Trecho de livro

Manual de Desinstrução para Tempos de Incerteza

O psicólogo Alessandro Marimpietri propõe um diálogo aberto com o leitor em livro que sugere novas formas de viver no caos contemporâneo

Leonardo Neiva 19 de Setembro de 2025

Já teve a sensação de que é impossível viver com lucidez nos tempos atuais? Além do bombardeio diário de informações muitas vezes conflitantes, ainda somos obrigados a conviver com uma série de fragilidades: da saúde mental, das relações humanas, dos vínculos de trabalho, das perspectivas futuras… Nesse último caso, a incerteza e a imprevisibilidade, em meio a fatores como as mudanças climáticas, os avanços da IA e a divisão política, torna tarefa impossível não só imaginar o amanhã do planeta, mas até o futuro próximo de cada um de nós.

Um livro como “Manual de Desinstrução para Tempos de Incerteza” (Vestígio, 2025), do psicólogo e escritor Alessandro Marimpietri, chega nesse cenário não para apontar caminhos, mas para pensar novas formas de viver sem se deixar tragar pelo turbilhão à volta. Costurando psicologia, filosofia, literatura, cultura pop e experiências pessoais, a obra se divide em quatro ações principais: viver o tempo, cultivar o espanto, elogiar a imperfeição e amar como verbo.

“Somos a beleza e a exaustão, a crise ambiental e o imperativo de bem-estar, a hiperconexão e o desamparo, o crescimento da intolerância e o elogio à diversidade. Vivemos um tempo de paradoxos”, avalia o psicólogo no texto introdutório, em que enfatiza as contradições contemporâneas e a necessidade de reinventar o agora. Com prefácio do psicólogo Alexandre Coimbra Amaral, trata-se muito mais de um diálogo aberto de Marimpietri com o leitor e um convite à reflexão sobre a condição humana. E também sobre aquilo que nos torna vivos hoje.


A vida no loop da montanha-russa

O que está acontecendo?
O mundo está ao contrário e ninguém reparou

“Relicário”, de Nando Reis

Viver os dias de hoje, muitas vezes, é como estar no loop da montanha-russa: apertem os cintos, pois a promessa é ficar de cabeça para baixo e viver grandes sacolejos. É o historiador brasileiro Nicolau Sevcenko que usa essa imagem para falar do impacto da chegada do século XXI na nossa vida. Segundo
ele, a primeira fase da montanha-russa é tranquila, ascendente, estamos de boa, subindo, subindo e subindo, “achando o máximo ver primeiro o parque, depois o bairro, depois a cidade toda de uma perspectiva superior, dominante”. De repente, como num clique a loucura mais excelsa se anuncia: “o mundo desaba e leva a gente de cambulhada”. Tudo é tão intenso que mal conseguimos pensar ou sentir, “nos transformamos numa massa energética em espasmo crítico”, somos ali a encarnação da “síndrome viva de vertigem e pavor”. Estamos em queda. Mas tudo pode ficar ainda mais intenso e, para isso, temos a terceira fase. No loop estamos no “clímax da aceleração precipitada”. Nesse momento não conseguimos distinguir imagens, realidades, perspectivas: tudo sacode, se mistura e se modifica ultravelozmente.

Aquilo que hoje é verdade amanhã caducou. Aquilo que faz bem ao nosso corpo em algumas horas pode ser considerado um veneno e diminuir nossa expectativa de viver por mais tempo. Aquilo que se configura como certo e seguro passa a ser a contramão. O tempo presente é uma espécie de camaleão ansioso, que vive apressado em mudar suas feições coloridas, tal qual o slogan de uma emissora de rádio brasileira que diz que em vinte minutos tudo pode mudar. E, de fato, muda.

Nascemos, morremos, amamos, criamos nossas filhas e nossos filhos, aprendemos, compramos, nos relacionamos, cuidamos de nossa saúde, viajamos, envelhecemos, comemos, nos comunicamos, trabalhamos de um modo significativamente distinto daquele que figurava como legítimo há trinta, quarenta ou cinquenta anos.

A filósofa brasileira Marilena Chaui, em entrevista a um programa de televisão, se referindo às mudanças atuais a partir do advento da tecnologia digital, disse que não vivemos uma modificação e, sim, uma “mutação civilizacional” sem precedentes. E sentencia: “O mundo é outra coisa”.

Aquilo que hoje é verdade amanhã caducou. Aquilo que faz bem ao nosso corpo em algumas horas pode ser considerado um veneno

Em muito pouco tempo histórico, nos convertemos em testemunhas oculares de uma mudança de paradigma inédita e assustadora, inusitada e incrível, poderosa e, de certa forma, mágica. Numa mistura de art nouveau com ficção científica, de positivismo com neotribalismo, de manufatura com larga escala, o tempo do agora nos deixa um tanto boquiabertos e com alguma dificuldade em perceber nele, de fato, aquilo que nos ameaça e aquilo que nos conforta.

Até bem pouco tempo atrás fazíamos uma coisa de cada vez e objetivávamos chegar a algum lugar, onde passaríamos muito tempo. Pensemos nos relacionamentos: primeiro cortejar, depois namorar, em seguida noivar para, então, casar e depois ter filhos, tudo isso com um “para sempre” costurado a nossa história. No campo do trabalho, o sonho de um jovem de classe média era ingressar em uma prestigiosa, estável e confiável empresa, num cargo inicial e ir galgando postos na verticalidade das hierarquias até atingir, trinta anos depois, um cargo alto, no qual lhe esperavam o poder, o comando e um bom dinheiro.

Na educação, não foi diferente. Vamos lembrar uma conversa entre Charlie Brown e Linus, personagens da turma do Snoopy. Aflito com a iminência de ser reprovado e precisando tirar um A em artes, Charlie Brown desabafa suas tensões e questiona qual seria o objetivo da educação. Linus então lhe explica que o propósito da educação é estudar muito para passar de ano, seguir fazendo isso para passar de ciclo, continuar fazendo o mesmo para entrar na faculdade e, uma vez lá, estudar, se formar e progredir para arranjar um bom emprego, daí aumentam as probabilidades de conseguir um relacionamento, que terá como consequência filhos que, quando tiverem 6 anos, vão à escola para recomeçar todo o ciclo.

Nada disso faz mais sentido na atualidade. Pessoas se relacionam de uma maneira distinta e as famílias hoje se mostram de inúmeras formas; sabemos que boa parte das profissões que serão alvo da escolha das gerações vindouras ainda não foi sequer inventada; a educação está se vendo obrigada à reinvenção, conciliando tradições e inovações diante do que ocorre nos seus extramuros. Vivemos na era do tudo-ao-mesmo-tempo-agora, horizontalizamos nossa identidade e a colocamos em rede, vivemos papéis diversos, sempre cambiantes e simultâneos que coexistem sem maiores dificuldades.

Não raro podemos encontrar em muitas famílias que gozam de algum conforto financeiro um adulto de uns 40 anos que ainda vive na casa dos pais, embora trabalhe e ganhe algum dinheiro, ainda há nele traços de uma posição e do funcionamento adolescente. Talvez ele tenha filhos de relacionamentos diversos, que por sua vez vivem com as mães, que comumente ainda moram na casa dos próprios pais. Esse jovem quarentão é pai, filho, trabalhador, adulto de meia-idade, adolescente, tudo ao mesmo tempo. O critério etário não dá mais conta de definir as ditas fases da vida.

Estamos mais livres, embora tenhamos que arquitetar, nós mesmos, novas referências universais, novas margens particulares e nossos contornos singulares

No cerne do paradoxo e com os eixos de identidade horizontalizados e em rede, estamos mais livres, embora tenhamos que arquitetar, nós mesmos, novas referências universais, novas margens particulares e nossos contornos singulares. Nosso funcionamento atual é terreno fértil para um infinito de novidades e possibilidades, mas dá um trabalhão ter que construir todos os nossos contornos simbólicos com as próprias mãos.

Para as pessoas do século XXI, percursos são importantes e chegadas também. Lidamos mal com sacrifícios em nome de algo maior, em especial se estiver lá bem distante, mas estamos um tanto mais livres do rigor gélido do padronizável. Algumas vantagens: maior sensação de liberdade, menos convencionalismo, mais pluralidade para inventividades. Alguns riscos: incerteza, ansiedade, insegurança e uma necessidade de adaptação que nunca pisa no freio.

Vivemos dentro de parênteses simbólicos, pois, como diria o psicanalista francês Jean-Pierre Lebrun, “ninguém contestará que nosso social está, atualmente, profundamente modificado; sua evolução se dá de modo tão rápido que com frequência nos sentimos impotentes quanto a identificar as articulações de onde procedem todas as mudanças a que assistimos”. No hiato entre o presente que agoniza e o novo tempo que ainda não se estabeleceu, vamos desenhando no ar a nossa existência, individual e coletivamente. Com os pés inseguros postos sobre o fio teso da corda bamba, seguimos nos equilibrando como podemos, conjugando risco e temor com ousadia e beleza.

Somos uma geração que, numa mesma vida, viu reviravoltas abundantes e francamente radicais no nosso tecido social, na nossa cultura, nos nossos modos de existência humana e na nossa subjetividade. Em uma mesma biografia experimentamos o totalmente analógico e o irrevogavelmente digital. Nós colocamos uma ficha metálica redonda num orelhão antes de discar uma sequência de números e também ficamos agoniados diante de uma mensagem visualizada e não respondida lá no famoso aplicativo de mensagens. Compramos um quebra-queixo com um vale-transporte feito de papel antes de subir no ônibus e também andamos em carros que se movimentam sem motoristas. Somos o mimeógrafo e a holografia. Somos uma mistura dos Flintstones com os Jetsons.

Passamos de cruzar cheques por medida de segurança a pagar via Pix. Passamos de trocar papéis de carta perfumados a testemunhar a quase obsolescência do e-mail. Numa mesma vida, usamos tampa de caneta para rebobinar fita cassete, fizemos festas com discos de vinil, usamos walkmans, conhecemos o CD, vimos nascer e morrer o iPod e hoje ouvimos música nos aplicativos de um smartphone. Fizemos curso de datilografia e lidamos com a inteligência artificial. Ou seja, alguma coisa está fora da ordem para nós, “tudo parece que era ainda construção, mas já é ruína” como diz Caetano, a partir de Lévi-Strauss.

Somos uma geração que, de forma inédita, conjuga o cuidado com os pais idosos cada vez mais longevos e o cuidado com os filhos que tivemos mais tarde, ao mesmo tempo que cuidamos da saúde do corpo para envelhecermos mais e melhor, sem descuidarmos das nossas atividades de trabalho que estão se desenvolvendo a pleno vapor. Para além disso tudo, ainda buscamos prazer, lazer, alegrias e a tal felicidade sem fim.

Alguma coisa está fora da ordem para nós, “tudo parece que era ainda construção, mas já é ruína” como diz Caetano, a partir de Lévi-Strauss

Estamos espremidos por uma profusão de demandas no desenho de uma vida plausível no umbigo do século XXI. Com tudo que é palpável revirando a cada segundo, perdemos a materialidade das certezas. Tudo bem, não vamos mesmo escapar dessa realidade. Façamos então as pazes com o fato de que viver a atualidade é achar um jeito possível de produzir arranjos sobre a eterna novidade.

Produto

  • Manual de Desinstrução para Tempos de Incerteza
  • Alessandro Marimpietri
  • Vestígio
  • 208 páginas

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