Trecho de livro

Quando

Em novo livro, Carla Madeira, autora de “Tudo É Rio”, retrata a maternidade como uma eterna espera em uma família dividida pela violência, a culpa e a homofobia

Leonardo Neiva 25 de Agosto de 2026

Por que uma mãe, hoje à beira da morte, aguarda há 20 anos que seu filho venha lhe visitar? A autora de “Tudo É Rio” (Record, 2021), “Véspera” (idem, 2021) e “A Natureza da Mordida” (idem, 2022) começa seu novo romance com essa e uma série de outras perguntas ainda sem resposta. Mas “Quando” (Record, 2026), de Carla Madeira, não é só um mistério familiar que vai se desenrolando aos poucos. É também um drama intergeracional que trata sem amarras da violência, da homofobia, dos profundos dilemas da maternidade e da culpa que afasta por toda uma vida pessoas que se amam.

Hoje a autora mais vendida do Brasil, Madeira iniciou de forma caótica a escrita da sua obra mais recente. Após uma série de perdas na vida pessoal, incluindo a morte da mãe e de uma amiga próxima, a mineira fez do luto um empurrão para botar esta história no papel, como conta em entrevista à Folha de S.Paulo: “Todo corpo perturbado quer produzir sentido. O processo de encontro com a linguagem é um mecanismo de retomar uma certa regularidade, certo equilíbrio.”

O resultado é um livro construído por vozes e pontos de vista dissonantes dentro de uma mesma família marcada por um acontecimento trágico. A trama desafia visões tradicionais sobre a maternidade na literatura, deixando para o leitor a tarefa de buscar sentido nas ações de personagens que entram, em muitos momentos, em rota de colisão — mas entre os quais também se encontram possibilidades improváveis de amor e afeto. A prosa poética que marca a escrita da autora ganha contornos de uma oralidade bem trabalhada conforme as diferentes vozes narrativas vão se sucedendo e se misturando, num retrato dos preconceitos e mágoas capazes de distanciar um filho de sua mãe.

Leia um trecho de “Quando” a seguir.


6:30
Viridiana
espera
por Tito

Viridiana acorda com a forte intuição de que não passará de meia-noite, É hoje o último dia de minha vida, pensa com a boca seca e o coração acuado, Tenho medo de que Tito não venha ou que chegue junto com a dor, a derradeira… Que sede, meu Deus!, constata servindo com mãos trêmulas um copo de água da jarra sobre a mesa de cabeceira, Sempre desconfiei dos que dizem não ter medo da morte, como não ter medo de coisa tão definitiva, não ter pena de deixar o banquete para trás?… mas isso foi antes, eu ainda não conhecia a dor, a dor é pior do que qualquer morte e, quando chega, nada mais encontra lugar em Viridiana, nem a culpa, nem o peso das obrigações, nem as garras ou alívios da memória, nem abrir a janela, apreciar as plantas, ouvir música, ou amar Francisco; a dor física é absoluta e confisca todos os holofotes, reduz os sentidos da vida a uma fisgada, Não estou com medo da morte, não temo mais o corpo que para de sentir, quero que pare, pare, por favor, pare!, posso festejar o fim, a alquimia divina de ser pó, estou pronta, a verdade é que as imagens apocalípticas de abismos se abrindo, céu desabando, fogo e cheiro de enxofre nunca assombraram Viridiana, tampouco a ideia de paraíso à qual sempre associou um vagaroso tédio e, desde menina, o tédio lhe é infernal, Sempre fui mais da fé do que da crença, não creio em juízo final, pensa, tentando girar o trinco da janela, Ah, por favor, já somos julgados e condenados o tempo inteiro, não somos? cada consequência dos nossos atos já não é uma sentença? uma pessoa que teve uma vida capaz de torná-la hedionda já não pagou o suficiente para a eternidade? pagou, pagasse, pagará, alguns sim, outros não, é um sistema imperfeito… e um leve tremor atravessa o corpo de Viridiana quando ela vê entrar no quarto a luz da manhã, Que dia! sentirei tanta falta dos dias bonitos, de ver a cor entrar pela janela e se deitar sobre as coisas como uma amante correspondida — que sejam lentos os segundos hoje —, venha, filho, fique um pouco comigo, um pouco que seja, e será como este amanhecer… eu deveria ter ido buscá-lo, sim, morrerei atravessada por essa possibilidade agora que não a tenho mais, não me decidi e a vida decidiu por mim, é o que a vida faz, não fui, então espero, e Viridiana espera, e as noites são terríveis, ocas, inertes, insones, nada dorme sob a flacidez atormentada e ofegante da velha saudade, Te esperar, filho, é o que mais me mata e é também o que levanta Viridiana todas as manhãs há vinte anos, porque muito se vive e morre em uma mesma espera, Não me deixe ir, Tito, sem rever em seu rosto a mais encantadora lasquinha de lua, essa covinha feita no capricho do meu ventre, se eu puder vê-la mais uma vez é porque terei visto você sorrir, e é com essa imagem que quero sair deste mundo, como a última aquisição de meus sentidos — estarei pronta para qualquer desfecho,

Muito se vive e morre em uma mesma espera

Ele vem?, pergunta Viridiana a Margarida, a filha mais velha, assim que ela entra no quarto carregando uma bandeja com o café da manhã e interrompe seus pensamentos, Disse que vem, mamãe, bom dia! como foi sua noite? Ele sabe, Margarida, seu irmão sabe que eu estou morren… Viridiana interrompe, bruscamente, a pergunta que faria na tentativa de evitar seus efeitos sobre Margarida, pobre Margarida, suspira, tornou-se tão frágil quanto uma pele descolada de um corpo exposto ao sol excessivo, ainda assim, Viridiana não é capaz de mudar totalmente de assunto, dado que falar do tempo na situação crítica em que se encontra é o mesmo que falar da morte, Tito está demorando, filha, já não tenho mais como negociar minhas horas, nem como manter a dignidade frente à grosseria das dores, Eu sei, mãezinha, mas ele está vindo, e Margarida diz isso com todo o amor que sente pela mãe, o único amor que nunca a confundiu, Ele vai trazer as meninas?, pergunta Viridiana apalpando a barriga, pressentido a proximidade da dor, a maldita dor, traiçoeira e atroz, que se insinua antes de começar e emite sinais de que o sofrimento virá, ainda não veio, mas virá, virá, é certo: virá, e perde-se com isso um tempo precioso, sofrendo a dor ausente roubar as horas boas, Tito disse que vai fazer de tudo para trazer as meninas, mamãe, diz Margarida sem afirmar que sim ou que não, Quero tanto conhecer as três, Eu sei, mamãe, mas não fique aflita com isso, por favor, Você já falou com Valquíria que Tito está vindo, Margarida? Não, não falei ainda, mas vou falar, Quando? ele não está vindo hoje? Sim, disse que vem hoje, mamãe, disse que vem, e Margarida, mesmo diante da aflição da mãe, recusa-se a dar certeza sobre a vinda de Tito, porque ele já havia prometido e roído a corda em outras ocasiões, provocando em Viridiana uma angústia que só fez magoá-la, Você precisa falar logo com sua irmã, ou quer que eu fale? Vou falar, mamãe, prometo, mas já passou da hora de Valquíria superar essa história, não é?, diz Margarida tremelicando a cabeça, certa de que é assim que uma obviedade se movimenta, Ah, minha filha, quantas vezes já falei que Val não tem nada a ver com isso, Como não, mamãe?, e dá-lhe coreografia do óbvio, dois pra lá, dois pra cá, acompanhada de um revirar de olhos, Não tem, Margarida, você precisa parar de culpar sua irmã, por favor, mil vezes: por favor!, implora Viridiana com certa impaciência porque, embora não se iluda quanto a ser ouvida em seus apelos, não pode deixar de fazê-los, a falta de boa vontade entre as filhas é uma daquelas aflições que ela gostaria de resolver antes de meia-noite, uma vez que a eternidade é tempo demais para se arrastar tamanho desgosto, Pare com isso de vez, Margarida, insiste, Pare de procurar um culpado, minha filha, o que você ganha com isso… Ah, mamãe, por favor! como Val não tem nada a ver com isso? como?, reage Margarida sem esconder a conhecida irritação que sente toda vez que a mãe protege Valquíria, sempre Valquíria, pobre Valquíria, santa Valquíria, Mas tudo bem, mãezinha, eu fiz chá e ovos mexidos, não vamos deixar esfriar… o que foi agora, mamãe, que cara é essa? a senhora está com dor?,

Como não, Margarida, como não,

A falta de boa vontade entre as filhas é uma daquelas aflições que ela gostaria de resolver antes de meia-noite, uma vez que a eternidade é tempo demais para se arrastar tamanho desgosto

Produto

  • Quando
  • Carla Madeira
  • Record
  • 280 páginas

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