Trecho de livro

Formas de Narrar um Corpo

Atriz, professora e pesquisadora, Rita Von Hunty desconstrói em nova obra a ideia do corpo, do gênero e da sexualidade como conceitos binários e universais

Leonardo Neiva 26 de Junho de 2026

Quando o assunto é gênero ou sexualidade, ainda hoje não é raro que surja, em algumas discussões, o argumento de que estes são conceitos historicamente binários e imutáveis — e que falar deles de outras formas seria deturpar a própria natureza. É esse tipo de falsa certeza que a atriz, professora e pesquisadora Rita Von Hunty busca desconstruir em seu novo livro “Formas de Narrar um Corpo” (Planeta, 2026). Uma das vozes mais influentes do debate contemporâneo, a autora vai desmontando ao longo da obra discursos considerados neutros ou universais, revelando os interesses históricos, sociais e ideológicos que se escondem por trás deles.

Lançando mão do pensamento de autores centrais, de Lévi-Strauss a Judith Butler, Hunty também se esforça para evitar um discurso acadêmico muito fechado em si mesmo. Por meio de pequenos momentos de humor e linguagem cotidiana (“Eu sou uma drag queen, né, querida?”), a autora aproxima do leitor conceitos que poderiam parecer distantes ou difíceis de compreender. E isso sem deixar de lado a profundidade dos temas de que trata aqui. A obra serve de abertura à coleção Reticências, da editora Planeta, que trará uma diversidade de vozes da literatura e do pensamento contemporâneo para abordar temas centrais da sociedade.

Afinal, por que até hoje certos corpos são legitimados, silenciados ou excluídos dos espaços de poder? Com base em referências da sociologia, da psicanálise, da literatura e da política, além de suas experiências pessoais, Hunty mostra que o poder também opera por meio das palavras, dos saberes e das instituições, inclusive narrando e regulando identidades. Um convite da autora, reconhecida por seu trabalho como educadora popular, crítica cultural e influenciadora, à reflexão, mas também à ação e à transformação social.


Olha, se pegarmos uma multitude de povos e experiências, estes vão nos dizer o que venho falando até aqui a torto e a direito. Veja, por exemplo, o livro “Existe índio gay?”, de Estevão Rafael Fernandes. E atenção às aspas, pois elas explicitam uma brincadeira. O título emula uma sala de aula; é como se Estevão Rafael estivesse explicando teoria antropológica, e, de repente, um aluno, uma aluna perguntasse: “Professor, existe índio gay?”, e ele tivesse que parar a aula e falar: “Calma, vamos lá”.

Para começar, não existe “índio”. Existe Munduruku, existe Guarani, existe Kaiowá, existe Kariri-Xocó. “Índio” é porque alguém achou que tivesse chegado às Índias e pegou aquela multitude de seres humanos, de povos, de relações sociais e chamou de índio. É como preto; preto não existe. Então, “existe índio gay?”. Não. Primeiro, que não existe “índio” e, segundo, que gay é uma palavra em língua inglesa. Como que existe? Ah, vai dar meia hora de cu na esquina! Claro que ele não fala assim, que ele é um professor elegantérrimo, chique. Mas eu sou uma drag queen, né, querida?

E aí chegamos à página 67 do livro de Estevão Rafael, que é uma que eu gosto de dar para as minhas turmas. Nela, o autor examina as cartas da colonização — lembrando que, quando os portugueses chegaram aqui, nós, do presente, os leríamos todos como missionários religiosos, católicos, cristãos. Hoje conseguimos atribuir a eles os predicados “homens cisgênero”, “brancos”, “heterossexuais” etc., e foram eles que começaram a escrever sobre o que viam aqui para outros missionários em outras regiões do globo.

Ele, por estar dentro da ideologia do próprio momento histórico, é incapaz de entender que ‘pecado’ e ‘natureza’ não existem. É a ideologia dele sendo projetada sobre a realidade do outro.

Então, eu pego uma carta do período de 1500. O colonizador daqui dizia para outro que estava lá, suponhamos, nas Arábias — que também não existe, certo? Eles estão com os mouros. E a carta é assim: Pedro Correia, em carta escrita em São Vicente, em 1551, “para os irmãos que estavam em África”… “Escrevam-nos mais a miúdo, como se hão em todas as cousas, para que saibamos cá como nos havemos de haver em outras semelhantes […]”.

Ou seja, ele está falando: “Bicha, me conta os bafão daí, porque parece que os bafão daqui são os mesmos”. E aí ele continua: “Me parece que esses Gentios” — referindo-se aos indígenas — “em algumas cousas se parecem com os Mouros, assi em ter muitas mulheres e prégar polas manhãs de madrugada”. E aí ele está falando: “Menina, não existe monogamia. Menina, não existe moral e bons costumes… É uma loucura. Todo mundo transa com todo mundo o tempo todo”.

E prossegue: “E o pecado contra a natureza, que dizem ser lá” — com os mouros — “mui commum, o mesmo é nesta terra […]”. Então, calma lá! Ele, por estar dentro da ideologia do próprio momento histórico, é incapaz de entender que “pecado” e “natureza” não existem. É a ideologia dele sendo projetada sobre a realidade do outro. Aparece quando ele diz que o pecado contra a natureza que
vocês identificaram, que existe aí, existe aqui também. Mas acontece que isso não é pecado. É a realidade. Quem inventou uma sexualidade que agrada a Deus e outra que desagrada foram vocês; aliás, que deus, mané deus…

O termo antropológico para isso é etnocentrismo. Eles estão centrados no próprio grupo e são incapazes de reconhecer outros grupos como produtores de outros valores

E aí esse colonizador de 1500 está vendo o que acontece aqui e continua: “O pecado contra a natureza, que dizem ser lá mui commum, o mesmo é nesta terra, de maneira que há cá muitas mulheres que assim nas armas como em todas as outras cousas seguem ofício de homens, e têm outras mulheres com quem são casadas. A maior injúria que lhes podem fazer é chamá-las mulheres. Em tal parte lh’o poderá dizer alguma pessoa que correrá o risco de lhe tirarem frechadas”.

Ou seja, ao chegar aqui e ver uma ana-fêmea (uma anatomia de fêmea), e não um pinto, os europeus tinham certeza de que um corpo físico era um corpo social. Logo, boceta é mulher. E aí eles dizem: “Essa boceta está armada. Essa boceta transa com outras bocetas. Pecado contra a natureza!”. Nas armas e em outras coisas: então ela caça, ela se mexe. E isso porque o processo civilizador na Europa já produziu a ideia de mulher como reclusa, passiva, dócil, dependente, obediente e o escambau.

Nessa época, vale lembrar, a Inquisição já está rolando: as mulheres guerreiras estão sendo mortas, dominadas, destruídas; seus saberes, queimados; seus corpos, queimados. Então, de novo, eles chegam aqui e ficam horrorizados que papai e mamãe, monogamia, heterossexualidade e casamento católico não existem. E eles chamam isso de “pecado contra a natureza” em vez de perceber que o modo de vida deles é que é “antinatural”. Perceber que eles falam a partir de uma cultura. O termo antropológico para isso é etnocentrismo. Eles estão centrados no próprio grupo e são incapazes de reconhecer outros grupos como produtores de outros valores e outros significados, outra lógica. Então esses valores e esses significados serão sempre analisados a partir de uma matriz cultural, de uma perspectiva cultural de uma lógica que lança sobre o outro o olhar da coisificação, da outrificação. Judith Butler é mordaz quando fala disso em Quem tem medo do gênero?.

Supor que nós pensamos em binários é ignorar o processo constitutivo da experiência

O nono capítulo, que ela chama de “Os legados racial e colonial do dimorfismo de gênero”, traz uma passagem maravilhosa. Nele, ela já vinha explicando esse legado dicotômico, binário, como uma estrutura do pensar ocidental; eu, particularmente, gosto de usar Lévi-Strauss, em O cru e o cozido, para explicar isso. No livro, ele começa a formular essa noção de que todos os povos usam sistemas binários para pensar. E aí Jacques Derrida vem com tudo pra cima de Lévi-Strauss com um texto em que fala: bicha, não é bem por aí. Derrida faz uma brincadeira, em A escritura e a diferença, que eu explico assim: eu só posso dizer que esta é uma cenoura crua depois que esse povo conhece alguma coisa que não seja cenoura crua.

Olha o que ele está falando! Se eu perguntar: “O que vem primeiro: uma cenoura crua ou uma cenoura cozida?”, todo mundo vai responder “crua”. Só que a resposta não é essa. Porque “cru” é uma palavra que significa “não cozido”. Então, primeiro, eu tenho que nomear o cozido para depois ser capaz de nomear o cru. Supor que nós pensamos em binários é ignorar o processo constitutivo da experiência.

Produto

  • Formas de Narrar um Corpo
  • Rita Von Hunty
  • Planeta
  • 144 páginas

Caso você compre algum livro usando links dentro de conteúdos da Gama, é provável que recebamos uma comissão. Isso ajuda a financiar nosso jornalismo.

Quer mais dicas como essas no seu email?

Inscreva-se nas nossas newsletters

  • Todas as newsletters
  • Semana
  • A mais lida
  • Nossas escolhas
  • Achamos que vale
  • Life hacks
  • Obrigada pelo interesse!

    Encaminhamos um e-mail de confirmação