O que está em jogo nas disputas territoriais de hoje?

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Bloco de notas

Livros que ilustram a luta de refugiados pela sobrevivência

De um best-seller de espionagem a um romance sobre retirantes no Nordeste brasileiro, conheça obras sobre aqueles que atravessam fronteiras em busca de uma vida melhor

Livros que ilustram a luta de refugiados pela sobrevivência

Leonardo Neiva 19 de Abril de 2026

De um best-seller de espionagem a um romance sobre retirantes no Nordeste brasileiro, conheça obras sobre aqueles que atravessam fronteiras em busca de uma vida melhor

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    Uma das obras mais detalhadas nos últimos anos a tratar do assunto, “Valentes: Histórias de pessoas refugiadas no Brasil” (Seguinte, 2020) reúne as trajetórias de indivíduos de mais de 15 nacionalidades que vieram buscar refúgio por aqui. Nos textos, ilustrados por Rafaela Villela, as jornalistas Aryane Cararo e Duda Porto de Souza abordam as múltiplas motivações para que todos eles tenham tido que procurar um novo lugar para viver: de dificuldades financeiras à perseguição baseada em raça, religião, nacionalidade, orientação sexual, identidade de gênero ou opinião política. Além desse mosaico de vozes e narrativas, o livro também traça um importante panorama histórico do refúgio no Brasil e no mundo.

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    Quase um clássico contemporâneo, adaptado para uma minissérie, “O Simpatizante” (Alfaguara, 2017) coloca seu protagonista — um agente duplo comunista do Vietnã — bem no centro de uma comunidade de refugiados em solo norte-americano. Na obra de Viet Thanh Nguyen, vencedora do Pulitzer, o espião infiltrado nos Estados Unidos acaba observando o dia a dia e a luta dos refugiados de seu país pela sobrevivência na melancólica Los Angeles do ano de 1975, durante os momentos finais da Guerra do Vietnã. Eleito um dos melhores livros do século 21 pelo New York Times, com tradução de Cássio de Arantes Leite, o romance lida com os traumas da guerra, a nostalgia pela nação deixada para trás e as dificuldades de adaptação a uma nova cultura, evitando visões estereotipadas sobre o período e os desafios enfrentados pela população vietnamita.

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    A terceira novela do autor palestino Ghassan Kanafani (1936-1972) nos apresenta a uma personagem que, ao longo dos anos, se tornou uma figura mítica e um símbolo da resistência de um povo. Nascida numa pequena aldeia rural, a protagonista que dá nome a “Umm Saad” (Tabla, 2023), traduzido por Michel Sleiman, é obrigada a viver num campo de refugiados em Beirute após a Nakba — expressão árabe que significa catástrofe e descreve o deslocamento forçado de centenas de milhares de palestinos entre 1947 e 1949, durante a criação do Estado de Israel. Com uma consciência política autônoma, a personagem passa a empreender mudanças importantes nesse contexto, assumindo a figura de uma mão revolucionária que remete à própria terra natal. Um símbolo central até hoje na luta contra o desterro e a desapropriação.

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    Num planeta que vem batendo recordes anuais no número de refugiados — a ONU estima que hoje existam no mundo mais de 123 milhões de pessoas deslocadas à força —, apresentar o tema para nossas crianças se torna um desafio cada vez mais urgente. E é justamente isso que faz a personagem de “Azul Haiti: Uma história sobre a imigração” (Companhia das Letrinhas, 2025), narrando para o filho pequeno suas lembranças da família e do país onde nasceu. O livro infantil da escritora e ilustradora rondoniense Paty Wolff aborda, sob o olhar esperançoso de uma criança, as crises climáticas e econômicas que levaram à imigração haitiana ao Brasil, ensinando desde cedo a importância da resistência e de preservar a memória.

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    De certa forma, toda a belíssima obra da escritora ruandesa Scholastique Mukasonga — leia aqui a entrevista da autora para Gama — se constrói pela perspectiva de uma refugiada. A autora foi uma das poucas sobreviventes do massacre da etnia tutsi ocorrido na década de 1990, que deixou como saldo cerca de um milhão de mortos. Então longe do país natal, presenciou à distância a morte de dezenas de familiares. Um de seus livros menos conhecidos por aqui, “Um Belo Diploma” (Nós, 2020) narra a história real de sua travessia do Burundi à Djibouti até chegar ao exílio e ao sonhado diploma na França. Uma jornada sobre a educação como mecanismo de defesa contra a violência, a desesperança e o preconceito, com tradução de Raquel Camargo.

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    A foto do corpo sem vida de um menino sírio, caído sobre a areia de uma praia na Turquia, logo se transformou numa das imagens que definiram a crise dos refugiados no mundo. E também inspirou o romancista e médico afegão Khaled Hosseini a escrever o impactante “A Memória do Mar” (Globo Livros, 2018), com tradução de Pedro Bial e ilustrações de Dan Williams. Mais conhecido pelos best-sellers “O Caçador de Pipas” (Nova Fronteira, 2005) — outra história de um refugiado — e “A Cidade do Sol” (Globo Livros, reedição 2017), Hosseini narra na obra o diálogo de um pai com seu filho, em uma praia sob um céu coalhado de estrelas, pouco antes de se arriscarem com a família pelo mar. O tema: as lembranças da sua infância na Síria, um país encantador destruído pela guerra.

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    Um marco da literatura palestina queer contemporânea, o livro de estreia do escritor Karim Kattan, “O Palácio das Duas Colinas” (Ercolano, 2026) retrata o movimento contrário de quem foge do país de origem: o do retorno a uma casa de família repleta de lembranças e segredos. É o jovem Faiçal quem deixa para trás o companheiro, George, e retorna à Palestina natal após a morte de uma tia, reencontrando uma terra marcada pelo apagamento onde passado e presente se confundem. Numa casa em decomposição, repleta de vidas esquecidas, resiste a força da memória e do amor, numa narrativa sobre identidade, política e um desejo queer que insiste em sobreviver mesmo entre as ruínas.

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    Os retirantes são personagens centrais do romance “Os Interiores” (Patuá, 2025), estreia do escritor, roteirista e professor universitário João Matias no gênero. Essas figuras que hoje, de acordo com o autor, seriam descritas como refugiados climáticos, vivem num mundo entre a árida realidade e a distopia, enfrentando a violência de gênero, a militarização, as mudanças climáticas e as crises sociais numa trama ambientada nos interiores do Nordeste brasileiro. Em diálogo com acontecimentos políticos recentes e com a história do país, a obra narra a trajetória de Tieta, mulher marcada pela violência e os efeitos da dominação masculina. Na tentativa de reaver as terras de seus antepassados, ela assassina o marido, dando início a uma longa jornada pelos sertões.

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    Publicado originalmente em 1999, alguns anos após o fim da guerra civil em seu país natal, o romance da escritora moçambicana Paulina Chiziane , “Ventos do Apocalipse” (Companhia das Letras, 2023), conta a história de uma fuga. Mais precisamente, as 21 noites de pesadelo vividas pelos sobreviventes de um conflito sangrento de quase duas décadas entre a Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) e a resistência armada da RENAMO. Para fugir da violência, da fome e da miséria, aqueles que ainda conseguem escapar do fogo cruzado pegam suas trouxas e partem. Para trás, fica o caos de uma guerra com cada vez menos sentido; consigo, levam os traumas, assim como os ecos do legado colonial; e, no horizonte, visualizam enfim a esperança de liberdade.

     

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    Em busca do seu irmão mais novo, que deixou sua aldeia na Guiné para perseguir o sonho de ganhar dinheiro na Europa, Ibrahima Balde percorre Mali, Argélia, Líbia e Marrocos, passando pelo deserto do Saara e os campos de refugiados do Norte da África — e acabando preso por duas vezes. Ao descobrir que seu irmão desapareceu no Mediterrâneo, ele decide embarcar num bote inflável pelo mesmo caminho. Toda essa história ele conta ao jornalista e bardo Amets Arzallus Antia, que conhece num abrigo para refugiados na Espanha. O relato virou a base para o livro “Meu Irmãozinho” (Todavia, 2024), traduzido por Estebe Ormazabal, uma narrativa arrebatadora que dá voz a uma das milhões de pessoas que perambulam pelo mundo buscando uma existência mais digna.

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