nossos débitos com o passado, têm sido mobilizada em outros capítulos da história do Brasil. Não fosse o trabalho de ativistas e de membros da comissão da verdade, por exemplo, não seria reconhecida a luta de pessoas, conhecidas ou anônimas, e que foram brutalmente violentadas durante a ditadura militar brasileira. Esta, assim como a escravidão e o genocídio dos povos indígenas, ainda são forte objeto de disputa de grupos ultraconservadores, negacionistas e que defendem que o Brasil, sobretudo as elites brasileiras, nada devem ao povo e que já certamos nossas contas. A disputa pela memória desse capítulo devastador da nossa história, também ainda está em disputa. Caso não continuemos atentos e atentas, viveremos num país em que a memória do autoritarismo e dos seus efeitos nefastos para a democracia será reescrita e, o que é pior, celebrada.

É claro que esse movimento de “ora lembramos, ora esquecemos”, do ponto de vista da política e do reconhecimento da importância das lutas sociais, enfraquece a democracia. É como se a cada momento, os direitos conquistados, os avanços coletivos, as políticas de combate a desigualdade — e que se sustentam na memória — tudo isso nunca estivesse garantido. Enquanto o autoritarismo se vale do esquecimento, da negação e romantização dos conflitos e da violência para manter privilégios históricos de alguns poucos, a memória, quando comprometida com a democracia, torna-se importante ferramenta de transformação.

Essas mudanças podem até não reparar todas as dores e perdas do passado, mas são fundamentais para aquelas e aqueles que a cada dia vivem, resistem e constroem suas vidas num país onde insistem em acreditar que é seu…e é.

Luciana da Cruz Brito é historiadora e professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Possui doutorado em História Social pela USP e pós-doutorado na City University of New York, na Universidade Federal da Bahia e na Tulane University, em Nova Orleans, Estados Unidos. Seu trabalho investiga escravidão e liberdade nas Américas, além de experiências e imaginários negros na diáspora, com especial interesse em memórias, imagens, fabulações, documentações, objetos e trajetórias de pessoas e comunidades negras. É autora de “O avesso da raça: Escravidão, abolicionismo e racismo entre os Estados Unidos e o Brasil”(Bazar do Tempo, 2023) e organizadora de “Reparação: memória e reconhecimento” (Fósforo, 2026)

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