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Conversas

Cauana Mestre: "A gente precisa ter um certo apaixonamento pela vida. Isso pode fazer com que as relações se reinventem"

Psicanalista analisa como o filme “O Convite”, de Olivia Wilde, diz muito sobre as nossas escolhas por trás das relações e da vida sexual. “Existem muitas formas de incluir a paixão dentro de uma relação”

Luara Calvi Anic 02 de Agosto de 2026
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Cauana Mestre: “A gente precisa ter um certo apaixonamento pela vida. Isso pode fazer com que as relações se reinventem”

Psicanalista analisa como o filme “O Convite”, de Olivia Wilde, diz muito sobre as nossas escolhas por trás das relações e da vida sexual. “Existem muitas formas de incluir a paixão dentro de uma relação”

Luara Calvi Anic 02 de Agosto de 2026

O efeito de um casal aparentemente feliz sobre outro em crise pode ser diverso. Em “O Convite”, novo filme da diretora Olivia Wilde, esse encontro torna-se uma chance para que se olhe com mais profundidade para a relação e para o desejo. No longa, o casal em crise, Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde), convida os vizinhos Piña (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton) para um jantar. Em uma noite regada a vinho, Champagne, tequila e uma série de desentendimentos, o encontro não sai exatamente como planejado.

O par do andar de cima já é conhecido por deixar vazar o som de suas experiências sexuais para os moradores de baixo. Mas, ao longo do jantar, além de descobrirmos mais da dinâmica daquele casal, outros pontos se revelam: tanto as crises existenciais de Joe, um professor de música frustrado, quanto o cansaço de Angela em relação a um relacionamento já desgastado.

Esse date de vizinhos permite que Joe e Angela revisem seus desejos — não apenas sexuais. Vemos como suas escolhas e frustrações influenciam a dinâmica do casal. “Os vizinhos servem como um espelho do que vai mal nos anfitriões”, diz a psicóloga, psicanalista e mestre em literatura pela Universidade Federal do Paraná, Cauana Mestre.

Na conversa com Gama, a especialista analisa o que “O Convite” revela sobre as dinâmicas contemporâneas de relacionamento e fala do poder da inveja e de um terceiro elemento — ainda que fantasioso — no jogo amoroso.

[atenção: a entrevista a seguir contém spoiler]

Não é saudável que duas pessoas estejam numa relação o tempo todo querendo só aquilo

  • G |“O Convite” começa com esta frase do Oscar Wilde: “Deve-se estar sempre apaixonado. Essa é a razão pela qual nunca se deve casar”. Casar e estar apaixonado são coisas realmente opostas?

    Cauana Mestre |

    Existem muitas formas de incluir a paixão dentro de uma relação. Quando a gente pensa nesse sentimento, geralmente vem o clichê de que seria esse enamoramento, esse encantamento bastante fantasioso, que antecede, talvez, o amor. Destaco a cena final belíssima em que Joe (Seth Rogen), depois de ter escutado aquele testemunho da esposa, Angela (Olivia Wilde), de como ela está infeliz, se coloca a tocar um piano — esse objeto intocado, que ele põe numa redoma para proteger o sonho perdido de ser músico. Um sonho que não aconteceu, provavelmente por contingências da vida, mas que o deixa numa posição muito defendida. Mas ele vai tocar o piano. O que fica como mensagem é que a gente precisa ter um certo apaixonamento pela vida, e isso é o que pode fazer com que as relações se reinventem. Estar casado numa relação monogâmica, com uma mulher ou um homem num período longo de tempo, não significa estar casado com a mesma pessoa. E acho que é isso que a personagem da Olivia Wilde testemunha ali, que ela está cansada da mesmice, e não exatamente daquele parceiro, mas da mesmice dessa relação.

  • G |O que fica também é que quando se desenha demais uma vida ideal, a chance de uma frustração é grande. E o personagem do Joe se mostra bastante frustrado.

    CM |

    Sim. Ele me lembrou muito o personagem de “Anatomia de uma Queda” (2023), aquele filme em que o casal vive no meio da neve, ele (Samuel Theis) cai da janela e a pergunta básica é se ela (Sandra Huller) o matou ou não. Mas tem um diálogo em que ele culpa a esposa por ter pego uma ideia dele. A gente faz muito isso de eleger um objeto como ideal — era pra ele ser um grande músico, ser famoso, ter uma banda. E se esquece de que o objeto não é um alvo, mas é o que lança a flecha do desejo. Pra ele, é a música, e ele continua na música. Como professor, poderia fazer dessa a causa de sua vida. Mas está tão colado naquele objeto idealizado que fica completamente impotente. Enquanto isso, o piano está lá, o vinho e aquele espumante que eles não abrem, que ganharam há mil anos e que nunca encontraram uma ocasião especial para tomar… É bem aquela coisa neurótica: se não for perfeito, eu nem abro, eu não uso, eu não faço.

  • G |O tema do relacionamento aberto, dos novos formatos não monogâmicos, está muito em alta, como vemos no filme “O Convite”. No geral, parece que as pessoas querem manter o casamento, mas hoje assumem que desejam viver outras experiências. Você concorda, o que tem observado?

    CM |

    Acho que desde que o casamento existe as pessoas querem estar casadas quando elas têm um bom casamento, mas querem também viver outras coisas. Ninguém quer uma coisa só. Antes era velado e os homens se davam esse direito enquanto as mulheres ficavam muito encurraladas em relação ao próprio desejo. E, conforme a gente vem ampliando nossa visão das relações para além dos modelos patriarcais, eu acho que é natural que todo esse debate esteja na mesa. O que eu posso dizer é que não é saudável que duas pessoas estejam numa relação o tempo todo querendo só aquilo. O desejo precisa circular, precisa de espaço para existir. Então, uma relação desejante e viva é aquela em que as pessoas podem olhar para outros lugares, imaginar como seria se algum desejo se cumprisse. Deixar que a fantasia circule e, inclusive, colocar essa fantasia, por vezes, dentro do ato sexual. O que a gente escuta muito no consultório é como nas fantasias sexuais têm um terceiro. Porque, estruturalmente, na fantasia sempre tem um terceiro. A gente sempre faz um triângulo. Então, veja, se você fica tentando engessar é claro que o sexo vai ser opaco e sem graça porque está tentando comprimir, tornar hermética uma coisa que é muito maior.

  • G |E como lidar com essa fantasia que poderia ser compartilhada?

    CM |

    Daí, realmente, é no caso a caso. Não tem cartilha para dizer que a monogamia vai funcionar para X ou Y, a não monogamia, o relacionamento aberto, etc. Cada parceria vai ter que inventar o seu modo. E, às vezes, é na tentativa. Inventa uma coisa, viu que não dá, recua, volta, faz uma coisa diferente. Tentando, também, não acreditar demais na fantasia da parceria perfeita. Porque eu acho que a gente, agora, está comprando uma ideia de que as relações não monogâmicas é que são felizes. E que essas relações vão acabar com os impasses de comunicação, com os mal entendidos da linguagem, com a insatisfação das pessoas… o que também não é verdade.

  • G |Uma solução bastante dicotômica: ou é aberto ou é fechado, quando as relações parecem se mostrar mais complexas do que isso. 

    CM |

    Nenhuma parceria é absolutamente monogâmica porque cada um entra com a própria fantasia na relação sexual e cada fantasia vai incluir um terceiro. Ninguém é monogâmico porque, por concepção, você não tem como ser. Então se está com seu parceiro, se autorizando a experimentar aquilo, em algum momento vai te atravessar uma fantasia de uma outra pessoa, de uma outra cena, de um outro lugar, de um outro momento. Às vezes é até aquela mesma pessoa, mas é uma outra cena, um outro momento. O Lacan tem uma frase em que ele diz “não há relação sexual”. Ele quer dizer que não existe essa relação sexual em que um complementa o outro. Independentemente do gênero, no sentido de que não há complementaridade que alcance uma satisfação completa, que termine ali com com o coito. A fantasia é aquilo que faz com que você siga insatisfeita depois do orgasmo. E é essa insatisfação que a gente tende a tomar como um impasse, mas que, na verdade, é o motor do desejo. Porque faz com que eu queira mais, que eu queira saber mais daquilo. Aí eu entro numa relação com a minha fantasia. E o meu parceiro, ou a minha parceira, entra na relação com a fantasia dele ou dela.

  • G |Em determinado momento os personagens de Penélope Cruz e Edward Norton também brigam, talvez querendo mostrar que a vida deles não é tão perfeita quanto parece. Por que a gente tende a achar que o lado de lá está sempre melhor?

    CM |

    É essa dicotomia em relação ao desejo. A gente sempre tende, no campo da neurose, a colocar o outro no lugar do mais e a gente no lugar do menos. Se ao menos tomássemos isso como uma inspiração. Eu sempre digo que a inveja é um afeto que, quando aparece no consultório, é preciso escutar. Aquilo que a gente inveja fala sobre o que a gente deseja. A questão é: você vai observar isso pensando “o que essa pessoa alcançou que me toca tanto, que me inspira? E o que isso tem a ver comigo? O que eu desejo daquilo que eu estou vendo?”. Ou você vai tirar o corpo fora, fazer disso uma coisa sobre o outro e não querer que o outro alcance as coisas dele? Aí a gente cai no campo do ressentimento.

  • G |Qual o principal papel desse casal, desses vizinhos, nessa trama?

    CM |

    Eles colocam o clichê do relacionamento aberto e dão pouca complexidade pro casal do Edward Norton e da Penélope Cruz porque querem deixá-los como um espelho do que vai mal nos anfitriões. Mas veja que, no final, quando ela vai devolver o pote de flan, eles somem. Essa sacada do filme diz o seguinte: isso aqui não existe. Esse casal que tem uma briguinha e que até a briga é sexy não existe. Não existe o modelo, não existe a cartilha, aquilo que dá certo [no relacionamento]. O que existe é a vontade de estar ali, de talvez transformar essa relação em outra coisa. No fim, não importa se eles vão decidir manter aquele casamento ou não, mas a relação de cada um com o próprio desejo foi perturbada.

  • G |Por que eles precisaram ser convidados pelos vizinhos a olhar para o próprio desejo e para aquela relação?

    CM |

    Eles são provocados a isso, a personagem da Penélope faz uma provocação muito boa no momento em que ela se põe como terapeuta. E aí ela diz “eu não sei o que vocês vão fazer com isso, você pode transformar o teu casamento continuando com esse homem, ou você pode sair dessa relação. Mas pra mim, a relação de vocês acabou.” O que a gente observa escutando as pessoas é que esse limite reposiciona o desejo. Às vezes, os casais precisam chegar no limite. É como se essa fronteira desse uma outra margem, um outro tom para tudo aquilo que foi vivido, que foi testemunhado da vida um do outro. Esse relacionamento acabou mas pode ter um novo a partir disso. O que diferencia a separação de divórcio é que casais precisam se separar em vários sentidos para não se divorciar. E às vezes é divórcio mesmo. Às vezes não tem jeito.

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