De férias com os filhos?
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Ilustração de Luana Silva

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5 dicas

Como descansar nas férias mesmo cuidando dos filhos

Rede de apoio, micropausas e combinados simples ajudam a reduzir a sobrecarga e a culpa parental. Especialistas indicam maneiras de como passar pelo recesso escolar com tempo para o descanso

Ana Elisa Faria 11 de Janeiro de 2026

Como descansar nas férias mesmo cuidando dos filhos

Ana Elisa Faria 11 de Janeiro de 2026
Ilustração de Luana Silva

Rede de apoio, micropausas e combinados simples ajudam a reduzir a sobrecarga e a culpa parental. Especialistas indicam maneiras de como passar pelo recesso escolar com tempo para o descanso

Quando as crianças entram em férias, a vida adulta passa a operar em outro fuso. De repente, o dia precisa comportar brincadeiras, passeios, alimentação, telas, tédio e conflitos — isso tudo, muitas vezes, com a rotina de trabalho acontecendo em paralelo. O recesso, então, vira um período em que o cuidado ganha volume, e o descanso precisa ser planejado para existir.

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A psicóloga e psicanalista Fê Lopes aponta que um dos fatores que mais pesam nessa equação é a solidão do cuidador. “Quanto mais sozinho e isolado você fica, mais cansado você vai terminar as férias”, resume. Não se trata apenas de organizar atividades, mas de pensar em como o cuidado pode ser distribuído de forma concreta ao longo dos dias, com revezamentos possíveis e combinados realistas, para que a folga não dependa de improviso.

Priscilla Montes, neuroeducadora, chama a atenção para o efeito colateral da quebra de rotina: com um cotidiano mais caótico, sem tantos horários ou regras, a energia escapa em pequenas decisões e a sensação de sobrecarga aumenta. Por isso, a sugestão da profissional é criar rotinas com micropausas para relaxar.

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Outro tema que costuma aparecer nesse período, e uma das principais causas do esgotamento parental, é o tédio infantil. Para Montes, ele não é um problema a ser eliminado, mas um estado que participa do desenvolvimento dos pequenos. A psicóloga e criadora de conteúdo Carol Rocha diz que não é possível, nem bom, entreter os filhos 100% do tempo. Além disso, Montes sinaliza que há uma expectativa utópica das “férias perfeitas”, em que pai e mãe “se obrigam a inventar programações e a criar memórias o tempo inteiro”. “Isso é irreal”, frisa.

Com base nas conversas com as especialistas, Gama reuniu cinco caminhos para passar pelas férias escolares com mais respiro e paz para quem cuida — e com uma ideia, sugestão de Lopes, em mente: a de que o descanso pleno costuma chegar somente quando as aulas voltam.

  • 1

    Invista na rede de apoio e crie revezamentos com outras famílias –
    Quando o cuidado fica concentrado em poucas pessoas, geralmente na mãe e no pai — ou em apenas um dos responsáveis —, a folga para esses cuidadores tende a terminar em exaustão acumulada. A psicóloga e psicanalista Fê Lopes resume: “Quanto mais sozinho e isolado você fica, mais cansado você vai terminar as férias”. Para mudar esse cenário, vale recorrer aos amigos com filhos de idades próximas às dos seus, combinar períodos alternados de supervisão (um dia na casa de cada família) ou planejar passeios e viagens em grupo. Assim, quando as crianças se entretêm entre si, os adultos conseguem se revezar nos cuidados e respirar. Viajar com familiares é mais uma dica. Avós e avôs, sobretudo, quando têm disponibilidade e energia para ficar com os netos, contribuem com o descanso dos pais. Mas Lopes pondera que, para não haver frustrações ou brigas, é necessário alinhar as expectativas com antecedência. Isso porque, hoje, os pais dos pais ainda trabalham, têm vida social ativa, se exercitam e, muitas vezes, não podem, ou não querem, ser os principais responsáveis pelos netos durante o período das férias — e tudo bem. De acordo com ela, esse é um direito deles e ninguém precisa se magoar por isso. Entender o que a família realmente consegue oferecer evita decepções e abre espaço para buscar outras formas de apoio. “Ou você vai voltar frustrada e mais cansada porque a expectativa de que sua mãe, seu pai ou sua tia cuidaria da criança não foi atendida.” Caso caiba no orçamento, outra estratégia é se hospedar em hotéis com recreação, daqueles em que a criançada passa o dia em atividades e brincadeiras sob o olhar de profissionais especializados. “É uma paz, uma maravilha, mas requer ter recursos”, diz Lopes. Nessa seara, uma alternativa é inscrever os pequenos em um cursinho de férias ou numa colônia, algo que muitos pais com essa possibilidade financeira não fazem por culpa. No entanto, segundo Lopes, às vezes esses momentos são os únicos no ano em que o adulto também está de férias e precisando relaxar. “Manda para o curso de férias por alguns dias, ou um dia que seja, e vai descansar. O seu filho vai brincar, vai se divertir. Poder fazer uso disso com menos culpa é importante.”

  • 2

    Crie uma rotina com micropausas para descansar –
    A neuroeducadora Priscilla Montes, especialista em desenvolvimento infantil e adolescência, observa que as férias se tornam um período de sobrecarga porque a rotina muda, se desorganiza, e as demandas para os pais e responsáveis aumentam — até porque muitos retornam ao trabalho ainda durante o recesso escolar. Nesse contexto, ela sugere buscar pausas pequenas, porém com propósito, com a intenção de descansar e se desligar do caos. “Dentro do que a pessoa consegue fazer, conforme a logística da casa, essas micropausas de descanso são uma gestão inteligente de energia e regulação emocional e intencional.” O caminho costuma ser criar alguma rotina adaptada para aquele momento, mesmo em meio às férias. Montes dá exemplos que cabem em diferentes realidades, como um banho com intenção relaxante, um momento de leitura no sofá, uma caminhada, uma meditação, um cochilo restaurador — cada um sabe aquilo que dá paz e é possível. “Quando estou muito cansada, eu acordo antes da casa. Faço o meu café com tranquilidade, sinto aquele cheirinho, sento e organizo a minha cabeça. E aí, pouco depois, todos acordam”, compartilha. “Isso, para mim, é bastante regulatório.” Para funcionar, esse tempinho precisa ser tratado como compromisso. Se houver outro adulto por perto, vale negociar turnos de descanso, ainda que sejam curtos, para que a pausa deixe de ser o que sobrou do dia. Até porque o que sobre, geralmente, é uma tela antes de dormir, o que nos deixa mais cansados e estressados.

  • 3

    Verbalize o que está acontecendo para que a criança entenda a rotina da casa –
    Férias sem rotina não precisam virar férias sem combinados. Priscilla Montes recomenda fazer acordos com as crianças para organizar minimamente o dia e reduzir a necessidade de negociação constante, o que também exaure. Na prática, dá para combinar assim: por 20 minutos, eu — pai, mãe ou cuidador responsável — tomo um banho e você desenha. Ou: pela manhã, durante duas horas, eu trabalho e você cria uma brincadeira independente ou assiste a um filme — depois, vem um tempo de presença. Aqui, é útil diferenciar presença de disponibilidade total. “Às vezes, a qualidade do tempo é melhor do que a quantidade”, frisa a neuroeducadora. Um bloco curto de atenção plena pode ser mais proveitoso do que horas de convivência atravessadas por irritação. Outra parte do acordo é verbalizar o que está acontecendo. Quando o adulto traduz o momento (“agora é meu tempo de trabalho”, “agora é meu tempo de tomar banho”), a criança entende melhor o ritmo da casa, mesmo que ainda reclame e que o entendimento completo demore para acontecer — afinal, ela é um ser em desenvolvimento. Essas táticas não eliminam os desafios, mas são capazes de diminuir atritos desnecessários.

  • 4

    Não se culpe pelo tédio infantil, ele é um convite à criatividade –
    Um dos motores da exaustão parental nas férias é a crença de que criança entediada significa adulto falhando. Priscilla Montes propõe uma inversão nessa lógica: “O tédio é fundamental para a criatividade e para a regulação emocional. É quando as crianças elaboram toda a sua criatividade e exploram o ambiente”, diz.“Uma das maiores fontes de cansaço é quando os responsáveis tentam resolver o tédio da criança o tempo inteiro.” A psicóloga e criadora de conteúdo Carol Rocha concorda e conta que coloca limite com franqueza para o filho, Valentin, 10.  “Digo que o nosso cérebro precisa de descanso das telas porque, quando estamos em frente à tela, várias partes do cérebro ficam paradinhas e não se desenvolvem, ao contrário de quando fazemos atividades manuais, em que o cérebro manda uma informação para a mão fazer”, diz. “Também lembro que muitas invenções que mudaram o mundo vieram do ócio, de pessoas que estavam fazendo nada e, de repente, inventaram, criaram algo importante.” Rocha comenta, no entanto, que a tarefa não é fácil e tem de ser construída aos poucos. Em vez de preencher cada minuto, a saída, portanto, é sustentar o desconforto do “não sei o que fazer” oferecendo um ambiente possível para o ócio, com opções simples ao alcance. Isso pode incluir materiais de desenho, livros, jogos de mesa, massinha, um “cardápio” de brincadeiras que a própria criança ajuda a montar.

  • 5

    Traga os pequenos para as suas atividades prazerosas –
    Descansar tendo filhos em casa nem sempre é se afastar deles, se trancar no quarto e dormir — às vezes, porém, isso é essencial e você pode fazer sem culpa. Mas, em muitos casos, é possível integrá-los ao momento de relaxamento. Carol Rocha conta que aprendeu a descansar com Valentin o convidando para as atividades que a relaxam, como fazer um escalda-pés e skincare. “É o nosso ‘spazinho’. A gente coloca máscara facial juntos, se vou fazer algo nas minhas unhas, lixo as dele, fazemos massagem um nos pés do outro. Com essas coisas, ele aprendeu sobre cuidado, por exemplo.” Priscilla Montes reforça que apresentar esses momentos também educa. “A criança só vai aprender a se cuidar se ela tem cuidadores que se cuidam também, que olham para si”, diz. Isso pode ser um “banho premium”, como Carol brinca com o filho, um passeio em livrarias e museus, uma leitura lado a lado, assistir a um filme que você adorava na infância ou se deitar com as pernas para cima enquanto a criança brinca por perto.

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