Nos acostumamos com a desigualdade?
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Conversas

Como a desigualdade define e organiza a sociedade brasileira?

Os pesquisadores e escritores Kauê Lopes, Juliana Borges e Ricardo Terto discutem as consequências da presença estrutural da desigualdade na sociedade

Paula Miraglia 20 de Setembro de 2026

Como a desigualdade define e organiza a sociedade brasileira?

Paula Miraglia 20 de Setembro de 2026

Os pesquisadores e escritores Kauê Lopes, Juliana Borges e Ricardo Terto discutem as consequências da presença estrutural da desigualdade na sociedade

“O projeto de modernidade neste país é, fundamentalmente, a própria manutenção da desigualdade”

Por Kauê Lopes

“A desigualdade é o tema que nos estrutura como sociedade e território. Quando eu estava na escola aprendendo Geografia e História, existia a expectativa ingênua de que, ao atingir a vida adulta, o Brasil já seria um país desenvolvido. No entanto, com o tempo, a leitura e a vivência prática, percebe-se que a desigualdade é um dado perene e estrutural.

A metáfora do sociólogo Chico de Oliveira, que pensa o Brasil como um ‘ornitorrinco’ — um mamífero que bota ovo, tem veneno e bico de pato —, reflete bem esse nosso DNA. Vivemos sob a lógica do capitalismo em seu caráter desigual e combinado, conceito central de Trotsky. É essa dinâmica que explica, por exemplo, como pessoas de baixa renda conseguem ter uma televisão de plasma em casa dentro de uma estrutura precária. O projeto de modernidade neste país do Sul Global é, fundamentalmente, a própria manutenção da desigualdade.

No planejamento urbano, urbanistas como Erminia Maricato e Raquel Rolnik mostram que a falta de planejamento é, na verdade, uma escolha intencional. Deixar a periferia sem infraestrutura e serviços atende a um projeto articulado entre o mercado imobiliário e o Estado. Lidar com essa realidade é desafiador, pois temos que crer nas instituições, enquanto a desigualdade opera como política.

A essa dimensão junta-se outro fator fundamental: o racismo. No Brasil, o racismo estrutura a sociedade e define a divisão de classes, e não o contrário. Digo isso por experiência própria: da graduação ao doutorado na Universidade de São Paulo, não tive professores negros nem docentes que pautassem a questão racial nos debates de Geografia ou Arquitetura. A política de cotas redimensiona brutalmente essa discussão, pois os estudantes negros passaram a tensionar a academia, forçando a revisão de teorias e alterando a própria epistemologia da ciência e dos projetos políticos.

Embora a desigualdade seja um dado perene, ela não é um destino inevitável. Por ser um projeto construído, pode ser combatido em âmbitos individual, coletivo e institucional. Nas Humanidades, temos um exercício crítico muito bem afinado, mas ainda enfrentamos dificuldades para formular a operacionalidade das soluções, fruto do caráter elitista da nossa universidade. A ampliação de políticas de inclusão, como as cotas em concursos públicos recém-aprovadas na Unicamp, traz novos segmentos populacionais para o debate. É assim que construiremos inteligência coletiva para enfrentar os efeitos deletérios da desigualdade e colocar em jogo um novo projeto de país.”

Kauê Lopes é autor de “Parcelado: Dinâmicas de Consumo na Periferia” (Fósforo, 2026). É geógrafo e professor da Unicamp. Doutor em geografia humana pela Universidade de São Paulo (Usp) e mestre em habitat pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Usp. Foi pesquisador visitante na Universidade da Califórnia e na London School of Economics.

“Há uma naturalização da desigualdade que tenta nos impedir de acessar determinados conhecimentos e experiências”

Por Juliana Borges

“Para além de pensar a desigualdade apenas como um dado constante, precisamos refletir sobre a violência, que é um mito fundacional do Brasil. Isso explica muito do que nos constitui e de como percebemos a própria desigualdade.

Geralmente, acabamos naturalizando a desigualdade porque a confundimos com diferença. Já participei de um debate com um economista que defendia a desigualdade por essa ótica, dizendo: ‘Nós somos diferentes; eu sou economista, você estudou Letras’. Respondi que nada do que ele estudou explicava por que ele recebia R$ 20 mil e eu R$ 5 mil. Qual é a valoração real desse trabalho? Por que estudar Direito seria mais importante do que estudar Filosofia ou Letras? Eu não tenho problema nenhum com a diferença — até gosto de ser diferente —, mas o problema surge quando essa diferença é transformada em desigualdade, quando um trabalho é valorado de forma distinta porque alguém é um homem branco de classe alta.

O primeiro desafio é superar essa naturalização. Às vezes, no campo da esquerda, pensa-se no horizonte da igualdade, mas o próprio Marx defendia a equidade — como ao pontuar que um trabalhador com família para sustentar não pode receber o mesmo que um trabalhador solteiro. Há confusões propositais sobre o que é diferença, igualdade e equidade. Devemos assumir a diferença e a diversidade, mas rejeitar a desigualdade.

A desigualdade é um projeto. Tenho recorrido bastante às formulações da Ruth Wilson Gilmore, uma geógrafa e abolicionista penal que utiliza o conceito de ‘abandono organizado do Estado’. Trabalho na área de segurança pública e ouço muito dizerem que há ‘ausência do Estado’ na periferia. Na verdade, não falta Estado: ele está lá, fardado e armado com fuzil, acreditando que a defesa da ordem se faz matando adolescentes. Falta o Estado representado pelo teatro, pelo ator, pela atriz, pelo escritor ou pelo arquiteto.

Esse abandono organizado é intencional. A escolha de não construir um cinema no Jardim São Luís — periferia da Zona Sul de São Paulo onde nasci — é uma decisão política, enquanto o cemitério do bairro é um dos que mais enterram jovens negros no Brasil.

Lembro da reação da elite paulistana quando surgiram os Centros Educacionais Unificados (CEUs) em São Paulo. O incômodo veio justamente do impacto de levar equipamentos públicos de ponta para territórios onde a única presença estatal visível era a polícia. Questionava-se: ‘Para que ensinar música clássica para essa garotada?’. Há uma naturalização da desigualdade que tenta nos impedir de acessar determinados conhecimentos e experiências.

Por isso, a disputa não é apenas econômica ou material; ela é simbólica, cultural e cognitiva. Quando discutimos o impacto das redes sociais ou das inteligências artificiais, não se trata apenas de estar presente na internet ou fazer dancinhas. A neurolinguística e a ciência já mostram que estamos enfrentando uma disputa pelo próprio modo como as pessoas processam o pensamento e a realidade.

É preocupante ver o campo progressista dar respostas rasas a problemas tão complexos. Diante do aumento da violência ou da misoginia, propõe-se mais presença em redes sociais e até o endurecimento penal e a redução da maioridade penal — em vez de enfrentar o grande capital e regular as big techs. Esse tipo de pragmatismo progressista não nos representa mais e é insuficiente para os desafios atuais.

Para terminar com um olhar de esperança, aposto nos espaços reais de encontro e na criação de fissuras no sistema. Precisamos construir alternativas fora dessa lógica pragmática, ocupando e tensionando os espaços para, de fato, superar a presença estrutural da desigualdade na nossa sociedade.”

Juliana Borges é pesquisadora, autora de “Encarceramento em Massas” (Pólen Livros, 2019). É consultora do Núcleo de Enfrentamento, Monitoramento e Memória de Combate à Violência da OAB-SP e conselheira da Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas. Foi secretária adjunta de Políticas para as Mulheres e assessora especial da Secretaria do Governo Municipal da Prefeitura de São Paulo (2013-6).

“A grande desigualdade atual não é apenas econômica ou social, mas cognitiva”

Por Ricardo Terto

“Do ponto de vista da narrativa literária, sempre trabalhei com uma intuição prática: a de que, a partir de certo momento da vida, você percebe em que lugar está e que mundo é esse, mesmo sem ter palavras para nomear essa percepção.

Essa intuição vem da minha vivência antes da literatura. Trabalhei muito tempo no varejo, fui vendedor, trabalhei em shopping no regime 6×1, em telemarketing… Aos 32 anos, comecei a escrever no Facebook e as pessoas passaram a ler minhas crônicas. Ao processar aquilo, percebi que minhas experiências de trabalho me faziam refletir justamente sobre a desigualdade e as relações humanas.

Cresci em uma família periférica de Guaianazes, na Zona Leste de São Paulo. Em 1995, o melhor cenário para superar a pobreza era virar funcionário público. Ensino superior parecia uma loucura; o técnico já era algo interessante. Minha mãe sempre me ensinou que o trabalho tem regras e que o funcionário é o elo fraco. Ou seja: ‘Filho, você está deste lado da história, deste lado da corrente. Esse é o jogo para sobreviver’.

Sempre tentei processar essas interações e crises do cotidiano pelo humor. Livros meus, como ‘Marmitas Frias’, nascem disso. No telemarketing, por exemplo, existe a figura clássica do ‘ladrão de marmita’. O trabalhador precisa levar de casa sua refeição para ter o que comer em um intervalo de 15 ou 20 minutos — e o título vem do fato de que, às vezes, nem dá tempo de esquentar. Mas há outro trabalhador que não conseguiu levar nada e, ao ver a marmita dando sopa na geladeira, vai lá e pega. É algo cômico, mas que evidencia uma crise entre nós mesmos e a luta pela sobrevivência. Sempre busquei criar cenas e personagens que mostrassem esse empenho em resistir e as ferramentas que inventamos para isso.

Com o tempo, passei a ser lido e a transitar por outros espaços que antes só supunha existir. Hoje consigo olhar os dois lados: nasci pobre na periferia e fui para a classe média no centro; era do varejo e hoje vivo da literatura. Estar nesses dois ambientes me faz pensar com mais clareza sobre como eles se relacionam e como a desigualdade opera.

Contudo, vivemos um momento de transição e readaptação do capitalismo em que a promessa do trabalho não se sustenta mais. No passado, o trabalho prometia ser a ferramenta de sobrevivência para acessar o dinheiro — e ter dinheiro significa ter tempo, escolhas e autonomia. Hoje, você trabalha e não acessa o dinheiro; e, mesmo quando acessa algum, não alcança o que foi prometido. O trabalho perde o sentido. Com isso, as pessoas apostam em bets, tentam se virar na internet ou buscam saídas em grupos radicais. É uma distorção: quem está no topo da pirâmide não produz nada para a comunidade, mas consegue dominar tudo por meio do controle do trabalho alheio.

Por isso, a grande desigualdade atual não é apenas econômica ou social, mas cognitiva. A grande disputa política do mundo hoje é pelo conceito de verdade. A verdade não é a simples realidade factual, mas uma propriedade que define nossas escolhas e relações. Quando alguém acredita em Deus, por exemplo, não é por encontrar um dado factual na rua, mas por sentir e perceber algo que emerge da realidade. Essa crença modifica o comportamento e transforma o mundo ao redor. O mesmo acontece no campo político.

Se surge uma personagem fictícia gerada por inteligência artificial — como uma mulher negra falando mal do governo —, a reação imediata costuma ser avisar: ‘Isso é IA’. Só que, para as pessoas, não importa se a figura é real ou não; importa se a mensagem comunica uma ‘verdade’ em que elas já acreditam.

Esse cenário é assustador, mas também nos coloca no jogo. Como pessoas que escrevem, conversam e se comunicam, também estamos nessa disputa para produzir significados e verdades que emergem da realidade. É um campo de batalha constante.”

Ricardo Terto é escritor, roteirista e editor de áudio. Trabalhou em diversos postos de atendimento e varejo até começar a publicar textos na internet. É autor de “Os Dias Antes de Nenhum” (Patuá, 2019), “Quem É essa Gente Toda Aqui?” (Todavia, 2021), “Brincadeira sem Futuro” (Todavia, 2024), “Marmitas Frias: E requentadas” (Fósforo, 2025) e “A Fortaleza dos Homens-Borracha” (Fósforo, 2026), e ministrar oficinas de escrita e de roteiro para audiovisual.

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Este trecho é parte da mesa “Desigualdades e futuro: como imaginar o Brasil de amanhã?”, do Ciclo Gama de Debates, que aconteceu na 24ª Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) e que teve apoio da Fundação Itaú

Um assunto a cada sete dias