Trecho de livro

O Ano do Cometa

Em seu primeiro romance, Maria Brant evoca as experiências típicas da infância em meio à redemocratização brasileira e à passagem do cometa Halley

Leonardo Neiva 06 de Fevereiro de 2026

Um ano de redemocratização no Brasil, em que todos os olhos se voltam aos céus no aguardo da passagem do cometa Halley. É no pano de fundo histórico de 1986 que a mestre em direitos humanos e doutora em relações internacionais Maria Brant faz sua estreia literária, com um romance de formação sobre o luto e as descobertas típicas da infância. “O Ano do Cometa” (Fósforo, 2026) mapeia um período de 12 meses na vida de três garotas, que vivem experiências a um tempo distintas e interconectadas pelos laços familiares e a realidade brasileira da época.

Aos 11 anos, Íris ainda tenta lidar com a perda traumática do tio que ela adorava, ao mesmo tempo em que luta para desvendar os silêncios do pai e as excentricidades da mãe. Já a prima Rosa experimenta não só o luto mas também a desorientação de quem passa a viver num país desconhecido, trocando o exílio do qual pouco sabia por uma sensação constante de não pertencimento. O olhar de Violeta, por outro lado, vem de longe. É ela que, pelas lentes do futuro, observa a época sob uma nova perspectiva, tentando compreender o que o ano de 1986 significou para as crianças e adultos que o viveram.

Tão vasta quanto o céu coalhado de estrelas e cometas, a rede de memórias, traumas e vivências da infância no livro de Brant se mistura e conversa diretamente com a realidade que a cerca. Seja a turbulência histórica desse momento, uma verdadeira ilha localizada entre a ditadura e a democracia, seja a expectativa em torno da chegada do cometa e da liberdade política aguardada por mais de duas décadas, seja o luto por aqueles que ficaram pelo caminho ou os desafios de encontrar seu lugar no mundo… neste romance delicado, as histórias dessas três garotas se tornam parte indissolúvel da história do país.


Íris estava na escola quando o Pedro morreu, seu tio Pedro, que só ela chamava de Peu. Quando a secretária entrou na classe com aquela cara e um papel na mão, Íris e pelo menos mais seis crianças torceram para não ser com elas. Mas foi na direção de Íris que a professora olhou.

O pai de Íris não a esperou no portão: quando ela saiu, ele estava no pátio com a mesma cara da secretária, a abraçou e disse que tinha uma notícia triste.

Não era possível que o Peu tivesse caído. Ele surfava e escalava montanhas e nunca caía e foi ele quem ensinou Íris a andar de bicicleta. E não pode ter se jogado porque, além de levá-la para ver O anjo exterminador, ele tinha prometido que, quando ela fizesse dezoito anos, ia ensiná-la a dirigir carros e aviões e até um zepelim se ela tivesse coragem. Mesmo ele estando muito triste, como sua mãe falou.

Mas o Peu não era triste. Ele estava sempre rindo e inventando coisas para fazerem juntos, e mesmo de manhã bem cedo na praia, quando ela acordava, ele já estava de pé fazia tempo e a ensinava a dar nós que não desatavam, ou saía com ela para caminhar e depois procuravam juntos na enciclopédia mofada o nome das conchas e sementes e folhas que tinham catado. Sua mãe é que chorava toda hora, mesmo antes de o Peu morrer, nas brigas e nos filmes e nas passeatas e quando ouvia música na sala de noite. Íris ficou com raiva de sua mãe achar que o Peu tinha se jogado, mas Cecília a pôs no colo e disse que as piores tristezas são as que estão tão misturadas na gente, que não conseguem mais sair pelo choro nem por nenhum lugar.

Íris chorou um dia inteiro sem parar quando o Peu morreu, e mesmo assim, no dia seguinte, a tristeza ainda não tinha saído dela, e nem depois do enterro e de não-sei-quantas-noites. De repente pareceu que sim, mas agora na casa da praia ela percebeu que ainda estava lá, só que agora a tristeza não era só vontade de chorar, era uma espécie de fome ao contrário, uma coisa que se fechava, e Íris ficou pensando se um dia isso ia sair e por onde.

As piores tristezas são as que estão tão misturadas na gente, que não conseguem mais sair pelo choro nem por nenhum lugar

Quando foi se deitar, Íris notou a porta do quarto do Peu fechada e sua mãe disse que ia dormir com ela no beliche, que ela podia escolher em cima ou embaixo. Ela subiu a escadinha e cobriu a cara com a colcha de crochê como sempre fazia, tentando encaixar as manchas do teto nos quadradinhos vazados.

Pedro morou muitos anos ali, mas a dona da casa é Agnes, a bisavó muda de Íris. Nos armários, pranchas e neoprenes farelentos e jogos de tabuleiro desbotados e restos de lona para almofadas nunca feitas e muitos, muitos cadernos idênticos de capa vermelha com cálculos e coisas escritas em cirílico, coisas de Sacha, o bisavô de Íris, que ninguém sabe ler, mas que Agnes não deixava ninguém jogar fora.

Quando Íris acorda no domingo, sua mãe está tirando os cadernos do alto do armário, com o rosto todo empoeirado. Ela não conta o que está procurando, então Íris vai tomar café. Na mesa, uma rosa pequenina como a da música. Ela não gosta daquela flor e aproveita que a d. Vera está varrendo a varanda para jogá-la no lixo, bem no fundo, embaixo da borra do café e das cascas de laranja. Então volta e molha o bolo no leite, inclinando a xícara para desviar da nata até terminar vencedora, com a película branca intacta, cabendo certinho no fundo redondo.

Os filhotinhos da Flecha não estão na varanda e o chão de lajota queima seus pés, então ela pula para a grama e depois corre até a areia que começa quente e branca e fofa, mas logo vai endurecendo e esfriando até virar um espelho macio e escuro e, depois, o mar.

A água no raso é morna e Íris fica parada sentindo a areia marrom erodir ao redor de onde ela pisa a cada marolinha que vem e vai. Lá longe dá pra ver alguém nadando. Algum surfista. Íris não viu o Peu morto, o caixão estava fechado, e às vezes ela pensa que se enganaram, que o Peu está vivo e foi um outro que caiu da janela do apartamento, e que um dia desses ele vai aparecer. O homem na arrebentação tem o cabelo escuro demais, não pode ser ele. Íris pede um sinal. Se a próxima marola cobrir esse buraquinho de siri, o Peu está vivo. A água vem forte e passa pelos seus pés e Íris fica imaginando onde será que ele está, enquanto contempla a bolha de ar que escapa do furinho na areia.

O caixão estava fechado, e às vezes ela pensa que se enganaram, que o Peu está vivo e foi um outro que caiu da janela do apartamento

O enterro do Peu demorou para acontecer porque precisaram fazer uma autópsia e porque tiveram que esperar o Carlos chegar dos Estados Unidos. Íris só lembrava de ter visto seu tio Carlos uma vez na vida e foi muito estranho vê-lo de novo porque, apesar de ser gêmeo idêntico do Peu, ele era muito diferente. Um Peu mais seco e mais cinza. Em casa, depois do enterro, Íris deitou a cabeça nas pernas de sua mãe enquanto o Carlos contava da única visita do Pedro aos Estados Unidos.

Íris lembrava dessa viagem porque o Peu mandou vários cartões-postais e trouxe vários presentes pra ela: um lápis de borracha tão comprido que dava para dar nó, umas nozes iguaizinhas às que os esquilos dos desenhos animados guardam, a fita “David Bowie”, do David Bowie, e uns papéis de carta que sua prima Rosa tinha mandado pra ela.

O Carlos contou das caminhadas dos dois na neve, de um acidente com uma faca de cozinha abrindo ostras e das enfermeiras encantadas com o Peu. Nessa hora Íris desistiu de ouvir de olhos fechados porque a voz, sim, era muito parecida.

Seu tio também contou que um dia o irmão voltou entusiasmado com um farol que tinha encontrado, ocupado por um faroleiro velhinho prestes a se aposentar. Cismou que ia ocupar o lugar dele: comprou um sextante, ficou semanas estudando cartas náuticas, nomes de embarcações, códigos de comunicação por rádio.

Íris lembrou do cartão que tinha recebido com a pintura de um farol.

Dear Íris,
Neste farol mora meu amigo, o sr. O’Hara. Ele cresceu no Kansas no meio de muitas tempestades de raios, então aprendeu desde cedo que não adianta guardar os pratos com friso dourado para uma ocasião especial porque a qualquer momento, puf!, Zeus pode te usar para treinar sua pontaria.

Beijos elétricos do SEU P…

Afinal, o Pedro não conseguiu ser faroleiro porque não era cidadão americano, foi o que seu tio disse. E nessa hora ficou um silêncio e Cecília pôs a mão no joelho do irmão: “Não foi isso, Carlinhos”.

Não adianta guardar os pratos com friso dourado para uma ocasião especial porque a qualquer momento, puf!, Zeus pode te usar para treinar sua pontaria

A perna do Carlos também era igual e tão diferente da do Peu. Faltava a cicatriz, o risco que ia do pé ao joelho. Faltava tam bém a cor dele. Íris pensou que o Carlos era uma versão branco e preta do Peu e lembrou dos flamingos, que nascem cinzentos e só ficam cor-de-rosa porque comem camarões, e também que talvez o Peu tenha achado um outro farol pelo mundo e até tenha mandado uma carta para avisar, mas ainda não deu tempo de a carta chegar, ou o correio perdeu, e só quando ele vier para o Natal ou para algum aniversário é que eles vão saber que foi tudo um mal-entendido. Se sua mãe terminar o cigarro antes do Carlos, é porque o Peu está vivo.

Produto

  • O Ano do Cometa
  • Maria Brant
  • Fósforo
  • 160 páginas

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