De férias com os filhos?
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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

Os desafios para tirar férias com os filhos

Tema de projeto de lei no Congresso, dificuldade de alinhar férias em família pode gerar impactos à saúde mental de pais e filhos

Leonardo Neiva 11 de Janeiro de 2026

Os desafios para tirar férias com os filhos

Leonardo Neiva 11 de Janeiro de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Tema de projeto de lei no Congresso, dificuldade de alinhar férias em família pode gerar impactos à saúde mental de pais e filhos

Descanso e relaxamento, viagens, brincadeiras e bons momentos em família. Essas são algumas das coisas que geralmente associamos ao período das férias: o momento em que, finalmente, pais e filhos podem conviver de forma mais próxima e diária, aproveitando um lazer muitas vezes adiado em meio à rotina estressante de trabalho e estudos. Mas essa nem sempre corresponde à realidade das famílias brasileiras.

O desafio começa num ponto simples, mas crucial: fazer coincidir as férias do trabalho com as dos filhos. Como as férias escolares são mais longas, é natural que pais e mães precisem equilibrar em algum momento a vida profissional com a maior presença dos jovens no ambiente doméstico. O problema é quando eles não conseguem nem alinhar seus dias de folga com os das crianças. Embora pareça natural que mães e pais tenham preferência para agendar sua pausa do trabalho nos meses de julho, dezembro e janeiro, essa não é uma regra oficial no Brasil.

Hoje tramita no Congresso um projeto de lei que visa garantir prioridade na marcação de férias que coincidam com o descanso escolar a trabalhadores com filhos entre 4 e 17 anos. O objetivo da proposta é alterar a CLT, mas ainda depende de aprovação na Câmara e no Senado.

“O artigo 227 da Constituição traz como dever compartilhado entre família, Estado e sociedade garantir a prioridade absoluta dos direitos das crianças, e entre esses direitos está a convivência familiar”, afirma Karina Fasson, gerente de políticas públicas da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, focada na primeira infância. Mas na prática, a questão das férias ainda depende do diálogo entre empresa e trabalhador. “Fica a critério do empregador e do departamento pessoal conceder ou não essa proridade.”

E é um processo que pode gerar dores de cabeça e frustração, já que esses meses são bastante visados pelos trabalhadores de forma geral. Em 2025, 58% dos brasileiros com filhos pretendiam marcar férias no mês de julho — mas 44% daqueles sem filhos também tinham intenção de agendar seu descanso para o mesmo período, diz pesquisa do Instituto Locomotiva.

Essa falta de priorização acontece porque a parentalidade foi historicamente trancada do lado de fora no desenho das organizações, considera a escritora e palestrante Camila Antunes, cofundadora da consultoria Filhos no Currículo, cujo objetivo é construir uma cultura de bem-estar parental nas empresas. “O trabalho foi estruturado como se o cuidado fosse um assunto privado, resolvido do lado de fora do escritório”, declara.

O trabalho foi estruturado como se o cuidado fosse um assunto privado, resolvido do lado de fora do escritório

Na prática, segundo ela, significa que poucas empresas consideram de forma madura temas como o calendário escolar, a idade dos filhos e a existência de uma rede de apoio. “Normalmente depende da sensibilidade de uma liderança específica, não de uma cultura consolidada.” Embora não exista uma solução única, Antunes defende que as empresas assumam essa responsabilidade e definam formas de lidar com a vida real dos colaboradores fora do trabalho.

Além disso, as férias escolares também significam a perda de um apoio na educação e no cuidado das crianças, aponta Fasson. O impacto dessa mudança na rotina familiar depende de uma série de fatores: “Se a criança está numa instituição de período parcial ou integral; se é uma família chefiada por uma mãe solo; depende da situação socioeconômica, da inserção dos cuidadores no mercado de trabalho e da existência e do tamanho da rede de apoio com que podem contar”, lista a gerente de políticas públicas.

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Férias frustradas

O paulistano Lucas Moutinho, 36, conseguiu agendar para janeiro as férias da padaria onde trabalha como atendente, na zona norte de São Paulo. Além de passar mais tempo em casa com o filho Miguel, de sete anos, planeja uma viagem à casa de familiares no litoral paulista. Mas a esposa, que também trabalha, só vai poder acompanhá-los no final de semana. Isso porque, este ano, ela pretende marcar seu descanso para julho, junto com o outro recesso escolar do filho.

Moutinho lembra que, no ano anterior, a tarefa foi bem mais complicada. Como não agendou com antecedência suficiente sua folga do estabelecimento, onde trabalha há pouco mais de dois anos, só conseguiu pegar duas semanas de descanso em janeiro, de um total de dois meses das férias escolares de Miguel. “Aproveitei ali para deixar marcadas as [férias] deste ano. Então acabei marcando mais de um ano antes”, conta.

Além da vontade de passar mais tempo de lazer com os pequenos, há outras questões envolvidas. Uma delas é a forma como as férias escolares impactam a saúde mental e até o desempenho profissional, principalmente das mães que precisam trabalhar no período. 84% afirmam se preocupar mais com os filhos na época das férias escolares e 75% relatam sentir culpa, insegurança e exaustão quando precisam trabalhar enquanto os filhos estão em casa, segundo uma pesquisa da empresa de educação corporativa Todas Group.

“Pode ser um momento muito frustrante”, aponta a especialista em parentalidade Lua Barros, cofundadora da Rede Amparo. Entre outros motivos, segundo ela, porque é quando muitas mães e pais se dão conta de que a nossa vida em sociedade não é pensada para as famílias. Por outro lado, a cobrança pode acabar transformando as férias em mais uma busca incessante por produtividade. “Tem uma pressão por entreter essas crianças que faz com que vire um momento de muita ansiedade, de muito desgaste familiar e pouco prazer”, acrescenta Barros.

Com um sistema em que as escolas públicas funcionam na sua maior parte em meio período, a especialista lembra que o desafio de encontrar alguém para cuidar dos pequenos enquanto os pais trabalham perdura ao longo do ano todo. “Isso custa dinheiro, ás vezes custa até relações”, afirma. E nas férias, essa necessidade se torna ainda mais aparente.

Pais e mães vivem em estado constante de alerta, tentando garantir cuidado básico enquanto precisam trabalhar

Quando não existe uma forte rede de apoio em torno dos pais, “o custo emocional e prático é enorme”, aponta Antunes. “Pais e mães vivem em estado constante de alerta, tentando garantir cuidado básico enquanto precisam trabalhar. Para as crianças, isso pode significar insegurança, solidão ou falta de estímulo.” A cofundadora da Filhos no Currículo acrescenta também que rede de apoio não é luxo, e sim fator de proteção. E sua ausência, segundo ela, gera impactos no corpo, nas relações e na capacidade de planejamento.

Atualmente, as iniciativas públicas oferecidas pelo governo para cuidar das crianças nas férias não dão conta da complexidade do problema, diz Antunes: “A sensação, para muitas famílias, é de improviso. Falta continuidade, previsibilidade e acesso igualitário.” E essa realidade deve perdurar enquanto o cuidado for tratado como tema secundário. “É por isso que discutir parentalidade não é falar só de escolha individual, é falar de estrutura social.”

No caso de Moutinho, que trabalha desde a manhã até o final da tarde, o filho costuma ficar com os avós maternos depois que sai da escola. Por isso as férias são um momento tão importante para os pais de Miguel, mesmo que não possam passá-las todos juntos. “A gente luta para marcar sempre com o Miguel. É quando dá para ficar em casa o dia todo, levar para passear, estar mais presente no dia a dia dele.”

Parentalidade freelancer

E para os trabalhadores autônomos, como fica a questão das férias com os filhos? À primeira vista, a flexibilidade desse tipo de atividade sugere que agendar uma folga é simples questão de querer. Mas a verdade é que há uma série de outros fatores envolvidos. Com a falta de férias remuneradas, dar um tempo do batente significa perder dinheiro, clientes e serviços em potencial, uma possibilidade distante da realidade de muitos brasileiros.

Uma pesquisa do Sebrae-SP aponta que 30% dos pequenos empreendedores do estado não conseguem tirar férias todos os anos, com uma parcela deles vivendo há mais de três anos sem um único período de descanso.

A psicóloga e terapeuta familiar Isabela Paranhos, 39, procura tirar ao menos uma folga de cerca de dez dias todos os anos para aproveitar parte das férias escolares das filhas — ela tem uma de 19, uma de oito e outra com dois anos e meio. Como profissional autônoma, porém, reconhece que a pausa vem sempre acompanhada de uma série de pressões e perdas.

O preço emocional das férias para quem é autônomo é grande. A gente tem que se dedicar muito mais para não faltar dinheiro antes nem depois

“O preço emocional das férias para quem é autônomo é grande. A gente tem que se dedicar muito mais para não faltar dinheiro antes nem depois”, conta. Significa, para ela, passar o período pré e pós-pausa “completamente surtada de trabalho”, buscando dar conta de todos os pacientes. Até por isso considera que o tempo de férias de trabalhadores autônomos é diferente do de outros profissionais, por vir com preocupações embutidas que não permitem aos pais se dedicar inteiramente àquele momento de lazer e conexão com os filhos.

Paranhos, que só recentemente voltou a viajar em família, afirma ter mudado ao longo do tempo a forma como enxerga a relação com as filhas. Hoje, dá menos ênfase à quantidade de horas ou ao lugar para onde viajam, passando a valorizar muito mais a qualidade dessa presença na vida delas. Já no período em que continua trabalhando, a psicóloga conta com uma rede de apoio que lhe permite planejar uma rotina especial para as férias das jovens. “Eu não ando só, preciso de uma aldeia para criar uma criança.”

Um equilíbrio impossível

Quando uma mãe ou um pai não consegue alinhar suas férias com o recesso escolar dos filhos, as maiores pressões surgem na tentativa de dar conta de tudo ao mesmo tempo, explica Camila Antunes, que acaba de lançar o livro “Coloque os Filhos no Currículo” (Great People Books, 2025), em que aborda o tema.

Assim, muitos fazem malabarismo com uma quantidade inviável de tarefas: “Estar presente para os filhos, manter o trabalho rodando, não ‘sumir’ profissionalmente e ainda corresponder a uma ideia idealizada de férias felizes”, ela resume. “Não é falta de organização, é excesso de expectativa sobre indivíduos dentro de um sistema pouco ajustado à vida real.”

Um projeto de lei sobre o tema, como o que está em discussão no Congresso, pode ser um mecanismo válido para mudar essa realidade, na visão da especialista em parentalidade Lua Barros. “Pode aplacar a sensação de que, naquele momento das férias, o pai não pode estar ali porque precisa trabalhar.”

Ainda segundo Barros, que no momento da entrevista passava férias com os filhos na casa da mãe, a falta de presença dos pais também pode contribuir com hábitos problemáticos, como o uso excessivo de telas. Ela defende um ambiente profissional que priorize de forma mais natural os laços familiares dos colaboradores; em vez de um peso para o trabalho, como uma possibilidade de desenvolver novas habilidades.

Também é importante lembrar que, na primeira infância, período de crescimento físico e cognitivo, a criança precisa de estímulos como interagir e brincar para ter um desenvolvimento saudável, diz Karina Fasson, da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. Por isso, enxerga com bons olhos medidas que priorizem a parentalidade, a exemplo do projeto de lei sobre férias parentais e da proposta de ampliação da licença-paternidade, que aguarda aprovação no Senado. “São medidas importantes para promover mudanças e garantir de forma mais ampla a prioridade absoluta dos direitos das crianças na sociedade.”

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