Chapéu de João Gomes

Carinhosamente apelidado de “bonéu”, acessório que não deixa a cabeça do cantor foi criado pelo artesão pernambucano Irineu do Mestre e atualiza símbolo da identidade sertaneja

Leonardo Neiva 04 de Maio de 2026
  • O QUE É

    Ele quase não sai da cabeça do cantor e compositor pernambucano João Gomes. Tanto que, quando tira a peça num dos momentos finais do seu show “Dominguinho”, o ícone do forró e do piseiro parece outra pessoa. Mas o acessório que agasalha o cocuruto do artista nasceu com uma certa polêmica até no momento de defini-lo. Seria ele um chapéu, como o modelo usado pelo avô vaqueiro de Gomes, que inspirou a criação da peça? Ou um boné, devido ao seu formato característico, com uma única aba na parte da frente? A verdade é que não existe uma descrição definitiva. Há quem chame de chapéu, de boné ou até de “bonéu”, um híbrido entre os dois, num apelido dado pelo próprio inventor da peça. Todo feito em couro, com detalhes que variam bastante de modelo para modelo, a peça homenageia a indumentária do vaqueiro nordestino, num trabalho artesanal marcado por tons geralmente puxados para o marrom, o vinho e o bege, e um estilo casco duro, com uma copa pequena e arredondada. Mas Gomes também já surgiu portando na cabeça modelos de colorações preta, azul, e por aí vai — incluindo uma popular versão multicolorida que faz referência direta à bandeira de Pernambuco, estado natal do artista. De uma forma ou de outra, um acessório que complementa perfeitamente a união que Gomes faz da música tradicional com a contemporânea, do modão e do forró com o piseiro.

  • QUEM FEZ

    A ideia começou com a mãe de Gomes, Kátia, que buscava um presente diferenciado para dar ao cantor. Acabou optando por um chapéu. Então, pediu ajuda ao artesão em couro Irineu José Barboza, conhecido no município pernambucano de Salgueiro, onde vive, pelo apelido de Irineu do Mestre. Era ele quem fazia as roupas de seu Nato Gomes, o avô de João. Representante da terceira geração de sua família dedicada ao ofício, o artesão teve a ideia de juntar chapéu e boné para criar uma peça nova, trazendo a identidade do sertão pernambucano mas também uma homenagem direta às indumentárias de seu Nato Gomes, avô que o cantor já disse várias vezes considerar seu herói. “Eu quero ser um véi que nem vovô/ E viver por amor à vaquejada”, canta inclusive nos versos da música “Que Nem Vovô”. O primeiro modelo foi dos mais simples, feito nas cores vinho e branca — mas o suficiente para fazer a cabeça de João, que, naquela mesma noite, dormiu usando o “bonéu”. Dali para frente, passou a levá-lo para onde quer que fosse, fazendo com que a peça se tornasse um símbolo do artista e da cultura sertaneja que ele representa. Até hoje, o artesão conta em entrevista ao Globo Repórter, Irineu já fez mais de 23 chapéus para Gomes — dentre eles, mais de dez modelos diferentes.

  • POR QUE É TÃO DESEJADO

    Depois que seu cliente mais ilustre popularizou o “bonéu”, as vendas de Irineu do Mestre dobraram. No ateliê do artesão, boa parte do espaço e do trabalho hoje são dedicados ao acessório de sua criação. Mas a demanda país afora é tão grande que outros estilistas e marcas também passaram a fabricar e comercializar a peça. O desejo pelo boné certamente começa no lugar de fã que quer ter consigo a peça de roupa preferida do ídolo. Mas vai muito além disso. O acessório já virou símbolo de orgulho das raízes sertanejas não só para quem vive no Nordeste, mas para os nordestinos espalhados por todo o Brasil, valorizando um de seus pontos mais típicos: o artesanato tradicional, transmitido de geração a geração.

  • VALE?

    O próprio João Gomes é o primeiro a exaltar a importância de comprar aquilo que é produzido por artistas e artesãos locais, em detrimento de produtos das grandes grifes muitas vezes sem tanta identidade. E o “bonéu” segue uma lógica muito semelhante à da atual turnê de sucesso que o artista vem fazendo pelo Brasil, ao lado do cantor Jota.pê — veja aqui a entrevista dele a Gama — e do sanfoneiro Mestrinho: levar a música e a cultura sertaneja a todo o Brasil. O que tem dado muito certo. A apresentação de comemoração de um ano do projeto, inclusive, chegou a reunir cerca de 50 mil pessoas no Allianz Parque, em São Paulo. Portanto, se você ficou com vontade de, assim como João Gomes, andar por aí com um “bonéu” para chamar de seu, tenha certeza que vale — e vale muito.

  • ONDE COMPRAR

    O primeiro lugar a se procurar, sem dúvida, é a oficina do próprio Irineu do Mestre, em Salgueiro (PE). Caso tenha a oportunidade de encomendar seu “bonéu” com o inventor do acessório em pessoa, o artesão aceita pedidos pelo Instagram mesmo ou então pelo Whatsapp que está na descrição de seu perfil. Ele não divulga os valores na página. Também existem sim várias peças similares disponíveis nos grandes varejos online. Ali, o preço varia bastante, indo da faixa dos R$ 100 aos R$ 200 e tantos. Mas lembre-se: o ideal é, assim como prega Gomes, dar preferência a artesãos locais, prestigiando a identidade e a cultura brasileira.

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