Ansiedade e depressão na pandemia — Gama Revista
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Saúde

Ansiedade e depressão na pandemia

Com transtornos psicológicos em alta, psiquiatras e psicólogos precisam aprender a lidar com uma segunda epidemia silenciosa e praticamente ignorada

Leonardo Neiva 14 de Março de 2021
Thiago Quadros

Ansiedade e depressão na pandemia

Com transtornos psicológicos em alta, psiquiatras e psicólogos precisam aprender a lidar com uma segunda epidemia silenciosa e praticamente ignorada

Leonardo Neiva 14 de Março de 2021

Muita gente reclama que o Brasil ocupa posições baixas em alguns dos principais rankings e índices globais, perdendo posições em vários casos para países vizinhos de status semelhante. No entanto, quando se trata de um tema triste como as questões de saúde mental, nós subimos direto para as cabeças.

Ao menos é o que aponta uma pesquisa recente realizada pela Universidade de São Paulo (USP). Segundo o estudo, que levou em conta dados de 11 países, o Brasil ocupa a dianteira absoluta no número de casos de depressão e ansiedade durante a pandemia de covid-19, acima de nações como Estados Unidos e Irlanda.

O isolamento, a falta de alternativas de lazer e problemas financeiros teriam sido alguns dos principais fatores que empurraram esse números para cima, embora o país já viesse enfrentando uma alta na quantidade de casos, especialmente entre os jovens. Eles, além de mulheres, pessoas com histórico de distúrbios psicológicos e desempregados são alguns dos grupos que mais relataram sofrer com os problemas.

O Brasil ocupa a dianteira absoluta no número de casos de depressão e ansiedade durante a pandemia de covid-19, aponta pesquisa

Em meio à sobrecarga de trabalho e emocional que profissionais de saúde têm enfrentado no atendimento aos infectados com o vírus, psiquiatras observam com preocupação a onda de distúrbios psicológicos que está se formando devido ao estado prolongado de pandemia — e que, segundo alguns, deve se manifestar de forma ainda mais forte nos próximos meses e anos, mesmo após o fim do isolamento.

Para entender melhor essa tendência e como ela tem afetado aqueles que trabalham diretamente com saúde mental, Gama conversou com profissionais que relataram um aumento no volume de atendimentos, problemas na relação com os pacientes devido ao distanciamento e impactos da situação em seu trabalho e vida pessoal.

O estado das coisas

Na clínica particular PPI (Psicologia e Psiquiatria Integradas), onde trabalha, o psicólogo analítico Kleber Marinho viu a procura por atendimento crescer entre 40% e 50% desde o ano passado. Além de um aumento significativo nos casos de depressão e ansiedade, boa parte chegou com distúrbios que podem ter sido causados ou acentuados pela pandemia e o isolamento, como insônia, síndrome do pânico, uso de drogas e até estresse pós-traumático.

“Muitos casos foram de pessoas que já tinham um quadro de crises e experimentaram um retorno acentuado do problema”, conta o psicólogo. “Por outro lado, também vimos bastante gente que vinha de um contexto psicologicamente estável e acabou sofrendo um desequilíbrio, passando a precisar de ajuda por meio da terapia ou uso de medicamentos.”

Para ele, além de o brasileiro ter histórico de ignorar ou buscar tratamento tardiamente para distúrbios psicológicos, há também os fatores sociais e financeiros que dificultam o acesso, algo que fica claro pela alta procura por atendimento gratuito. Fora isso, a alta de casos, aliada ao cerceamento de alternativas de escape gerado pelo isolamento, teria feito com que mais gente buscasse ajuda profissional para sair da crise.

Numa situação como a que a sociedade vive hoje, há também algumas pessoas que desenvolvem formas de lidar com o mundo ao redor para evitar o colapso psicológico, diz o psiquiatra Cyro Masci. Ou se adaptam aos novos tempos e aprendem a viver de acordo ou passam a negar o problema. “São esses que vão para as festas e aglomerações, muitas vezes sem máscara, como se nada estivesse acontecendo.”

De acordo com o médico Eduardo Teixeira, coordenador de psiquiatria no Hospital PUC-Campinas, a demanda por atendimento na instituição cresceu mais de 50% no período. Dentro desse contexto, quadros depressivos já existentes têm apresentado um agravamento, enquanto muitos casos de ansiedade estão ligados a um exagero na percepção da gravidade da contaminação pelo vírus, diz o psiquiatra.

“É uma mistura de fatores que se associam e pioram quadros já existentes ou geram novos.”

Precisamos falar sobre os jovens

Longe das salas de aula por quase um ano inteiro, com poucas opções de atividades físicas ou de lazer e contato restrito com colegas, num momento em que a interação social é das mais importantes, crianças e adolescentes estiveram entre os grupos mais afetados socialmente na pandemia. Segundo pesquisas dentro e fora do país, essa situação tem se refletido em um aumento no número de casos de depressão e tristeza dentro dessa faixa etária.

Têm aparecido mais casos de adolescentes com sintomas, inclusive alguns até mais graves do que costumamos ver normalmente

“Têm aparecido mais casos de adolescentes com sintomas, inclusive alguns até mais graves do que costumamos ver normalmente”, afirma o psiquiatra Sérgio Tamai, diretor secretário da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

O fato de serem forçados a falar com colegas e professores principalmente por meio de conferência ou nas redes sociais, que favorecem falhas na comunicação, além das maiores dificuldades de aprendizagem, teriam sido relevantes para gerar uma maior sensação de distanciamento, explica Sérgio. Além disso, há questões complementares, como a redução nos exercícios físicos e um consequente ganho de peso, que podem gerar problemas com a autoimagem.

Os percalços da telemedicina

Com sua prática aprovada emergencialmente em março de 2020 pelo governo federal, com o objetivo de evitar aglomerações e facilitar o atendimento na pandemia, a telemedicina tem sido cada vez mais utilizada por médicos e demandada por pacientes. No caso de consultas para tratar de distúrbios psicológicos, porém, ela pode trazer algumas dores de cabeça embutidas, como relatam profissionais do ramo.

O principal dos problemas é que há maior dificuldade para avaliar adequadamente os pacientes à distância, considera Sérgio, da ABP. Segundo ele, alguns fatores corporais são mais difíceis de se perceber no vídeo. Outra questão é que a relação do paciente com a câmera acaba sendo diferente da interpessoal. A falta de privacidade e a proximidade de familiares também podem inibir a pessoa e impedir que ela se abra totalmente com seu psiquiatra, dificultando o diagnóstico e tratamento.

A falta de privacidade e a proximidade de familiares também podem inibir a pessoa e impedir que ela se abra totalmente com seu psiquiatra

 

Kleber, que divide o tempo na clínica entre atendimentos online e presenciais — reservados para casos mais graves —, diz que a rotina é estafante para os profissionais de saúde que precisam se desdobrar. Segundo ele, cada vez mais pacientes têm buscado a modalidade de atendimento à distância, com receio de se infectar.

“Do ponto de vista pessoal, cansa muito mais do que o presencial, porque você perde a leitura mais automática dos gestos e emoções. No online, é preciso ficar muito mais atento em busca dos pequenos detalhes, o que requer uma concentração e atenção muito maiores. No final do dia, acaba sendo exaustivo”, diz o psicólogo.

Formas de lidar com a pressão

A sobrecarga em cima de profissionais de saúde mental é perceptível, de acordo com Eduardo Teixeira, do Hospital PUC-Campinas. Para tentar lidar com a situação, ele tem presenciado e integrado esforços para criar uma rede de apoio entre os médicos do departamento, fisicamente ou por meio de um grupo no WhatsApp, numa tentativa de prover acolhimento e auxílio mútuo.

Ele também diz ter percebido as pessoas ao redor mais inseguras, tensas e negativas. Pessoalmente, conta que tomou algumas medidas para evitar fazer parte dessa mesma tendência. “Tenho procurado ajuda e dado uma atenção especial para minha saúde mental e física.”

Para Kleber Marinho, é essencial que todo profissional de saúde se dedique a atividades físicas e criativas, como arte ou música, além de se submeter ele mesmo à terapia. Por experiência própria, aconselha a reservar períodos para fazer pequenas pausas ao longo do dia, entre atendimentos, de forma a evitar que o estresse do trabalho se acumule.

Uma das saídas que encontrou para escapar dos impactos da pandemia, que reduziram drasticamente sua atividade física, foi repor as energias por meio da prática da meditação. Além de continuar fazendo terapia, deu um jeito de incluir na rotina mais períodos de lazer com as filhas, o que ficou mais fácil, já que passa a maior parte do tempo em home office. E, como muitos outros pelo mundo que se viram com tempo extra num período tão complicado, aprendeu a fabricar pão de fermentação natural em casa.

“Gosto muito de cozinhar e nunca tinha feito. Para mim, foi terapêutico. Comprei todas as panelas, termômetros e utensílios necessários, é algo que vou levar comigo mesmo depois que tudo isso passar.”

Uma outra epidemia ignorada e silenciosa

Segundo o coordenador de relações institucionais do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, Rodrigo Leite, no entanto, o pior ainda está por vir. Apesar do visível aumento de pacientes com transtornos psicológicos no atendimento privado, segundo ele os números no hospital público ainda estão baixos. O que não significa que os casos de transtornos como depressão e ansiedade, entre tantos outros, não estejam crescendo na pandemia.

Para ele, em parte devido a uma cultura que ignora os sintomas de distúrbios psicológicos, o país vive hoje um “acúmulo de sofrimento” que em algum momento deve transbordar. “O que chama a atenção é esse sofrimento mental não identificado, que muitos não reconhecem como tal. As pessoas ainda estão se segurando. Isso deve ficar cada vez mais evidente ao longo dos próximos meses e anos e pode desembocar numa epidemia de problemas de saúde mental.”

É preciso aproveitar a pandemia como oportunidade de consolidar uma estratégia de acessibilidade, num país com dificuldades crônicas no que se refere à saúde mental.

Um dos fatores que contribuem para isso é a dificuldade de monitorar dados relacionados à saúde mental, vivida pela atual gestão federal, aponta o psiquiatra. O mais provável, lembra, é que a subnotificação tenha aumentado desde o ano passado, já que praticamente todos os olhos estão voltados para os sintomas imediatos do vírus.

Rodrigo também enxerga um futuro com profissionais de saúde mental mais fragilizados. Para que tenham suporte, seria importante um investimento forte em telemedicina, na conscientização sobre a importância da saúde mental e em preparar as unidades de atendimento para o aumento de demanda que está se aproximando a galope. “É preciso aproveitar a pandemia como oportunidade de consolidar uma estratégia de acessibilidade, num país com dificuldades crônicas no que se refere à saúde mental.”