O Ar que Me Falta, de Luiz Schwarcz — Gama Revista

Trecho de livro

O Ar que Me Falta

Em novo livro, o fundador da Companhia das Letras, Luiz Schwarcz, conta como um trauma familiar o levou a enfrentar a depressão desde muito cedo

Leonardo Neiva 12 de Março de 2021

POR QUE LER

Fundador e CEO da Companhia das Letras e um dos principais editores brasileiros em atividade, Luiz Schwarcz escancara logo no subtítulo de seu novo livro a luta que empreendeu contra a depressão desde muito cedo. Em março, lança o autobiográfico “O Ar que Me Falta: História de uma Curta Infância e de uma Longa Depressão” (Companhia das Letras, 2021).

No capítulo que dá início à obra, ele reconta uma viagem que fez com a família às montanhas com a intenção de esquiar, algo que costumava revigorá-lo. Quando se prepara para iniciar a descida em meio à neve, sente uma angústia inexplicável, quase irracional. “Não era só a montanha que cobrava de mim humildade. A depressão exigia muito mais”, narra.

As cicatrizes do editor vêm de longa data, são praticamente herança familiar. Ambos os pais sofreram ao tentar fugir do terror nazista durante a Segunda Guerra. Seu avô acabou morrendo num campo de extermínio, culpa que permaneceu no filho que conseguiu escapar. Filho único, Luiz acreditava poder expurgar esse sentimento, missão em que fracassou e que foi sua principal fonte de angústias na infância, adolescência e maturidade. Por meio de uma escrita direta, clara e sofisticada, o editor relata na obra como a depressão e traumas antigos podem abater e tirar o fôlego de qualquer um ao longo de uma vida.

No topo da montanha

O teleférico havia nos deixado no ponto de melhor vista das montanhas. Chegar ao topo, olhar em volta para aquele universo branco, em que as rajadas do sol marcavam com luz e sombras cada uma das ranhuras da cordilheira, deveria me trazer muita alegria. A descida equivalia a doze quilômetros de prazer. Poucas pistas de esqui costumam ser tão extensas, sem interrupções para tomar um novo teleférico. Todos que subiam até ali pela primeira vez paravam por alguns minutos para observar a vista. É ótimo respirar o ar puro, cercado pela neve que se vê em toda parte, sob nossos pés, ou nas montanhas mais longínquas. A sensação de estar próximo ao céu, em espaço tão vasto, torna mais intensos os efeitos da respiração.

O preparativo para a descida incluía uma golfada de ar nos pulmões e um sentimento de cumplicidade com a natureza. Mas, por motivos pouco ou nada racionais, isso não acontecia comigo naquele momento. Eu me abaixei para apertar as botas e disfarçar para o meu instrutor, ou para mim mesmo, a angústia que tomava conta da minha respiração e do olhar. Levei mais tempo que o normal, apenas para recuperar o fôlego, tentando eliminar o travo que fechava minha garganta justamente quando eu esperava pelo contrário. O contato com o ar puro no alto, a velocidade da descida, eram um bom antídoto para a depressão da qual sou portador. Não esquiei muitas vezes na vida, mas estar na montanha e ainda praticar um esporte durante grande parte do dia tem efeito terapêutico, é sinônimo de alegria e descontração. Nas alturas sou responsável apenas por usufruir da natureza. A atitude é a mesma nas montanhas de neve ou naquelas que frequento no Brasil, onde me entrego às águas geladas dos rios e das cachoeiras, sem poder corrigir seu rumo, sem poder editar nada ao meu redor, sem me atribuir nenhuma responsabilidade por algo que não está sob o meu controle. A montanha requer um exercício de humildade, exige subserviência ao que não foi criado pelo esforço humano. Em troca oferece um grande prazer.

Eu me abaixei para apertar as botas e disfarçar para o meu instrutor, ou para mim mesmo, a angústia que tomava conta da minha respiração e do olhar

Naquela viagem, outro fator importante deveria servir como garantia de felicidade. Pela primeira vez levávamos nossas netas, Zizi e Alice, para esquiar. Depois de explorar as pistas mais velozes pela manhã com meu instrutor, à tarde eu me divertia esquiando com elas, acompanhando suas aventuras na neve. De resto, já de volta ao hotel, as horas eram tomadas por conversas, brincadeiras e preparativos para o jantar, no qual as duas se deliciavam com a comida regional. Estar com “as meninas” passou a ser, há tempos, um dos pontos centrais da minha vida, um contraponto a uma existência em que me afastei de amigos e restringi meus contatos ao campo profissional, fazendo amizades circunscritas ao mundo dos livros e vivendo, na maior parte do tempo, cercado da família ou em silêncio.

Assim, chegar ao cume naquela manhã, com os pulmões contraídos e sem ar, com um nó seco inexplicável na garganta, foi um choque, uma reversão completa do que eu imaginara ou sonhara por meses.

Não era só a montanha que cobrava de mim humildade. A depressão exigia muito mais.

Assustado com o esforço que precisava fazer para que o ar entrasse em meus pulmões, eu não pensava, no começo desta história, no dia em que senti os sintomas iniciais da depressão. Poucos, dentre os portadores de tal enfermidade, se lembram com exatidão do momento em que percebemos pela primeira vez os sinais, que surgem quando identificamos algo entre a garganta e os pulmões, um obstáculo que torna mais exíguo o espaço para o ar, que dificulta o ato de respirar. Em geral, a depressão apaga a lembrança remota, tem memória curta, acentua a dor recente, quase desprezando qualquer traço de história. Era o que eu sentia ali em cima, e não queria sentir nunca mais.

Não era só a montanha que cobrava de mim humildade. A depressão exigia muito mais

Se me esforço para recordar o início da minha doença, é possível construir uma narrativa. Lembro do ar que me faltava no cume e me vem à mente a figura do meu pai, que jamais esteve lá.

Antes mesmo da imagem da íris verde do meu pai, minha depressão apareceu como um som. O som das pernas dele, batendo na cama sem parar, no quarto ao lado, onde meu pai penava para dormir. A íris verde, em contraste com a esclera frequentemente umedecida e avermelhada — que enchia de água a bolsa inferior dos olhos, onde as lágrimas ficavam represadas —, passou a ser a sua principal imagem, alguns anos depois do som grave que vazava das paredes, pá, pá, pá, pá, pá… Aquele barulho seco — quase o oposto complementar dos olhos molhados —, ele não conseguia esconder ou controlar. Não lembro exatamente quando ouvi o tambor aflitivo pela primeira vez, ou sim, acho que sei, foi também quando me deprimi pela primeira vez. Foi meu primeiro grande susto, ao intuir que não daria conta dos meus deveres de filho único. Naquela ocasião percebi, mesmo sendo bem pequeno, que não conseguiria garantir a felicidade do meu pai, já ciente de que esta seria, para sempre, a mais importante missão da minha vida. Missão em que fracassei por completo.

Naquela ocasião percebi, mesmo sendo bem pequeno, que não conseguiria garantir a felicidade do meu pai

Produto

  • O Ar que Me Falta
  • Luiz Schwarcz
  • Companhia das Letras
  • 200 páginas

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