Trecho de livro

Rotas de Fuga

Jornalista e crítico de TV Mauricio Stycer narra a história de antepassados judeus que precisaram fugir para sobreviver aos grandes conflitos do século 20

Leonardo Neiva 21 de Agosto de 2026

Uma única família, três histórias de violência e fuga. No romance “Rotas de Fuga” (Seja Breve, 2026), o jornalista, crítico de TV e colunista da Folha, Mauricio Stycer, reconta as histórias de três antepassados cujas trajetórias se confundem com os grandes conflitos do século 20. Jacob, o avô materno, combatente e desertor na Primeira Guerra Mundial; Abraham, o tio paterno, militante do Bund, partido operário e socialista judeu; e Boruch, seu pai, que fugiu por dez anos do nazismo, desde Lublin, na Polônia, passando por China e Estados Unidos, até aportar no Rio de Janeiro.

Trazendo histórias familiares de guerra, deserção, prisão, tortura e desalento que atravessam quatro continentes, todas ocorridas entre 1914 e 1949, a obra coroa a busca do autor por compreender as existências traumáticas vividas por sua família. Narrativas a um mesmo tempo próximas e familiares, mas que também ajudam a traduzir a experiência de quem viveu uma era de conflitos. “É como se, depois de 50 anos ouvindo essas histórias, eu tivesse me dado conta de que tinha uma missão a cumprir”, admite Stycer no prefácio da obra.

Boa parte dessa inspiração veio do único encontro que teve com o tio paterno Abraham, ocorrido em 1993 em Nova York. Após uma longa conversa, o jornalista deixou o apartamento do parente no Queens com um presente: um livro em homenagem a dois grandes líderes do socialismo judaico. Foi ao lê-lo que Stycer finalmente entendeu do que o familiar era feito. “O impulso para avançar, porém, só se deu recentemente, em meio a um rico processo introspectivo estimulado por terapia”, conta no livro. “Foi quando aceitei sem maiores dúvidas que estas três sagas familiares são, em parte, minha herança.”

A seguir, você lê um trecho de “Rotas de Fuga”.


Jacob

Nem todo mundo se dá conta imediatamente quando o momento decisivo da vida se apresenta diante dos olhos. Não foi o caso de Jacob ao receber a convocação para o serviço militar, em dezembro de 1913. Tinha 21 anos e intuiu que precisava conservar na memória aquela experiência. A primeira linha do caderno com capa vermelha que preencheu caprichosamente em iídiche, anos depois, informa:

Nasci em 21 de abril de 1892 na pequena cidade de Mogilev-Podolski, na Rússia.

Mais correto ou preciso seria dizer que nasceu na Ucrânia, então território do Império Russo e, posteriormente, da União Soviética, mas Jacob passou por cima desse “detalhe” geopolítico, o que é compreensível diante da gravidade da sua própria situação. Mogilev-Podolski fica na região da Podólia, ao sudoeste do país, a poucos quilômetros da fronteira com a Bessarábia, hoje Moldávia, ao longo da margem esquerda do rio Dniester.

Por ser o único homem entre os quatro filhos de Oizer e Enia, Jacob teria, em tese, o direito de não se integrar ao Exército do czar Nicolau 2º. Também havia razões de ordem médica para ser dispensado. Um primeiro exame constatou que não tinha o peso adequado — era magro demais. O médico também ouviu um sopro no coração do recruta e o liberou por um ano. Mas, apenas três meses depois, em março de 1914, foi novamente convocado e mais uma vez ganhou uma dispensa por três meses. O rito se repetiu uma terceira vez em junho — exame médico seguido de dispensa. Em 28 de julho, porém, estourou a guerra, a Grande Guerra, a Primeira Guerra Mundial. E aí não haveria sopro no coração que o liberasse.

Compreendi que se me apresentasse, então, para novo exame não seria liberado, pois agora só os jovens com graves defeitos físicos ou com muito dinheiro para suborno eram isentos. Bem, eu não podia contar com dinheiro dos meus pobres pais e não tinha defeito algum que chamasse a atenção. O que fazer, então? Mutilar-me propositadamente?

Estourou a guerra, a Grande Guerra, a Primeira Guerra Mundial. E aí não haveria sopro no coração que o liberasse

Jacob discorre longamente sobre essa questão. Muitos amigos queriam que ele provocasse um problema físico em si mesmo. Um deles, o dono da loja de tecidos na qual trabalhava como vendedor, o levou a uma cidade vizinha, onde um médico receitou um remédio que afetaria o seu coração. Jacob conta que comprou o remédio, mas não teve coragem de tomá-lo e o jogou fora.

Embatuco nesta passagem sempre que a leio. Ninguém poderia prever naquele momento que cerca de 2 milhões de soldados do império russo iriam morrer na guerra. Mutilar-se para não ir ao campo de batalha configura um ato de coragem ou covardia? Bom senso? Desespero? Certeza de que a morte te espera? Consciência política? Percepção de que um jovem judeu, sem recursos ou conexões, seria apenas bucha de canhão no front? Num tom quase juvenil, misturando inocência e bravata, Jacob anota: “Decidi deixar que o destino me guiasse”.

No comovente e épico Maus, Art Spiegelman descreve as aventuras do pai, o polonês Vladek, que sobreviveu a Auschwitz. Ao rememorar a infância, Vladek fala de seu pai, que foi convocado para o exército russo na Primeira Guerra, mas conseguiu ser liberado: “Meu pai arrancou 14 dentes para escapar. Se faltar 12 dentes, eles deixam você ir embora”, conta ao filho.

Na mesma época e não muito distante dali, em Varsóvia, na Polônia, Asa Heshel também enfrentou dilema semelhante. O anti-herói de Bashevis Singer estava na idade de servir ao Exército e a percepção de que isso era sinônimo de morte abalou todos ao seu redor.

A família inteira insistia com Asa Heshel: se não quisesse ser convocado e enviado ao front teria que incapacitar-se de algum modo. A mãe vivia lendo os Salmos, umedecendo as páginas com suas lágrimas. Tio Zaddock achava que a saída mais fácil seria mandar arrancar todos os dentes. Tio Levi aconselhava a perfuração de um tímpano; Dinah, a irmã, era de opinião que se Ava Heshel passasse fome e perdesse muito peso seria liberado.

O protagonista de A família Moskat era casado com Adele, mas amava Hadassah. Sua vida era um festival de desastres iminentes, descreve Singer. Por isso, ir para a guerra não parecia tão ruim. “Asa Heshel não queria aleijar-se nem ficar ao lado da mulher. Precisava refugiar-se no Exército, como um assassino busca asilo num antro da cidade”.

Viu os primeiros feridos graves da guerra e perdeu qualquer ilusão de que haveria algo de heroico ou aventureiro na experiência. Deu-se conta de que não queria participar daquilo

Jacob não enfrentava drama nem remotamente próximo. Tinha uma namorada, que amava, e uma família que contava com ele para se manter. Ao ser chamado para uma nova perícia médica, desta vez em Kamianets, uma cidade maior, na mesma região da Podólia, viu os primeiros feridos graves da guerra e perdeu qualquer ilusão de que haveria algo de heroico ou aventureiro na experiência. Deu-se conta de que não queria participar daquilo.

Em Kamianets, dois médicos constataram uma secreção no ouvido de Jacob. Seu tímpano estava perfurado, escreve, sem esclarecer como ou por que isso aconteceu. Dois dias depois, em casa, é chamado para se apresentar à comissão militar em Mogilev. Tinha certeza de que voltaria em questão de horas, mas o médico que o examinou deu uma gargalhada. Imagina se um pequeno problema no ouvido impediria alguém de ir à guerra. Jacob foi incorporado junto com outros 90 rapazes.

Percebi que havia perdido minha liberdade, que agora pertencia ao império do czar. Lembrei-me que nem me despedira direito de meus pais e irmãs e, pensando nisso, desatei o choro mais intenso que tive em minha vida.

Perplexo e desolado, implorou ao militar que chefiava o grupo o direito de ir em casa buscar objetos pessoais.

Coloquei então uma nota de cinco rublos em suas mãos; ele sorriu e disse: ‘Deixarei que saia por três dias, mas preciso ter a certeza de que voltará’. Prometi e agradeci. Ao me afastar, vi que outros rapazes faziam o mesmo, cada um dando o quanto podia.

Essa é a primeira de muitas anotações que Jacob fará indicando que nada se conseguia no Exército imperial sem subornar algum superior. Ao descrever o momento em que se despede da família, ele observa que estava aguardando a chegada do pai para ir embora. Oizer chegou atrasado, esbaforido, pois estava tentando levantar algum dinheiro para dar ao filho. Entregou uma nota de 25 rublos, o que era bastante dinheiro para ele, e disse a Jacob: “Leve este dinheiro, meu filho. Em algum lugar você terá necessidade dele, para comprar algo ou para aliviar a sua existência ou o perigo da frente de batalha.”

Lembrei-me que nem me despedira direito de meus pais e irmãs e, pensando nisso, desatei o choro mais intenso que tive em minha vida

Produto

  • Rotas de Fuga
  • Mauricio Stycer
  • Seja Breve
  • 144 páginas

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