Trecho de livro

Filosofia, Um Modo de Vida

Marilena Chaui defende em livro acessível a filosofia como forma de vida, num cartão de visitas à obra da filósofa e escritora

Leonardo Neiva 26 de Setembro de 2025

Com uma carreira dedicada ao estudo e à escrita da filosofia, a professora e pensadora Marilena Chaui virou sinônimo de filósofa por aqui, tornando-se uma das principais representantes da área do pensar no Brasil. E seu novo livro tem como foco justamente a filosofia não como um trabalho ou uma distante e complexa disciplina acadêmica, mas sim como uma forma de viver.

Composto por textos e transcrições de palestras da autora nunca antes publicados, “Filosofia, Um Modo de Vida” (Planeta, 2025) nos lembra que é impossível não só aos filósofos, mas para qualquer um de nós deixar a filosofia de lado ao fim de um dia árduo. Pelo contrário, ela nos acompanha onde quer que vamos e o que quer que estejamos fazendo, ainda que siga sendo sempre difícil de definir.

Nestes curtos trechos de uma trajetória intelectual que já dura mais de seis décadas, Chaui se debruça não apenas sobre as bases da filosofia, mas também sobre temas como as artes, a dinâmica entre cultura e natureza, a ética e o enigma da servidão voluntária. A obra nos convida a examinar o que significa pensar, articular argumentos lógicos e entender a relação entre pensamento e linguagem. É ainda a oportunidade de acompanhar parte do desenrolar do pensamento da filósofa, assim como uma introdução acessível à sua produção intelectual.


Filosofia, um modo de vida

Conta a lenda que o primeiro filósofo, Tales de Mileto, interessava-se pelo estudo das estrelas e que um dia, olhando para o céu, tropeçou numa pedra e caiu numa vala. Uma serviçal que o acompanhava exclamou: “Como pretendes, ó Tales, tu, que não consegues sequer ver o que está à tua frente, conhecer tudo sobre o céu?”.

Essa lenda serviu, desde a Antiguidade, para a invenção da imagem do filósofo como alguém distraído, incapaz de prestar atenção nas coisas mais simples, dedicando sua vida a contemplar o que se encontra distante.

Dessa imagem nasceu também uma pergunta: “Para que filosofia?”. Muito conhecida é a resposta que ela costuma receber: “A filosofia é uma ciência com a qual e sem a qual o mundo permanece tal e qual”.

Imaginação de gente distraída, a filosofia não tem serventia alguma. Assim julga o senso comum.

Eis por que o registro doxográfico de Diógenes de Laércio de uma afirmação atribuída a Pitágoras vai exatamente em sentido inverso ao da acompanhante de Tales e do senso comum. Segundo Pitágoras, aos Jogos Olímpicos comparecem três tipos de pessoas: as que vão para competir, as que ali vão para comerciar e aquelas que lá estão para contemplar, compreender e avaliar os acontecimentos. A estes, Pitágoras teria dado o nome de filósofos.

Se acompanharmos Pierre Hadot em O que é a filosofia antiga?, a palavra sophía possui dois sentidos que o pensamento moderno costuma separar: saber e sabedoria. Em outras palavras, o pensamento moderno distingue entre conhecimento racional (saber) e vida moral (sabedoria), isto é, entre conhecer e agir. Essa distinção leva a diferenciar dois sentidos para sophós: sábio é aquele com conhecimentos científicos, históricos, artísticos — o cientista e a pessoa culta ou cultivada —, mas pode ser também aquele que sabe conduzir-se bem na vida e alcançar a felicidade — o homem virtuoso, o agente moral verdadeiro.

Comentando a pluralidade de sentidos de sophía e sophós no grego arcaico, Hadot lembra que, em Homero e Hesíodo, essas palavras se referem a um saber-fazer — o bom carpinteiro, o bom médico, o bom poeta são sophói e possuem sophía; mas, na tradição grega, inclui-se, além do saber técnico, o saber político ou a capacidade legisladora e oratória — nesse sentido, Sólon foi um dos Sete Sábios —, e também o que poderíamos chamar de saber científico — por esse motivo, Tales também foi um dos Sete Sábios. E, justamente por se apresentarem como mestres de eloquência e de todos os ofícios, os sofistas se diziam sophói.

É interessante observar que, inspirando-se em Nietzsche — portanto, num filósofo que prezava a Grécia arcaica contra a Grécia clássica —, Gilles Deleuze e Félix Guattari, em O que é filosofia?, parecem retornar a esse sentido mais antigo de sophía, pois definem a filosofia como criação ou fabricação de conceitos:

A filosofia, mais rigorosamente, é a disciplina que consiste em criar conceitos. […] Criar conceitos sempre novos é o objeto da filosofia. É porque o conceito deve ser criado que ele remete ao filósofo como àquele que o tem em potência, ou que tem sua potência e sua competência. […] Para falar a verdade, as ciências, as artes, as filosofias são igualmente criadoras, mesmo se compete apenas à filosofia criar conceitos no sentido estrito. Os conceitos não nos esperam inteiramente feitos, como corpos celestes. Não há céu para os conceitos. Eles devem ser inventados, fabricados ou antes criados, e não seriam nada sem a assinatura daqueles que os criam. Nietzsche determinou a tarefa da filosofia quando escreveu: “os filósofos não devem contentar-se em aceitar os conceitos que lhes são dados, para somente limpá-los e fazê-los reluzir, mas é necessário que comecem por fabricá-los, criá-los, afirmá-los, persuadindo os homens a utilizá-los”.

O sentido poiético, ou fabricador da antiga sophía, tenderá a desaparecer na Grécia clássica e, mais precisamente, com Sócrates e Platão, com os quais sophía ganha o sentido que dará origem à palavra philosophía. Sophía é conhecimento racional e maneira de viver segundo o conhecimento racional. Philosophía, amizade pela sophía, por sua vez, é a busca do saber teorético ou contemplativo e um modo de vida.

É sob essa perspectiva que podemos ler, em A República, o mito ou a alegoria da caverna, no momento em que Platão explicita o contraste profundo entre uma vida na escuridão e uma vida na luz do conhecimento.

Imaginemos uma caverna separada do mundo externo por um alto muro. Entre este e o chão da caverna, há uma fresta por onde passa alguma luz exterior, deixando a caverna na obscuridade quase completa. Desde seu nascimento, geração após geração, seres humanos ali estão acorrentados, sem poder mover a cabeça na direção da entrada, nem se locomover, forçados a olhar apenas a parede do fundo. Eles vivem sem nunca ter visto o mundo exterior nem a luz do Sol, sem jamais ter efetivamente visto uns aos outros, pois não podem mover a cabeça nem o corpo, e sem ver a si mesmos, porque estão no escuro e imobilizados.

Abaixo do muro, do lado de dentro da caverna, há um fogo que ilumina vagamente o interior sombrio e faz com que as coisas que se passam do lado de fora sejam projetadas como sombras nas paredes do fundo da caverna. Do lado de fora, pessoas passam conversando e carregando nos ombros figuras ou imagens de homens, mulheres, animais cujas sombras também são projetadas na parede da caverna, como num teatro de fantoches. Os prisioneiros julgam que as sombras de coisas e pessoas, os sons de suas falas e as imagens que transportam nos ombros são as próprias coisas externas, e que os artefatos projetados são seres vivos que se movem e falam.

Os prisioneiros se comunicam, dando nomes às coisas que julgam ver, e imaginam que escutam as vozes das próprias sombras, e não as dos homens cujas imagens estão projetadas na parede. Também acreditam que os sons produzidos pelos artefatos que esses homens do lado de fora carregam são vozes de seres reais. Qual é, pois, a situação dessas pessoas aprisionadas? Tomam sombras por realidade, tanto as das coisas e as dos homens exteriores como as sombras dos artefatos fabricados por eles. Essa confusão, porém, não tem como causa a natureza dos prisioneiros, e sim as condições adversas em que se encontram. Que aconteceria se fossem libertados dessa miséria?

Um dos prisioneiros, inconformado com a condição em que se encontra, decide abandoná-la. Fabrica um instrumento com o qual quebra os grilhões. De início, move a cabeça, depois o corpo todo; a seguir, avança na direção do muro e o escala. Enfrentando as durezas de um caminho íngreme e difícil, sai da caverna. No primeiro instante, fica totalmente cego pela luminosidade do Sol, com a qual seus olhos não estão acostumados. Enche-se de dor por causa dos movimentos que seu corpo realiza pela primeira vez e pelo ofuscamento de seus olhos sob a ação da luz externa, muito mais forte do que o fraco brilho do fogo que havia no interior da caverna. Sente-se dividido entre a incredulidade e o deslumbramento. Incredulidade porque será obrigado a decidir onde se encontra a realidade: no que vê agora ou nas sombras em que sempre viveu. Deslumbramento (literalmente: ferido pela luz) porque seus olhos não conseguem ver com nitidez as coisas iluminadas. Seu primeiro impulso é retornar à caverna para livrar-se da dor e do espanto, atraído pela escuridão, que lhe parece mais acolhedora. Além disso, precisa aprender a ver, e esse aprendizado é doloroso, fazendo-o desejar a caverna, onde tudo lhe é
familiar e conhecido.

Sentindo-se sem disposição para regressar à caverna por causa da rudeza do caminho, o prisioneiro permanece no exterior. Aos poucos, habitua-se à luz e começa a ver o mundo. Encanta-se, tem a felicidade de finalmente ver as próprias coisas, descobrindo que estivera prisioneiro a vida toda e que em sua prisão vira apenas sombras. Daqui em diante, desejará ficar longe da caverna para sempre, e lutará com todas as suas forças para jamais regressar a ela. No entanto, não pode evitar lastimar a sorte dos outros prisioneiros e, por fim, toma a difícil decisão de regressar ao subterrâneo para contar aos demais o que viu e convencê-los a se libertar também.

Que lhe acontece nesse retorno? Os demais prisioneiros zombam dele, não acreditando em suas palavras — e, se não conseguirem silenciá-lo com suas caçoadas, tentarão espancá­‐lo. E, se mesmo assim ele teimar em afirmar o que viu e os convidar a sair da caverna, certamente acabarão por matá-lo. Mas, quem sabe, alguns poderão ouvi-lo e, contra a vontade dos demais, também decidir sair da caverna rumo à realidade.

O que é a caverna? O mundo de aparências em que vivemos. Que são as sombras projetadas no fundo? As coisas que percebemos. Que são os grilhões e as correntes? Nossos preconceitos e opiniões, nossa crença de que o que estamos percebendo é a realidade. Quem é o prisioneiro que se liberta e sai da caverna? O filósofo. O que é a luz do Sol? A luz da verdade. O que é o mundo iluminado pelo Sol da verdade? A realidade. Qual o instrumento que liberta o prisioneiro rebelde e com o qual ele deseja libertar os outros prisioneiros? A filosofia. Eis por que Platão afirma que a filosofia nasce da admiração.

Produto

  • Filosofia, Um Modo de Vida
  • Marilena Chaui
  • Planeta
  • 144 páginas

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