Trecho de livro

Sobre Querer Mudar

Novo livro do psicólogo britânico Adam Phillips, de “Sobre Desistir”, põe em xeque o censo comum sobre as transformações pessoais

Leonardo Neiva 25 de Julho de 2025

Mudar de vida se tornou, de muitas formas, um objeto de desejo e um símbolo de libertação na sociedade atual. Uma espécie de fetiche reforçada por posts de redes sociais, que engloba desde a vontade de largar tudo e rodar o mundo até aquele sonho de finalmente viver trabalhando com o que se ama. Mas “Sobre Querer Mudar” (Ubu, 2025), o novo livro do psicólogo britânico Adam Phillips, de “Sobre Desistir” (idem, 2024) coloca em xeque essa visão idealizada que temos sobre realizar mudanças radicais.

Afinal, o que está em jogo quando desejamos transformar a nós mesmos? Com esse questionamento que parece simples, Phillips começa a derrubar o muro de certezas que temos sobre os significados da mudança — que pode ser um gesto de liberdade, mas também uma estratégia sutil de coerção. E faz isso ao abordar uma das facetas mais polêmicas e radicais da mudança: a conversão, seja ela religiosa, política, terapêutica ou pessoal. “Devemos observar a associação entre terapias ‘reparadoras’ e ‘de conversão’: ambas insinuam que algo deu radicalmente errado, que há algo a ser consertado, que decisões erradas foram tomadas e que existe alguém que sabe qual é a decisão certa”, escreve na obra, com tradução de Ana Carolina Mesquita.

É nessa crença de que existe certo x errado bem definidos e que a figura por trás da conversão sabe exatamente o que se deve fazer que mora o real perigo. O autor então mescla psicanálise, literatura e filosofia para examinar as diferenças entre mudanças reais e ilusões. Ele aborda sim a conversão como possibilidade legítima, mas também em sua forma mais duvidosa, como parte de um ideal de transformação e melhoria contínua que não corresponde à realidade. E, assim como em “Sobre Desistir”, Phillips vai botando de pernas para o ar nossas convicções sobre a sociedade e sobre nós mesmos.


Histeria de conversão

I
O mais animador nas pessoas é sua terrível teimosia e as raízes poderosas de suas várias culturas, não a facilidade com que se pode convertê-las e torná-las felizes e boas.
WILLIAM EMPSON, agosto de 1940

No dia 2 de outubro de 2012, o Guardian noticiou que “a maior associação profissional de psicoterapeutas da Grã-Bretanha” — a British Association for Couselling and Psychotherapy (BACP), com
mais de 30 mil associados — “instruíra seus membros de que buscar ‘converter’ pessoas gays a se tornarem heterossexuais era antiético, formalizando uma alteração de sua política que vinha há tempos sendo cobrada pelas organizações de direitos humanos”. É óbvio que, se há tempos vinha sendo cobrada pelas organizações de direitos humanos, desde há muito já se tratava de uma questão problemática; havia terapeutas que acreditavam que pessoas gays poderiam e deveriam ser convertidas, e convertidas à heterossexualidade; ou seja, tinha quem acreditasse que a heterossexualidade era, em si, algo ao qual se poderia converter as pessoas.

Segundo o Guardian, a BACP escrevera a seus membros para informá-los das novas diretrizes; a carta oficial dizia que a BACP “opõe-se a quaisquer tratamentos psicológicos tais como terapias ‘reparadoras’ ou ‘de conversão’, baseadas na suposição de que a homossexualidade é um distúrbio mental ou na premissa de que o/a cliente/paciente deve modificar sua sexualidade”. Ainda citando o Guardian, a carta acrescentava que a diretiva da Organização Mundial de Saúde (OMS) era que “tais terapias podem causar danos severos à saúde mental e física dos indivíduos”. Mais uma vez, somos levados a supor que, se instâncias mais poderosas foram citadas aqui — a OMS —, é porque as terapias de “conversão” eram um problema de longa data; é porque ainda havia um número razoável de terapeutas partidários da ideia de que a homossexualidade era um distúrbio mental e de que pessoas com distúrbios mentais deveriam ser convertidas. Devemos observar também a associação entre terapias “reparadoras” e “de conversão”: ambas insinuam que algo deu radicalmente errado, que há algo a ser consertado, que decisões erradas foram tomadas e que existe alguém que sabe qual é a decisão certa; as ideias de reparação e de pecado original são necessariamente conjugadas e têm a conversão como seu complemento tradicional.

As ideias de reparação e de pecado original são necessariamente conjugadas e têm a conversão como seu complemento tradicional

Em seu contexto religioso, a conversão, em geral, é tida como a reparação de algo; embora, conforme veremos, trate-se de uma palavra que vaticine diversos tipos diferentes de mudança — todas radicais, porém nem todas reparadoras. É um conceito razoavelmente móvel e adaptável, uma palavra que pode ser utilizada (convertida) em muitos contextos — econômicos, científicos, psicológicos. Edificações, moedas e energias podem ser convertidas. E, como veremos, para Freud, nos primórdios da psicanálise, conversão e sexualidade estavam necessariamente vinculadas. Portanto, este capítulo trata do que falamos quando falamos em conversão e de por que sentimos o que sentimos a seu respeito. Ou, dito de outro modo, este capítulo indaga como saber, ao mudarmos, se estamos sendo convertidos ou não, e que imagem isso pode formar de como mudamos e de como somos mudados. Qual tipo de mudança é inevitável e qual tipo de mudança é possível em uma vida? Somos os únicos animais para quem a mudança radical pode se constituir em objeto de desejo. E costumamos exibir o ápice da nossa ambivalência em relação aos objetos de desejo.

De modo que é preciso indagar aqui o que se presume que seja, ou como se supõe que seja, a chamada orientação sexual, uma vez que há quem contemple a conversão como opção de tratamento. E, claro — e este será um dos temas deste livro —, como visualizamos, como imaginamos, um processo de conversão, de maneira que uma pessoa seja transformada de uma forma de vida para outra bastante diferente; como um conjunto de crenças de base pode ser substituído por outro à primeira vista mais convincente, persuasivo ou atraente — é difícil saber qual é sempre a palavra —, admitindo que as pessoas se convertem sempre ao que é preferível. As pessoas só se convertem do tipo de coisa, e para o tipo de coisa, que lhes parece mais importante — nesse caso sua sexualidade, embora um dia já tenha sido suas convicções religiosas, ambas agora borradas e sobrepostas, podendo ou não florescer na mesma sebe. De fato, a ideia de conversão suscita questões fundamentais sobre o que significa algo se tornar outra coisa e alguém se tornar outra pessoa; isso envolve, sem dúvida, a suposição básica de que uma pessoa deve ser algo — algo reconhecível, identificável, discernível — para que assim possa ser modificada.

Somos os únicos animais para quem a mudança radical pode se constituir em objeto de desejo

A conversão, portanto, nunca é nada menos que séria; supõe-se que não é real se for casual, passageira ou encarada de forma leviana. Falamos em monogâmicos em série e assassinos em série, mas não em convertidos em série. Contudo, a conversão, que já foi, há bem pouco tempo, uma de nossas formas de transformação pessoal mais socialmente sancionadas, tornou-se uma das mais suspeitas, levando-nos a refletir sobre quais tipos de mudança pessoal podemos exatamente valorizar e por quê; quais tipos de mudança consideramos desejáveis; e quais poderiam ser nossos critérios para definir as formas de transformação pessoal dignas de nosso apoio e endosso. (Ou seja, o que estamos dispostos a permitir que as pessoas façam umas às outras.) Em síntese, que tipos de influência queremos que as pessoas exerçam umas sobre as outras. Da Alemanha de Hitler à Rússia de Stálin, passando pelos campos de treinamento maoístas e à vertente fundamentalista do Islã, tivemos, na era moderna, exemplos aparentemente apavorantes da vontade e do desejo de converter nações inteiras, de criar novos homens e mulheres. E esses exemplos nos deixaram devidamente céticos não apenas quanto à possibilidade de mudança radical mas também quanto a desejá-la. Será que aqueles que buscam a conversão seriam, por definição, de certa maneira, deficientes ou até mesmo doentes? O que acrescenta à conversa chamá-los de doentes, destituídos ou depravados? E que destituição é essa que a conversão seria capaz de amenizar ou apaziguar? Para quais tipos de frustração as experiências de conversão representariam uma autocura? Hoje, por exemplo, ninguém vê com bons olhos a conversão para o fundamentalismo islâmico — a não ser, é claro, os muçulmanos fundamentalistas —, porém é tanto a própria religião como o processo de conversão que passaram a nos perturbar. Será que nos sentiríamos melhor se esses jovens rapazes e moças jihadistas tivessem se convertido lentamente ao longo de um curso de três anos em estudos islâmicos na Universidade de Oxford? Por que a mudança incremental, evolutiva seria preferível à revelação ou à revolução?

A conversão, que já foi, há bem pouco tempo, uma de nossas formas de transformação pessoal mais socialmente sancionadas, tornou-se uma das mais suspeitas

Produto

  • Sobre Querer Mudar
  • Adam Phillips (trad. Ana Carolina Mesquita)
  • Ubu
  • 128 páginas

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