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Dominique Besanson

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Conversas

Julieta Correa: "A linguagem é aquilo que falta, mas também o que ajuda a explicar o que vemos"

Convidada da 24ª Flip, autora argentina de “Por que São Tão Lindos os Cavalos?” entrelaça os próprios diários aos da mãe em um romance sobre intimidade, memória e vínculos transformados pelo cuidado

Ana Elisa Faria 19 de Julho de 2026

Julieta Correa: “A linguagem é aquilo que falta, mas também o que ajuda a explicar o que vemos”

Ana Elisa Faria 19 de Julho de 2026
Dominique Besanson

Convidada da 24ª Flip, autora argentina de “Por que São Tão Lindos os Cavalos?” entrelaça os próprios diários aos da mãe em um romance sobre intimidade, memória e vínculos transformados pelo cuidado

“Por que são tão lindos os cavalos? Por que tem tanta beleza no mundo? Por que às vezes esquecemos? Eu não me esqueço.” Julieta Correa, 37, encontrou essas frases em um dos cerca de 80 cadernos de Sara Maria Marta, ou Sari López, ou apenas Sari, sua mãe. Ao lado delas, o desenho de um equino; depois, quase nada: o restante das páginas estava praticamente vazio. O fragmento se tornou uma das epígrafes e deu título ao romance de estreia da escritora argentina.

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Antes de virar literatura, porém, aquele arquivo foi percorrido pela filha. Ela sabia que a mãe mantinha diários, mas nunca os leu. Afinal, eles pertenciam à intimidade da matriarca — “era como se ela tivesse a vida dela escrita e eu tivesse a minha” — até que, em 2020, as falhas de memória de Sari se tornaram frequentes e as perguntas dos médicos levaram Correa a procurar naqueles registros pistas sobre o que estava acontecendo.

Desde menina, Correa também escreve o que se passa nos seus dias, em parte inspirada pela mãe. Na pandemia, passou a registrar as consultas, as mudanças de comportamento e as frases de Sari, algumas desconcertantes, outras bem-humoradas. Em determinado momento, separou tudo em um documento, uma espécie de caixa-preta sobre a doença e a experiência do cuidado.

O material ainda não era, para Correa, um projeto de publicação, mas uma maneira de pensar, recordar e organizar o que vivia. Isso mudou no fim de 2023, quando o mostrou à editora Marina Yuszczuk. Ao dizer que gostaria de publicar “seu livro”, Yuszczuk ajudou a transformá-lo em um. “Quando as palavras dão nome a alguma coisa, também a criam”, afirma.

Nascida na capital da Argentina, em janeiro de 1989, Julieta Correa é livreira na Livraria Mastronardi e integra a equipe de comunicação do Malba, o Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires. Publicado em seu país em 2024, “Por que São Tão Lindos os Cavalos?” (Editora 34; com tradução de Mirella Carnicelli) chegou ao Brasil em 2026.

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O romance reúne as anotações da filha e breves trechos dos diários mantidos pela mãe ao longo de mais de 40 anos. Diagnosticada com demência frontotemporal aos 58, Sari passou a enfrentar perdas progressivas de memória, cognição e linguagem.

“Como as palavras ousam nos dar as costas, a nós duas, que sempre nos sentimos as favoritas?”, escreve Correa. A pergunta condensa um dos conflitos centrais da obra: duas mulheres profundamente ligadas à escrita veem a linguagem se esvair. Ainda assim, a narrativa não resume Sari a um diagnóstico. Preserva sua vocação artística, o humor peculiar, os pequenos rituais, como os passeios com o cachorro e os sorvetes compartilhados entre mãe e filha, e as contradições de uma relação transformada pela proximidade do cuidado. “É como se fosse um livro da Sari”, diz. “Penso que o livro é bastante das duas, na verdade.”

Dominique Besanson

Convidada da 24ª Flip, onde participa na sexta-feira (24), às 15h, da mesa “Como revelar-te se me revelas?”, ao lado da mineira Flávia Péret, Correa fala a Gama sobre o gesto delicado e controverso de entrar nos “segredos” da mãe, a experiência de tornar pública uma história familiar marcada pela doença e pelo luto e a forma fragmentária que encontrou para dar forma literária ao que viveu entre lacunas e incertezas. “A linguagem é aquilo que falta, mas também o que nos ajuda a explicar o que estamos vendo.”

Como as palavras ousam nos dar as costas, a nós duas, que sempre nos sentimos as favoritas?

  • G |Quando você percebeu que a experiência vivida com a sua mãe poderia — ou precisava — se tornar literatura?

    Julieta Correa |

    Escrevo diários desde menina, certamente um pouco inspirada pela minha mãe. Durante a pandemia, quando começou a fase mais aguda da doença dela, ainda em 2020, passei a escrever com mais frequência. Registrava as mudanças que percebia, as consultas médicas, o que os profissionais me diziam e também as frases que ela começou a dizer — algumas com humor, outras com desconcerto e preocupação. Em determinado momento, reuni tudo o que incluía Sari em um arquivo e comecei a trabalhar aquele material como uma unidade. Eu já tinha feito diários temáticos, de mudanças ou viagens, e aquele se transformou numa espécie de diário sobre a deterioração dela e sua doença. No início, havia mais perguntas, buscas, passeios e até alguma diversão. Com o avanço da doença, o processo ficou mais monótono em termos narrativos e também mais terrível, porque havia muito mais sofrimento da parte dela.

  • G |E em que momento esse arquivo passou a ser entendido por você como um livro?

    JC |

    Eu estava enredada naquele arquivo e o enviei a Marina Yuszczuk [escritora e editora argentina] para fazer uma espécie de clínica de texto com ela, um encontro individual para discutir o material. Sabia que não queria narrar para além daquele processo de deterioração, nem contar a morte, que era o que estava por vir. Mas queria continuar trabalhando porque reler as coisas me ajudava a pensar e a recordar. No fim de 2023, Marina, que também tem uma editora, propôs publicar o texto. Sari ainda estava viva e muito mal. Acho que, quando as palavras dão nome a alguma coisa, também a criam. Ao dizer “seu livro” e afirmar que gostaria de publicá-lo, Marina transformou aquele material em um livro. Depois, passei mais um ano trabalhando e acrescentando coisas. Não é que eu nunca tivesse pensado em publicar, mas ainda não naquele momento, porque eu estava vivendo o processo do cuidado.

  • G |Os diários de Sari, escritos ao longo de mais de 40 anos, têm um lugar central no livro. Como foi entrar em contato com esse material e decidir o que poderia ser incorporado à obra? Que limites você estabeleceu?

    JC |

    Sempre soube que minha mãe escrevia, mas nunca tinha lido os cadernos porque eram os seus segredos, a sua intimidade. Era como se ela tivesse a vida dela escrita e eu tivesse a minha. Em 2020, quando começamos a consultar alguns médicos, eu não tinha acesso ao histórico clínico dela. Como os profissionais perguntavam quando determinados episódios tinham acontecido, pensei: “Por que não procurar nos diários?”. Comecei pelos cadernos de 2020, 2019 e 2018, sem ler tudo e com a consciência de que não tinham sido escritos para o público, muito menos para os filhos. Encontrei referências a remédios e passagens de 2017 em que ela dizia: “Não entendo”, “Sinto-me perdida”. Isso não trouxe uma solução médica, mas ajudou a perceber que a doença já vinha se desenvolvendo. Uma frase me fez pensar que precisava incluir aquele material no livro. Ela escreveu: “Gostaria de estar num monastério dentro do meu corpo o dia inteiro, trancada, e que me deixassem em paz, tranquila, no meu mundo”. Era como uma profecia cruel do que acabou acontecendo. Ainda acho a decisão polêmica. Estou grávida e, às vezes, penso: “Será que o bebê vai ler meus diários? Eu morro”. Mas fui eu que abri essa porta.

  • G |Sari era uma mulher muito ligada às palavras, às imagens e à arte. Você sentiu que publicar trechos do que ela escreveu seria uma forma de prolongar sua voz?

    JC |

    Sim, gosto de pensar assim. Ela apoiava muito os filhos e adorava que fizéssemos coisas. Tenho a tranquilidade de imaginar que ela ficaria muito contente ao ver seu nome no La Nación, por exemplo, ou ao saber que está sendo traduzida no Brasil. Sari tinha uma vocação artística que, em certo sentido, foi frustrada. Pintou muito, chegou a fazer alguma exposição e escrevia tentativas de ficção que não mostrava a ninguém. Também começava oficinas literárias, mas abandonava rapidamente. Havia nela uma dificuldade com a dimensão pública da arte: mostrar o que fazia, ser vista, publicar. Por isso, acho que o livro também prolonga sua voz. É como se fosse um livro dela. As pessoas falam muito comigo sobre ela, não sobre o meu estilo literário. Então, penso que o livro é bastante das duas, na verdade.

Acho que o livro também prolonga sua voz. É como se fosse um livro dela

  • G |Como você lidou com o paradoxo de narrar, de fora, uma experiência marcada justamente pela perda da memória e da linguagem?

    JC |

    Acho que isso tem relação com a estrutura fragmentária do livro, construída às apalpadelas, mais a partir de buscas do que de respostas e certezas. As coisas ligadas à memória e à linguagem são espaços um pouco escuros, como a psiquiatria e a neurologia: temos uma pequena lanterna e tentamos enxergar o que podemos compreender. Eu não estava vivendo os sintomas que ela vivia. Em determinado momento do livro, escrevo que essa é uma doença que não pode narrar a si mesma. Esse é o paradoxo: a linguagem é aquilo que falta, mas também o que nos ajuda a explicar o que estamos vendo; é o que falta à memória, mas também o que permite fixar as lembranças. Isso é um pouco o motor do livro. Avançar cegamente era a única estratégia que eu tinha para tentar entender e também para colocar a história um pouco para fora de nós duas. Um dos meus irmãos perguntou: “O que pode interessar às pessoas se a história é sobre você, eu, nós e um cachorro chihuahua?”. Hoje penso que qualquer pessoa pode se identificar com uma história, pela semelhança ou por aquilo que lhe falta. Esses temas são bastante universais.

  • G |O que a demência tornou visível que antes permanecia oculto?

    JC |

    A demência, essa doença, e a convivência tão próxima, forçada pelo cuidado, colocaram o foco em nossa história familiar, em nosso vínculo e no que tudo isso significava. Como muita gente, eu tinha uma relação complicada com minha mãe, a quem adorava. Aos 25 ou 30 anos, você começa a construir a própria vida, e a doença nos obrigou a ficar novamente muito próximas. Passei a pensar no papel dela dentro da família e, consequentemente, no meu, revisitando as coisas boas e ruins da nossa relação. Não sei se a demência me revelou muito além dessa centralidade especial que deu à nossa história, mas ela nos proporcionou momentos de enorme ternura, algo que não vivíamos havia muito tempo. Depois de ter sido uma espécie de furacão de energia, Sari se transformou no que chamo de uma “velhinha carinhosa” — não falo isso em um sentido pejorativo. Tornou-se uma pessoa muito amorosa, que segurava nossa mão e nos dava beijos, algo que nunca tinha feito. Nesse sentido, a demência revelou uma nova faceta dela e permitiu que nos reencontrássemos de uma maneira muito bonita.

  • G |Embora seja marcado pela doença, pela exaustão e pelo luto, o livro preserva o humor e os momentos de beleza do dia a dia. Que importância esses instantes tiveram para evitar que Sari fosse reduzida a um diagnóstico?

    JC |

    O humor era muito constitutivo da personalidade dela e se tornou uma marca familiar. Além disso, a demência e os problemas de linguagem têm uma relação particular com o humor. A troca de uma palavra por outra ou uma camiseta vestida ao contrário pode produzir um efeito engraçado. Sari fazia essas coisas porque já não conseguia agir de outra maneira, mas ainda era possível encontrar alguma graça naqueles momentos. Certa vez, ela apareceu com uma coisa pendurada na cabeça. Era terrível que aquilo acontecesse, mas, ao mesmo tempo, a cena era terna e engraçada. Então, nós ríamos. Existe também uma relação entre humor e tragédia. As piadas em velórios são uma das estratégias que temos para atravessar momentos de tristeza. Na última vez em que eu e meus irmãos entramos no hospital para nos despedir dela, colocamos músicas, fizemos piadas e morremos de rir ao imaginar o que Sari pensaria daquele circo médico cheio de parentes e coisas estranhíssimas. Fico feliz quando alguém percebe que o livro não é apenas solene e triste, mas também tem humor. Porque o processo foi assim.

  • G |O título do livro vem de uma pergunta encontrada em um dos diários de Sari, e os cavalos perpassam as lembranças da infância dela. Quais significados essa imagem teve para você durante a escrita?

    JC |

    Quando minha mãe morreu, fiz uma publicação no Instagram com uma espécie de poema que havia encontrado em um de seus cadernos. Havia um pequeno desenho de um cavalo e as frases que depois serviriam como epígrafe. O restante do caderno estava praticamente vazio; era um poema em si mesmo. Sari carregava muita tristeza, sobretudo no fim. Tinha sua escuridão, a vida havia sido muito difícil e ela morreu cedo, por volta dos 60 anos, quando eu imaginava que ainda viveria mais 30. Nesse contexto, aquelas perguntas sobre a beleza do mundo e sobre por que às vezes nos esquecemos dela eram muito fortes. Era como se ela não quisesse esquecer a beleza que existe. Isso também fazia parte de sua personalidade: a capacidade de valorizar as coisas e dar luz a elas. Encontrar o poema, sobre o qual nunca havíamos conversado, foi uma espécie de presente. Eu tinha escolhido outro título, mas Marina [Yuszczuk] sugeriu que o mudássemos. Hoje, acho que é uma das coisas mais bonitas do livro. E, além disso, é uma frase dela: o título foi escrito por Sari. Tenho cerca de 80 cadernos e poderia nunca ter encontrado aquele poema. Por isso, sinto que foi uma mensagem muito especial.

A demência revelou uma nova faceta dela e permitiu que nos reencontrássemos de uma maneira muito bonita

  • G |Este é seu primeiro livro, lançado no Brasil no início de 2026, e agora você chega à Flip para participar de uma mesa intitulada “Como revelar-te se me revelas?”. O que você sente ao ver essa história familiar tão íntima ser lida em outra língua e discutida publicamente?

    JC |

    Meus irmãos perguntavam: “Por que isso poderia interessar a alguém? Interessa a nós porque aconteceu conosco”. Mas, logo depois da publicação, começaram a me escrever pessoas que tinham vivido algo parecido e outras que queriam agradecer ou conversar sobre alguma questão despertada pelo livro. Elas falavam de Sari como se a conhecessem, sempre com muito carinho. O livro começou a ressoar entre os leitores. Há quem me escreva: “Eu adoro a Sari”, “Como sua mãe era boa”. Uma moça chegou a tatuar um desenho dela e me mandou uma foto. Sari se transformou numa pessoa para além de mim — o que ela já era, claro —, embora diferente de quem foi na vida real. Mas ela era muitas pessoas, como todos nós somos. Isso foi inesperado e muito bonito. No começo, eu tinha medo de ficar triste quando me fizessem perguntas sobre minha mãe, e algumas coisas ainda me desconcertam porque esse processo é muito pessoal. Mas as perguntas sempre vieram de um jeito amoroso. Confio nisso porque o livro foi feito com muito amor e as pessoas parecem se aproximar dele com boa vontade.

  • G |Como é a experiência de acompanhar a circulação internacional do livro e participar de eventos literários?

    JC |

    O livro saiu no Chile, no México e na Espanha, foi traduzido no Brasil, o que me parece uma loucura. É uma espécie de presente poder viver o luto — algo tão triste e desconcertante — de maneira luminosa, compartilhando-o com outras pessoas. Ir a um festival em outro país também me parece muito estranho. Gosto de literatura, de livros e de escrever. Quando era mais nova, imaginava que poderia escrever e publicar, mas tudo isso ainda parece um sonho. No ano passado, fui ao Chile apresentar o livro e pensava: “Como podem pagar uma passagem para eu ir falar sobre um livro?”. Parece um delírio. Sou muito agradecida. A única tristeza é pensar que Sari ficaria muito contente por eu ter sido convidada para um festival. Tomara que ela possa ver isso de algum lugar. É a única coisa que me dá pena: que ela não esteja aqui para acompanhar tudo isso.

Produto

  • Por que São Tão Lindos os Cavalos?
  • Julieta Correa (trad. Mirella Carnicelli)
  • Editora 34
  • 208 páginas

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