Cinema brasileiro: nova paixão nacional?
Icone para abrir

2

Reportagem

De onde vêm as novas gerações de cineastas do Nordeste?

Após o sucesso de longas como “O Agente Secreto” e “O Último Azul”, cineastas e especialistas contam o que esperar do futuro do cinema produzido na região

Leonardo Neiva 01 de Março de 2026

De onde vêm as novas gerações de cineastas do Nordeste?

Leonardo Neiva 01 de Março de 2026

Após o sucesso de longas como “O Agente Secreto” e “O Último Azul”, cineastas e especialistas contam o que esperar do futuro do cinema produzido na região

Igor Souza, 24, não imaginava a trajetória que teria seu primeiro curta-metragem quando decidiu filmar como Trabalho de Conclusão de Curso uma história de família. Com uma câmera na mão e recursos limitadíssimos, ele conta em “Destinos Cruzados” (2024) a realidade de um jovem que abdica dos estudos para cuidar da mãe, mas acaba envolvido com o crime por meio de um colega. O trabalho que encerrou sua formação em cinema e audiovisual na Unijorge, em Salvador, já rodou e foi premiado em festivais pelo Brasil, e logo deve passar por circuitos da Europa e Ásia — o filme foi selecionado recentemente para o festival internacional GALLERYSPT.

“Estou muito feliz com a recepção, já tenho até vontade de fazer outro curta”, revela o jovem de Feira de Santana (BA). O interesse pelo audiovisual foi plantado lá atrás pela mãe, que tinha o costume de levá-lo sempre ao cinema, mas só germinou aos 18 anos, quando o jovem começou a gravar lives das missas na igreja que frequentava, no início da pandemia. Para o primeiro curta, as inspirações estéticas vieram de lugares bem distantes: do norte-americano Tarantino ao baiano Glauber Rocha (1939-1981).

A formação de Souza no audiovisual diverge da trajetória um pouco mais indireta de alguns dos principais ícones recentes do cinema feito no Nordeste do Brasil. Kleber Mendonça Filho, diretor de “O Agente Secreto” (2025) e “Bacurau” (2019), se formou em jornalismo e começou a carreira como crítico de cinema. Cineasta de “O Último Azul” (2025), premiado no Festival de Berlim, Gabriel Mascaro também optou pela comunicação social e entrou no audiovisual dirigindo documentários. Já o cearense Karim Aïnouz, de “Motel Destino” (2024) e “A Vida Invisível” (2019), se graduou em arquitetura e urbanismo antes de cursar um mestrado e um doutorado voltados ao cinema. O próprio Glauber chegou a fazer um curso de Direito — que largou — e teve uma breve passagem pelo jornalismo antes de se firmar como cineasta.

Divulgação/“O Último Azul” (2025)

Os exemplos ilustram o momento de transição vivido pelo cinema made in Nordeste, que vem ganhando o mundo não só com as indicações de “O Agente Secreto” ao Oscar, mas também ao angariar prêmios importantes em festivais como Cannes e Berlim. Porém, até duas décadas atrás, estados como Bahia, Pernambuco e Ceará, que revelaram talentos centrais para o cinema brasileiro, não tinham cursos universitários consolidados na área.

“O Nordeste até tinha cursos [de cinema], mas que dependiam de uma iniciativa do governo estadual ou municipal”, lembra o professor e pesquisador de cinema e audiovisual da Universidade Federal do Ceará (UFC) Marcelo Ikeda. “Aí mudava o governo e acabava aquela iniciativa. Então, tinha muita descontinuidade.” Por isso, as gerações de cineastas cujos filmes estão sendo exibidos nas telas do mundo hoje precisaram passar por formações diversas ou buscar alternativas em outros lugares.

Receba nossos melhores conteúdos por email

Inscreva-se nas nossas newsletters


Obrigada pelo interesse!

Encaminhamos um e-mail de confirmação

Descentralizar é desenvolver

A diretora Janaína Marques, 47, brasiliense que vive no Ceará desde criança, por exemplo, foi estudar a profissão na Escola Internacional de Cinema e Televisão (EICTV) de Cuba. Ela dirigiu um dos três filmes brasileiros premiados no último Festival de Berlim, em fevereiro, onde recebeu o Tagesspiegel Readers’ Jury Award por “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha” (2025), que competia na Mostra Fórum. “É uma seção do festival que aposta num cinema autoral, mais arriscado e ousado, em que os filmes pensam muito a linguagem cinematográfica. Essa mostra representa tudo em que eu acredito no cinema”, afirma.

Divulgação/“Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha” (2025)

O roteiro do longa leva o espectador numa viagem pelo subconsciente de uma mulher durante uma ressonância magnética. Dentro da própria mente, ela inventa memórias felizes de uma vida ao lado da mãe, presa por matar um homem prestes a cometer feminicídio. Também em Berlim, o cearense Allan Deberton levou o Urso de Cristal de Melhor Filme e o Grande Prêmio do Júri Internacional na mostra Generation Kplus, com “Feito Pipa” (2026), estrelado por Lázaro Ramos.

Um dos organizadores do livro “Panorama do Mercado Audiovisual do Nordeste” (Sulina, 2025), Ikeda considera fundamental esse movimento de descentralização do foco no cinema brasileiro, muito aglomerado no eixo Rio-São Paulo até pouco tempo atrás. “E o cinema do Nordeste tem se desenvolvido muito, especialmente nos últimos dez anos”, diz o pesquisador.

O cinema do Nordeste tem se desenvolvido muito, especialmente nos últimos dez anos

Ele explica a expansão do cinema produzido na região a partir de três perspectivas: a dos festivais, a das políticas públicas e a da formação. Para além da exibição e premiação de longas, ele aponta que os festivais de cinema — cujo número vem crescendo no Nordeste a partir dos anos 2000 — se tornaram pontos de encontro entre realizadores e produtores, onde muitos projetos acabam nascendo.

Divulgação/“Feito Pipa” (2026)

Já a Ancine (Agência Nacional do Cinema) vem atuando desde o início de 2010 para descentralizar os incentivos fiscais e a captação de recursos, usando leis como a Rouanet, a Lei do Audiovisual, a Aldir Blanc e a Paulo Gustavo, além de uma parcela maior do Fundo Setorial, o que tem disponibilizado mais editais para projetos desenvolvidos na região. Inclusive com uma política de arranjo regional importante para estados ainda com pouca tradição no cinema.

A partir dos anos 2000, foi fundado um conjunto de cursos de cinema e audiovisual em vários estados do Nordeste

“Em Alagoas, o primeiro longa-metragem de edital público lançado comercialmente em salas de cinema foi fruto desses arranjos, o filme ‘Cavalo’ (2020), do Werner Salles e Rafhael Barbosa, um filme muito interessante”, conta Ikeda. “Na Paraíba, teve um ano com seis longas, como ‘Desvio’ (2019), do Arthur Lins, e ‘A Noite Amarela’ (2019), do Ramon Porto Mota.”

Por fim, há a significativa mudança na formação. “A partir dos anos 2000, foi fundado um conjunto de cursos de cinema e audiovisual em vários estados do Nordeste”, afirma o pesquisador. Ele se refere à criação da formação em audiovisual nas universidades federais de Pernambuco, Paraíba, Ceará, Sergipe, Rio Grande do Norte e na Bahia, onde atualmente há uma oferta variada de cursos inclusive no interior, com a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

Divulgação/”Cavalo” (2020)

O protagonismo de Pernambuco

Com o sucesso de crítica e público de Kleber Mendonça Filho e Gabriel Mascaro, o cinema de Pernambuco ganha ainda mais evidência nesse cenário, após décadas de longas elogiados: “Baile Perfumado” (1997), “Amarelo Manga” (2002), “Cinema, Aspirinas e Urubus” (2005), “O Som ao Redor” (2012), “Tatuagem” (2013), “Bacurau” (2019), entre vários outros. O primeiro destes, aliás, inspirou o diretor, roteirista e produtor Pedro Severien, hoje curador do cinema São Luiz, de Recife, a buscar carreira no audiovisual — evidenciando o poder da influência da produção local nas novas gerações de cineastas.

“Pude assistir ‘Baile Perfumado’ no cinema e tudo que estava rolando no entorno: Chico Science, [as bandas] Nação Zumbi, Mundo Livre S.A.. Essa perspectiva de que era possível criar uma forma autêntica de arte a partir da junção do tradicional da cultura pernambucana, mas misturando com o contemporâneo”, conta Severien, professor e pesquisador na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Para ele, Recife é hoje um centro de referência criativa do cinema autoral produzido na região. História que vem de mais de 100 anos atrás, com o Ciclo do Recife, um boom de produção na capital pernambucana ainda no cinema mudo. Bem mais tarde, a cidade ganhou destaque com a realização de curtas amadores na década de 1970, o chamado Movimento Super-8, e, por fim, com a retomada do cinema pernambucano, cujo maior marco foi justamente o lançamento de “Baile Perfumado”, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas.

“Nesse movimento que começa nos anos 90, havia a tendência de buscar uma forma autêntica de fazer cinema. Não era uma formação institucional, eram os cineclubes“, comenta Severien. “O cineclube permitia um saber artístico feito no embate, no encontro, na premissa de que um filme é uma forma de pensamento do mundo.”

No período, portanto, essa formação era muito mais conceitual e filosófica, dependente de locais de encontro como o próprio cinema São Luiz — que, hoje restaurado, virou um dos símbolos da cultura cinematográfica da cidade — e menos voltada para o mercado comercial, explica o pesquisador. “Isso acabou sendo passado de geração a geração, e tem atraído muita gente.”

Espalhando as boas novas

Foi frequentando o São Luiz e outros cinemas de rua, além de todo esse entorno cultural recifense que a diretora e animadora alagoana Nara Normande, 40, formou seu olhar sobre cinema. Nascida em Maceió, mudou-se com a mãe aos 13 anos para o Recife, onde se formou em jornalismo. Em paralelo à faculdade, gravou seus primeiros curtas e viajou a São Paulo para fazer alguns cursos de audiovisual.

Embora tenha voltado ao litoral de Alagoas para filmar o primeiro longa, “Sem Coração” (2023), exibido no Festival de Veneza, ela afirma que ainda faltam incentivos para o cinema produzido no estado. E lembra que os obstáculos seguem muito maiores para pessoas negras e mulheres — basta notar que a ampla maioria dos cineastas que têm se destacado nacional e internacionalmente são ainda homens brancos.

A cineasta Janaína Marques concorda que, apesar de as políticas públicas para o cinema terem criado um cenário mais diverso, há sim espaço para melhorar. Ela defende uma atualização dos valores destinados a filmes de baixo orçamento assim como avanços nas estratégias de distribuição, para que os filmes consigam encontrar seu público dentro e fora do país. “Outro ponto relevante é aprofundar políticas de continuidade e fortalecimento para realizadores negros, indígenas, mulheres e pessoas LGBTQIAPN+, garantindo não apenas acesso inicial, mas sustentabilidade de carreira ao longo do tempo.”

Os obstáculos seguem muito maiores para pessoas negras e mulheres — basta notar que a ampla maioria dos cineastas que têm se destacado nacional e internacionalmente são ainda homens brancos

“Eu vejo novas vozes, o cinema chegando em mais lugares, mas ainda é muito frágil. Se tivesse mais incentivo, seria incrível”, afirma Normande. Na visão da diretora, o êxito no exterior de produções feitas na região empolga, mas nem sempre se traduz em mais financiamento e melhores condições para os cineastas locais.

Membro da diretoria da Conexão Audiovisual Centro-Oeste, Norte, Nordeste (Conne) e do Observatório Audiovisual Baiano, Gabriel Amaral cita novamente o exemplo de Pernambuco, cuja lei garante para o cinema um percentual do fundo de cultura local. Já Bahia e Ceará, afirma, possuem uma longa trajetória de políticas públicas de investimento no audiovisual. “São indícios claros de que, sem essa periodicidade não tem como os outros estados avançarem na garantia legal e no entendimento de que o audiovisual é um investimento estratégico na cultura”, afirma Amaral, coordenador-geral do NordesteLAB, evento que reúne anualmente representantes do setor na região.

Divulgação/“Sem Coração” (2023)

Por outro lado, ele aponta uma nova geração de cineastas surgindo no interior da Bahia graças à criação de cursos universitários em municípios como Cachoeira e Vitória da Conquista, terra natal de Glauber Rocha. “Daniel Leite Almeida ganhou prêmios no Festival de Brasília com o primeiro longa dele, e já está rodando o terceiro. Tem também Felipe Britto, que é professor e também realizador”, cita.

Nesse quadro, o professor da UFC, Marcelo Ikeda, vê também a necessidade de distribuir de forma mais igualitária os investimentos e a concentração de estúdios dentro da própria região Nordeste, onde o foco ainda se divide principalmente entre três capitais: Recife, Fortaleza e Salvador. Um movimento que, segundo ele, já vem acontecendo.

“Daqui a dois ou três anos, vão surgir longas alagoanos com destaque em festivais nacionais e internacionais. Tem também um cenário muito interessante no Rio Grande do Norte. O cineasta Carlos Segundo já fez curtas exibidos em Cannes, como ‘Sideral’ (2021), fruto da Lei Paulo Gustavo, que foi exibido em Cannes”, diz Ikeda, que enxerga também um cenário favorável de fortalecimento do cinema de Sergipe.

Viver de cinema

Mesmo com uma infraestrutura mais consolidada de formação e produção do que no passado, manter-se financeiramente como cineasta segue sendo um desafio para quem começa no setor na região. “A saída que as pessoas encontram é fazer várias coisas. Tem gente que, além de desenvolver trabalhos autorais, vai exercer um ofício técnico. Outros se tornam professores, fazem pesquisa, e tem pessoas que vão trabalhar na gestão, em políticas públicas”, exemplifica Severien.

Até porque dedicar-se exclusivamente ao cinema autoral é privilégio de poucos cineastas no país. “Eu estou na maior batalha para conseguir financiar meus próximos filmes“, conta Normande, que deve filmar seu próximo longa no Japão, com Alice Carvalho como protagonista. “Então, não é simples assim. Mesmo se você teve um filme exibido em Veneza, é uma luta sempre.”

Não é simples assim [fazer cinema no Brasil]. Mesmo se você teve um filme exibido em Veneza, é uma luta sempre

“Sinto que, a partir do momento que uma pessoa experimenta fazer cinema, é muito difícil abandonar, porque é uma área que te apaixona muito rápido. O que acaba levando muita gente a desistir do cinema no Brasil é a falta de continuidade, de incentivo público e de retorno financeiro”, resume Marques.

Amaral aponta também que são poucas as pessoas que saem da universidade com uma ideia clara de como viabilizar seus projetos, problema que, segundo ele, ainda precisa ser superado nas universidades da região. “É por isso que a gente faz no NordesteLAB um laboratório universitário, para tentar suprir de ou alertar para esse deficit”, conta.

Formar diretores capazes de atingir um público significativo com um cinema de marca autoral é outro grande desafio. Enquanto o Globo de Ouro e o Oscar impulsionaram os números de “O Agente Secreto”, há poucos exemplos como o do cearense Halder Gomes, que levou centenas de milhares de brasileiros aos cinemas com comédias de marca local como “Cine Holliúdy” (2012) e “O Shaolin do Sertão” (2016). Uma opção mais comercial é atuar nos serviços de streaming, que, de acordo com Severien, ainda dependem por aqui de uma regulamentação que favoreça o ecossistema da produção nacional.

Depois de concluir o curso de cinema em Salvador, o jovem Igor Souza voltou a viver em Feira de Santana, onde também atua como fotógrafo e videomaker. “Para tentar ir suprindo o dia a dia, mas ainda com fome de fazer cinema”, conta. O cineasta recém-formado pagou do próprio bolso, com apoio da família, a produção de seu primeiro curta. Hoje, ele vê perspectivas positivas para o filme e seu trabalho no cinema. “Meu sonho é viver como cineasta, diretor e roteirista. O futuro dirá o que vai acontecer, mas estou bem esperançoso.”

Um assunto a cada sete dias