Cartas a uma Negra, de Françoise Ega

Trecho de livro

Cartas a uma Negra

Numa série de cartas a Carolina de Jesus, autora de “Quarto de Despejo”, a antilhana Françoise Ega ecoa o cotidiano da brasileira ao narrar sua vida como doméstica

Leonardo Neiva 19 de Março de 2021

POR QUE LER?

Em 1958, o jornalista Audálio Dantas foi à favela do Canindé, que então existia às margens do Rio Tietê, em busca de uma história. Deu com o diário da catadora de papel Carolina Maria de Jesus (1914-1977), no qual contava sua vida e as dificuldades diárias que enfrentava para sustentar a família. Primeiro, o diário virou uma reportagem. Depois, um livro de grande sucesso, o hoje clássico “Quarto de Despejo”. A história da escritora rodou o mundo, saiu em manchetes de grandes jornais, e seus dotes literários foram elogiados por grandes ícones da época.

A antilhana Françoise Ega (1920-1976) tinha o hábito de ler a revista Paris Match em seu trajeto para o trabalho. Numa dessas jornadas, Françoise, que trabalhava como doméstica em casas de família na cidade de Marselha, topou com uma matéria sobre Carolina. O impacto e a identificação imediata com o que leu foram tão fortes que escreveu um conjunto de cartas para a brasileira, datadas entre 1962 e 1964. Mas com um detalhe: nunca chegou a enviar nem uma linha para ela.

Publicado somente após a morte de ambas, “Cartas a uma Negra” (Todavia, 2021) ecoa muitas das preocupações e dificuldades apresentadas pela autora de “Quarto de Despejo”. “Mas você, Carolina, que procura tábuas para o seu barraco, você, com suas crianças aos berros, está mais perto de mim”, escreveu em um de seus relatos. As cartas de Françoise narram as agruras que passava com as patroas autoritárias e seus filhos mimados. Também falam de outras empregadas domésticas, que passavam por problemas semelhantes, entre eles a falta de direitos e de dignidade.

Anos depois, Françoise se tornou escritora e uma importante ativista social em defesa dos imigrantes caribenhos na França. Suas cartas conectam as vidas de duas mulheres negras separadas por milhares de quilômetros e culturas diferentes, mas com vivências parecidas. Embora nunca tenham se visto ou mesmo se comunicado, elas acabaram se encontrando na literatura.


Maio de 1962

Pois é, Carolina, as misérias dos pobres do mundo inteiro se parecem como irmãs. Todos leem você por curiosidade, já eu jamais a lerei; tudo o que você escreveu, eu conheço, e tanto é assim que as outras pessoas, por mais indiferentes que sejam, ficam impressionadas com as suas palavras. Faz uma semana que comecei estas linhas, meus filhos se agitam tanto que não tenho muito tempo para deixar no papel o turbilhão de pensamentos que passa pela minha cabeça. Estou indignada. Uma jovem da minha terra me contou coisas sobre a sua vida na casa onde trabalha que jurei verificar. Ganho um dinheiro e já posso fazer um balanço: sou faxineira há cinco dias, meus empregadores estão incomodados porque claramente não sou uma recém-chegada; falo de Champs-Élysées, Touraine ou da igreja Notre-Dame de la Garde com muita naturalidade. Eles não podem, sem mais nem menos, me chamar de Marie ou Julie. Aliás, nem estão preocupados com isso: não me chamam de nome nenhum.

Todos leem você por curiosidade, já eu jamais a lerei; tudo o que você escreveu, eu conheço

Quinze dias se passaram e ninguém me perguntou como eu me chamava nem pediu a minha carteira de identidade, é incrível!

Duas jovens moram lá, a mais velha está cursando as aulas preparatórias para as grandes écoles de exatas, a outra estuda para o baccalauréat. A mais velha me ignora — está entupida de equações. Ela diz um preguiçoso “Bom dia, senhora”. Eu pergunto onde devo guardar seus sutiãs. Ela nem me responde.

A segunda diz do mesmo jeito “Bom dia”, “Boa noite”, “Até mais”, porém ganhou o meu respeito: no seu quarto, não havia bituca de cigarro, mas tirei de sua gaveta dez cabinhos de maçãs devidamente devoradas. Eu a vi revisar uma lição mordiscando com muita desenvoltura o talo da fruta; depois dessa imagem simpatizei com ela, apesar de sua arrogância de controladora. Há também um adorável garoto, de cabelos ruivos, simples e gentil. Entre nós dois, o papo é fácil.

A patroa, cuja idade regula com a minha, entrincheirou-se atrás de uma fachada ridícula de dignidade e rigidez. Às vezes ela a esquece e vira uma pessoa sorridente; entretanto, isso dura pouco. Sou a empregada. A patroa solta depressa um “Bom dia”. Eu, quando chego, digo: “O dia está lindo, né?”.

Já o patrão, eu o encontro ao chegar, quando ele está saindo para trabalhar na sua clínica para gente nervosa. Na verdade, foi ele que me contratou. Ele é muito alto. Por sinal, todos são altos naquela casa. Trata-se de alguém ponderado, de gestos calculados; tem olhos azuis tão cheios de bondade que não consigo imaginá-lo fazendo algo ruim. A senhora é versátil, eu acho, mas todas as mulheres são assim. […]

2 de junho de 1962

Faz dois meses que sou faxineira, e não tem sido divertido, Carolina. Pau que nasce torto, morre torto. Com a minha patroa, não falo apenas de cera, sabão de Marselha e prendedores de roupa. Sinto que ela está um pouco desapontada. Sua amiga contratou “uma” que fala muito mal francês e é bastante ingênua, que lindo! Para ela, sou uma pessoa esquisita, o que a deixa nervosa e um pouco cruel. Ela pergunta:

“A senhora já terminou o vestíbulo?”

“Sim, senhora.”

É o sinal: ela pega um tapete empoeirado e se põe a sacudi-lo justo no lugar que acabei de deixar brilhando! Preciso então recomeçar. Se disser isso em casa, meu marido vai gritar “Fique aqui”, e depois tratará de deixar minha mobilete enguiçada! Se ficar em casa, jamais poderei ver até onde a estupidez humana pode ir. Na segunda-feira, limpo a sala de estar até dizer chega, começando por escovar um tapete bem pesado. Pelo jeito, o aspirador danifica as fibras desse precioso ornamento. Pessoalmente, acho que é para melhor me ver de joelhos no chão. Na terça-feira, quando tudo está brilhando, a patroa decide costurar, e centenas de fiapos se incrustam na lã do tapete que me custa tanto limpar. Com um ar negligente, ela diz: “Preciso lembrar de pôr um lençol velho na frente da poltrona de costura!”. Ela invariavelmente esquece! Então faço menção de pegar o aspirador de pó, e ela diz: “Preciso do aspirador para a sala! Pegue a escova pequena!”. Ou seja, “Curve o lombo, minha filha, vou te pagar dois francos por hora pelo serviço”. […]

…ela pega um tapete empoeirado e se põe a sacudi-lo justo no lugar que acabei de deixar brilhando! Preciso então recomeçar

Pentecostes de 1962

As tardes na casa onde trabalho são terríveis. A patroa está ficando cada vez mais irritadiça. Queria tanto dois dias inteiros de folga! Mas os dias que tenho são estes, e aproveito o máximo que posso. Eu, filha do vento e dos espaços abertos, sou forçada a girar em círculos em um grande apartamento de persianas fechadas. Quando entro nos quartos das meninas, a náusea me invade, corro para as janelas para abrir tudo, caso a dona da casa não esteja à espreita — ela odeia a luz do sol. Nessas horas, penso apenas no mistral que poderia soprar, purificando essa residência abafada. Passo o aspirador e me sinto enjoada, a náusea toma conta de mim depois de respirar aquela mistura de cheiros, perfume, suor, cozinha. O meu momento de desforra é pegar o caminho mais longo de volta para casa: a subida até o meu subúrbio, dez quilômetros de estrada a percorrer, passando por canteiros floridos. Volto para casa feliz, mas feliz de verdade, muito mais do que se tivesse ficado um dia inteiro ralando em um ateliê qualquer de costura. As poucas horas que passo na rua me fazem apreciar onde vivo, e fico contente em retornar! Embora tenha que fazer horas extras para recuperar o tempo perdido. Inverno e verão, a brisa do bom Deus sempre encontra um jeitinho para entrar na minha morada. Gosto de faxinar com grandes baldes de água fresca, de deixar as peças cheirando a capim-cidreira. Se fosse rica, evitaria as cortinas que acumulam poeira e os imóveis de dois andares nas avenidas movimentadas. Eu teria uma casa ensolarada no campo, longe do barulho dos motores, ouviria o vento cantar nas árvores altas, que não faltariam ao redor.

Mas sou faxineira. Carolina, ando de um lado para outro entre o fedor das meias, da cera de assoalho e dos produtos para remover odores; entre livros que nem sequer teremos tempo para ler e meninas que desconhecem as piscinas públicas e as caminhadas.

Ao chegar em casa ainda sob o impacto da falta de ventilação, digo às crianças: “Vamos, depressa, respirem”, e abro minha casa para que o sol entre por todos os lados. O mais penoso para uma faxineira, eu acho, é o cheiro da vida dos outros. Apesar do cansaço, aproveito o sol, perto de uma janela, depois de ter cozinhado para a família, e penso em você. Consigo vê-la, um lenço prendendo os cabelos, pregando as tábuas do seu barraco, e fico motivada. As crianças continuam a surrupiar meus lápis, mas o livro está avançando.

O mais penoso para uma faxineira, eu acho, é o cheiro da vida dos outros

Terminei o primeiro caderno e estou exultante; Carolina, saber reunir palavras, montar frases e poder lê-las, ainda que o escrito esteja em crioulo ou javanês! Sinto uma incrível sensação de alívio. O que estou fazendo não é fácil: há sempre um dos meninos resmungando ao meu redor, enquanto outro ri. Entre os meus filhos, dois me apoiam: examinaram as páginas e arrancaram duas folhas que tinham achado interessantes, “para ler na cama”. Minha filha achou as páginas brancas do meu novo caderno ideais para desenhar. Fiquei furiosa e disse a todos que, caso faltasse papel para escrever, ou trechos da minha história, aquilo nunca seria um livro; depois disso, eles se limitaram a rodear as minhas páginas brancas ou já escritas, mas não ousaram mais tocá-las. […]

8 de julho

Da minha terra recebi uma carta e recortes de jornais: era minha mãe me contando sobre o acidente com um Boeing em Pointe-à-Pitre. Mãe é mãe! Ela não quer que eu esqueça, fica falando sobre os acontecimentos mais irrelevantes possíveis da nossa terra: há anos ela mantém o meu coração aceso, e agora, enquanto procuro no porão as malas da patroa, que se prepara para tirar férias, é como se o vento alísio refrescasse todo o cheiro insosso que emana deste antro bolorento. Pensar na minha terra sem porões aquece o meu coração! Arrasto um caixote cheio de garrafas, e lembranças de outrora não saem da minha cabeça: pelo menos assim as horas vão passar mais rápido hoje. Quando penso, esqueço os lugares e as pessoas ao meu redor, possuo um universo próprio, sou um robô, trabalho três vezes mais do que o normal, mas são apenas os braços que se movem, a mente está em outro lugar. Não saberia dizer quantas vezes fui e voltei do porão para o apartamento! Ao sair do elevador, a voz do patrão me tirou do transe; ele dizia à esposa:

“Admita que eu tirei a sorte grande, não é sempre que você tem uma faxineira assim. Não é sempre que eu a vejo na labuta, mas ela dá duro mesmo!”

A senhora replicou:

“Essas mulheres têm isso no sangue!”

Finalmente, Carolina, um depoimento que não fala de negros cochilando, um espanador sobre as pernas!

Finalmente, Carolina, um depoimento que não fala de negros cochilando, um espanador sobre as pernas!

17 de julho de 1962

Com um ar culpado, meu patrão, antes de sair, entrou na despensa e colocou, no pequeno armário dos produtos de limpeza, uma grande caixa de chocolates: “Isso é para a senhora, para seus filhos. Volte em setembro, a minha esposa ficará contente”. Mas a patroa não ousou me dizer isso diretamente; foi tantas vezes arrogante comigo que imagina que eu não quero voltar. Pois bem: há um elemento no grupo digno de interesse. Será que vou voltar?

Produto

  • Cartas a uma Negra
  • Françoise Ega
  • Todavia
  • 256 páginas

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