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Lorenzo Moscia

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Conversas

José Tolentino: "A poesia é a linguagem para dizer o divino que cabe dentro do humano"

Convidado da Flip, cardeal que é uma das principais vozes da poesia portuguesa atual relembra a infância e fala da relação entre seus versos e a atividade religiosa

Leonardo Neiva 19 de Julho de 2026

José Tolentino: “A poesia é a linguagem para dizer o divino que cabe dentro do humano”

Leonardo Neiva 19 de Julho de 2026
Lorenzo Moscia

Convidado da Flip, cardeal que é uma das principais vozes da poesia portuguesa atual relembra a infância e fala da relação entre seus versos e a atividade religiosa

Foi na juventude que nasceu para o poeta e cardeal da Igreja Católica José Tolentino Mendonça, neto de uma contadora de histórias, o cruzamento entre poesia e religião que permaneceria com ele ao longo de toda a vida. Em sua adolescência passada no seminário, na Ilha da Madeira, viu-se cercado por duas enormes bibliotecas. Uma delas científica, complementar a um museu de botânica gerido pela instituição; a outra humanística, recheada de literatura.

“Era um laboratório de inquietação religiosa, de perguntas, descobertas sobre o mundo interior e, ao mesmo tempo, um lugar de grande estímulo intelectual”, conta Tolentino, que divide uma mesa na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) com o poeta brasileiro Edimilson de Almeida Pereira. “Ambas as coisas [a poesia e a religião] sempre dialogaram ao longo do meu percurso. São como os dois pés: dois, mas caminham juntos. Na minha biografia intelectual e espiritual, há uma coreografia que os coloca em diálogo desde sempre.”

O sorriso aberto com que o cardeal, hoje com 60 anos, recebe este repórter parece guardar boa parte desse ardor descoberto na juventude. A conversa com Gama ocorreu por vídeo algumas semanas antes da Flip. Além do debate, que acontece na quinta-feira (23) às 10h, mediado pela também poeta e editora-executiva da Tinta-da-China Brasil, Sofia Mariutti, Tolentino será o primeiro autor do festival a celebrar uma missa durante o evento, quarta (22) na Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Remédios.

“Nesse tempo/ ainda era possível/ encontrar Deus/ pelos baldios.” Em versos como esses, que evocam a infância, o contato com a natureza e a busca pelo divino, a poesia que dá início ao recém-lançado “Os Poemas Singulares” (Círculo de Poemas, 2026) engloba boa parte dos temas que definem a obra de Tolentino. A antologia, organizada pelo também poeta e pesquisador Marcio Cappelli, reúne cerca de 200 textos selecionados de nada menos do que 13 de seus livros.

O poema inicial, “A Infância de Herberto Helder”, é também o primeiro que o autor escreveu na vida. Contando apenas 16 anos, a inspiração veio da juventude na Ilha da Madeira e da admiração que nutria pelo grande poeta português. “Quando eu tinha 14 ou 15 anos, li pela primeira vez Herberto Helder”, lembra Tolentino, que tem o costume de citar em seus versos inspirações artísticas como Patti Smith e o cineasta Pasolini (1922-1975). “Foi para mim a primeira introdução dentro de uma labareda, foi perceber que a poesia é uma forma de combustão da realidade completamente diferente.”

Teólogo e professor universitário, autor de mais de 50 obras, entre livros de poemas, ensaios, artigos e peças de teatro, Tolentino é considerado uma das principais vozes da literatura contemporânea em língua portuguesa. Embora seja mais reconhecido por seus poemas, até o momento ele só tinha publicados no Brasil livros de reflexões e orações, como “Elogio da Sede” (Paulinas, 2025) e “Rezar de Olhos Abertos” (idem, 2026). “Os Poemas Singulares” é, portanto, o primeiro contato do leitor daqui com sua poética.

Se a alguns pode parecer estranho um padre poeta ou um poeta padre, Tolentino nos lembra que a Igreja tem uma longa história com a poesia. Basta citar o Padre José de Anchieta (1534-1597), o arcebispo Dom Aquino Corrêa (1885-1956), que chegou a integrar a Academia Brasileira de Letras e, claro, Antônio Vieira (1608-1697), cuja obra possuía forte apelo lírico e poético.

“A figura do poeta, que a contemporaneidade torna um pouco excêntrica, é uma coisa com a qual a religião está muito familiarizada. Porque talvez a poesia seja a linguagem mais adequada para dizer o divino que cabe dentro do humano”, diz Tolentino. Para ele, aliás, não há nada de excêntrico em ser poeta; trata-se apenas de uma forma de habitar o mundo. “Há médicos poetas, advogados poetas, homens de ciência que são poetas. Então, gosto de normalizar que um padre possa ser poeta.”

A poesia é uma forma de combustão da realidade completamente diferente

O cardeal hoje ocupa na Igreja Católica a importante posição de prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação. Na prática, ele cuida da intersecção entre a cultura e a religião dentro da Santa Sé, além da educação e das pesquisas católicas e eclesiásticas no mundo todo. Mas na entrevista, ao contrário do que pode indicar seu cargo, dispensa um formalíssimo “Vossa Eminência” — pronome de tratamento adequado a um cardeal da Igreja Católica — e até um “senhor”, orientando a chamá-lo pelo informal “você”.

Lorenzo Moscia

Poesia sem fronteiras

Um dos temas centrais de sua vasta obra, foco de livros recentes como “O Centro da Terra” (2024) e “Introdução à Pintura Rupestre” (2021), Tolentino diz enxergar a infância como “o grande segredo de um homem”. Evocando a escritora italiana Cristina Campo (1923-1977), aponta também que é esse período da vida que quase sempre reencontramos muitos anos depois, só que transformado de alguma forma.

Uma de suas primeiras memórias é de observar, com apenas um ano de idade, os barcos pesqueiros atracando pela manhã na praia de Angola onde vivia com a família. “As mulheres saíam ao seu encontro/ num alvoroço de cestas, caixas e panos/ como se festejassem o ouro/ e não aquele cortejo/ de pescadores”, narra no poema “Baía do Lobito”. Retrato de uma infância vivida até os nove anos na zona costeira da África, onde o pai trabalhava como pescador. “Eu olho o mundo pela primeira vez e tomo consciência de mim em África”, relembra.

“Aquela agitação, aquela euforia, para mim era uma espécie de iniciação, a alegria de estar no mundo. Era um entusiasmo de estar vivo no meio de uma vida que hoje, olhando para trás, percebo que era precária, com muitas dificuldades”, descreve Tolentino. “E lembro-me de olhar para os peixes com espanto e pensar como é que eles estiveram no fundo do mar e agora estavam ali, no fundo dos meus olhos.”

Os primeiros poemas que se recorda de ter ouvido vieram da boca de uma mulher que limpava a igreja da paróquia quando ele era pequeno: um capítulo do Cântico dos Cânticos, livro do Antigo Testamento exaltando a paixão e o amor romântico, que ela, analfabeta, conhecia de cor. “Não foi a primeira vez que fiquei seduzido pelas palavras, mas foi a primeira em que senti que elas introduzem uma lentidão no mundo.”

Hoje, algo que seus versos tornam evidente, Tolentino diz encontrar a poesia para todo lado: “Acho que não há nada no mundo que se possa dizer que é sem poesia.” Nesse “banquete de migalhas”, afirma que ela é “uma forma de atenção e de hospitalidade”. “Na banalidade da experiência, da vida, eu me conecto. Não busco o extraordinário. Para mim, o ordinário me basta.” Mais ou menos o que apontam os primeiros versos de “Para ler aos noviços”, um de seus poucos poemas em que Deus é citado diretamente: “Deus não aparece no poema/ apenas escutamos a sua voz de cinza/ e assistimos sem compreender/ a escuras perícias”.

Assim como na atividade religiosa, o ato poético, para Tolentino, é um ato de fé na língua como forma de lançar um olhar para a realidade. Por vários anos e até décadas, conta, muitos de seus leitores não desconfiavam que ele também era padre. E quem o conhecia como padre não sabia do seu lado poeta. Hoje, por uma imposição biográfica, aquele que lê seus versos passa a conhecer naturalmente sua dupla profissão. Mas as fronteiras entre as duas atividades, ainda que pareçam distintas à primeira vista, não preocupam Tolentino.

“É talvez um dos traços que me caracterizam”, reflete o cardeal e poeta, que diz enxergar um diálogo direto entre a verdade da poesia e a verdade religiosa. “A preocupação de ter um discurso verdadeiramente transversal, não ficar a falar só para um auditório ou um tipo de público. Ao contrário, aquilo que dizia Novalis [aristocrata e poeta alemão do século 18]: quanto mais poético, mais verdadeiro.”

A arte e o despertar dos sentidos

Permanecendo de costas para uma belíssima tela abstrata ao longo de toda a entrevista, em certo ponto, Tolentino mata a crescente curiosidade deste repórter: “Atrás de mim, tenho uma imagem da Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992), uma pintora portuguesa importante que viveu no Brasil e no Rio de Janeiro do século 20”. Um bom pano de fundo para alguém cuja função na Igreja é justamente intermediar a arte e o exercício religioso.

“É um papel de diálogo e de visão”, explica Tolentino, que foi escolhido para a tarefa ainda em 2022 pelo Papa Francisco (1936-2025). Antes, como arcebispo, chegou a ser Arquivista e Bibliotecário da Santa Sé, cargo máximo responsável pela pesquisa e preservação do acervo documental do Vaticano. O diálogo, continua o cardeal, precisa acontecer porque a cultura é um processo de artesanato coletivo, uma percepção da vida tecida pelas mulheres e homens contemporâneos. “A cultura é sempre consequência de uma comunidade aberta, maior, que dialoga”, resume.

Ao mesmo tempo, considera que o trabalho inclui a maturação de uma certa visão através da identidade e do idioma cristãos, que viriam para enriquecer a experiência humana. “O cristianismo é também um desejo de contribuição para dizer o que é humano, para aprofundar essa experiência”, defende.

Mas, em tempos de IA, como preservar esse lugar da arte e da poesia numa educação que enfrenta cada vez mais desafios? Nesse caso, o cardeal evoca a primeira carta encíclica do Papa Leão XIV, publicada em maio, que lida justamente com a posição da doutrina católica e do ser humano quando confrontados com as novas tecnologias.

A figura do poeta, que a contemporaneidade torna um pouco excêntrica, é uma coisa com a qual a religião está muito familiarizada

“Penso que a arte é uma parteira da alma que ajuda cada um de nós a nascer”, considera Tolentino. Nesse lugar em que a arte posiciona cada ser humano, nu perante a grande pergunta — quem somos nós? —, seu principal papel, na visão do poeta, é o de despertar os sentidos. E, por isso, deve perpassar todas as áreas do conhecimento e do ensino.

“Aprendemos a tocar, a ouvir, a ver. E, na aprendizagem do sensível, a arte tem um papel fundamental, porque ajuda a situar o homem como mistério. A arte nos prepara para um grande amor.”

Reencontrar o desprotegido

Primeiro pontífice norte-americano da história, Leão XIV tem se posicionado de maneira contínua contra os conflitos no Oriente Médio, provocando a ira frequente do presidente Trump. Segundo Tolentino, assim como tudo é poético, tudo é político. Não dentro de uma lógica partidária, mas no sentido de que toda ação, escolha ou palavra proferida tem impacto no mundo.

“Eu penso que a religião tem uma responsabilidade política grande no seu discurso público, no seu modo de construir comunidades, naquilo que quer reivindicar para o bem comum”, declara o cardeal. Acrescenta também que religião não é só culto, e sim cultura, compromisso e engajamento na transformação.

“Para mim, é um testemunho muito importante esse do Papa Leão XIV, que, situando-se no âmbito da doutrina social da Igreja, pensa questões tão fundamentais, como a paz, a justiça social e a capacidade de construir harmonias e diálogo num mundo dissonante e polarizado.”

Num momento em que o Brasil só agora entra em contato pela primeira vez com a poesia do cardeal, Tolentino se diz ansioso e curioso para encontrar os leitores na Flip. “É uma emoção e, ao mesmo tempo, um sentimento de risco”, confessa o poeta, leitor tanto de autores como Machado de Assis (1839-1908) e Clarice Lispector (1920-1977) quanto dos contemporâneos Bernardo Carvalho e Eucanaã Ferraz. “Todos os falantes desta pátria que é a língua portuguesa têm uma grande dívida com o Brasil e com a literatura brasileira.”

O livro “Os Enigmas Singulares”, aliás, marca um reencontro do poeta com sua própria obra e trajetória, pela primeira vez condensada num único volume. Ele tenta explicar o que sente: “Penso que o coração humano trabalha em loop, a cabeça de um poeta é assim. É esse confronto com o tempo, um aliado e um rival que nos deixa caídos no ringue. Ao mesmo tempo, é como um vento que nos levanta. E, como dizia Ezra Pound, talvez a imagem do paraíso seja o vento.”

Talvez este seja só um dos muitos reencontros de Tolentino com a própria infância — agora, mais uma vez, um pouquinho transformada. Ou como ele mesmo descreve nos versos de “O resto que pode levantar-se”: “Uma infância que ninguém/ é capaz de contradizer/ e nos permite reencontrar o desprotegido/ através de sedimentações/ o assombro debruçando-se sobre nós”.

Produto

  • Os Enigmas Singulares
  • José Tolentino Mendonça
  • Círculo de Poemas
  • 296 páginas

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