Trecho de livro

O Tenebroso Brilho do Sol

Primeiro romance de Ana Paula Maia após a autora chegar à final do International Booker Prize transforma em terror o impacto de uma tragédia coletiva

Leonardo Neiva 02 de Setembro de 2026

Ana Paula Maia foi finalista na última edição do International Booker Prize, um dos principais prêmio literários do mundo, com “Assim na Terra Como Embaixo da Terra” (Record, 2017). Primeira autora brasileira a chegar à última fase da premiação, Maia vem ganhando visibilidade não só lá fora como também no Brasil com uma obra enraizada no terror e no suspense. São dez livros publicados até aqui, que conversam diretamente com temas como a desigualdade, trabalhos exploratórios e a violência do Estado, em cenários ao mesmo tempo distópicos e profundamente brasileiros. E é esse também o caso de “O Tenebroso Brilho do Sol” (Companhia das Letras, 2026), seu primeiro romance publicado após chegar à final do prêmio.

O livro narra a saga de Eliote, único remanescente de um desastre envolvendo o rompimento de uma barragem — num aceno claro às tragédias de Brumadinho e Mariana —, que agora passa os dias limpando lama e recolhendo corpos numa paisagem desolada. Após perder toda sua família no desastre, o que ainda o mantém de pé é a missão pessoal de encontrar os corpos dos filhos, além da companhia de manequins que vai colecionando em meio à devastação. No entanto, ele também acaba se tornando testemunha de acontecimentos sobrenaturais ligados a um antigo ritual praticado no vilarejo.

Aqui, o terror surge entre os resquícios de um trauma coletivo, mas que é sentido de forma solitária, por meio de um protagonista que realiza um trabalho praticamente invisível no limiar entre a vida e a morte. O livro, aliás, marca um novo início para a escrita da autora após o encerramento de sua Trilogia do Fim, que inclui “Enterre Seus Mortos” (Companhia das Letras, 2018) , “De Cada Quinhentos uma Alma” (idem, 2021) e “Búfalos Selvagens” (idem, 2024). E destaca mais um capítulo promissor para o terror produzido em terras brasileiras, com Ana Paula Maia integrando de vez o panteão de autoras latino-americanas que fazem do gênero uma maneira de ressignificar os medos e desafios cotidianos de quem vive por estas bandas do mundo.

A seguir, você lê um trecho de “O Tenebroso Brilho do Sol”.


Nada parece estar diferente nesta manhã. As horas frias da noite maldormida ecoam em seu humor e lhe atravessam o peito com uma palpitação. Assim o foi na manhã anterior. Sente os olhos arderem e deixa‑os cerrados mesmo com a pouca iluminação que entra no subsolo.

Eliote se dirige à cozinha, que fica a poucos passos de sua cama. A boca do fogão entope no inverno. Ele retira a trempe enferrujada e o queimador. Com uma agulha longa, cutuca a engrenagem de onde sai o gás para acender o fogo. Reajusta a trempe e o queimador no fogão. Risca um fósforo e fica satisfeito com o volume da chama. Enche um caneco de alumínio com água da torneira e deixa‑o sobre o fogo, até que atinja o ponto de fervura para seu café.

Veste um casaco pesado e calça seu par de botas de inverno. Repara no musgo preso ao solado. Sobe os poucos degraus que o fazem sair do subsolo onde mora. Abre a porta e respira o ar frio da manhã. O rigor do inverno é proporcional ao rigor do último verão. As águas torrenciais que desabaram na região o fizeram ir para as montanhas. O lugar pode ser visto assim que as brumas se dissipam. Lá embaixo, no vale, é onde Eliote morava.

As enchentes levaram seus filhos, sua esposa e sua mãe. Não lhe restou quase nada depois da invasão das águas. Morar nas montanhas faz com que se sinta seguro; porém, atrás de si, uma imensa protuberância de terra similar a uma cordilheira se mantém firme e muda de cor conforme as estações do ano.

Quando parte das águas que tomaram a região baixou e o sol apareceu, tudo estava morto, e nem tudo pôde ser encontrado. Bem como seus dois filhos. Eliote enterrou a mãe e a esposa. Durante dias, buscou pelas crianças no meio da lama densa que grudava nas botas e quase o impedia de caminhar. Eles haviam desaparecido; levados pelas torrentes ou soterrados nos escombros.

Volta à beira do fogão e passa seu café. Toma‑o ali mesmo, enquanto come um pedaço de pão dormido. Escova os dentes e lava o rosto. Diante do espelho, percebe que precisa fazer a barba, porém o frio dos últimos dias o impediu de tirá‑la. Nunca a deixou crescer tanto. Seu rosto está parcialmente escondido de si mesmo e, para ele, isso é bom. Esfrega os pelos com a mão e sente algo preso neles. Puxa um punhado verde de musgo que se engalfinhou ali.

As enchentes levaram seus filhos, sua esposa e sua mãe. Não lhe restou quase nada depois da invasão das águas

Depois que tudo foi destruído, ele aceitou o emprego de zelador do vale. Vigia do alto da montanha novos riscos de alagamento. Depois de um outono enterrando os mortos, removendo os entulhos e ajudando a evacuar o vale, o inverno chegou com novos temporais. É o único que se dispôs a ficar. Ganha um salário razoável para observar os níveis das águas do rio que corta a região e o avanço das erosões aos pés da montanha atrás de si.

O trabalho deve durar até a primavera, quando a prefeitura pretende concluir todos os manejos de prevenção do rio e conter as encostas da montanha. Depois disso, Eliote deixará seu trabalho e decidirá o que fazer.

Era tarde da noite quando o vale foi tomado pelas águas provenientes do rio que transbordou depois de horas de uma intensa chuva. Mas foi o rompimento da represa que destruiu o local. Parte do vale está submersa e talvez nunca mais aquele trecho do mundo se estabeleça em terra seca. As comportas se abriram. O fluxo das águas devastou tudo que estava no caminho, e o vale onde era a sua casa estava no epicentro da tragédia, na área de arraste, como é chamada. Somente o topo da igreja pode ser avistado. As águas da represa se uniram às do rio. A inundação mudou a paisagem; a área onde as pessoas moravam se transformou num cemitério de águas fluviais com corpos submersos que não puderam ser resgatados.

Os povoados que se localizavam em partes mais altas, apesar de serem atingidos, conseguiram retomar as ruas, as calçadas, e reerguer as casas parcialmente danificadas. No passado havia rumores de que, se as comportas da represa fossem abertas, o vale seria destruído. Com o passar dos anos, o rumor também foi passando. Depois de décadas e muitos temporais, o local se mantinha firme, e a água sempre escoava do rio para o mar. O que aconteceu matou mais da metade dos moradores, destruiu todos os imóveis, derrubou os postes de luz, estourou o sistema de esgoto e interrompeu o abastecimento de água potável.

No alpendre da velha casa que abriga o porão onde Eliote mora, ele confere os bolsos do casaco e encontra um par de luvas e um gorro de lã. Veste‑os. Antes de descer para o vale, entra na casa e vai até um dos cômodos para verificar a goteira no telhado. Piorou bastante na última semana. Verifica a maleta de ferramentas e decide subir no telhado depois do almoço. Precisa zelar pela manutenção do local, ainda que tudo esteja caindo aos pedaços.

A área onde as pessoas moravam se transformou num cemitério de águas fluviais com corpos submersos que não puderam ser resgatados

Num dos cantos da casa, toca no rosto de um manequim. Esfrega as pontas dos dedos uma na outra e verifica que a tinta já secou. Encara‑o por alguns instantes. Pintou as sobrancelhas e os lábios e polvilhou um rosa‑claro nas bochechas. Abre uma mala grande deitada no chão e escolhe algumas peças de roupa. Veste‑o com o que encontrou, compondo uma combinação deselegante. Enfia uma meia‑calça vermelha na cabeça do manequim para dar ares de cabelo. Veste‑o como mulher. Fica satisfeito. Carrega‑o para fora envolvendo‑o com um dos braços. Com a outra mão, pega uma pá e um balde de trinta litros à beira do alpendre.

Eliote desce pé ante pé, tendo cuidado para não escorregar nas partículas de gelo que se quebram quando pisa. A geada da noite anterior recrudesceu o frio e os perigos de derrapagem. Quando chega ao vale, olha ao redor. Nada mudou. A paisagem é a mesma dos últimos meses: escombros de casas, sofás presos em galhos de árvores e roupas de todo tipo ressequidas no solo. Alguma vegetação encontrou caminho entre os objetos espalhados. Musgos se formam nos brinquedos de um parquinho. Os filhos de Eliote todos os dias brincavam ali. Ele respira fundo, mas antes puxa a gola do suéter para proteger seus pulmões do ar gelado.

Olha ao redor e decide colocar o último manequim ao lado de outro, vestido de homem. Posiciona‑os como se conversassem. Dirige‑se a um local próximo ao parquinho, um lugar onde ainda não procurou. Começa a cavar a lama condensada embaixo da camada de gelo. Cava por uma hora, removendo os excessos até encontrar o asfalto. Encontra um brinco de argola, um frasco de remédio e uma dentadura. Mais à frente, ele cava mais um pouco. Encontra um porta‑moedas e uma coleira de cachorro com um pingente. Joga um pouco de água no pingente e consegue ler Mingo. Era o cachorro de seu vizinho. Já tinha uns dez anos e era cego de um olho. Havia sido um bom cachorro para seu dono. Eliote guarda a coleira, bem como os itens que encontrou. Sente‑se cansado. Nada de seus filhos. Ainda há muito entulho a ser removido. Acredita que pode encontrá‑los antes da primavera, antes que seu prazo para estar ali acabe.

Encontra um porta‑moedas e uma coleira de cachorro com um pingente. Joga um pouco de água no pingente e consegue ler Mingo. Era o cachorro de seu vizinho

Produto

  • O Tenebroso Brilho do Sol
  • Ana Paula Maia
  • Companhia das Letras
  • 112 páginas

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