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Valeria Fiorini

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Conversas

Ernesto Mané: "Aquela ida à África me ajudou a entender melhor meu lugar neste planeta"

Escritor e diplomata estará na 24ª Flip para falar de pertencimento e de seu livro de estreia, em que relata a viagem que fez a Guiné-Bissau para conhecer antepassados e retomar os laços paternos. “Fui acolhido pelas pessoas de lá”

Luara Calvi Anic 19 de Julho de 2026

Ernesto Mané: “Aquela ida à África me ajudou a entender melhor meu lugar neste planeta”

Luara Calvi Anic 19 de Julho de 2026
Valeria Fiorini

Escritor e diplomata estará na 24ª Flip para falar de pertencimento e de seu livro de estreia, em que relata a viagem que fez a Guiné-Bissau para conhecer antepassados e retomar os laços paternos. “Fui acolhido pelas pessoas de lá”

Aos 27 anos, Ernesto Batista Mané Júnior viajou à Guiné-Bissau em busca de completar as peças que faltavam no quebra-cabeça de sua identidade. Peças que tinham relação direta com o abandono paterno que sofreu aos 6 anos de idade, quando o pai, nascido no país da África Ocidental, saiu de casa e não voltou mais, deixando a criação de Mané e sua irmã aos cuidados da mãe.

A falta de informação sobre a trajetória paterna e sobre familiares guineenses o fez embarcar para o continente africano. O pai, Ernesto Batista Mané, nasceu na Guiné-Bissau e se mudou para João Pessoa, na Paraíba, nos anos 1970 por conta de um programa governamental brasileiro que financiava estudantes para cursar o ensino superior no país. Enquanto cursava economia, ele se casou com a brasileira Solange Porto, com quem teve dois filhos e, posteriormente, se estabeleceu na capital paulistana, se tornando aluno da Universidade de São Paulo.

Já Mané Júnior é doutor em Física Nuclear pela Universidade de Manchester, no Reino Unido, e pós-doutor pelo laboratório canadense Triumf. Nasceu na Paraíba, mas sua carreira científica o levou a viver em diferentes países, sendo Vancouver, no Canadá, sua última parada como físico nuclear. Aos 43 anos, ele transformou essa viagem para a África no livro “Antes do Início” (Tinta-da-China Brasil, 251 págs., R$ 99,90, 2026). A obra reúne os diários escritos durante essa imersão e apresenta o modo de viver, a cultura e os familiares dos quais Mané pôde finalmente se aproximar, ao mesmo tempo em tateava os motivos por trás das escolhas de seu pai.

A Gama, ele diz que essa busca por sua identidade – que resultou, entre outras coisas, na obtenção da dupla nacionalidade guineense-brasileira – influenciou também na sua mudança de profissão. Diplomata desde 2014, ano da morte de seu pai, atualmente ele trabalha na Embaixada do Brasil em Buenos Aires. “Aquela ida à África me ajudou a entender melhor meu lugar neste planeta e onde eu poderia contribuir de maneira mais efetiva e significativa”, afirma na entrevista, concedida por e-mail, que você lê a seguir.

  • G |No seu livro você diz que, além do seu fenótipo, seu sobrenome africano era a coisa mais concreta que te conectava à África. Após voltar da Guiné você conseguiu emitir a sua cidadania do país. O que essa dupla cidadania representa hoje para você?

    Ernesto Mané |

    A obtenção da cidadania guineense significa para mim a restauração de um vínculo com a África. Esse vínculo foi interrompido com a separação dos meus pais e o subsequente abandono paterno. Também significa o preenchimento de uma lacuna, já que minha segunda metade, a africana, estava praticamente vazia de significado, dado que eu perdi completamente o contato com meu pai e nunca havia tido contato direto com seu lado da família. Pouco a pouco fui buscando dar sentido a  esse vazio, e ter nascido no Brasil me ajudou nesse processo, já que nosso país é marcado por uma enorme herança africana. Mas todos sabemos que essa herança infelizmente também foi interrompida e sofreu um processo de apagamento deliberado, o que resulta em uma certa distância e desconhecimento da África. Por habitar esse mundo entre a binacionalidade e a birracialidade e por ter parentes vivos do outro lado do Atlântico, tinha uma oportunidade única de estabelecer uma conexão com meu lado africano. Oportunidade que agarrei com unhas e dentes. Hoje me sinto completo, brasileiro e guineense.

  • G |Você sofreu um abandono paterno que se repetiu também do outro lado do Atlântico, já que seu pai teve outros filhos e com essa viagem você descobre que ele também os abandonou. O que esses dois países têm em comum quando pensamos na formação e nos papéis de gênero nas famílias?

    EM |

    Durante minha passagem pela Guiné-Bissau, notei que as mulheres eram, e continuam sendo, as que faziam o trabalho pesado, dentro e fora de casa. Isso guarda muita semelhança com a sociedade brasileira, sobretudo no Nordeste, onde os lares são majoritariamente chefiados por mulheres. A questão do abandono dos filhos pelos homens também é um dado trágico que une os dois países. No Brasil, por exemplo, de 2016 para cá, 1,7 milhão de crianças nasceram e foram registradas apenas com o nome da mãe, segundo dados do Portal da Transparência dos Registros Civis.

  • G |O que você concluiu em relação ao papel do colonialismo nessas configurações familiares?

    EM |

    As razões que fazem alguns homens africanos e brasileiros abandonarem as mulheres e seus filhos são distintas, mas estão profundamente ligadas ao projeto colonial, na medida em que a destruição dos núcleos familiares sempre foi a tônica desse projeto. Na Guiné-Bissau pós-independência, muitos homens migraram para a Europa, deixando mulher e filhos para trás, em busca de uma atividade que lhes gere alguma renda, que por sua vez é remetida para as famílias. Ou saíram por perseguição política, como foi o caso do meu pai. Mas isso tem um custo altíssimo, gerando uma força desagregadora nas famílias. No caso do Brasil, essa destruição se dá por mecanismos mais ou menos sutis, desde, por exemplo, a sistemática diferença de remuneração de homens e mulheres negras em relação às pessoas brancas que realizam a mesma função, passando pelo número desproporcional de mulheres negras que ainda trabalham realizando serviços domésticos e que dispõem de menos tempo para o cuidado de suas famílias, até a destruição dos corpos de homens negros, alvos preferenciais da violência policial e do encarceramento em massa. O que isso tem em comum é justamente o passado colonial que une os dois lados do Atlântico.

  • G |No livro você relata que sofreu discriminação racial desde a infância no Brasil. Tendo morado em quatro países diferentes, e considerando a maneira como se sentia vivendo em cada um deles, como descreveria o período que passou na Guiné?

    EM |

    Na época em que escrevi o diário, havia nascido e crescido no Brasil, depois, como jovem adulto, morei na Inglaterra, França, Suíça e Canadá. No que se refere aos episódios de discriminação racial, o período da infância foi um dos mais dolorosos, pois era um momento de formação, em que ainda estávamos desenvolvendo um repertório emocional para lidar com todo tipo de violência – verbal e física – que vinha de outras crianças e de adultos. Some-se a isso o abandono paterno, que aconteceu muito cedo na minha vida e me deixou sem essa referência e proteção. Ao chegar na fase adulta, acabei tendo a sorte de ser poupado de violências físicas, muito em razão dos lugares onde vivi, mas no nível psicológico, as violências seguiram se sofisticando. Estava totalmente imerso nas minhas investigações científicas, e acreditava que meu desempenho acadêmico poderia me blindar de alguns dos efeitos mais diretos do racismo, o que aconteceu, em alguma medida, mas não de todo. Tendo esse histórico como pano de fundo, minha ida à Guiné-Bissau foi muito marcante, pois foi a primeira vez na minha vida em que não senti medo de sofrer esse tipo de violência, seja no nível físico ou psicológico. Fui acolhido pelas pessoas de lá, sobretudo por minha família paterna. Esse acolhimento, que, por sua vez, derivava de um sentimento de pertencimento, que me faltou durante toda minha vida.

  • G |Em seu livro conhecemos o que levou o Ernesto de 27 anos à Guiné-Bissau. O que te levaria novamente ao país? O que você tinha para descobrir lá se esgotou? O que falta conhecer?

    EM |

    Espero que a situação política do país se estabilize um pouco mais para que eu possa retornar com mais tranquilidade. De forma alguma [se esgotou]! Durante a viagem que relato no livro, apenas arranhei a superfície do país. A Guiné-Bissau é um país complexo, que ainda oferece muito a conhecer. Quero muito conhecer, por exemplo, o arquipélago de Bijagós e, evidentemente, o local de onde vêm os meus avós, a região de Cacheu e Arame. Também quero retornar com minha irmã Mídana e com meus filhos, que, no momento, ainda são relativamente pequenos, têm 11 e 6 anos.

  • G |Por fim, você foi longe como físico nuclear, sendo o primeiro brasileiro a ser aceito como pesquisador visitante no Programa de Ciência e Segurança Global da Escola de Relações Públicas e Internacionais de Princeton. O que te fez querer virar diplomata? E o que essa viagem à Guiné-Bissau tem a ver com esse projeto?

    EM |

    Ser diplomata é, antes de tudo, ser um servidor público. Minha mãe foi servidora pública federal, e eu tive esse exemplo dentro de casa. Também queria retribuir à sociedade brasileira todo o investimento que foi feito na minha formação: fiz ensino médio em escola pública (no Instituto Federal da Paraíba), depois fiz universidade pública federal (Universidade Federal da Paraíba), recebi bolsa da CAPES e do CNPq. Ter tido uma vivência internacional e aprendido línguas estrangeiras também foram fatores decisivos na minha decisão de me tornar diplomata. A viagem para a Guiné-Bissau se situa temporalmente na transição entre minha carreira de físico nuclear e de diplomata. Viajei para o país entre 2010 e 2011, e, no ano seguinte, comecei a preparação para o concurso do Itamaraty, tendo sido aprovado em 2014. Por mais que tenha uma paixão pela física, sentia um enorme vazio existencial por conta da desconexão com minhas raízes africanas. E essa desconexão se ampliava na mesma proporção que minhas conquistas se acumulavam no âmbito científico, já que há poucas coisas mais ocidentais e eurocêntricas do que a própria física! Precisava de outros referenciais epistêmicos, outras formas de ver e sentir o mundo. Portanto, aquela ida à África me ajudou a entender melhor meu lugar neste planeta e onde eu poderia contribuir de maneira mais efetiva e significativa.

Ernesto Mané estará na 24ª Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) na mesa “A porta está aberta”, que acontece em 26/7, das 10h às 12h, no Auditório da Matriz – Centro Histórico – Paraty – RJ

Produto
  • Antes do Início
  • Ernesto Mané
  • Tinta da China
  • 256 páginas

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