Trecho de livro

Não Sei Se É Bom, Mas É Teu

A atriz, escritora e colunista da Gama Maria Ribeiro reúne em novo livro crônicas sobre o cotidiano, repletas de perdas mas sempre em busca de “lugares onde bate o sol”

Leonardo Neiva 22 de Agosto de 2025

Após quase dez anos de seu último livro, a atriz, escritora e documentarista Maria Ribeiro reúne mais de 70 textos de sua autoria em “Não Sei Se É Bom, Mas É Teu” (Record, 2025). O título, além de se encaixar perfeitamente no tom dos textos selecionados, vem de uma experiência marcante: é a frase dita pelo personagem de Paulo José no filme clássico “Todas as Mulheres do Mundo” (1966), no momento em que ele entrega um poema à sua amada. As palavras também dão nome a um dos textos da obra, uma intensa homenagem a Paulo José: “Saí do cinema sem entender absolutamente nada do que tinha acabado de assistir, mas certa de que era a melhor coisa que já tinha visto na vida”.

O livro também contém muito de Gama, onde Ribeiro é colunista desde 2021. Estão presentes na obra novas versões de textos como “Carta a Fernanda Young”, “Eu sou escritora”, “O mundo que começa depois do fim” e “Que história, Brasil!”, publicados originalmente por aqui.

Ler os textos de Ribeiro é como manter um diálogo constante com a autora, que questiona tudo — inclusive a si mesma — em reflexões profundas, mas também acessíveis sobre temas como luto, menopausa, arte, feminismo e maternidade. Assim como nos lembram o prefácio de Anitta e o posfácio de Caetano Veloso, trata-se de um olhar capaz de encontrar o incomum e a beleza nos acontecimentos que parecem mais corriqueiros.

Na apresentação da obra, a autora descreve este como um livro cheio de faltas: de Paulo José, do cineasta e amigo Domingos Oliveira, de Fernanda Young, Marielle, Moraes Moreira, Rita Lee, Paulo Gustavo — assim como a de todos os brasileiros perdidos para a covid — e a do padrasto, Jean Pierre, todos eles reverenciados em texto. As primeiras crônicas são de 2018, quando Ribeiro estava recém-separada, diante do caos político no Brasil e de um instante de questionamento sobre o amor, a democracia e as violências de gênero.

Mas, mesmo “em momentos duros e áridos”, a busca é “por lugares onde bate o sol”, escreve Ribeiro. “Prefiro, como princípio, tentar, sempre que dá, gostar de tudo que acontece. Aproveito até engarrafamento, e acho acordar um verdadeiro acontecimento.”


Menopausa mesmo

Quando recebi a mensagem, estava saindo do hospital. Minha mãe seguia internada havia algum tempo. E tudo indicava que não voltaria pra casa. Era rotina deixar a casa de saúde e perder um tempo sentada no café da recepção pra dar uma olhada no celular. Voltar, de alguma forma, pra vida sem sobressaltos. Que a gente só dá valor quando perde. Abri o WhatsApp: três áudios dos meus filhos, seis recados de trabalho e uma frase que parecia escrita em caixa-alta: “Menopausa mesmo, Maria”.

Não que eu não imaginasse. Mas “faltava o resultado do exame de sangue”, segundo a dra. Juraci. Que agora estava lá, toda ginecologista, carimbando, numa frase curta, o fim do meu sangue. “Pronto, agora vamos ver o que fazer”, eu poderia ter pensado. Mas essas aspas não existiram. E não existiram, porque ali não me veio nenhuma possibilidade de senso prático. E muito menos de literatura.

Eu nunca gostei de menstruar. Mas, de repente, me deu saudade. Saudade da varanda da primeira casa onde morei. Da roupa de balé que eu usava nos jantares dos meus pais. Dos meus filhos pequenos com pijamas de dinossauros. Das certezas e das raivas da juventude. Do Jô Soares no SBT. Dos riscos azuis dos testes de gravidez. De escolher absorventes com ou sem abas. Da possibilidade de fazer filhos com os meus parceiros. Daquele chocolate que vinha com uns bichos em relevo.

Todo esse Proust irracional e aleatório aconteceu no tempo de um pão de queijo e de um cappuccino. Prêmios que, inconscientemente, eu me oferecia depois de tomar decisões com a turma do CTI. Na época, minha mãe estava inconsciente, e eu era a gravidade em pessoa. Eu achava que nada mais me abalaria. Eu já estava “dura o suficiente”.

Eu nunca gostei de menstruar. Mas, de repente, me deu saudade

“Menopausa mesmo, Maria”, eu repetia em looping. Liguei pra Mônica Martelli. Mônica foi, nos quatro anos em que trabalhamos juntas, uma espécie de oráculo pra todo tipo de assunto emocional. Sua franqueza sempre me arrebatou. Temos sete anos de diferença, e isso a tornava imensa pra mim. Separação? Mamografia? Mônica nunca me negou nenhuma verdade. Amo tudo que aprendi com ela. E espero ser essa pessoa pras minas mais novas que eu.

Ouçam as mulheres. Isso era uma frase que eu dizia em um programa que fiz com outra amiga e que acabou virando um bordão de todas as temporadas. Adorava repetir essas sílabas. Parecia uma oração (segredo: é!).

Entrei na menopausa no meio de um ano já muito difícil, e fiquei impressionada como, até então, não sabia quase nada do assunto. Talvez por isso tenha ficado tão mal. “Tô velha”, pensei. Acabou.

Encontrei uma atriz na saída de uma peça de teatro e comentei com ela o único tema que me consumia: que estava dormindo mal e esquecendo palavras (embora não estivesse sentindo os tais calores). “Maria, shhh, não conta pra ninguém. Você não parece a idade que tem. Isso pode te tirar trabalhos.”

Lembrei, então, da Rita Lee. De quando ela transformou sua menopausa em música.

“Menopower pra quem foge às regras, menopower pra quem nunca se entrega.”

A identificação foi imediata. Ficar quieta? Como assim? Eu tenho 48 anos e me sinto ótima. E, passado o baque inicial, que tá muito mais na conta da construção social do que nos sintomas físicos, eu tô ainda mais forte. E quero ser parte dessa bandeira. Da fala. Da escuta. Da honestidade. Do casamento com o tempo.

“Ficar quieta?” “Não contar pra ninguém?” Quer saber? Talvez eu faça um outdoor.

“Menopausa mesmo, Maria.” “Ficar quieta?” “Não contar pra ninguém?”

Quer saber? Talvez eu faça um outdoor. Ou uma tatuagem. Ou um texto. Ou as três coisas. E uma camiseta.

Quatro.

Obrigada, Rita Lee.

Produto

  • Não Sei Se É Bom, Mas É Teu
  • Maria Ribeiro
  • Record
  • 176 páginas

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