Nos acostumamos com a desigualdade?

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Bloco de notas

Leituras para entender as desigualdades no Brasil (e no mundo)

De “Parcelado” a “Vidas Roubadas”, Gama seleciona livros recentes sobre os diferentes aspectos sociais, econômicos e políticos do tema

Leituras para entender as desigualdades no Brasil (e no mundo)

Mariana Pontes 20 de Setembro de 2026

De “Parcelado” a “Vidas Roubadas”, Gama seleciona livros recentes sobre os diferentes aspectos sociais, econômicos e políticos do tema

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    O acesso ao crédito formal pela população de baixa renda, em sua maioria negra, transformou a vida nas periferias de São Paulo. No livro “Parcelado: Dinâmicas de Consumo na Periferia” (Fósforo, 2026), o geógrafo Kauê Lopes dos Santos mergulha nessa realidade nos bairros Jardim Helena, Brasilândia e Jardim Ângela, conversando com moradores das regiões e realizando uma profunda pesquisa de dados econômicos. O autor fala de uma inclusão financeira ilusória, que apenas gera um ciclo vicioso de endividamento, em que objetos de desejo chegam antes de necessidades básicas que carecem do Estado. Isso acontece a partir do momento que as grandes lojas de varejo apresentam a solução: o parcelado. Leia um trecho aqui.

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    A Lei Áurea foi assinada em 13 de maio de 1888. Mas mais importante que essa data é o dia seguinte à abolição formal da escravidão no Brasil, marcado pelo abandono da população negra. Foi pensando neste dia que Helio Santos escreveu “14 de Maio: Lições de Resistência ao Racismo” (Zahar, 2026), unindo episódios de sua própria trajetória no movimento negro e discussões sobre políticas públicas, a fim de demonstrar como ainda vivemos à sombra de uma abolição inconclusa. Com mais de 50 anos de ativismo no país, o pesquisador e professor propõe a equidade racial como estratégia de destaque para o Brasil e ilumina caminhos para mudanças.

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    “As desigualdades sociais e econômicas custam caro — e este livro mostra por quê.” Na obra “Os Custos das Desigualdades: Uma Carta às Elites Econômicas” (Jandaíra, 2026), os economistas Michael França e Daniel Duque trazem exemplos práticos para apresentar como a concentração de renda e de oportunidades impedem um país de cumprir seu potencial. Um mercado consumidor mais restrito, custos maiores com segurança ou crises políticas recorrentes são algumas das problemáticas que as desigualdades trazem. A fim de demonstrar como essas mudanças também interessam para aqueles que, aparentemente, não teriam nenhum benefício direto, a leitura tem como destinatário a elite, que deve se aliar o quanto antes para a construção de um futuro em que todos ganhem.

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    Em “Limpar o Mundo” (Ubu, 2026, trad. Heci Regina Candiani), a cientista política Françoise Vergès afirma que a limpeza nasce de lógicas coloniais, burguesas e de gênero. Segundo a autora, essa prática é o pilar do capitalismo racial, em que o “limpo” de um apenas se sustenta pelo “sujo” do outro — tese que ela amplia do âmbito doméstico para o político. A obra também propõe uma “limpeza decolonial”, que deve ser orientada pelo cuidado com todas as formas de vida. O ponto de reflexão necessário é: quem limpa, para quem se limpa e qual mundo podemos construir quando a limpeza deixa de lado a opressão e passa a ser uma obra coletiva?

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    Com um título autoexplicativo, “Os Bilionários Não Pagam Imposto de Renda e Nós Vamos Acabar com Isso” (Zahar, 2023, trad. Jorge Bastos) é uma clara explicação sobre por que taxar os ultrarricos é não só necessário, mas urgente — e você pode ler um trecho aqui. Nele, o economista francês Gabriel Zucman expande o cenário da França para um padrão global, a partir de pesquisas sobre desigualdade, evasão fiscal e tributação da riqueza. Além de tudo, apresenta também a solução: um imposto mínimo de 2% sobre os ultrarricos, baseado no patrimônio líquido e integrado ao imposto de renda. Para quem acredita que isso não passa de um extremismo, o autor afirma que é somente uma resposta a um sistema tributário ultrapassado, em que a riqueza na contemporaneidade é cada vez menos convertida na efetivamente tributável.

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    A síntese do trabalho de Thomas Piketty, autor do bestseller “O Capital no Século XXI” (Intrínseca, 2014, trad. Monica Baumgarten de Bolle) pode ser lida em “Natureza, Cultura e Desigualdades: Uma Perspectiva Comparativa e Histórica” (Civilização Brasileira, 2024, trad. Maria de Fátima Olivia do Coutto). Em uma sociedade marcada pelos extremos do desespero e do conformismo, o economista e professor relembra que, em primeiro plano rumo à igualdade, estão as lutas sociais e políticas. A obra trata de temas como educação, herança, impostos e dívida pública, com destaque à redução da disparidade entre as regiões norte-sul como pré-requisito no combate ao aquecimento global.

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    O que a desigualdade causa para além dos índices e estatísticas conhecidos? Alessandro Pinzani e Walquiria Domingues Leão Rego, 12 anos depois do lançamento da investigação do auxílio social em “Vozes do Bolsa Família” (Editora Unesp, 2013), atualizam o cenário da pobreza brasileira. “Vidas Roubadas: Sofrimento Social e Pobreza” (Editora Unesp, 2025) adentra as dores mais invisíveis da desigualdade e exclusão social, partindo de seis entrevistas no sertão nordestino. Finalista da 3ª edição do Prêmio Jabuti Acadêmico, o livro questiona a forma como enxergamos esses personagens e analisa as estruturas e contexto político que sustentam esse sofrimento social.

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    O primeiro romance de Ricardo Terto, escritor conhecido por suas crônicas e contos, acompanha a Cozinheira, o Chaveiro, o Demolidor e a Professora. Moradores da periferia de São Paulo, os personagens se unem após perderem entes queridos para a violência do Estado. Os encontros desse grupo de apoio para lidar com o luto se dão no Buraco da Agulha, mas, pouco a pouco, se transformam em um plano sedento de vingança. “A Fortaleza dos Homens-Borracha” (Fósforo, 2026) é uma história sobre como a dor individual pode se transformar em ação coletiva quando não encontra justiça sozinha.

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    “Extremos: Um Mapa para Entender as Desigualdades no Brasil” (Zahar, 2024), de Pedro Fernando Nery, apresenta o panorama do nosso país desigual e o efeito disso no crescimento econômico. É passeando pelas pontas de algumas métricas, como locais com maior e menor índice de desenvolvimento, mais alta e baixa expectativa de vida ou mais rico e pobre, que o debate sobre pautas econômicas, sociais e políticas se firma. Com diferentes olhares para o crescimento e reestruturação urbanos, imigração, biodiversidade e transferência de renda, o colunista de economia no Estadão oferece propostas para uma ação transformadora no avanço do Brasil.

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    A existência de uma enorme concentração de renda entre os ricos no Brasil não é novidade. De acordo com o relatório recente da Oxfam Brasil, o 1% mais rico detém mais do que um terço de toda a riqueza declarada. O Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades acrescenta que a renda médio desse 1% é 31,5 vezes a dos 50% mais pobres, ainda que o rendimento médio da população tenha aumentado. Em “Uma História da Desigualdade: a Concentração de Renda Entre os Ricos no Brasil” (Hucitec, 2018), o sociólogo e pesquisador Pedro H. G. Ferreira de Souza apresenta as particularidades do Brasil, os ciclos políticos e a história dos últimos cem anos para investigar esse tema central para o entendimento do país.

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