Trecho de livro

Cláudia Vera Feliz Natal

Autora Mariana Salomão Carrara expõe em novo romance as afetações do sistema judicial por meio da trajetória de um juiz solitário

Leonardo Neiva 03 de Julho de 2026

O que leva um jovem magistrado brasileiro a demorar anos na resolução de um caso sensível para a Justiça? O novo livro da escritora Mariana Salomão Carrara, “Cláudia Vera Feliz Natal” (Todavia, 2026), parte de uma questão que não soa estranha à morosidade quase anedótica do sobrecarregado sistema judicial do país. Trata-se do início de uma narrativa ousada e bastante original até mesmo para os padrões da trajetória literária bastante versátil da autora até aqui.

Duas vezes vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura com “Não Fossem as Sílabas do Sábado” (Todavia, 2022) e “A Árvore Mais Sozinha do Mundo” (idem, 2024), um dos protagonistas aqui é a linguagem tipicamente jurídica utilizada pelo personagem central para narrar aos superiores seus anos de carreira nas pequenas comarcas de Cláudia, Vera e Feliz Natal, no interior do Mato Grosso. Defensora pública do estado de São Paulo, aqui Carrara expõe, por meio da existência solitária de um jovem juiz, as inúmeras afetações, extravagâncias e o ridículo de um sistema que se quer solene a todo custo.

Encarregado de selar o destino de outras pessoas, determinar prisões, litígios, divórcios, mas sem o mesmo tipo de controle sobre seu próprio futuro, o protagonista se vê cercado de relações puramente transitórias enquanto é transferido de cidade para cidade. Aqui, a autora aborda desde as injustiças do sistema prisional brasileiro até os desafios contemporâneos para construir laços duradouros, numa rara obra que consegue transformar o universo e até mesmo o linguajar jurídico no centro de uma ficção de altíssimo nível.


Do rol dos culpados

Depois fica natural, cotidiano. O edital do concurso, o cursinho, nada prepara o candidato para isto. Os presos são puxados pelos corredores do fórum pelas algemas, e quando são depositados diante do magistrado — o senhor talvez já não se recorde deste efeito, o ofício nos deixa empedernidos —, é imediato o cheiro de metal misturado com creolina e roupa que não secou direito, também vem o cheiro de hálito de fome, e eu passei a deixar biscoitos na mesa, mas então vem a visão de uma pessoa comendo algemada.

Eles adquirem cacoetes com as algemas, passam a bater uma na outra para produzir determinado som, ficam serpenteando a corrente. Eu até queria soltar os braços dos que não tinham periculosidade, mas a vara inteira veio abaixo com essa ideia, Dúzio, os funcionários, a escolta que me oficiaria para informar que não teria condição de promover a segurança de todos, então ficamos ali com os interrogandos desprovidos de gestos que não fossem o tilintar de um aro no outro.

Não vá o Nobre Desembargador se animar em anotar características reprováveis em meu prontuário, já adianto que não sou do tipo contrário à prisão, nem tenho outra proposta, sempre achei que, se há milhões de miseráveis que vão morrer sem delinquir, não há desculpa para o mau proceder. Mas então vem o som das algemas bem à minha frente, à espera da minha sentença, uma sentença inteira minha, quando na verdade eu não sei qual seria minha própria conduta se fosse eu o miserável.

Eles adquirem cacoetes com as algemas, passam a bater uma na outra para produzir determinado som, ficam serpenteando a corrente

A primeira audiência criminal foi muito simples, eu tive sorte, era um furtador contumaz, diversas reincidências, flagrante, confesso, não despertava qualquer angústia decisória quanto aos fatos nem exigiria de mim altas penas que me torceriam os escrúpulos, ouvi o barulho do metal e chinelos estalando no chão desde o corredor, e então ele entrou escoltado, puxado pelas algemas, talvez tivesse a minha idade, mas comido de sol e possivelmente crack. Então seria assim, eu faria os cálculos legais, as ponderações de praxe, e mandaria o sujeito para um inferno talvez até pior do que aquele provisório de onde o tinham trazido somente para sentar-se diante de mim, e tudo bem, se não fosse eu, outro juiz faria a mesma coisa.

Muitos furtos pregressos na ficha, esse era qualificado, a pena não ficou tão pequena, quando eu disse que ele receberia dois anos e quatro meses de reclusão olhei depressa para o defensor na esperança de que ele o consolasse, mas o semblante do preso não se alterou, pareceu que o tempo já não fazia diferença, o que mais poderia já não fazer diferença naquela vida, a escrevente mostrou onde ele devia assinar, a algema batia na mesa — reparei num trecho inteiro da madeira historicamente arranhada das algemas na hora da assinatura —, ele escreveu o primeiro nome muito lentamente, cada letra um desenho impreciso, e então olhou para ela buscando aprovação, e ela aprovou, pediu o sobrenome também, de novo a algema batendo na mesa, as letras desenhadas, a pena não fazendo diferença no seu humor, o calor que é a cadeia, eu ainda não tinha ido ao presídio, eu nem podia imaginar a intensidade do calor, assinei minha primeira sentença criminal enviando aquele homem provavelmente ao presídio mais próximo, que anos depois Vossa Excelência ou o Nobre Corregedor que o antecedeu averiguou por denúncias de tortura, enviei meu primeiro réu e múltiplos homens àquele mesmo lugar onde depois os senhores corregedores encontraram um pau de arara e um instrumento ali chamado de garfo do capeta, e ao mesmo tempo que eu sentenciava e ainda sentencio essas pessoas tantos outros juízes sentenciam tantas outras pessoas que vão puxadas pelas algemas para lugares parecidos com aquele, e eu sei que qualquer outro juiz no meu lugar assinaria o mesmo papel ou papéis piores, ainda assim é meu nome ali na tela piscando e depois impresso diante do réu que assina devagar com as algemas batendo na madeira da mesa, satisfeito por acertar a redação do próprio nome.

Enviei meu primeiro réu e múltiplos homens àquele mesmo lugar onde depois os senhores corregedores encontraram um pau de arara e um instrumento ali chamado de garfo do capeta

Muito tempo depois, um réu em melhores condições assinava a ata quando resolveu lê-la, ler a sua sentença, o que tomou bastante tempo, seu advogado interrompia se oferecendo para explicar e ele pedia que esperasse apenas com um gesto com a palma da mão algemada,

— Onde é o rol dos culpados?

— É só uma forma de falar que o seu nome ficará marcado por essa sentença.

— Mas eu vou pra lá?

— Pra onde?

— Pro rol dos culpados.

— Não, o senhor não, só o seu nome.

E depois que eles saíram bati o olho na tela e em vez do jargão “lance-se o nome do réu no rol dos culpados” lia-se “lance-se o réu no rol dos culpados”, e eu nunca soube quanto tempo fazia que o modelo estava assim, quantas pessoas arremessei diretamente no rol dos culpados.

Eu nunca soube quanto tempo fazia que o modelo estava assim, quantas pessoas arremessei diretamente no rol dos culpados

Produto

  • Cláudia Vera Feliz Natal
  • Mariana Salomão Carrara
  • Todavia
  • 232 páginas

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