Trecho de livro

Nem Toda Mulher

A jornalista e apresentadora da CBN Tatiana Vasconcellos reflete, com bom humor e sem imposições, sobre o que significa ser mulher no mundo atual

Leonardo Neiva 29 de Agosto de 2025

“Parabéns, vocês venceram. Estou me sentindo horrível, com vontade de fazer lipo, tomar medicamentos para emagrecer e tingir o cabelo.” Com estas palavras e a promessa de entregar sua “carteirinha de feminista”, a jornalista e apresentadora do Estúdio CBN, Tatiana Vasconcellos, abre seu novo livro de crônicas. Mas “Nem Toda Mulher” (Telha, 2025), diferente do que o trecho pode sugerir, está longe de ser um amargo relato sobre as pressões estéticas que continuam recaindo sobre as mulheres na sociedade atual.

Pelo contrário, a jornalista desfila em textos curtos, com fina ironia e tom bem-humorado, suas experiências e observações sobre os mais variados temas que integram a vivência feminina. Coisas como a perimenopausa, a maternidade, o envelhecimento e até ações aparentemente simples, feito deixar de tingir o cabelo — mas que podem gerar uma série de aborrecimentos num mundo tão cheio de opiniões não solicitadas a respeito de tudo.

A verdade é que Vasconcellos “escreve como quem conversa”, aponta na descrição da obra o antropólogo Michel Alcoforado, um dos principais incentivadores para que este livro visse a luz do dia. Livre do peso das regras universais para lidar com a complexidade de existir como mulher hoje, ler estes textos realmente se assemelha a uma troca de ideias com a autora, em que esta nos faz refletir a partir de suas próprias experiências e pontos de vista. Um encontro entre o eu e o outro que a escritora e atriz Liane Ferraz descreve muito bem no prefácio: “Ela sabe que viver é algo ao mesmo tempo íntimo e escancarado e que, se olharmos com atenção para o espelho, encontraremos nossas peculiaridades”.


O dia em que fiquei velha

Esse dia começou no meio da pandemia. Eu era uma ruiva com madeixas lisas de comprimento médio e franja, já um pouco cansada da própria cara. O ano era 2020 e, de repente, pum, todo mundo fechado em casa. Inclusive eu e minha ruivice moderna e sensual. Sabia que por baixo das melenas avermelhadas vivia uma comunidade grisalha, apesar de não enxergar bem o tamanho dela. Impossibilitada por um vírus mortal de ir ao salão e sem habilidades manuais suficientes para tingir os fios no modo doméstico, decidi que os deixaria livres para ser o que são: um misto de castanhos, cinzas e brancos. O famoso cabelo grisalho.

Já tive cabelos quase pretos, iluminados, loiros, bem vermelhos, imensos de compridos, médios, repicados, bem curtinhos, com costeleta, com topete, franja curta, média, longa, franja reta, franja desfiada. Então, a decisão não tinha a ver com largar a tinta (embora recomende, pela economia doméstica), mas com experimentar um inédito cabelo grisalho. Levou uns meses, o ano virou, até que a transição se completasse e eu me tornasse uma mulher de 43 anos e cabelos curtos e brancos bem aparentes.

As mudanças foram várias. Por exemplo: no dia 1 da minha grisalhice, virei senhora. “Débito ou crédito, senhora?” “A senhora já foi atendida?” “Desculpe, senhora.” Acabou o “você”. Isso quando sou vista, claro. A grisalhice traz uma invisibilidade social estranha — e sexual, quase palpável. Resumindo: você vira um pouco a tia do rolê. O que, pensando bem, pode ser interessante para alguém que gosta de observar. É como se a grisalhice transformasse a dinâmica da atração. Os olhares mudam, as possibilidades também. É sutil, mas quase dá para pegar no ar.

A grisalhice traz uma invisibilidade social estranha — e sexual, quase palpável. Resumindo: você vira um pouco a tia do rolê

Não estou certa dessa relação direta, no entanto. Inclusive, ando com muita vontade de cobrir os brancos de novo para fazer uma experiência empírica. Também porque a ideia nunca foi sair da prisão da tinta para ficar na prisão dos tons de cinza.

O homem de cabelo grisalho é charmoso, já a grisalha é desleixada. O grisalho é maduro, é gato; a grisalha é velha e feia. De onde vem isso? De uma imagem construída por séculos, com grande impulso do mercado da beleza, que estabeleceu e tratou de introjetar na nossa cultura o que é adequado e bonito. Gosto de experimentar, mas isso não me faz imune às pressões estéticas baseadas sempre em uma aparência jovem.

Dito isso: o cabelo foi crescendo. Tingi as pontas de azul. E depois de rosa. E a frase que sempre me vem é aquela que passamos a vida toda ouvindo e muitas vezes reproduzindo: “não tenho mais idade pra isso”. Essa é uma luta eterna, porque… hein? Quem é que diz o que é adequado quando se trata do meu corpo e das minhas vontades? Em frente com o azul, em frente com o rosa — que renovei várias vezes. Fui chamada secretamente por amigas de “fã de k-pop que faz coraçãozinho juntando o indicador no polegar”? Fui. Rimos muito. Elas me amam e amam o fato de eu estar contente com minhas mechas.

Quem é que diz o que é adequado quando se trata do meu corpo e das minhas vontades? Em frente com o azul, em frente com o rosa — que renovei várias vezes

Porém, exposta à câmera diariamente, não foram poucas as vezes em que ouvi “tinge esse cabelo” como uma tentativa de ofensa. “Mulher velha”, portanto, de menor valor — como as bruxas caçadas da Idade Média até hoje em dia — e inadequada ao que se espera nesse mundo da juventude eterna. Nesse sentido, a grisalhice se torna política. Tenho consciência do que representa uma mulher como eu à frente de um microfone e de uma câmera na maior rede de rádios do país todos os dias. E, apesar de não me deixar amarrar por essa representação, gosto dela.

Entendo que estar ali (não só ali), com o cabelo que eu quiser, que eu escolher, comunica algo importante. É gostoso ser atacada ou invisibilizada por isso, como se fosse inaceitável, errado, e não um dado de realidade inexorável? Não é. Mas, de forma geral, ser mulher não é, infelizmente, um jeito muito confortável de existir nesse mundo.

O tempo leva embora o colágeno, mas também a preocupação com opiniões baseadas em padrões irreais. Vencer um pouco essa pressão dá uma sensação libertadora. Pelo direito de envelhecer em paz.

Ser mulher não é, infelizmente, um jeito muito confortável de existir nesse mundo

Produto

  • Nem Toda Mulher
  • Tatiana Vasconcellos
  • Telha
  • 150 páginas

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