Trecho de livro

O Hipopótamo

A ingenuidade da infância se mistura aos traumas da ditadura em novo romance de formação do escritor e roteirista Chico Mattoso

Leonardo Neiva 10 de Setembro de 2025

Romance de formação — também conhecido em inglês pelo termo coming-of-age — é aquele gênero narrativo em que acompanhamos o desenvolvimento de uma personagem geralmente da infância à maturidade. Nesse sentido, o recém-lançado “O Hipopótamo” (Todavia, 2025), do escritor, roteirista e tradutor Chico Mattoso, é um exemplo clássico do gênero: ele segue algumas das impressões, medos, amores e alegrias de Rodrigo, um garoto tímido que cresce na São Paulo do início dos anos 1990, em meio aos dois “continentes” que são as vidas distintas que leva junto a seus pais divorciados.

Uma diferença é que o crescimento aqui se dá muito mais no campo psicológico do que físico, com um protagonista inicialmente preocupado com o que quer que garotos de sua idade costumam se preocupar. No caso de Rodrigo, a insegurança no futebol, a vergonha constante e a paixão por uma menina de sua sala com quem ele, é claro, não tem coragem de falar. Outro ponto central é que as memórias de momentos aparentemente inocentes da infância, em certo momento, começam a captar frequências diferentes: o comportamento inconstante dos pais, um afeto que vem de lugares inesperados e as misteriosas marcas no braço da mãe, semelhantes a pequenas pegadas de hipopótamo.

É aí que as lembranças ainda frescas de quem está dando os primeiros passos neste mundo se misturam às memórias marcadas pelo trauma daqueles viveram uma ditadura. Numa prosa bastante concisa, o autor dos romances “Longe de Ramiro” (Editora 34, 2007) e “Nunca Vai Embora” (Companhia das Letras, 2011), e roteirista de séries como “Pico da Neblina” (2019-2022) e “Encantado’s” (2022-), captura o choque de descobrir que nossos pais tinham uma vida antes de nós.

Mais do que isso, ele representa os primeiros conflitos entre nossas realidades interna e externa, entre a simplicidade do mundo infantil e o complexo universo em que estamos prestes a entrar. E trata também do abandono agridoce que é essa necessária perda da inocência.


Medo de trovão. Medo de palhaço. Medo do ronco da geladeira. Medo de mariposa, de cobra, de igreja, de barba muito comprida. Medo do homem deformado dos Goonies. Medo dos recados silenciosos na secretária eletrônica. De todas as coisas que já aterrorizaram Rodrigo, nenhuma se parece com a que tem ganhado espaço dentro dele, à noite, bem na hora de dormir: uma sensação abstrata de pavor, como se em algum lugar a seu redor existisse uma força silenciosa e destruidora, capaz de engolir tudo, uma ameaça tão irresistível que basta pensar nela para que tudo comece a ruir. Felizmente, o terror veio com um antídoto. Rodrigo só precisa esconder o corpo sob o lençol, dos pés à cabeça, cobrindo o rosto feito um capuz — e pronto. Não tem explicação, ele apenas se sente seguro desse jeito, como se a pele que o envolve não fosse suficiente para protegê-lo das coisas, como se fosse preciso algo mais: uma capa, um casco, uma armadura.

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Mas o lençol não o protege de tudo. Poc, poc, poc, faz a parede do quarto de Rodrigo quando a mãe está recebendo a visita do namorado, junto de ganidos abafados, como um cachorro sem ar. Deitado, imóvel, encolhido sob o lençol, Rodrigo tenta conter aquele barulho, acessar o núcleo do silêncio que ele controla tão bem. Não funciona: por algum motivo os ruídos o invadem, e algo nele começa a coçar, uma vontade de sair e invadir o quarto vizinho, mesmo que ele saiba que não deve, mesmo que não tenha a menor ideia do que faria depois de abrir a porta. Às vezes é possível se distrair por alguns instantes, se deixar levar por uma ideia ou exercício mental, mas sempre aparece um ruído novo, algo que o tira do prumo, e não há nada a fazer senão esperar que aquilo chegue ao fim, as batidas ritmadas ganhando empuxo e volume, poc, poc, poc, a aceleração impossível, o dique prestes a se romper, o grito agônico que sempre o arrepia por dentro. Vem um breve silêncio, logo interrompido por cochichos, algumas gargalhadas. Passos. Barulho de banheiro. Uma descarga soando ao fundo. É quando a porta de seu quarto é aberta, e a luz do corredor inunda seu rosto, e Rodrigo simula o sono mais profundo enquanto adivinha o contorno da mãe sob o batente da porta, seu olhar caloroso, o sorriso leve e feliz. Então Rodrigo dorme.

Poc, poc, poc, faz a parede do quarto de Rodrigo quando a mãe está recebendo a visita do namorado, junto de ganidos abafados, como um cachorro sem ar

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O atual namorado da mãe se chama Celso e usa um colar indígena de gosto duvidoso. Mas é simpático, não faz piadas demais, um dia presenteou Rodrigo com um chocolate importado que tinha pedaços inteiros de avelã. Não dá nem para comparar com o Ênio, que na primeira vez que visitou a casa se esparramou no sofá e obrigou a família a assistir a um filme horroroso enquanto gargalhava virando latinhas de cerveja — e depois foi ao banheiro, fez o xixi mais barulhento da história e antes de dar a descarga resolveu chamar Rodrigo para um sermão sobre os malefícios do papel higiênico jogado na privada. Semanas mais tarde, caminhando pelo Parque da Água Branca, a mãe contou a Rodrigo que tinha desmanchado com o Ênio. Rodrigo imaginou o sujeito se despedaçando lentamente até virar um montinho de carne e ossos. Não por acaso, ele nunca mais apareceu.

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Na casa do pai a TV fica desligada na hora do jantar, o que dá às conversas à mesa uma certa solenidade. Quem diria, sua mãe e o Celso, diz ele com a boca cheia. Sabia que a gente morou junto no Chile? Rodrigo silencia. Não lembra se sabia, é possível que sim, o pai felizmente não conta muitas histórias sobre o passado, sobre a estranha vida que levou antes que Rodrigo nascesse. Estranha porque envolveu longos bigodes, mudanças abruptas de país, palavras excêntricas como “subversivo” e “à revelia”. Estranha porque Rodrigo ainda não existia. E, sobretudo, estranha porque seu pai e sua mãe ainda viviam juntos.

Tudo, nos pais, é diferente: gostos, hábitos, humores, manias. Eles raramente ocupam o mesmo espaço

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Tudo, nos pais, é diferente: gostos, hábitos, humores, manias. Eles raramente ocupam o mesmo espaço, um pouco como naquele filme em que o homem vira lobo quando amanhece e a mulher um falcão quando o sol se põe — a diferença é que, nesse caso, os dois parecem plenamente satisfeitos com o arranjo. Eles não fazem sentido juntos, e no entanto ali está Rodrigo, o produto improvável daquela união, a resposta duvidosa, a incógnita não resolvida. As pessoas dizem que ele se parece com os pais, que tem os olhos de um, o queixo do outro, mas Rodrigo não enxerga nada disso: debaixo das sobrancelhas, o que vê é uma cara amorfa, um amontoado de peças que não se encaixam, que não deveriam se encaixar.

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Há coisas que ele não herdou, coisas que ele sabe que só pertencem aos pais. As marcas no braço da mãe, por exemplo. Nove bolinhas espalhadas aleatoriamente do pulso até a metade do antebraço, pequenos círculos escurecidos e enrugados que mais parecem as pegadas de um hipopótamo em miniatura. Quando era pequeno Rodrigo gostava de desenhar bolinhas parecidas em si mesmo, tentava imitar a disposição exata das marcas ao longo do braço. Mas um dia a mãe arrancou bruscamente a canetinha da sua mão e pediu com a voz trêmula e lágrimas nos olhos que ele nunca mais fizesse aquilo. O gesto não fez sentido na época, mas agora, depois da revolta com as sobrancelhas, Rodrigo entende um pouco melhor. Não é porque as coisas são nossas que a gente vai ser feliz com elas.

Não é porque as coisas são nossas que a gente vai ser feliz com elas

Produto

  • O Hipopótamo
  • Chico Mattoso
  • Todavia
  • 96 páginas

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