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Conversas

Caetano Galindo: "A língua dos pobres, pretos e distantes é vista como ruim"

Tradutor do “Ulysses” e autor de “Na Ponta da Língua” e “Latim em Pó” aborda as origens da língua portuguesa e os preconceitos que ela revela

Leonardo Neiva 06 de Julho de 2025

Caetano Galindo: “A língua dos pobres, pretos e distantes é vista como ruim”

Leonardo Neiva 06 de Julho de 2025
Foto de Sandra M Stroparo

Tradutor do “Ulysses” e autor de “Na Ponta da Língua” e “Latim em Pó” aborda as origens da língua portuguesa e os preconceitos que ela revela

Já parou para pensar de onde veio uma palavra que usamos quase sem pensar, como nuca? O termo designa uma parte do corpo que, em certas línguas, não ganhou nem mesmo o benefício de uma descrição própria. No inglês, por exemplo, é definido apenas como back of the head, atrás da cabeça. Já no português, ele ganhou uma palavra para chamar de sua, mas que tem origem numa pequena confusão: vem do árabe nuhâ, que na verdade significa medula óssea. Ao longo do caminho, a palavra se confundiu com a semelhante nuqra, que significa literalmente nuca. Essa é apenas uma das muitas origens de palavras do português brasileiro que o professor, tradutor e escritor Caetano W. Galindo explora em seu novo livro “Na Ponta da Língua” (Companhia das Letras, 2025).

Na obra, Galindo leva a sério a ideia de dissecar a língua portuguesa, usando como base para explorar a origem das palavras não só a nunca, mas o corpo humano como um todo. Muitas delas inclusive revelam bastante das visões e preconceitos da sociedade. Um exemplo notável que o próprio autor aponta é o da palavra vagina, que carrega consigo uma visão bem machista de mundo. Ela é parente do termo bainha, o estojo onde se acomoda a espada — e, no caso da vagina, o falo.

A obra também serve como uma espécie de continuação de “Latim em Pó” (Companhia das Letras, 2023), em que o autor narra um pouco da história de formação da língua portuguesa brasileira. O sucesso do livro, assim como outras publicações sobre o tema lançadas nos últimos anos, evidencia um interesse considerável por entender as origens daquilo que falamos. Curiosamente, num momento em que os discursos ameaçam se tornar cada vez mais engessados pelo uso da Inteligência Artificial.

Em entrevista a Gama, o autor deixa claro que é impossível desassociar a criação e as mudanças da língua de processos históricos da própria sociedade. No caso do português brasileiro, tem a ver inclusive com a forma como certos registros da linguagem oral são vistos sempre com desconfiança e preconceito.

“As pessoas falam diferente, usam palavras e sons diferentes, não há nada de melhor ou pior. O que existem são valores imputados pelo estatuto social (centro versus periferia) e o estatuto racial, numa sociedade muito preconceituosa”, ele afirma. Por isso, considera importante entender os mecanismos por trás da nossa formação como uma maneira de compreender o lugar da língua portuguesa no mundo.

Especialista em traduções de livros como o “Ulysses”, de James Joyce, e obras de autores igualmente desafiadores em termos linguísticos, como Thomas Pynchon e David Foster Wallace, Galindo admite gostar de resolver problemas na passagem de uma língua à outra, especialmente quando há jogos de palavras, rimas ou anagramas que parecem intraduzíveis. Ele, que é professor de história da língua portuguesa na Universidade Federal do Paraná, também já se aventurou na escrita ficcional com o livro de contos “Sobre os Canibais” (Companhia das Letras, 2019) e, mais recentemente, em seu primeiro romance, “Lia” (idem, 2024)

No papo com Gama, Galindo fala também da importância de uma educação que nos aproxime mais da língua portuguesa, aborda a situação atual dos tradutores no Brasil e traça possibilidades para o futuro da leitura e da escrita.

  • G |Em “Latim em Pó” e agora em “Na Ponta da Língua”, você explora a história e os processos que levaram à criação da língua que usamos hoje. Por que considera importante que os brasileiros conheçam essas origens?

    Caetano W. Galindo |

    Num certo sentido, vale aquela resposta geral, de que conhecer os mecanismos que levaram as coisas a serem como são hoje é sempre importante. No caso da história da língua e das palavras, tratam-se de dois campos cheios de mitos e narrativas fantasiosas. Além de derrubar essas ideias simplórias, a narrativa por trás da nossa formação é especialmente relevante para os brasileiros, geopoliticamente, pela nossa relação com a língua portuguesa no mundo, e politicamente, pela relação com o nosso idioma dentro do Brasil. O “Latim em Pó” vem da ideia de dizer aos brasileiros que eles precisam parar de se sentir vira-latas, usuários ilegítimos de um idioma que eles não merecem. Isso decorre de um processo de elitização, que fez com que nos acostumássemos a considerar inferiores, ruins, imperfeitos os traços característicos do português do Brasil. Ou seja, aquelas coisas realmente nossas e invariavelmente racializadas tanto na sua origem quanto na sua distribuição hoje na sociedade. A gente foi treinado a vê-las como indesejáveis, e esse é um processo pérfido e maldoso de minar a confiança das pessoas no próprio idioma.

  • G |Tem exemplos dessas marcas da língua vistas como indesejáveis?

    CWG |

    Há vários elementos do português brasileiro que podem ser atribuídos a uma influência direta das línguas africanas, especialmente as línguas banto. A professora Yeda Pessoa menciona que o português do Brasil é muito mais determinado por um padrão consonante-vogal, consonante-vogal, como o japonês ou o tupi, do que o português europeu. A gente tem dificuldade com encontros consonantais, dizemos ritimo em vez de ritmo, adivogado em vez de advogado, preenchendo esses choques de consoantes com uma vogal. Outra coisa é a nossa tendência a não marcar o plural redundante: em vez de dizer as meninas, os problemas, a gente diz as menina, os problema. Isso possivelmente tem também influência africana. São marcas que a gente normalmente associa a um português popular e que poderiam ser características do português brasileiro em todos os níveis. É uma coisa que acontece na história das línguas. O francês e o inglês funcionam com formas de marcar plural muito parecidas com essas. Aqui, aconteceram por essa influência africana, e foram estigmatizadas como populares.

  • G |O humor, as referências e a fluidez que você usa nos livros pra falar desses temas são bons caminhos para ajudar a entender e reter essas informações? É um recurso raramente usado no contexto escolar?

    CWG |

    Nosso sistema educacional foi se transformando numa arma de perpetuação do elitismo e da exclusão. O ensino no Brasil foi sendo pauperizado da esfera pública e o ensino de qualidade foi ficando restrito a escolas particulares cada vez mais caras e para menos pessoas. A nossa relação com a língua é um reflexo disso. Esse processo conversa com o plano de manutenção de poder, acesso à renda, educação e dinheiro das elites, o que torna ainda mais relevante reverter a situação. Seria um processo — para usar uma palavra maldita hoje em dia — de empoderamento, de dizer para as pessoas que elas estão certas, que a língua delas é boa, legítima, historicamente importante e precisa recuperar esse lugar de estima. Vindo da academia, o mais precioso que eu posso fazer é tentar falar de uma maneira que atraia as pessoas. Os discursos, quanto mais rigorosos, tendem a ser menos interessantes e sedutores para o público geral. E, quanto mais sedutores, tendem a ser mais falseados. Veja o que circula nas redes, como fake news, soundbites, videozinhos de TikTok sem maiores explicações, enunciando verdades perfeitas, em geral falseadas. Transitar nesse meio do caminho é muito complicado, e o humor, a leveza é uma arma muito interessante, porque te permite manter as pessoas engajadas. Deixa claro que você não está falando do alto de uma torre de marfim, está conversando de igual para igual.

  • G |O uso da linguagem hoje parece despertar uma atenção grande entre o público geral. Por que esse interesse renovado pelo tema?

    CWG |

    Eu hoje vejo isso acontecer através do impacto e das vendas do “Latim em Pó”. O livro preencheu uma lacuna que ninguém sabia que existia. As pessoas queriam ler e pensar sobre aquilo. Então, esse e talvez outros livros e discussões sobre linguagem, história da língua, etimologia, sotaques, a exposição no Museu da Língua Portuguesa, essas coisas apontam sim para esse interesse. Eu não sei dizer se é maior hoje, mas ele existe. Gosto de pensar que a guinada para esse mundo das aparências, do falso, do impalpável, pode gerar movimentos de backlash. De repente, o interesse pela linguagem concreta, o retorno à leitura, a curiosidade sobre a língua podem ser efeitos colaterais desse tipo de coisa.

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  • G |Você já traduziu James Joyce, Thomas Pynchon, David Foster Wallace… Todos autores que representam um desafio em termos de linguagem. Você considera esse tipo de desafio instigante? Como costuma ser a sua abordagem para uma tradução?

    CWG |

    Gosto muito de traduzir isso que você chamou de desafiante. Até brinquei sobre isso com uma colega, a [tradutora australiana] Alison Entrekin, que está prestes a publicar a tradução do “Grande Sertão Veredas” para o inglês. Somos o tipo de pessoa que acha legal quando alguém fala: você precisa dizer em português a mesma coisa que essa frase inglesa, mas com dez sílabas poéticas, acentos na quarta, na sétima e na décima sílabas, e rimando com pífio. Eu gosto desses excessos, desse joguinho, a coisa de fazer palavras cruzada, brincar com palíndromos e anagramas. Cada um desses autores tem complexidades distintas, maneiras novas e diferentes de lidar com a literatura, com a língua e a criatividade. Isso te leva a tentar mais, a descobrir se a língua e você são capazes de fazer aquelas coisas. É como se você fosse um bailarino diante de um coreógrafo criativo que fica te propondo novos desafios. Enquanto não cair, acho divertido participar desse tipo de experiência.

  • G |Recentemente, um grupo de tradutoras assinou um manifesto denunciando condições precárias de trabalho no Brasil. De fato, falta reconhecimento, ainda mais em meio a novas ameaças, como a IA?

    CWG |

    Inclusive, depois da divulgação inicial, elas passaram o link para várias pessoas. Eu recebi e assinei também. Mas acho que é quase o contrário: o fato de haver maturidade suficiente dos profissionais e do mercado para ouvir essas queixas é prova de que já se caminhou bastante no reconhecimento da tradução no Brasil. A gente agora quer mais. O que elas estão dizendo é que há coisas que ainda não foram resolvidas. Eu tendo a ver o copo meio cheio. Estou há bastante tempo no mercado e sei que já foi muito pior, muito mais precária a alfabetização do mercado e dos leitores quanto à importância da tradução literária. Mas ainda há muito o que se fazer em termos de condições de trabalho. Numa situação em que estamos prestes a ser atacados por modelos de tradução automática, de IA, isso se torna ainda mais premente. Então, toda força para as meninas e tomara que elas tenham sucesso em apresentar essas reivindicações e conseguir mudanças.

  • G |Você publicou no ano passado seu primeiro romance, “Lia”. Como foi essa passagem da tradução à escrita literária, também com o livro de contos “Sobre os Canibais”? No fim, acabam sendo duas atividades de criação?

    CWG |

    Quando jovem, eu imaginava mais facilmente um dia ser escritor do que tradutor. A tradução não fazia parte do rol de atividades imaginárias na minha geração. Mas aconteceu o contrário, eu acabei me dedicando primeiro à tradução e depois retornei a essa ideia de escrever ficção por caminhos mais tortos. Mas existe uma ligação muito clara entre as duas coisas. Passei décadas da minha vida reescrevendo em português obras de autores e autoras incríveis, e isso te coloca na posição de desmontar os motores desses carros, fazer a engenharia reversa dessas obras. Traduzir o tipo de autor que eu traduzi te dá um grau muito grande de liberdade, ensina que é possível ir mais longe e te treina também num tipo de disciplina textual: ficar sozinho com as vozes internas da sua cabeça, se dedicar por bastante tempo a elaborar um texto com parâmetros claros do que você quer fazer. Para mim, são atividades que caminham juntíssimas.

  • G |Como você aponta no livro, a língua e as palavras são elementos vivos e mutáveis. O trabalho do linguista, do tradutor e do escritor é algo que também funciona em constante mutação?

    CWG |

    O linguista está sempre correndo atrás de uma realidade que nunca será completamente compreendida. No momento em que você consegue entender uma parte do fenômeno, ele já se alterou. E a tradução literária também, é como jogar tênis contra uma máquina de arremesso dotada de um mecanismo caótico. Você nunca sabe o que vem na sua direção: o próximo livro, frase, trocadilho, piada, a próxima referência contextual intraduzível. Então tem que estar sempre muito atento e disposto a se renovar, e não só em relação ao trabalho que você está fazendo, mas à evolução da língua portuguesa. É preciso interesse, curiosidade, ir buscar, são atividades pautadas por um fenômeno em permanente e acelerada mutação.

  • G |Como você enxerga tentativas conscientes de controlar os processos da língua, evitar o uso geral de certas palavras e expressões?

    CWG |

    A princípio, o idioma não precisaria de uma ortografia, no sentido de escrever corretamente. Se cada um escreve do seu jeito mas a gente se entende, está valendo. Mas em sociedades complexas, línguas com números grandes de falantes, essas uniformizações cumprem um papel: elas facilitam a vida e contêm a velocidade da mudança. Mantêm a língua como algo mais ou menos estável com que as pessoas possam trabalhar. De outro lado, todo tipo de proibição de macro escala dentro das línguas é algo quimérico. Não dá para proibir o uso. Agora, em micro escala, pode. Eu odeio o verbo possuir no lugar do verbo ter, o vício atual de usar seguir em vez de continuar. Cada um tem suas marcas e incômodos, aí é estilo.

  • G |Hoje o preconceito em relação a sotaques e formas de falar é uma parte central da construção da xenofobia dentro do Brasil. Como enxerga esse problema?

    CWG |

    O preconceito quanto à diversidade é um problema gigantesco. Para a língua escrita formal, a existência de um padrão é necessária, aceitável, talvez até desejável. Mas para a comunicação oral, numa sociedade como o Brasil, a diversidade faz parte do jogo. As pessoas falam diferente, usam palavras e sons diferentes, não há nada de melhor ou pior. O que existem são valores imputados pelo estatuto social (centro versus periferia) e o estatuto racial, numa sociedade muito preconceituosa. Ou seja, a língua dos pobres, pretos e distantes é vista como ruim; a língua dos brancos, ricos e centrais é vista como boa. Mas elas não têm linguisticamente nada melhor que a outra. A gente precisa lutar o bom combate, ensinar as pessoas que é uma imensa maravilha o fato de todos nós falarmos de jeitos diferentes. Isso carrega identidades regionais, pertencimento, memória, afeto e identidade. Precisamos nos colocar nesse lugar de encanto pela diversidade, e tentar acabar de vez com o preconceito que atribui mérito a coisas que são apenas maravilhosamente diferentes.

  • G |Existe uma visão bastante pessimista em relação ao futuro da leitura e da escrita: uma ideia de que as pessoas leem e escrevem menos e pior em meio a uma série de distrações tecnológicas e uma preocupação sobre como a IA afeta nossa escrita. Como você enxerga essa realidade atual?

    CWG |

    Eu disse que era o cara do copo meio cheio, mas não há muito motivo para otimismo. O tipo de atenção e obsessão por estímulos constantes e renovados que a sociedade, a mídia e as redes sociais incentivam no indivíduo desde cedo não batem com o tipo de atividade que a leitura demanda. Não estamos criando uma sociedade de leitores. Por outro lado, tenho a impressão de que isso pode gerar uma reação. Vejo algumas pessoas, talvez da minha bolha, tentando valorizar essa atividade. Nunca se falou tanto de meditação como hoje nesse mundo completamente oposto à ideia da meditação silenciosa, concentrada e isolada. Essas reações existem. Talvez a leitura, a escrita, a fruição da literatura como um todo possam fazer parte de uma reação. Mas a direção em que estamos indo como sociedade não me parece promissora nem otimista de jeito nenhum.

Produto

  • Na Ponta da Língua
  • Caetano W. Galindo
  • Companhia das Letras
  • 272 páginas

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