O que está em jogo nas disputas territoriais de hoje?
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Ilustração de Isabela Durão

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Conversas

Da Groenlândia ao Irã: os EUA e o território dos outros

Professora de política internacional da Unifesp, Cristina Soreanu Pecequilo analisa a projeção de poder de Washington sobre territórios alheios

Ana Elisa Faria 19 de Abril de 2026

Da Groenlândia ao Irã: os EUA e o território dos outros

Ana Elisa Faria 19 de Abril de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Professora de política internacional da Unifesp, Cristina Soreanu Pecequilo analisa a projeção de poder de Washington sobre territórios alheios

“Precisamos da Groenlândia para garantir a segurança nacional“. “Pedaço de gelo mal administrado“. Ao falar nesses termos sobre a ilha ártica, pertencente ao Reino da Dinamarca e localizada ao nordeste do Canadá, Donald Trump reaviva uma velha ambição norte-americana: a de tratar certos territórios como peças estratégicas para os Estados Unidos. Ali, isso envolve uma boa posição militar no Ártico e interesses nos ricos recursos naturais groenlandeses.

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Com o Irã, a tensão atingiu um novo patamar neste mês de abril, quando o Estreito de Ormuz — importante corredor marítimo para o fluxo global de petróleo e gás — se tornou o centro da crise e levou a guerra entre Washington e Teerã a um novo estágio. Em Cuba, a Casa Branca ameaçou impor tarifas a países que abasteçam o arquipélago caribenho com petróleo. Na Venezuela, os EUA passaram a dosar autorizações, sanções e acesso ao sistema financeiro, influindo em um país central no mapa energético regional.

O que aproxima esses movimentos é uma política externa que transforma o território em peça-chave da disputa internacional. Território como área de segurança, rota estratégica, zona de contenção de adversários, plataforma militar, reserva de energia e espaço sobre o qual os EUA se arrogam a prerrogativa de pressionar e enquadrar. Esses episódios, todos de 2026, ajudam a mostrar uma mesma lógica de poderio territorial.

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É por esse prisma que Cristina Soreanu Pecequilo analisa o momento atual. Doutora em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP) e professora livre-docente de política internacional da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ela explica como a projeção histórica de poder dos EUA segue moldando sua atuação sobre outros territórios.

 Divulgação

Autora de livros como “O Brasil entre Dois Mundos: Os Estados Unidos e a China” (Edições 70, 2025) e “A Política Externa dos Estados Unidos: Continuidade ou Mudança?” (UFRGS, 2003), a docente responde, na entrevista abaixo, questões que auxiliam a pensar como soberania territorial, unilateralismo e direito internacional entram em choque quando a principal potência do planeta age a partir de seus próprios imperativos estratégicos. Ao mesmo tempo em que a Organização das Nações Unidas (ONU) enfraquece, a ordem global se torna mais instável e o jogo de forças territorial volta a aparecer, sem disfarces, como uma das linguagens centrais da geopolítica.

É um movimento unilateral que desrespeita o direito internacional e o viola perante outros Estados

  • G |Os EUA vivem hoje uma nova fase de projeção de poder sobre outros territórios ou esse impulso imperialista sempre esteve presente na política externa norte-americana?

    Cristina Soreanu Pecequilo |

    A projeção dos EUA em direção a outros territórios é tradicional na política externa do país, desde a sua formação nacional, no século 17. Desde então, a variação refere-se às táticas e às motivações para a expansão, mas há sempre uma projeção externa. No século 19, por exemplo, isso se manifestava na ideia do Destino Manifesto [cunhada pelo jornalista John Louis O’Sullivan em 1845, a expressão serve para explicar uma crença de que os Estados Unidos foram divinamente escolhidos para expandir seu território do Atlântico ao Pacífico e disseminar seus ideais]. Ou seja, que era destino dos EUA se expandir para promover a democracia a outros povos, e isso permanece até os dias de hoje, agregando a preocupação com segurança.

  • G |Quando Donald Trump fala em comprar a Groenlândia, ataca o Irã e pressiona Venezuela e Cuba, o que isso revela sobre a relação dos EUA com a ideia de soberania territorial alheia?

    CSP |

    As manifestações dos EUA revelam a preocupação maior com a sua segurança, e com seus interesses, independentemente da soberania de outras nações. Portanto, é um movimento unilateral que desrespeita o direito internacional e o viola perante outros Estados.

  • G |Em que medida a disputa por um território e a influência sobre áreas estratégicas voltou ao centro da política internacional neste momento?

    CSP |

    Essas disputas nunca haviam saído do foco, a geopolítica nunca deixou de existir, só que agora voltou a se tornar mais visível ao grande público. Isso porque os conflitos são mais frequentes e intensos, além de existir também o elemento de uma divulgação maior.

  • G |Há diferença entre ocupação territorial direta, ameaça territorial e formas mais difusas de controle sobre o território de outros países, como sanções, bloqueios e tutela econômica?

    CSP |

    Ao violar a soberania de um outro Estado em nome de interesses e ações unilaterais, os EUA expandem seu poder por motivações estratégicas. Isso não está previsto no direito internacional.

A projeção dos EUA em direção a outros territórios é tradicional na política externa do país desde o século 17

  • G |Como a senhora analisa as tensões atuais dos EUA com Irã, Venezuela e Cuba? O que esses casos revelam sobre a maneira como Washington projeta o poder sobre outros territórios?

    CSP |

    Os três casos se referem a países que possuem regimes políticos vistos pelos EUA como adversários por suas políticas de autonomia e agendas não convergentes com Washington.

  • G |Que papel a ONU tem conseguido desempenhar diante de tensões territoriais e geopolíticas protagonizadas pelos EUA?

    CSP |

    Cada vez mais, a ONU tem um papel pouco relevante diante do unilateralismo dos EUA. Como toda organização internacional, a ONU é limitada pela soberania dos seus membros, que são os Estados. Assim, ela não tem como impor sua vontade.

  • G |Quais os riscos globais de normalizar ameaças territoriais, intervenções e discursos de apropriação de áreas estratégicas por grandes potências?

    CSP |

    Os riscos da normalização de ações unilaterais e contra o direito internacional encontram-se associados ao aumento dos conflitos geopolíticos globais e à perda de legitimidade dos organismos internacionais. Assim, sempre há um risco permanente de guerra.

  • G |Diante de tudo isso, o que esse momento nos mostra sobre a posição dos EUA no mundo: ainda se trata de uma potência hegemônica, de uma potência em declínio reagindo à perda de influência ou uma combinação das duas condições?

    CSP |

    As ações de Trump são produto do contínuo declínio da posição relativa de poder dos EUA, que se vê confrontado por problemas internos e desafiadores externos. Assim, é um movimento complexo para conter rivais e tentar barrar a perda da hegemonia e as ameaças aos seus interesses. A questão é que com isso acabam desconstruindo a ordem mundial que eles mesmos criaram. Assim, é uma época de transição e crise civilizacional, no qual os poderes e as instituições precisarão se reequilibrar.

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