Trecho de livro

Sexo no Cativeiro

Clássico de Esther Perel, influente terapeuta de casais consultora de “O Convite”, ganha nova edição em meio à crise dos relacionamentos contemporâneos

Leonardo Neiva 14 de Agosto de 2026

O longa “O Convite” (2026), que retrata o encontro de um casal em crise com outro sexualmente bem ativo, vem levantando uma série de debates sobre o estado dos relacionamentos contemporâneos e o lugar do sexo no dia a dia dos casais — especialmente entre aqueles que estão juntos há um tempo considerável. Se você foi um dos que se interessaram pelas discussões iniciadas no filme, a obra “Sexo no Cativeiro” (Objetiva, reedição 2026, trad. Adalgisa Campos da Silva), da psicoterapeuta belga Esther Perel, serviu como forte inspiração para o longa, apresentando uma porta para se aprofundar no tema.

Um clássico sobre o sexo nas relações atuais, o best-seller internacional acaba de ganhar uma nova edição pela Objetiva, em comemoração aos 20 anos de sua publicação original. O livro, que traz um prefácio inédito da autora, aborda as tensões entre amor e desejo com uma originalidade que segue impactando visões sobre os relacionamentos amorosos até hoje.

Mesmo com a ascensão das novas tecnologias e uma série de mudanças na forma como nos comunicamos e estabelecemos relações, as questões levantadas na obra permanecem fundamentais: Por que o desejo entre pessoas que se amam costuma diminuir ao longo do tempo? É possível manter a paixão viva em relacionamentos duradouros, em meio à rotina e à presença dos filhos?

Terapeuta de casais mais influente da atualidade, o papel de Perel em “O Convite” foi muito além da pura inspiração. Ela atuou como consultora de roteiro e ensaios da produção, ajudando a criar diálogos realistas em torno do desejo e do casamento. Livre de julgamentos, ela reflete em sua obra décadas de trabalho em auxílio a casais que buscam compreender melhor as dinâmicas do amor e da sexualidade, mostrando que esses dois polos nem sempre seguem as mesmas regras.

Leia a seguir um trecho de “Sexo no Cativeiro”.


A âncora e a onda

Podem me chamar de idealista, mas acredito que amor e desejo não são incompatíveis, apenas nem sempre ocorrem ao mesmo tempo. De fato, segurança e paixão são duas necessidades humanas distintas e fundamentais que têm origens diferentes e tendem a nos puxar para lados opostos. Em seu livro Can Love Last? [O amor pode durar?], o psicanalista Stephen Mitchell oferece uma estrutura para se pensar esse enigma. Como ele explica, todos nós precisamos de segurança: permanência, confiabilidade, estabilidade e continuidade. Esses instintos de criar raízes e obter proteção sustentam nossa experiência humana. Mas também precisamos de novidade e mudança, forças geradoras que preenchem a vida e a tornam vibrante. O risco e a aventura não nos deixam. Somos contradições ambulantes, buscamos segurança e previsibilidade, mas também queremos diversidade.

Sabe quando a criança corre à frente para fazer uma exploração e logo volta para conferir se os pais continuam ali? Ela precisa se sentir segura para descobrir o mundo; e, uma vez satisfeita sua necessidade de exploração, quer voltar à sua base segura e recuperar suas conexões. É um esporte que ela vai retomar já adulta, culminando nos jogos eróticos. Alternará períodos de ousadia e arrojo com outros em que buscará base e segurança. Pode vagar entre lá e cá por um tempo, mas, na maioria das vezes, acabará por se instalar em um dos polos.

O que vale para os seres humanos também vale para os demais seres vivos: todos os organismos exigem períodos alternados de crescimento e equilíbrio. Qualquer pessoa ou sistema exposto a novidades incessantes corre o risco de entrar em parafuso, mas quem é rígido ou estático demais para de crescer e acaba morrendo. Essa dança sem fim entre mudança e estabilidade é como a âncora e as ondas.

As relações adultas refletem muito bem essa dinâmica. Procuramos em nosso parceiro uma âncora firme e segura, mas, ao mesmo tempo, esperamos que o amor ofereça uma experiência transcendente que nos leve além de nossa vida banal. O desafio para os casais modernos é conciliar a necessidade de segurança e previsibilidade e o desejo pelo que é empolgante, misterioso e fascinante.

Para uns poucos felizardos, isso quase não é um desafio. São casais que conseguem harmonizar com facilidade a hora de limpar a casa e os momentos de intimidade. Para eles, não há dissonância entre compromisso e excitação, responsabilidade e brincadeira. Eles podem comprar uma casa e ser sacanas dentro dela, podem ser pais sem deixar de ser amantes. Ou seja: são capazes de unir o comum ao misterioso. Mas, para a maioria, procurar entusiasmo na mesma relação em que estabelecemos permanência é pedir demais, e, infelizmente, muitas histórias de amor se desenvolvem de tal maneira que sacrificamos a paixão em nome da estabilidade.

Procuramos em nosso parceiro uma âncora firme e segura, mas, ao mesmo tempo, esperamos que o amor ofereça uma experiência transcendente que nos leve além de nossa vida banal

Então, o que me falta?

Adele entra em meu consultório com um sanduíche numa das mãos e um trabalho que está fazendo às pressas na outra. Aos 38 anos, é uma advogada de sucesso. Está casada há sete anos com Alan. É o segundo casamento de ambos, e eles têm uma filha, Emilia, de cinco anos. Adele se veste com simplicidade e elegância, embora já esteja adiando há algum tempo uma ida ao cabeleireiro.

“Vou direto ao que interessa”, começa ela. “Oitenta por cento do tempo sou feliz com ele. Feliz mesmo.” Essa mulher organizada e realizada não tem um minuto a perder. “Ele não é de falar muito e não é efusivo, mas é um cara muito legal. Eu pego o jornal e me sinto feliz. Temos saúde, não nos falta dinheiro, nunca passamos por nada trágico, não temos que fugir de bala perdida voltando para casa. Eu sei que tenho sorte em ter tudo isso. Então, o que me falta?

“Olho para meu amigo Marc, que está se divorciando da terceira mulher porque, diz ele: ‘Ela não me inspira’. Então eu pergunto a Alan: ‘Eu inspiro você?’, e sabe o que ele diz? ‘Você me inspira a fazer frango todos os domingos.’ Ele faz um coq au vin fantástico, e sabe por quê? Porque quer me agradar; ele sabe que eu gosto.

“Estou tentando entender do que sinto falta. Sabe aquele sentimento que a gente tem no primeiro ano de relacionamento, aquela palpitação, o friozinho no estômago, a paixão física? Nem sei se ainda sou capaz de sentir isso. E quando toco nesse assunto com Alan, ele faz aquela cara: ‘Ah, de novo esse papo sobre Brad e Jen?’. Até Brad Pitt e Jennifer Aniston se cansaram um do outro, certo? Eu me lembro do que estudei em biologia sobre as sinapses, sei que a repetição diminui a reação; entendo isso. O arrebatamento diminui, sim, sim, sim. Mas, mesmo que eu não possa sentir aquela palpitação, quero sentir alguma coisa.

“Meu lado realista sabe que a empolgação do início é por causa da insegurança de não saber bem o que o outro sente. Quando estávamos namorando e o telefone tocava, era emocionante porque eu não esperava que fosse ele. Agora, quando ele viaja, digo para não me ligar. Não quero uma ligação de bom-dia. Meu lado mais inteligente diz: ‘Não quero insegurança. Sou casada, tenho uma filha, não preciso me preocupar toda vez que ele viaja, pensando: Será que ele gosta de mim? Será que não gosta? Será que vai me trair?’. Sabe aqueles testes de revista, ‘Como saber se ele ama mesmo você’? Não quero me preocupar com isso, não preciso disso com meu marido a essa altura da vida, mas gostaria de recuperar um pouco daquela emoção.

“Depois de trabalhar o dia inteiro, cuidar de Emilia, cozinhar, fazer faxina e resolver coisas, sexo é a última coisa que me passa pela cabeça. Mal quero conversar. Às vezes, Alan fica vendo televisão enquanto eu leio no quarto, e é ótimo. Enfim. O que estou tentando colocar em palavras aqui? Não estou falando só de sexo. Quero ser olhada como mulher. Não como mãe, não como esposa, não como companheira. E quero olhar para ele como homem. Pode ser um olhar, um toque, uma palavra. Quero ser vista sem toda essa bagagem.

Não estou falando só de sexo. Quero ser olhada como mulher. Não como mãe, não como esposa, não como companheira. E quero olhar para ele como homem

“Ele diz que a questão tem dois lados. E tem razão. Não é como se eu vestisse um robe transparente e me jogasse em cima dele com vontade. Sou meio relapsa no departamento ‘faça com que eu me sinta especial’. Quando ainda estávamos nos conhecendo, eu dei a Alan de presente de aniversário uma pasta que ele tinha visto numa vitrine e adorado. Dentro, tinha duas passagens para Paris. Este ano, dei a ele um dvd e comemoramos com um casal de amigos comendo um bolo de carne que a mãe dele fez. Nada contra bolo de carne, mas a coisa chegou a esse ponto. Não sei por que não me esforço mais. Me acomodei.”

Em seu desabafo ininterrupto, Adele capta vivamente a tensão entre o conforto do amor numa relação estável e seu efeito sobre a vitalidade erótica. Familiaridade é, de fato, algo tranquilizador e que traz um sentimento de segurança do qual Adele jamais sonharia abrir mão. Só que, ao mesmo tempo, ela sente a necessidade de recuperar o entusiasmo e a emoção que sentia com Alan no início. Quer tanto o aconchego quanto a energia, e quer as duas coisas com ele.

A era do prazer

Não muito tempo atrás, o desejo de se sentir apaixonada pelo marido seria considerado paradoxal, pois, historicamente, essas duas áreas da vida eram separadas: casamento de um lado, e paixão, provavelmente, em outro lugar — isso se tivesse lugar. O conceito de amor romântico, surgido em fins do século XIX, uniu as duas pela primeira vez. Somente décadas depois, o sexo passou a ser fundamental no casamento e fez surgir novas expectativas a respeito de seu papel.

As transformações sociais e culturais dos últimos cinquenta anos redefiniram o conceito moderno de casal. Alan e Adele são beneficiários da revolução sexual dos anos 1960, da liberação das mulheres, da disponibilidade da pílula anticoncepcional e do surgimento do movimento gay. Com o uso disseminado da pílula, o sexo se libertou da reprodução. O feminismo e o orgulho gay lutaram para definir a expressão sexual como um direito inalienável. Anthony Giddens descreve essa transição em A transformação da intimidade, quando explica que a sexualidade se tornou propriedade do eu, uma propriedade que desenvolvemos, definimos e renegociamos durante a vida. Hoje, nossa sexualidade é um projeto pessoal em aberto; é parte de quem somos, uma identidade, não mais apenas algo que fazemos. Tornou-se um traço central dos relacionamentos íntimos, e satisfação sexual é o que julgamos merecer. É a era do prazer.

Esses desdobramentos, em conjunção com a prosperidade do pós-guerra, contribuíram para um período ímpar de liberdade e individualismo. As pessoas agora são encorajadas a buscar realização pessoal e gratificação sexual e a se libertar das amarras de uma vida social e familiar até hoje definidas pelo dever e pela obrigação. No entanto, à sombra dessa extravagância declarada está um novo tipo angustiante de insegurança. A família, a comunidade e a religião podiam de fato limitar nossa liberdade, sexual e de qualquer outro tipo, mas, em compensação, ofereciam-nos um sentimento de pertencimento fundamental. Por gerações, essas instituições tradicionais proporcionaram ordem, sentido, continuidade e apoio social. Com sua desestruturação, temos mais opções e menos restrições do que nunca. Somos mais livres, mas também mais solitários. Como descreve Giddens, nos tornamos ontologicamente mais ansiosos.

Trazemos para nossos relacionamentos românticos uma vulnerabilidade existencial quase insuportável — como se o próprio amor já não fosse suficientemente perigoso

Levamos para nossas relações amorosas essa ansiedade generalizada. Espera-se do amor, além de apoio emocional, compaixão e companheirismo, que seja uma panaceia para a solidão existencial. Nosso parceiro é como uma muralha de proteção contra as vicissitudes da vida moderna. Não é que a insegurança humana seja maior hoje; talvez seja o contrário, na verdade. A diferença é que a vida moderna nos privou de nossos recursos tradicionais e criou uma situação em que nos voltamos para uma única pessoa para obter a proteção e as ligações emocionais antes fornecidas por um sem-número de redes sociais. A intimidade adulta foi sobrecarregada de expectativas.

Obviamente, Adele não está pensando na angústia contemporânea quando descreve a situação de seu casamento, mas creio que os perigos do amor são ampliados pelas aflições modernas particulares que embutimos nele. Vivemos muito longe de nossa família, já não conhecemos nossos amigos de infância e somos regularmente arrancados e transplantados. Essa descontinuidade toda tem um efeito cumulativo. Trazemos para nossos relacionamentos românticos uma vulnerabilidade existencial quase insuportável — como se o próprio amor já não fosse suficientemente perigoso.

Produto

  • Sexo no Cativeiro
  • Esther Perel (trad. Adalgisa Campos da Silva)
  • Objetiva
  • 240 páginas

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