Foto: Divulgação

Gabriela Bacelar: “O risco do orgulho pardo é causar uma divisão interna”

Antropóloga e escritora Gabriela Bacelar explica debates em torno da definição de pardo e de colorismo no Brasil

Leonardo Neiva 04 de Setembro de 2025

Categoria que, pela primeira vez na história, passou a representar a maior parte dos brasileiros no último Censo, realizado em 2022, o conceito de pardo no Brasil tem gerado debates e disputas. Um dos desenvolvimentos mais recentes do tema se deu durante uma entrevista de Camila Pitanga ao podcast “Mano a Mano”, em que a atriz respondeu se considerar negra, quando questionada pelo apresentador Mano Brown sobre se ela seria mulata ou até mesmo parda.

Ao programa se seguiu uma série de discussões sobre identidade racial no Brasil. Se muitas vozes de estudiosos do tema fizeram críticas à fala de Brown, reafirmando a defesa de Pitanga sobre sua negritude, ela também foi alvo de ataques e fake news nas redes, com a circulação de uma foto adulterada da atriz questionando até mesmo sua paternidade.

Segundo a antropóloga e doutoranda em antropologia social pela USP Gabriela Bacelar, uma das principais críticas à atuação de movimentos como o do orgulho pardo é que eles podem causar divisões dentro do movimento negro, desconstruindo conquistas históricas importantes no país, como a criação das cotas. “É uma ação de negar a declaração negra da Camila Pitanga e de outras pessoas, como eu mesma, que também já fui atacada por esses movimentos”, afirma Bacelar, autora do livro “Contramestiçagem Negra e Colorismo” (Segundo Selo, 2025).

A pesquisadora aponta que é possível sim falar em misturas raciais dentro de uma perspectiva mais alinhada ao próprio movimento negro, que continua na linha de frente do combate ao racismo no país e também na conquista de direitos políticos, que abarcam tanto negros quanto pardos. A seguir, leia a entrevista completa sobre o tema com a antropóloga Gabriela Bacelar.

  • G |Qual é o contexto histórico para a definição de pardo no Brasil?

    Gabriela Bacelar |

    O pardo existe como categoria oficial desde 1872. Mas também existiram outras categorias que foram entrando e saindo, como caboclo, pelo qual se entendia a população mista de brancos e indígenas. Quando essa categoria deixou de existir, foi incorporada à categoria pardo. Então, a partir do IBGE, a gente entende que pardos são mestiços de brancos, indígenas e negros. Isso veio repercutir nas redes sociais há pouco tempo, a partir desse conjunto de movimentos virtuais chamado orgulho pardo, “parditude”. O que essas pessoas reivindicam é que nem todo pardo é negro. Só que isso não é uma reivindicação nova. Existe um movimento fundado nos anos 2000 em Manaus chamado Nação Mestiça — que inclusive veio a se filiar ao bolsonarismo — ativo há pelo menos 25 anos e que diz que a população brasileira é mestiça em sua natureza, fazendo uma reivindicação anticotas. Os movimentos que não batem mais que dois ou três anos de existência são frutos de uma outra controvérsia mais antiga, que diz respeito ao colorismo. O colorismo surgiu como conceito na década de 1980, na obra de Alice Walker, que abriu uma agenda de discussão política e teórica nos EUA, mas não aqui no Brasil. A partir de 2016 é que isso começa a ser discutido aqui em plataformas e vídeos no YouTube. Os discursos sobre colorismo falam que existe uma hierarquia de cor no interior da população negra, que pardos ou pessoas menos escuras têm privilégio, e que o racismo seria mais intenso, com consequências mais graves para os mais pretos. Só que isso virou uma categoria de aclaração, questionando a legitimidade da declaração negra dos pardos. Então, os pardos são negros mesmo? Esse é um dos contextos de disputas em torno da categoria pardo. São muitos, tanto do ponto de vista teórico quanto político e ideológico.

  • G |E por que isso tem gerado críticas ao discurso do orgulho pardo?

    GB |

    As críticas centrais falam sobre uma divisão no interior da comunidade negra, porque a comunidade negra brasileira é majoritariamente parda. Então, o risco do orgulho pardo é causar uma divisão interna e fazer retroceder conquistas políticas, porque esses movimentos questionam a legitimidade das políticas de cotas e do trabalho das comissões de heteroidentificação racial. O que eles fazem é, sistematicamente, atacar as comissões, dizendo que elas não aprovam pardos, o que é uma mentira. Sim, existem erros, mas para isso há mecanismos de reversão: o recurso judicial dentro do escopo do concurso e, em última instância, a judicialização. Por experiência própria, sei que pelo menos 80% dos casos indeferidos são revertidos. Então, essa afirmação de que os pardos não são aceitos não é verdadeira. A gente pode considerar que há um problema metodológico das comissões, mas é parte de um processo de desenvolvimento e aperfeiçoamento de uma política pública, que, como todas as outras, tem muitos problemas e questões a serem aperfeiçoadas.

  • G |No podcast do qual a Camila Pitanga participou, ela foi descrita pelo Mano Brown como mulata ou parda. Depois disso, houve ataques a ela nas redes, inclusive embranquecendo-a. Como essa atuação se encaixa na lógica da parditude?

    GB |

    Os movimentos pardos querem estabelecer, pela repetição e o ataque nas redes sociais, uma verdade: que pardos são pardos, são pessoas menos escuras, e não negros. É uma ação de negar a declaração negra da Camila Pitanga e de outras pessoas, como eu mesma, que também já fui atacada por esses movimentos. Já me disseram: pode usar turbante como você quiser, mas você vai continuar sendo parda. O objetivo é desconstruir a narrativa do movimento negro. Por exemplo, o movimento negro tem estabelecido que determinadas categorias, como mulata, não devem ser utilizadas. O termo tem servido historicamente para hipersexualizar pessoas negras, especialmente mulheres, mas homens também. Historicamente, a gente entende a construção da figura da mulata inclusive como produto de exportação nacional para atrair o turismo sexual. Então, sim, é muito ofensiva essa categoria. A Camila estava certíssima de se defender como mulher negra. Existem muitas formas de compreender sermos filhos de uma mistura inter-racial sem fazer coro ao movimento eugenista e ao que Abdias do Nascimento chamou de projeto de extermínio da população negra. Uma das formas de genocídio que ele elencou foi a mestiçagem, fazer com que a população embranquecesse a ponto de não existirem mais negros. Tem como admitir essa mistura sem fazer coro a esse projeto, que é o que os afroindígenas e as pessoas que se declaram negras de pele clara fazem. O que elas fazem é dizer que têm um lugar dentro desse tabuleiro racial: o meu lugar é negro. É possível falar sobre misturas a partir de uma posição política mais coerente e alinhada com o movimento negro. E é importante estar alinhado com o movimento negro porque ele atuou na linha de frente, tanto para combater o racismo quanto para conquistar direitos políticos para uma população muito grande de pretos e pardos. Não se excluiu os pardos na hora de dividir a fatia do bolo.

  • G |No Censo 2022, pela primeira vez, a população parda apareceu como maioria dos brasileiros. Quais fatores explicam essa mudança?

    GB |

    Acredito que demonstra uma conversão crescente da autodeclaração das pessoas, que a gente pode analisar de duas maneiras. Primeiro, pelo progresso do processo educativo dos movimentos negros, que é muito antigo. A gente pode dizer que esse processo que educa as pessoas negras a se reconhecerem negras tem alcançado mais sucesso, inclusive por meio das plataformas digitais. Ou então pode entender que existe uma conversão instrumental para falsear uma autodeclaração, visando o direito às políticas públicas, de cotas, etc. Mas, antes mesmo da lei de cotas, já se observava que a multiplicidade de categorias raciais que sempre existiram no Brasil para determinar cor ou raça caminhava para uma diminuição em função das categorias do IBGE. Então, por exemplo, o pardo, que sempre foi uma categoria de Estado, formal, começou a ser mais incorporada no cotidiano das pessoas. Antes as pessoas não eram pardas, eram consideradas morenas ou outras coisas. E eu disse dois, mas quero acrescentar um terceiro fator. Acho também que o aumento do acesso à escolarização básica é um motivador para que as pessoas compreendam melhor as categorias do IBGE, ajudando-as a se localizar e entender o que significa cada uma dessas categorias.

  • G |Na sua visão, o que o avanço do chamado orgulho pardo significa para o movimento negro no Brasil?

    GB |

    Quando a gente analisa o discurso de que o Brasil é em si um país mestiço — e por isso você não conseguiria estabelecer uma política de cotas, porque seria impossível reconhecer quem é negro e quem não é —, tira muito a seriedade e a objetividade do que é o racismo. O processo de racialização brasileiro é fenotípico, não leva em consideração o seu gene, diferentemente dos EUA. Se você começa a conformar um movimento por conta desses argumentos geneticistas, perde de vista a objetividade e a materialidade do racismo. O racismo afeta a subjetividade das pessoas, mas ele discrimina e também tolhe direitos, estabelece espaços onde você entra e não entra, estabelece seu direito à vida e ao cuidado. Então, quando você enfatiza esses discursos geneticistas para reivindicar uma identidade parda, deixa de olhar para o que importa. E o que importa é o racismo e as ações que a gente deve tomar para superá-lo.

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