Nos acostumamos com a desigualdade?
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Ilustração de Yacunã Tuxá / Acervo Ibirapitanga

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Artigo

A fome não é nossa

Se a insegurança alimentar insiste em ferir as experiências de vida de mulheres negras e de suas famílias, existe um projeto de sociedade que naturaliza a violação desse direito humano fundamental

Rute Costa 20 de Setembro de 2026

A fome não é nossa

Rute Costa 20 de Setembro de 2026
Ilustração de Yacunã Tuxá / Acervo Ibirapitanga

Se a insegurança alimentar insiste em ferir as experiências de vida de mulheres negras e de suas famílias, existe um projeto de sociedade que naturaliza a violação desse direito humano fundamental

Certa feita, um grupo de pesquisadores, de passagem por uma Comunidade Quilombola que habita a caatinga, fotografou uma senhora, mestra da agricultura tradicional, que estava a observar a vida passar pela janela de casa. Poderia ser um registro despretensioso, porém, decorrido o tempo, foi publicada reportagem no jornal cujo título anunciava “A fome no Brasil tem o rosto de mulher negra!”.
E lá estava o rosto da dona Maria (nome fictício) na primeira página.

A comunidade, ao tomar conhecimento do fato, ficou indignada e se perguntava: “Como poderia a nossa mais velha, mulher cuja história é marcada pela abundância e a partilha dos alimentos de sua roça ser o rosto da fome?” De uma coisa estavam convictos e insistiam em declarar: A fome não é nossa!+

Esta breve narrativa poderia nos conduzir a reflexões sobre aspectos como princípios éticos ou os direitos de imagem, por exemplo. Porém, nesse momento, estou interessada em dedicar atenção às camadas mais profundas da afirmação feita pela comunidade. Não ouso contestar a relação das iniquidades alimentares com o racismo e o sexismo, pelo contrário. A análise interseccional de dados+ a respeito da segurança alimentar coletados em 2023, por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) não deixa dúvidas de que os lares chefiados por mulheres negras apresentaram os piores cenários de insegurança alimentar em todas as regiões do país.

A interdição da boca, portal da palavra, da comida, do sagrado e do prazer, que projeta a nossa existência, foi e é uma forma sádica de controle

Mas, a aderência do rosto da mulher negra à persona faminta não é intrigante? Seria esta mulher o rosto simbólico ou o alvo da fome?

Não por acaso evoco a memória de Anastácia+ com sua boca interditada pela máscara de flandres, um objeto de controle, cuja parte interna, ao penetrar o interior da boca, preenchia o vão entre a língua e o maxilar, anunciando a todos(as) a máxima do projeto colonial, sua política de implementação do senso de mudez e tortura. A interdição da boca, portal da palavra, da comida, do sagrado e do prazer, por onde a voz projeta a nossa existência no mundo, foi e é uma forma sádica de controlar o ato de falar, comer, de restringir o prazer da língua e a conexão com o sagrado.

Dito isso, retorno que a afirmação proferida pela comunidade quilombola — “A fome não é nossa” — como um convite para pensar que: se a insegurança alimentar insiste em ferir as experiências de vida de mulheres negras e de suas famílias, existe um projeto de sociedade em curso, que naturaliza a violação desse direito humano fundamental.

Se a insegurança alimentar insiste em ferir as experiências de vida de mulheres negras e de suas famílias, existe um projeto de sociedade em curso

A fome enquanto expressão biológica de problemas sociológicos que não se origina, produz ou pertence às comunidades negras, mas aponta para o fenômeno histórico que mantém as estruturas de poder e saber baseadas em maneiras singulares, violentas e destruidoras de habitar a Terra e de se relacionar com o outro por meio da desumanização.

A colonialidade, fenômeno a que me refiro é o carrego da colonização que produz desigualdades alimentares, uma vez que se sustenta em processos políticos e ecológicos de expropriação da natureza, se baseia na propriedade privada e a exploração massiva de seres humanos. Tudo o que existe é percebido e se transforma em recurso. Fala-se de recurso natural, ambiental, humano e financeiro. Mas em resumo tudo é financeiro e só financeiro.

Não à toa, no habitar colonial prevalece a decisão pela produção agrícola em grandes latifúndios de monocultura, cultivos dependentes de agrotóxicos ao invés de culturas agroecológicas; concentração de terras e rendas nas mãos da elite branca; transformação da comida em mercadoria; fortalecimento das indústrias de produtos alimentícios ultraprocessados; financeirização e destruição das florestas e águas.

Estas e outras escolhas promovem a perda da sociobiodiversidade, o desequilíbrio do ambiente natural, resultando em crises ambientais, climáticas e o adoecimento sistemático dos seres vivos. Vê-se o crescimento das tensões e violências no campo contra povos e comunidades tradicionais, a pauperização expressiva e as violações dos direitos fundamentais.

Na cosmopercepção afro-brasileira, o alimento é relação, bem comum e linguagem

A perspectiva colonial da vida se difere dos valores éticos de interação orgânica com a natureza dos povos e comunidades de matrizes africanas. Para nós, a terra não é recurso, é mãe. E como seus filhos, integramos um sistema no qual coexistem seres vivos, não vivos, humanos e não humanos. As florestas, matas, águas e animais, longe de uma perspectiva utilitária e funcional, são sagrados.

Na cosmopercepção afro-brasileira+, o alimento é relação, bem comum e linguagem. Relação com o território que guarda as memórias, abriga os encantados, recolhe o suor dos trabalhadores(as), acolhe e protege o umbigo dos recém-nascidos. Relação com as pessoas, das quais destaco as cozinheiras que pensam, inventam e transformam o alimento em elemento que comunica códigos culturais e alimenta comunidades inteiras. Relação com o sagrado, cuja comunicação e interação se dá, entre outros elementos, através da comida, partilhada com as entidades, as pessoas e à natureza, para onde o alimento, ao final do rito é depositado.

Um conjunto extenso de exemplos poderia ser mobilizado para sustentar o argumento de que, nas culturas alimentares negras e indígenas, as desigualdades alimentares são inaceitáveis, mas escolho retomar ao rosto de dona Maria e tomá-lo como símbolo de nossos sistemas alimentares abundantes, biodiversos e repleto de força vital. Dessa vez escolho sua imagem sorrindo e o título “Quem alimenta o Brasil — do roçado à mesa — é a mulher negra”.

Rute Costa é professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e líder do Grupo de Pesquisa e Extensão CulinAfro. É coautora de “Ajeum Mi’u: Confluência negras e indígenas em torno da alimentação no Brasil” (Elefante, 2026). O livro tem o apoio do Instituto Ibirapitanga

Produto
  • Ajeum Mi’u: Confluências negras e indígenas em torno da alimentação no Brasil
  • Inara Nascimento e Rute Costa
  • Ed. Elefante
  • 170 páginas

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