Trecho de livro

Ressuscitar Mamutes

No romance de Silvana Tavano, vencedor do prêmio Oceanos, a narradora parte de descobertas científicas que conectam passado e futuro para escavar as memórias de sua família

Leonardo Neiva 12 de Dezembro de 2025

Não tinha como o romance “Ressuscitar Mamutes” (Autêntica Contemporânea), da escritora e jornalista paulistana Silvana Tavano, viver uma trajetória mais premiada. Vencedor na categoria prosa do Oceanos, uma das mais importantes premiações voltadas à literatura em língua portuguesa, o livro também figurou entre os finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura e chegou à semifinal do Jabuti dentre os romances literários. Tavano também já tinha levado o Jabuti em outra ocasião, como melhor livro infantil pela obra “Sonhozzz” (Salamandra, 2021), criada em parceria com o ilustrador Daniel Kondo.

À primeira vista, “Ressuscitar Mamutes” pode surgir para o leitor como um grande mistério — ou melhor, como um catálogo informal dos grandes mistérios do mundo. O mote, que dá o título à obra, é o projeto científico à la Jurassic Park — mas bastante real — de resgatar os bichões extintos como forma de combater os efeitos do aquecimento global. A partir disso, a narradora faz uma colagem de notícias sobre escavações e sítios arqueológicos capazes de conectar o passado, o presente e possivelmente o futuro da humanidade.

“Ressuscitar passados, inventar futuros: ciência e literatura viajam no tempo dos sonhos para chegar ao impossível”, escreve. Mas estes são apenas os primeiros passos de uma história sobre memórias e o passar do tempo, contada por uma mulher cuja narrativa familiar repleta de conflitos, tensões, mas também de enormes afetos, é reconhecível para muitos de nós.

Vinda de uma família na qual as mulheres estabeleceram laços profundos, com o pai como figura secundária, a personagem remonta a história da mãe por meio das próprias lembranças e de uma reflexão sobre aquilo que se escondia por trás do véu de dor, solidão e tristeza que sempre marcaram suas feições. “Minha mãe nunca foi jovem”, é como ela a descreve. A seguir, você lê um trecho do início do capítulo que aborda a figura materna.


Mãe

Com ela, aprendi a ler o desamparo.

Os gestos imprecisos como frases inacabadas, os passos hesitantes que pareciam temer o chão. Era uma mulher encolhida, no peito afundado a respiração suficiente para viver em modo mínimo. Mesmo quando sorria, a insegurança de tudo continuava ali, tatuada nos dois traços que separavam as sobrancelhas como parênteses invertidos, rugas profundas no rosto ainda jovem.

Ela tinha vinte e cinco anos quando nasci, mas desde que me lembro minha mãe nunca foi jovem e, por mais que eu perguntasse, não falava quase nada sobre a infância e a juventude, as poucas fotografias confirmando tempos que por algum motivo não mereceram registro. Desconversava como se nada daquela época tivesse importância, mas desconfio que tenha sido ruim, talvez ruim demais. Tinha vinte e três anos quando conheceu o único homem de sua vida, casou aos vinte e quatro, e o nome de solteira desapareceu de todos os documentos — o antes, oficialmente extinto, não cabia no presente, menos ainda num futuro que logo se anunciava com novas paisagens: eu, três meses depois do casamento, já semente no corpo dela.

Às vezes penso que minha mãe começou a existir junto comigo. Ela me trouxe à luz, e provavelmente iluminei a infância de uma união que cedo se mostrou desastrosa. Acho que naquela época ela quase foi feliz, ou ao menos experimentou prazeres que lhe tinham sido negados. Ainda assim, a dor sempre esteve lá — uma solidão antiga, a sensação de fracasso, o não lugar no mundo. Tudo dentro dela.

Desde que me lembro minha mãe nunca foi jovem

Ando pela cidade tentando reconstituir minha infância, busco a fachada de antigos casarões enterrada sob viadutos e arranha-céus; não consigo lembrar como eram os portões nem refazer os contornos dos jardins, não tenho certeza da cor das paredes, mas sei que tudo aquilo existiu. Ela também sabia: existiu a menina, a mais nova de cinco irmãs, filhas de imigrantes italianos que aqui recomeçaram do zero sem chegar muito longe, o dinheiro sempre justo para o mínimo, nunca um vestido novo, uma boneca que já não tivesse sido das irmãs. Existiu a moça bonita que, diferentemente das outras, não estava sorrindo na fotografia de formatura na antiga Escola Normal Caetano de Campos. Existiu a jovem submissa ao pai, impedida de sonhar com uma profissão. Existiu a mulher que acreditava na promessa de felicidade que só o casamento poderia realizar. (Quantas, como ela, foram caladas pelas vozes que comandavam aquele mundo?)

Talvez preferisse esquecer, mas todos aqueles tempos estavam nela, e pelos olhos esmaecidos da minha mãe eu enxergava a tristeza.

Nenhuma testemunha para me contar do passado dela. Pais, irmãs, a única amiga de infância que conheci, todos mortos. Só sei do que vivemos juntas, ou do que acho que vivemos — como ter certeza de que foi o mesmo para ela? Guardei cenas, impressões, informações nem sempre boas. Mas, diferentemente dela, não quero me esquecer de nada, porque o esquecimento a faria desaparecer, como se nunca tivesse existido. Sou a prova de que minha mãe existiu.

No início do livro Duas vidas, o escritor italiano Emanuele Trevi conta de um amigo que ao longo dos
anos foi se tornando mais e mais parecido com o próprio nome. Rocco — que, em italiano, remete ao som da palavra roccia (pedra) — era rígido e obstinado, temperamento que, segundo Trevi, casava com “sua fisionomia áspera e seus traços marcantes”. Como se não bastasse, Carbone, carvão em italiano, dava sobrenome à personalidade do amigo.

Procuro em um desses dicionários de nomes próprios e descubro que o nome dela significa “santa, sublime, consagrada a Deus”. Um nome sem correspondente masculino, conectado à imagem da mulher que inspira dignidade, respeito, bondade. Faz todo o sentido pensar nela assim, e agora me dou conta de que meu pai tinha toda a razão. Duvido que algum dia ele tenha se interessado pela origem dos nomes, mas, por intuição (ou culpa?), sempre que falava da ex-mulher recorria ao aposto: “uma santa”.

Talvez antes mesmo de experimentar a vida e descobrir quem gostaria de ser, minha mãe já se parecesse com o nome que escolheram para ela. Um nome que soava como destino.

Não quero me esquecer de nada, porque o esquecimento a faria desaparecer, como se nunca tivesse existido. Sou a prova de que minha mãe existiu

A memória é colorida pela invenção. Encobrimos o que se apagou com os tons da imaginação, uma paleta de cores que refaz pessoas e cenários entre pinceladas de calma ou de fúria, com texturas ora aveludadas, ora vibrantes, retoques de última hora, às vezes sombrios. Mas quantas nuances se perdem quando tentamos recuperar uma tela do passado? E como lidar com a suspeita de que outras versões dessa tela possam existir sob a imagem que vemos hoje? Obras de arte antes intocáveis, que nenhum restaurador ousaria raspar além do necessário em uma eventual limpeza, arriscando-se a danos de milhões de dólares, agora se revelam à luz da inteligência artificial. Em 2019, pesquisadores descobriram o rosto de uma mulher por baixo do Retrato de uma jovem, tela que Modigliani pintou por volta de 1917. A imagem que o artista teria tentado esconder possivelmente é a da escritora inglesa Beatrice Hastings, retratada em outras telas, com quem Modigliani já tinha rompido naquela época. Um rosto que voltou a existir em 2019, reconstruído em impressões 3-D. E então reencontro a palavra “pentimento” numa crônica do psicanalista e escritor Contardo Calligaris, publicada em 2011 no jornal Folha de S.Paulo: “é a palavra italiana para arrependimento, mas designa (em muitas línguas) uma pintura, um desenho ou um esboço encoberto pela versão final do quadro […]. Visível ou não, o pentimento faz parte do quadro […]. São restos do passado que, escondidos e não apagados, transparecem no presente, como potencialidades que não foram realizadas, mas que, mesmo assim, integram a nossa história”.

Na nossa tela mental, quadros do passado podem ter sido falsificados pela tinta fresca do presente. Mas em algum lugar, dentro de nós, restam traços do original. Persigo esses rastros para me guiar pela vida da minha mãe e, se me aproprio de incertezas para pintar um retrato, se alguns traços não são exatamente iguais, é possível que eu não esteja falando só dela, ou talvez seja sobre o que dela vive em mim: meus pentimentos contaminando o passado da minha mãe e o meu presente.

Reescrevo para descobrir ao menos um esboço do que ela pode ter sido

“E o que se pode fazer com o legado de nossos pais quando é um legado que humilha, mas é o único que nos resta? Chega-se a um acordo. Reescreve-se. Profanam-se as suas tumbas”, diz a escritora espanhola Aixa de la Cruz em seu livro Mudar de ideia. Reescrevo para me apaziguar e, quem sabe, descortinar o que ainda existe debaixo de tantas camadas. Reescrevo para descobrir ao menos um esboço do que ela pode ter sido.

Produto

  • Ressuscitar Mamutes
  • Silvana Tavano
  • Autêntica Contemporânea
  • 120 páginas

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