Trecho de livro

Histórias de Amor no Novo Milênio

O romance da chinesa Can Xue, cotada para o Nobel, se equilibra entre realismo e fantasia, modernidade e tradição, ao narrar a busca de mulheres pelo prazer

Leonardo Neiva 09 de Janeiro de 2026

Já falamos na Gama sobre como, a partir da ascensão econômica da China, a arte e a cultura do país vêm lentamente disseminando sua influência pelo mundo. Um dos principais exemplos dessa tendência é a literatura, que começa a chegar com mais frequência e variedade inclusive no Brasil. Dentre os maiores expoentes recentes dessa influência pelo mundo, está a escritora e crítica literária Can Xue, duas vezes finalista do International Booker Prize e líder constante entre as principais apostas para levar um prêmio Nobel.

Mesmo com essas credenciais, “Histórias de Amor no Novo Milênio” (Fósforo, 2025) é apenas seu primeiro livro a desembarcar por aqui, com tradução de Verena Veludo Papacidero. Mas dificilmente a autora conseguiria entregar um cartão de visitas melhor. Seu romance mais celebrado, a obra acompanha de forma onírica e por vezes fantástica a jornada de várias mulheres em busca do prazer, do amor e da felicidade numa cidade industrial de condições precárias.

Não é difícil ler o livro como uma coletânea de contos independentes, ainda que os personagens que protagonizam cada capítulo estejam conectados entre si. A sensação é de que estamos descobrindo histórias únicas, unidas somente pela temática e pelo estilo marcante da escritora. Uma escrita, aliás, bastante própria e com pinceladas surrealistas, comparada à de Kafka pela maneira como Xue escreve de acordo com premissas bastante próprias.

Assim, seguimos a narrativa de Wei Bo, um homem casado, e a relação com sua amante, uma viúva independente cujo hoby é oferecer “serviços especiais” numa estância termal. Mas também descobrimos mais sobre uma amiga da viúva, que se torna amante de um antiquário excêntrico. E a respeito das andanças da esposa de Bo, que se apaixona por um doutor especializado na medicina tradicional chinesa. Nessas narrativas que se bifurcam e se reencontram, surgem também elementos surpreendentes como um relógio que avisa sempre o mesmo horário e um pachinko, jogo mecânico japonês pivô de um amor e de uma tragédia. É nessa corda bamba entre realismo e fantasia, entre a modernidade e as tradições milenares da China que se equilibra este romance impressionante.


Xiao Yuan, a esposa de Wei Bo

Há muitos anos, Xiao Yuan havia deixado de ser professora. Agora, seu ofício era algo entre o administrativo e o comercial. Especificamente, sua principal tarefa era viajar a trabalho para outras cidades do país.

Foi numa dessas viagens de negócios que Xiao Yuan conheceu o dr. Liu, médico que administrava uma clínica de medicina tradicional chinesa na cidade de Chao. Ele a viu pela primeira vez ao pegar o trem que ia para a capital, a fim de comprar medicamentos fitoterápicos. Ambos haviam reservado camas inferiores das treliches, uma de frente para a outra. Xiao Yuan pendurou um relógio de bolso na cabeceira, apoiou um relógio digital bem pequeno na mesinha entre as treliches e um rádio-relógio ao lado do travesseiro, que ficava piscando.

Dr. Liu era um homem muito bonito. Fazia o tipo intelectual despretensioso, frio e atraente. Claro que, ao se acomodar, Xiao Yuan reparou nesse homem que aparentava ter a mesma idade que ela.

Quando o dr. Liu se serviu com água quente, esbarrou no relógio digital de Xiao Yuan e se desculpou profusamente. A voz dele não era agradável, e a mulher ficou de cenho franzido.

Tarde da noite, embora o dr. Liu tivesse virado o rosto para a parede da cabine, ainda estava muito incomodado com os relógios de Xiao Yuan. Sentiu que aquela mulher ao seu lado emanava energia negativa como se fosse uma aura ao seu redor. Os passageiros das camas superiores à dele desembarcaram, e as camas superiores à de Xiao Yuan não haviam sido ocupadas. Isso significava que os dois estavam a sós na cabine. O dr. Liu ficou irritado e sentou. Queria mudar de cama a fim de passar uma boa noite de sono. Foi então que Xiao Yuan, que parecia dormir profundamente, se virou.

“O que você quer?”, perguntou Xiao Yuan em tom ameaçador.

“Eu? Eu quero trocar de cama…”, gaguejou o dr. Liu.

“Você não está vendo que já são duas horas da manhã? Está a fim de confusão? Vão prender você, seu tarado! Seu caipira!”, berrou Xiao Yuan enquanto apertava o cronômetro do rádio-relógio.

“Está bem, não vou trocar de cama. Vou deitar. Não precisa ficar nervosa.”

“Quem é que está nervosa? Você ainda não viu nada!”, disse, cobrindo o rosto com o cobertor para rir escondida.

Tudo tem um propósito oculto. O simples fato de estarmos vivos já é algo instigante

No escuro, dr. Liu espreitou Xiao Yuan, que mexia no rádio-relógio. Aquele aparelho era muito esquisito. Ele anunciava a hora de tempos em tempos, mas sempre dizia a mesma hora — vinte e três horas. “Que droga, não vai dar para dormir esta noite”, pensou ele. Para conter sua irritação, dr. Liu ficou se imaginando colhendo ervas medicinais nas montanhas de Chao. Ele gostava de uma espécie de erva chamada popularmente de mu xiang, ou raiz de costus, uma planta muito delicada que produz frutos arredondados encantadores. Como ele adorava o formato daquele fruto, costumava receitá-lo a seus pacientes para alívio de dores. Havia um penhasco na montanha e, um pouco abaixo dele, um buraco na terra, onde cresciam muitas mu xiang. O dr. Liu não podia se dar ao luxo de colher muitas delas, só um pouquinho por vez. Na verdade, ele subia no penhasco só para observá-la. Uma planta silvestre tão bela talvez exercesse seus gestos de liberdade porque aquele era um lugar bem seguro para ela. O olhar do dr. Liu desviou da cama de Xiao Yuan para a escuridão que pairava acima de si, e a irritação se dissipou aos poucos. Antes de ir para a estação de trem, ele tinha conseguido ver a mu xiang. E estava muito satisfeito por ter passado a tarde inteira na encosta daquele penhasco.

“Você é médico?”, Xiao Yuan perguntou de súbito, assustando o dr. Liu.

“Que estranho. Como é que você sabe?”

“Seus pertences cheiram a fitoterapia chinesa. Eu detesto a medicina tradicional chinesa, é tão cheia de superstições. Não mata, mas também não cura.”

“Não sou um praticante da medicina tradicional pura. Uso métodos da medicina ocidental para prescrever medicamentos fitoterápicos.”

“Ah, melhor assim. As ervas medicinais são fantásticas e as pessoas as associam a sexo.”

“Você frequenta alguma farmácia de fitoterapia?”

“Sim, especialmente as antigas. Mas não vou para comprar remédios, eu gosto de ficar parada ao lado do balcão para observar. Gosto de ler sobre fitoterapia e conheço muitas ervas medicinais.”

“Antes de pegar o trem, passei a tarde inteira nas montanhas. As melhores ervas do mundo estão nas montanhas de Chao. Elas crescem ali há muitas gerações. Claro que não nascem para os doentes, mas quem pode provar que não tratam doenças?”

“Você é muito interessante. Sou da mesma opinião: tudo tem um propósito oculto. O simples fato de estarmos vivos já é algo instigante.”

O dr. Liu notou que, enquanto eles conversavam, o rádio-relógio havia parado de anunciar as horas.

Será que o que havia acontecido naqueles três dias era realmente o chamado “caso de amor”?

“Você consegue controlar a função que dita as horas no rádio-relógio?”, perguntou ele em voz baixa.

“Eu controlo com a mente”, respondeu num sussurro.

Depois de chegarem à capital, se hospedaram na casa da irmã do dr. Liu. Os dois resolveram rapidamente seus assuntos de trabalho, pois Xiao Yuan queria muito ir a Chao. Então, tomaram o trem de volta para a casa do dr. Liu. Ele morava na sobreloja da própria clínica.

Chegaram logo pela manhã, e vários pacientes já o esperavam ali. O doutor ficou ocupado com o trabalho até o início da noite. Xiao Yuan passou o dia todo ao lado dele, observando: o médico, as ervas e os pacientes.

“Você me deixou tenso, senhora. Me esforcei muito para não me distrair”, disse ele.

Na manhã seguinte, os dois foram para a montanha de Chao, onde passearam o dia inteiro. Ao descerem para regressar à clínica, Xiao Yuan pensou que eles só se encontrariam de novo em um futuro distante, ou talvez até pior: nunca mais se veriam. Para não ficar triste, ela preferiu não voltar para a clínica. Despediu-se dele no cruzamento e foi direto para a estação de trem local, que era minúscula e depredada.

Por muito, muito tempo, quando Xiao Yuan se lembrava do dr. Liu, não conseguia identificar o verdadeiro sentimento. Será que o que havia acontecido naqueles três dias era realmente o chamado “caso de amor”? Ela guardou o bilhete do trem e um pedacinho do chifre de rinoceronte que o dr. Liu lhe dera. Mas o que essas coisas significavam? Quando estavam sentados na montanha, ele lhe dissera:

“Eu entendi. Você é o tempo que ninguém consegue ter.”

O rádio-relógio, que estava dentro da bolsa dela, respondeu a ele:

“Agora são vinte e três horas.”

Os dois se entreolharam e, ao mesmo tempo, soltaram uma risada alta. Riram até chorar e depois desviaram o olhar um do outro com um estranho constrangimento.

Desde que se despedira do dr. Liu, Xiao Yuan nunca mais o vira. Aos poucos percebeu que ele pertencia a outro mundo, do qual ela tinha apenas uma vaga noção e, de certa forma, o reverenciava, mesmo sem fazer parte dele. Naquela cidadezinha, ele mergulhava tranquilo em seu próprio mundo. Dizia que nunca ficava insatisfeito porque sempre encontrava uma coisa para dar vazão a sua energia. Além disso, sua condição celibatária comprovava o que dissera. Ele era muito bonito e tinha uma personalidade carinhosa, mas nunca havia se casado.

Quem é capaz de se esquecer de um vazio infinito no coração?

Xiao Yuan se considerava uma mulher de muito bom gosto. Ela já tinha amado seu marido, Wei Bo, e os dois combinavam perfeitamente. Mas quais seriam os gostos do dr. Liu? Xiao Yuan não conseguia compreender ao certo, pois só de pensar nisso uma onda de emoções inundava seu íntimo. Talvez o dr. Liu fosse como a dama das camélias, com a única diferença de que um era passional e o outro sereno?

A partir de então, Xiao Yuan passou a amar ainda mais as viagens de negócios, pois aquele clima de viagem lhe fazia reviver as cenas entre ela e o dr. Liu, especialmente nas noites chuvosas, quando as gotas da chuva tamborilavam nas janelas do trem. O que era estranho, já que nas duas ocasiões em que ela e o dr. Liu pegaram o trem juntos, o dia estava ensolarado.

Ela alterou seu rádio-relógio. Agora, uma voz feminina anunciava a cada duas horas: “Agora são catorze horas em ponto”. Já que o dr. Liu se tornara um vazio infinito para ela, não queria mais encontrá-lo. No entanto, nunca mais o esqueceria, nem mesmo se não tivesse guardado aquele pedaço de chifre de rinoceronte. Quem é capaz de se esquecer de um vazio infinito no coração?

Produto

  • Histórias de Amor no Novo Milênio
  • Can Xue (trad. Verena Veludo Papacidero)
  • Fósforo
  • 400 páginas

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