“A Rússia proibiu verba para mídia independente. Quem tentar publicar, vai preso” — Gama Revista
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Conversas

"A Rússia proibiu verba para mídia independente. Quem tentar publicar, vai preso"

Especialista em comunicação de guerra russa, Ian Garner fala sobre o embate de narrativas contra a Ucrânia e a repressão ao jornalismo independente no país

Leonardo Neiva 13 de Março de 2022

“A Rússia proibiu verba para mídia independente. Quem tentar publicar, vai preso”

Leonardo Neiva 13 de Março de 2022
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Especialista em comunicação de guerra russa, Ian Garner fala sobre o embate de narrativas contra a Ucrânia e a repressão ao jornalismo independente no país

No início de março, a TV Rain, um dos poucos veículos de comunicação independentes que restavam em solo russo, fez sua última transmissão. Enquanto as imagens mostravam funcionários da TV deixando o estúdio, a fundadora da emissora, Natalia Sindeyeva, proferiu um último “Não à guerra” antes de ser substituída por “O Lago dos Cisnes”, de Tchaikovsky — no passado, durante a era soviética, as imagens do balé eram transmitidas repetidamente por emissoras censuradas. Hoje, as transmissões da TV Rain estão suspensas por tempo indeterminado.

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A emissora, assim como outros dos poucos meios de comunicação independentes que ainda funcionam na Rússia, vinha sofrendo pressão do governo para se adequar à linha oficial de cobertura da guerra na Ucrânia. Entre várias exigências, os veículos estão proibidos de repercutir declarações do lado ucraniano ou mesmo definir a ação russa no país vizinho como “invasão” ou “guerra”.

“É perturbador, porque essa pobre mulher trabalhou bravamente uma vida inteira para construir seu canal de TV independente, e não sobrou mais nada”, afirma o historiador canadense Ian Garner, especialista em estratégias de comunicação e propaganda de guerra usadas pela Rússia e União Soviética.

“É uma história sombria, me perdoe. Há muito pouca esperança para o futuro”

Garner, que vem acompanhando de perto as tentativas do governo Vladimir Putin de justificar a guerra com supostas ameaças de grupos nazistas e fascistas ucranianos, tem sido uma das principais autoridades na discussão sobre a guerra travada entre as nações não apenas em campo de batalha, mas também na mídia e nas redes sociais.

“Nesta guerra, a verdadeira história em que estão se baseando é a memória da Segunda Guerra Mundial”, afirma o pesquisador. “Você deve ter ouvido as referências a ucranianos serem todos nazistas e fascistas. Claro, é tudo mentira, um absurdo. Mas há um elemento de verdade no fato de que a Rússia defendeu o mundo e se defendeu contra os fascistas alemães em 1942. Assim, o objetivo dos marqueteiros da Rússia é fazer parecer que isso está acontecendo novamente no presente.” Até por isso, segundo o especialista, Putin tem perdido a guerra de informação contra o presidente russo Zelensky, que vem conseguindo criar uma imagem de resistência e corajosa união popular para a Ucrânia e sua população.

Ainda em 2022, Garner pretende publicar seu novo livro “Stalingrad Lives!” (Stalingrado Vive!, sem tradução prevista para o português), que vai reunir relatos escritos por autores russos no front, sobre a bravura e resistência heroica de seus conterrâneos na Batalha de Stalingrado, durante a Segunda Guerra. “A diferença hoje é que o governo não explica bem por que esse sacrifício é necessário”, afirma o historiador.

Com um histórico desolador em relação à liberdade de imprensa, Garner também não enxerga um horizonte promissor para os poucos veículos que ainda conseguem operar no país longe das garras do governo e de sua máquina oficial de comunicação. “É uma história sombria, me perdoe. Há muito pouca esperança para o futuro. Acredito que agora as pessoas estejam se sentindo realmente resignadas e exaustas.”

Em conversa com Gama, Garner destrincha o xadrez midiático empreendido entre Rússia e Ucrânia, fala sobre o papel de jornalistas do mundo todo nessa guerra e as estratégias do governo Putin para tentar conquistar o coração e a mente de seu povo.

  • G |Tornou-se lugar comum dizer que, na guerra, a verdade é sempre a primeira vítima. Você concorda com isso? Putin tem se apropriado dessa noção para criar sua própria narrativa na guerra contra a Ucrânia?

    Ian Garner |

    Não diria que a verdade é necessariamente a primeira vítima. Especialmente no século 21, todos nos tornamos participantes, estamos todos assistindo à guerra. Acompanhamos o que acontece na linha de frente, recebendo imagens ao vivo 24 horas por dia. Então não significa que a verdade é mais uma casualidade, mas sim que somos bombardeados com informações. Então enxergamos partes da verdade, mas não percebemos onde ela está em meio às milhares de imagens, vídeos e histórias. Neste conflito específico, Rússia e Ucrânia estão jogando uma partida estratégica realmente inteligente para tentar vencer a guerra dos smartphones. E é óbvio que a Ucrânia conquistou o apoio de sua própria população. Se havia alguma dúvida de que eles iriam defender a nação, aí está. Em relação a Putin, está claro apenas agora para as pessoas fora da Rússia até que ponto seu regime é orwelliano em sua linguagem. Ele vai dizer que em cima é embaixo, esquerda é direita ou que dois é um. A verdade pode ser qualquer coisa que ele queira, porque o controle da mídia pelo governo é total. Nesta guerra, a verdadeira história em que estão se baseando é a memória da Segunda Guerra Mundial. Você deve ter ouvido as referências a ucranianos serem todos nazistas e fascistas. Claro, é tudo mentira, um absurdo. Mas há um elemento de verdade no fato de que a Rússia defendeu o mundo e se defendeu contra os fascistas alemães em 1942. Assim, o objetivo dos marqueteiros da Rússia é fazer parecer que isso está acontecendo novamente no presente. Não faz sentido quando olhamos de fora, quando não pertencemos a esse mundo de propaganda em que os russos vivem. Parece loucura que seja isso que o governo está tentando fazer com sua população.

  • G |E qual tem sido a resposta a essa narrativa dentro da Rússia?

    IG |

    Do ponto de vista do governo, diria que foi decepcionante. As coisas não saíram conforme o planejado. O que vimos é que os mais fortes apoiadores de Putin, que já estão de acordo com esse tipo de narrativa e essa linguagem nacionalista raivosa, adoram e acreditam nisso. Há também uma quantidade substancial de pessoas que são contra a guerra, e vimos muitos corajosos saindo em manifestações significativas. Pode não parecer muita coisa para nossos padrões ocidentais ver dois mil russos protestando em Moscou, mas é algo grandioso para a Rússia. Não vemos esse tipo de protesto há alguns anos. Mas o mais interessante são os 50% ou 60% da população que estão no meio disso, que não se opõem ao governo, mas não são a favor da guerra. O governo provavelmente esperava que essas pessoas fossem muito mais pró-guerra e agora estivessem ansiosas para receber informações sobre ela. Só que a resposta da maioria da população russa foi de choque e um pouco de aborrecimento, porque se tratam de seus primos e amigos da Ucrânia, duas nações muito cansadas com tudo isso. A resposta foi muito pequena. Então a propaganda realmente não funcionou.

  • G |Em uma perspectiva internacional, parece que a Rússia vem perdendo essa guerra de informação contra a Ucrânia. O que isso significa exatamente?

    IG |

    Em termos internacionais, Zelensky fez um trabalho ótimo ao criar a narrativa da Ucrânia como o bravo defensor da liberdade contra o fascismo, além de divulgar uma imagem de si mesmo cuidando de ucranianos, assim como de civis em abrigos antiaéreos ou sendo mortos. Ele fez um ótimo trabalho ao unir as nações ocidentais, bem como sua própria população. Na Rússia, o verdadeiro problema que enfrentarão será nos próximos meses e anos, quando as sanções econômicas começarem a afetá-los, quando a vida mudar perceptivelmente. Hoje a mídia russa está dizendo que não é preciso se preocupar. É um pequeno sacrifício lidar com essas tolas empresas ocidentais que estão fechando. A Rússia tem vastas reservas de petróleo e de moeda estrangeira, então sem estresse. Mas será outra coisa completamente diferente quando os russos perderem o acesso a todas essas regalias ocidentais que lhes foram oferecidas nos últimos anos, e a economia estiver em profunda crise. Você sabe disso porque está no Brasil, que também tem sido um país em ascensão nas últimas décadas. As marcas ocidentais estão por toda parte. Você consegue imaginar a vida sem elas? Imagine que seu iPhone ou Android vai sumir amanhã, seu tênis vai sumir e o McDonald’s vai sumir. Para os russos, está acontecendo da noite para o dia, vai ser algo difícil. O outro problema é se a face militar do conflito se tornar realmente desagradável e desacelerar, o que parece já estar acontecendo. O que acontece quando os corpos começam a chegar? Quando olhamos para o Vietnã, Iraque e a guerra soviética no Afeganistão, na década de 1980, o que realmente mudou a opinião pública foram histórias sobre garotos voltando para casa dentro de caixões. Essas duas coisas são realmente perigosas para a Rússia. Quando não existe uma justificativa convincente de por que a guerra deve ser travada, isso é um problema.

  • G |Porém, a propaganda russa funcionou no passado. Por que ela não funciona agora? Há outros fatores envolvidos?

    IG |

    Parte do problema é que a propaganda russa é realmente impessoal. Zelensky tem várias grandes histórias sobre pessoas, enquanto Putin se mostra distante, sentado em escritórios estúpidos com longas mesas. Ele fala sobre impérios, a Rússia do século 19, a Segunda Guerra Mundial, e está se dirigindo a cada pessoa como nação, e não como “você”. Ele simplesmente não se conecta num nível pessoal. E se trata de uma justificativa muito, muito fraca para a guerra, especialmente se você quer atingir os elementos mais jovens da população. Putin se tornou cada vez menos popular, e os jovens russos cada vez menos interessados nessa propaganda de guerra desde 2014. Não por causa da Guerra da Crimeia, mas pelas mudanças econômicas que foram impostas ao país nesse período.

  • G |Na Rússia, como a população costuma consumir informações e notícias?

    IG |

    Os mais velhos normalmente assistem à televisão e leem jornais. Claro, a circulação de jornais, como em qualquer outro país do mundo, vem caindo. Esses russos acompanham a versão oficial dos fatos porque o estado tem controle absoluto desses setores. Mas as pessoas na faixa dos 20 ou 30 anos recebem quase todas as notícias pelas mídias sociais, em seus smartphones. Eles enxergam além do discurso do estado. Estão usando especialmente o Telegram, não só como um aplicativo de mensagens para falar com os amigos, mas como um canal de distribuição de notícias. E muitos dos canais dentro da rede são de oposição, alguns inclusive baseados fora da Rússia. Então você pode estar da forma que quiser no Telegram, e o governo russo essencialmente não pode bloqueá-lo.

  • G |Em seu próximo livro, você reúne relatos humanos sobre a Batalha de Stalingrado durante a Segunda Guerra Mundial, escritos por alguns dos melhores autores russos. Qual foi o impacto desse tipo de narrativa na época? Está faltando algo assim na atual campanha russa?

    IG |

    Naquele tempo, a URSS tinha seus melhores escritores em campo, trabalhando em Stalingrado. Eles enfrentavam uma derrota quase certa na época, mas essas pessoas já vinham trabalhando em propaganda de guerra havia mais de um ano, encontrando as melhores narrativas, histórias e temas. Assim que Stalingrado chegou, eles estavam prontos para transformar a história daquela batalha em um mito inspirador. Quando tudo o que restava era a esperança, os escritores foram capazes de encontrar novas maneiras de sugerir que o sacrifício era sim terrível, mas também necessário. A diferença hoje é que o governo não explica bem por que esse sacrifício é necessário. Eles estão empurrando goela abaixo linhas de propaganda cada vez mais extremas envolvendo guerras nucleares, nazistas e ataques com armas químicas, mas a esmagadora maioria da população não acredita nessas histórias como acreditava na Segunda Guerra. Talvez com o tempo o governo até consiga persuadir o povo, talvez não, ainda é muito cedo para dizer.

  • G |Houve muitos outros conflitos no mundo nas últimas décadas, mas esta está sendo considerada uma das primeiras guerras amplamente cobertas nas redes sociais, ao menos em termos de repercussão. Parece que todo mundo precisa ter uma opinião sobre o que está acontecendo. Isso muda a forma como cobrimos e acompanhamos o conflito?

    IG |

    O que há de novo nesta guerra é que são dois estados independentes envolvidos num conflito aberto, ambos lutando uma guerra tão sofisticada de smartphones quanto a que acontece no campo de batalha tradicional. E por que isso importa? Em outros países, toda vez que damos voz, compartilhamos e depositamos likes em informações e notícias, sejam elas verdadeiras ou não, fazemos pressão em certas direções. Então, quando compartilhamos as histórias heroicas de Zelensky, o que estamos fazendo é pressionar nossos próprios governos a agir de uma determinada forma, algo que uma ou duas semanas antes eles sequer teriam considerado. Todos nós passamos a ter um impacto real, direto e rápido em guerras como essa, coisa que não acontecia antes no nosso modelo democrático convencional.

  • G |No passado, o jornalismo costumava ser o veículo mais importante para exercer esse tipo de pressão. O papel dos jornalistas mudou de alguma forma nesta guerra?

    IG |

    Suspeito que a principal dificuldade para o jornalista é que ele também é um participante da guerra. Quando você publica, compartilha, dá seu like ou mesmo seleciona quem vai entrevistar, está envolvido no conflito. E é muito difícil ser um jornalista que também tem um lado no campo de batalha. Claro, outro problema que vocês enfrentam é o alto nível de desinformação que há por aí. Ele é constante em ambos os lados. Nada é verdade e, no entanto, tudo pode ser verdade. Narrativas estão surgindo, se tornando virais e desmoronando com base em figuras influentes da imprensa. Você conhece a história da Snake Island? Se pesquisar no Google, vai ler sobre como um navio de guerra russo ordenou que 13 soldados ucranianos dessa ilha se rendessem. Os soldados ucranianos mandaram eles se foderem e, supostamente, o navio de guerra russo matou todos eles. Acontece que, alguns dias depois, descobriram que isso não era verdade. Uns dois ucranianos foram mortos, sim, mas os outros foram apenas capturados. Só que a narrativa já estava consolidada, e é uma grande história, porque “vá se foder” é uma frase muito impertinente. Várias e várias pessoas acreditaram e ainda acreditam nela, embora não esteja claro se foi uma invenção do governo ucraniano ou apenas uma daquelas coisas virais que caíram no gosto do público.

  • G |De que forma a Ucrânia está usando as mídias sociais para se defender ou exercer algum tipo de poder?

    IG |

    É óbvio que eles estavam se preparando para isso. O fato de Zelensky estar produzindo esses vídeos bonitos e bem feitos de guerra não é só porque ele é um ator de TV e fica bem em frente à câmera. As imagens e os apelos históricos que estão usando para construir a ideia de Kiev significam: sabemos que vai ser difícil, mas vamos nos defender até o fim. Nós resistiremos e venceremos, mesmo que você não acredite. Tudo isso deve ter sido preparado com antecedência. Devem estar mudando e refinando os planos com o passar do tempo, mas eles sabem o que estão fazendo. Nós os vimos usar até técnicas de crowdsourcing [colaboração de múltiplos voluntários para atingir um objetivo em comum] nas redes sociais para localizar tropas inimigas e espalhar mensagens sobre vitórias em cima de forças russas.

  • G |A narrativa que Zelensky e o governo ucraniano estão tentando transmitir tem a ver com aquela ideia de heroísmo, uma nação lutando unida contra o invasor?

    IG |

    É o maior mito de guerra que existe, não? O pequeno e corajoso país que se depara com um invasor esmagadoramente grande, mas resiste milagrosamente contra todas as probabilidades. Isso remonta à mitologia grega. Tenho certeza de que até antes disso você vai encontrar elementos como esse nas narrativas de guerra. Todo país, tenho certeza, possui histórias assim sobre as grandes batalhas que travou. O que a Ucrânia está tentando fazer é forjar uma imagem de si mesma como uma nova nação europeia e já tem uma narrativa militar fundadora em torno da qual se basear.

  • G |Hoje a população russa vive um processo de isolamento em relação ao jornalismo e às informações, que deve colocar ainda mais poder nas mãos de Putin?

    IG |

    Vimos nos últimos dias que a mídia independente que resta foi submetida a leis novas e extremamente restritivas em torno da disseminação das tais fake news. Vimos a TV Rain, última estação de televisão independente da Rússia, ser encerrada. O governo os obrigou a fechar. A Echo of Moscow, última estação de rádio liberal, foi fechada. Tudo o que restava se acabou. E o governo, nas próximas semanas e meses, deve tomar decisões cada vez mais extremas para exercer controle sobre as áreas que puderem em relação à disseminação de informações.

  • G |Recentemente li uma entrevista do jornalista Dmitry Muratov, da Novaya Gazeta. Ele fala sobre como o jornal continua sendo uma forma de ir contra as informações divulgadas pelo governo e segue usando termos como “guerra” ou “invasão”, que foram proibidos pelo governo. A mídia independente consegue atingir uma parte da população? Como eles encontram subsídios para trabalhar?

    IG |

    Participei de um programa na BBC esta manhã com a fundadora da TV Rain. Ela foi totalmente pessimista, disse que qualquer esperança que eles tinham se evaporou da noite para o dia. Não há mais dinheiro. O governo russo não só proibiu verba para mídia independente. Hoje, se tentar publicar, você vai preso. Tente ouvir essa entrevista até o final. É perturbador, porque essa pobre mulher trabalhou bravamente uma vida inteira para construir esse canal de TV independente, e não sobrou mais nada.

  • G |Imagino que a mídia independente já operava no país com muita dificuldade. Houve algum momento em que a Rússia teve liberdade de imprensa?

    IG |

    Talvez durante um breve período, nos anos 1990. Em 2007 foi quando o governo realmente começou a tentar retomar o controle da mídia. Primeiro fazendo com que empresários amigos do Kremlin comprassem jornais e canais de TV. Depois, regras de controle cada vez mais diretas foram decretadas. Mas o problema na Rússia é que muitos dos jornais, mesmo nos anos 1990, eram de empresários e corruptos, trabalhando em prol de uma linha política alinhada com o governo. Pelo menos na época, ainda era possível investigar e discutir as coisas até certo ponto, mas essa possibilidade já está morta e enterrada faz muito tempo. E nunca houve nada como uma imprensa livre antes disso, sob a União Soviética ou os czares. É uma história sombria, me perdoe. Há muito pouca esperança para o futuro. Acredito que agora as pessoas estejam se sentindo realmente resignadas e exaustas.

  • G |Como uma pessoa que estudou a propaganda e a história da Rússia por um longo tempo, algo do que está acontecendo agora te surpreende?

    IG |

    Pensei por vários anos que o governo Putin estava caindo num período de estagnação cultural. Eles não têm nada de novo a oferecer, não estão prometendo nada às pessoas sobre o futuro. Não oferecem novas narrativas históricas ou culturais. Portanto, não é surpreendente o retorno à velha propaganda da Segunda Guerra Mundial e do fascismo. De certa forma, estrategicamente e militarmente, o fato de a invasão existir é surpreendente. Ninguém previu que eles fariam isso. Mas a maneira como tentam lidar com a propaganda de guerra não surpreende. É a única maneira que conhecem. Todos os melhores profissionais de marketing da Rússia hoje já estão trabalhando para empresas internacionais em Moscou, ou partiram há muito tempo para a Europa, Canadá ou Estados Unidos em busca de trabalho e melhores oportunidades. País estagnado, comunicação estagnada.